Um Choro Perdido
1 Um Choro Perdido
Notas iniciais
https://www.youtube.com/watch?v=uQL6jmTy3_E
Versão cantada pelo Soraru porque a voz dele é divina *--*
Mas quem quiser a original: https://www.youtube.com/watch?v=O0TtDeDiHcE
Deixando desde já avisado que este texto exprime perfeitamente a mente perturbada de seu ator.
E agora que estão avisados, boa leitura e espero que gostem ;D
Tudo ao redor parecia vazio e sem vida. Desde quando começou a se ver o único presente naquela sala? Olhava para todos os lados, mas a única coisa que podia sentir era desconfiança, que já parecia várias lâminas apontadas para todos os lados. Estava sentado, mas havia divergência de posições. Enquanto seu interior estava abraçando as pernas e com os pés na cadeira, o exterior mostrava-se com postura. Mas para quem ele mostrava ser tão educado e com decoro? Naquela sala estava apenas ele, sua cadeira e o quadro negro a sua frente, além de um amontoado de cadeiras e carteiras ao fundo.
O que estava ali escrito no quadro? Sabia que havia algum dia aprendido aqueles kanji, mas não conseguia lê-los. Também, nunca fora bom em Língua Japonesa, a ponto de odiá-la. Quantas vezes estivera afligido, buscando as respostas corretas, mas no final todas as respostas estavam incorretas. Mas já não se importava mais, cansara de passar tanto tempo ressentido por um motivo tão banal.
Hora de voltar para casa, pensou.
Chegara a hora de realizar sua tarefa de casa. Um texto autoexplicativo sobre mim, pensou cheio de repúdio. Amava tanto Matemática e Ciências, por que um texto? E ainda mais sobre alguém que não se conhece? Odiava esse tipo de tarefa, o fazia pensar sobre como era sem personalidade, em como levava a vida sem compromisso. O fazia imaginar-se naquela mesma sala, diante de um quadro de pintura em branco, pronto para esboçar uma marionete de si mesmo, jogada ao fundo da sala diante das cadeiras e carteiras amontoadas, com uma folha branca cobrindo seu rosto. Por que estou tão triste?, pensou mais uma vez. Por que estou tão sozinho? As vezes via-se fazendo essas perguntas. As vezes? Não, sempre.
Já não estava mais diante do quadro, mas sentado sobre uma carteira da sala, todo encolhido, como estivera na cadeira antes, sendo encarado pela marionete que estava sentada noutra carteira, balançando as pernas, ainda com seu rosto coberto. Enquanto estava jogada no amontoado, ela se movia conforme sua vontade, mas agora, não mais. Movia-se por vontade própria.
— Não consegue mais ler o kanji do quadro? – perguntou a marionete. — Não consegue mais ler meus pensamentos?
A voz dela soava em desespero, emanava sofrimento, da mesma forma como estava a sua alma, que lhe fazia sempre as mesmas perguntas. Estivera em busca de responde-las, mas não conseguia encontrar a resposta. No mesmo instante, viu as carteiras e cadeiras amontoadas desmoronarem ao seu redor; por incrível, nenhuma lhe atingia.
— Quem é que está tingindo meu coração com negro? Quem é? – continuou perguntando a marionete. Não queria ouvir mais aquilo, soava tão desesperador, tão deprimente... Já bastava pensar sobre isso todos os dias, não precisava ouvi-las. – Podemos mesmo continuar vivendo dessa forma? Não tem como alargar o corda que está sobre o meu pescoço?
Sua voz soou mais tristonha na última pergunta. Mesmo havendo um pouco de esperança no seu questionar, via-se que estava triste e cansada. As carteiras que caiam pareciam tingidas de vermelho sangue, enquanto o quadro negro estava, literalmente, negro. Neste momento, olhou para a marionete, que não parava de encará-lo. Estava cansado de não ver sua expressão, por que tinha de estar com o rosto coberto?
– O que devo fazer? – voltou ela a questionar.
Isso não importa mais, pensou em resposta, sem dizer uma palavra. Não importava mais quanto tempo passasse ou o que fizesse, sentia que estaria sempre preso naquele sentimento de isolamento, de abandono, de tristeza. Já estava descuidadamente hipnotizado por um poder que não conhecia, que não tinha, mas que no qual sempre se escondia, ocultando uma arrogância irremediável.
Lembrou que além da lição de casa atual, também não havia conseguido fazer a do dia anterior. Sem excessos, sem conforto. Era dessa maneira que vinha vivendo, mas agora, diante da marionete, algo estava muito errado. Havia um forte aperto em seu peito, o fazendo levar suas mãos até lá. Sentia um grande aglomerado de sentimentos que o fazia querer desaparecer. Por que não posso morrer?, pensou levando as mãos até sua cabeça, mostrando evidente desespero. Com olhos desesperançados, olhou mais uma vez para o quadro e novamente não conseguiu ler o kanji.
O desespero crescia cada vez mais dentro de si. Jamais parara tanto tempo pra pensar sobre essas coisas. Por que não consigo ler o kanji? Por que não consigo ler meus próprios pensamentos? Quem tingiu meu coração de negro?, começou a questionar-se com as mesmas perguntas feitas pela marionete, que ainda o observava sentado. Sua mente já estava indo a loucura.
Quando percebeu, já não estava mais na carteira, mas ajoelhado no chão, com as mãos sobre a cabeça; esta doía muito, muito lhe atormentava. Tudo que queria agora, era afrouxar a corda em seu pescoço.
– Você não consegue resolver a equação no ábaco? Não consegue dizer a fórmula da razão da área? Então por que não consegue ler um simples kanji? – a marionete voltou a questionar, mas sua cabeça doía tanto que as perguntas já estavam lhe torturando. – Quem atirou esses sonhos de criança por água abaixo? Quem foi? Quem foi? – a voz agora soava com diversão. – Eu sei quem foi!
Não aguentando mais, rapidamente levantou-se do chão e caindo sobre a marionete, agarrou-lhe pelas laterais do casaco escolar que vestia, próxima a gola, e com raiva começou a gritar, desabafando tudo que tinha para falar, com as inúmeras carteiras, em vermelho vivo desmoronando.
– Quando é que vamos poder crescer? – questionou para a marionete. –Pra quem eu deveria perguntar estas coisas?
Seu grito era cheio de desespero, mágoa e receio e, sem perceber, soltou a marionete, a derrubando no chão.
– Pra que perguntar? Já não importa mais. Você também sabe as respostas – disse a marionete antes de se partir em pedaços no chão.
Rapidamente, percebeu um leve sorriso no rosto que já não estava mais coberto pela folha em branco. A folha que antes cobria o rosto da marionete, agora estava em sua mão, nela escrito o kanji eu e todas as respostas para suas perguntas, respostas quais já sabia.
No fim, sobrou na sala apenas o amontoado de carteiras e cadeiras espalhados pelo chão e uma única cadeira em pé na sala. A cadeira que carregava um choro perdido, os questionamentos já resolvidos.
Notas finais
Abraços e nos vemos numa próxima o/
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