Um Chá De Boa Noite
1 One-shot
Acordei um pouco mais cedo do que de costume, escutando um barulho de passos que parecia vir de fora de meu quarto. Era verdadeiramente cedo, por isso, estranhei a movimentação.
Um globo sobre a cômoda de brilho azulado resplandecia chamativo e dali vinha o barulho de passos. A luz e o som me avisavam eu Matsumoto-san estava acordado no quarto ao lado do meu.
— Será que ele precisa de alguma coisa? – murmurei comigo mesma, esfregando os olhos, sonolenta e me levantei, indo até o globo.
Peguei minha varinha e dei uma batidinha no vidro azul esfumaçado e toda a névoa desapareceu, revelando uma imagem clara e límpida do quarto do rapaz.
Ele estava sentado em sua cama, a televisão ligada, passando os canais sem parar em nenhum específico, uma coisa completamente normal de se fazer já que naquele horário ele não encontraria mesmo nada bom pra assistir. As pessoas apenas ligam a TV naquele horário na esperança de que a passagem vertiginosa de um canal para o outro as hipnotize eles voltem a dormir.
Fiquei um longo tempo em silêncio, apenas observando-o ali, parado, sem sono, incomodado como uma criança. Por mais confortável que a Pedaço de Lua Enfeitiçadofosse, acho que não tinha nada mais incômodo do que acordar no meio da noite, longe de casa...
Eu queria poder fazer alguma coisa por ele, além de ficar apenas olhando-o, mas como eu explicaria que sabia que ele estava acordado, sem parecer suspeita e sem revelar que era bruxa?
Enquanto eu me perguntava como ir até ele sem chamar atenção para toda a magia que rondava aquele lugar, Matsumoto-san se levantou, desistindo da TV e andando pelo quarto. Meu coração disparou quando, depois de alguns minutos, ele foi para a porta, decidido a sair.
Dei uma nova batinha no globo que tornou a nublar e guardei minha varinha, indo para minha porta e saindo de meu quarto como ele, fazendo uma expressão sonolenta para parecer que tinha acabado de acordar.
— Matsumoto-san? – chamei-o , em meio a um bocejo que começou forçado e se tornou legítimo.
Ele se virou pra me encarar, surpreso.
— Eu fiz muito barulho? – eu dei uma risadinha com sua preocupação.
— Ah, não... Acordei com sede... Está tudo bem? Precisa de alguma coisa?
— Não... Não... Eu perdi o sono...
— Quer que eu lhe faça companhia?
— Ah... Não precisa! Você precisa descansar... Nem sei o que me fez perder o sono...
— Está tudo bem – lhe sorri. – Quer que eu lhe traga um chá?
— Tem algum chá que faça com que eu durma até a semana que vem? – eu gargalhei
— Até tem, mas só usamos em casos extremos... Você não ficaria tão feliz quanto pensa, depois de perder uma semana dormindo...
Matsumoto-san assentiu, parecendo ligeiramente surpreso com a minha resposta e eu não sabia dizer se sua surpresa tinha a ver com a constatação de que perder uma semana dormindo seria realmente irritante ou com o fato de que realmente tínhamos esse chá... Ainda existia a possibilidade de ele estar avaliando se o que eu dissera era sério ou brincadeira.
— Eu levo um chá tranquilizador pra você, no seu quarto – tomei coragem e estiquei meu braço para acariciar o rosto dele.
— Ah... Arigato... – ele me sorriu e, diferente do que meu coração temia, não rejeitou meu carinho. – Estranho, não? Eu apareci por aqui porque estava quase dormindo na direção e agora não consigo dormir...
— Alguma coisa deve ter despertado você... Teve algum pesadelo?
— Não que eu me lembre...
Ficamos ainda um momento parados no corredor, um diante do outro, os olhos fixos um dentro do outro, pensando em silêncio, como se tivéssemos de encontrar uma resposta, como se a civilização como a conhecemos dependesse desesperadamente disso.
— Bom... Eu vou... Buscar o seu chá... – eu disse, acanhada quando me dei conta do longo tempo em que fiquei encarando-o.
— Ah... Certo... – ele também falou, parecendo sem jeito. – Vou... Esperá-la... No meu quarto... – tentei não corar aquela declaração.
Pude vê-lo entrar novamente no aposento enquanto me encaminhava para as escadas, rumo ao andar inferior.
Eu podia fazer uma xícara de chá prontinha com um simples aceno de varinha e voltar correndo para cima, mas algo me dizia que era pra reduzir a velocidade ou ele estranharia, por isso, quando cheguei à cozinha, coloquei a água pra ferver e aguardei. O tempo parecia se arrastar como nunca antes... Só fui bater em sua porta quase quinze minutos depois.
— Pensei que tinha dormido na cozinha – ele disse, divertido, abrindo a porta pra mim e me dando passagem para entrar.
— Exagerado – brinquei, mas fiquei feliz em perceber que o tempo pra ele também tinha demorado a passar. – Espero que este aqui te ajude a dormir – disse, colocando a xícara sobre sua mesa de cabeceira. – Honestamente, não sei dizer o que ele faz...
— Efeitos colaterais? – ele perguntou, fingindo estar assustado.
— A caixinha dizia alguma coisa sobre crescer pelos entre os dedos e na ponta do nariz – brinquei , tocando-lhe com o dedo seu nariz. – Mas só acontece se for um humano original... Você não é um, é? – dei risada.
— Ah, não... Não... Minha mãe era uma fada e meu pai um vampiro... Eu não soube me decidir então, à noite bebo sangue e durante a primavera, cuido das flores... – ele brincou, pegando-me em seus braços e fingindo que ia morder meu pescoço.
— Acontece mais do que imagina – brinquei e ele gargalhou.
Nossos olhos ficaram novamente conectados e eu percebi, depois de muito tempo, que ainda estava presa em seus braços.
— Bom... Acho que vou... Deixá-lo... Beber seu chá... – disse, constrangida, tentando me soltar, mas alguma coisa em mim queria ficar e senti seus braços me estreitando para me impedir, revelando o mesmo desejo.
Ele não disse nada e nem era necessário. Seu rosto, antes risonho devido as nossas brincadeiras, se tornou sério, mas não de bravo ou de surpreso. Ele pareceu sério como alguém... Determinado...
Percebi seu rosto se aproximando do meu e o tempo novamente pareceu desacelerar até que eu finalmente sentisse os lábios dele nos meus. Senti um arrepio correr meu corpo mais rápido que os segundos àquele toque e só o que eu queria era mais daquele beijo. Passei meus braços por seu pescoço e ele riu.
— Só eu mesmo pra acordar com um sonho tão bom... –também ri e o puxei novamente pra colar seus lábios nos meus e recomeçar o beijo.
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