Um Caso Não Registrado - 2ª Temporada
68 Capítulo 68 - As Crianças de Agatha
Notas iniciais

“A esperança é o pior dos males, pois prolonga o tormento do homem.”
(Friedrich Nietzsche)
As únicas que decidiram ficar foram Alex Blake e Maeve Donovan para cuidar de Spencer Reid enquanto os demais foram ao departamento, desta vez Agatha não precisou implorar para ser levada, pois todos estavam intrigados com o aparecimento repentino do garoto Charlie Turner que surgiu no setor da UAC do FBI exigindo falar com Agatha.
Mateo Cruz espantou-se ao avistar a equipe saindo do elevador e ficou mais abismado ao ver Agatha entre eles.
― Agente Silva, o que faz aqui? Não estava internada? – interrogou Mateo Cruz.
― Onde está o garoto? – Hotchner não deu oportunidade para sua noiva responder.
― Na sala da recepção.
― JJ, leve o garoto até a sala de reuniões. – pediu Hotchner e JJ acatou a ordem.
O restante foi-se para a sala aguardar o garoto e JJ logo se juntou a eles acompanhada do mesmo.
Era comovente ver aquele garoto adentrar a sala, seu estado era deplorável, suas vestes estavam em mal estado, seu rosto estava sujo e sua testa suava, o garoto tremia da cabeça aos pés, ele carregava consigo um envelope laranja.
― Sente-se. – pediu Garcia puxando uma cadeira a ele.
― Está com fome? Sede? – indagou Seaver preocupada – Podemos trazer algo.
― Sim. – respondeu ele com o olhar assustado.
Garcia e JJ se retiraram para providenciar algo ao garoto, enquanto Agatha sentou-se de frente a ele.
― Charlie, onde estava este tempo todo? – Agatha iniciou o diálogo.
― Eu fui levado por um casal – o garoto fazia de tudo para manter a postura, era nítido em seu olhar que queria se desabar em choro, porém mantinha o controle – eu estava em um shopping com minha mãe.
― Você escapou?
― Não – Charlie empurrou sobre a mesa o envelope laranja para Agatha – um homem me libertou e pediu que eu entregasse isto a você.
― Que homem? Como ele se chama? Ele se chama John Curtis? – Agatha abria o envelope enquanto interrogava.
― Não, ele se chama Karl Arnold.
― Um dos fugitivos. – afirmou Hotchner.
― Aquele que exterminava famílias. – lembrou Morgan.
Agatha abriu o envelope laranja onde continha uma foto e uma carta escrita à mão. Agatha ao olhar a foto soltou um grito involuntário pelo choque que levará, era uma fotografia das crianças: Ashley Richardson, David Smith, Belinda Copland e Amy Lynch.
Agatha ficou tão fora de si que não conseguia desdobrar a carta para lê-la que Prentiss precisou fazer isso por ela.
A carta dizia o seguinte:
Querida Agatha.
Eu faço questão de escrever esta carta a punho para que se recorde de como é a minha letra, aliás, eu faço questão de que jamais se esqueça de mim. Gostaria de me pronunciar e assim me justificar sobre o tal incidente que ocorreu na casa em que você morou com Francine, eu jamais iria querer te ferir, eu espero que esteja bem e de que não tenha sofrido nada grave, se estiver lendo esta carta isto significa que está bem e eu fico aliviado.
Agora vamos ao que te aflige neste momento, não é mesmo? Com certeza você está em pânico ao ver esta foto enviada junto a minha carta. Reconhece todas as crianças da foto? Todas são importantes a você não é? É uma pena que Jack não esteja incluído, pois o agente Aaron Hotchner escondeu a criança muito bem, eu até aceito tal atitude, pois qual pai não quer o bem dos seus filhos? Jack é uma criança importante para você, mas sei que estas que estão na fotografia também são. Pedi que libertasse Charlie Turner, eu não tenho paciência com adolescentes, ele ia me causar problemas.
Agora eu lhe faço uma pergunta: você é capaz de proteger quem ama?
Eu acredito que sim, se você continua a mesma você é capaz de mover montanhas, de causar uma guerra para proteger ou salvar quem é importante a você.
As crianças estão comigo e ficarão comigo até que você se decida.
Eu disse que seria capaz de tudo para ter você e eu vou ser capaz de tudo mesmo e sabe qual é a única maneira de me parar? Acabando com minha vida, porém não será uma tarefa fácil para o agente Aaron Hotchner e muito menos para ninguém.
Não vai demorar muito para que as mães destas crianças venham até você.
Em breve entrarei em contato.
Um beijo gostoso para a minha boneca de luxo.
Sem mais,
JC
― Desgraçado! – esbravejou Agatha fazendo o garoto Charlie se espantar.
― Como ele soube destas crianças? – perguntou Rossi.
― Que pergunta mais idiota! – retrucou Seaver – É como Agatha já disse antes: ele sabe de tudo e é evidente que alguém o informa!
― Calma agente Seaver, eu apenas fiz uma pergunta. – justificou-se Rossi impressionado com a agressividade de Seaver.
― Quem é Ashley Richardson? – perguntou Todd.
― Foi o primeiro caso que Agatha trabalhou como agente registradora – esclareceu Hotchner.
― A menina perdida dentro do shopping! – exclamou Prentiss.
― Aquela que a tia arquitetou esconde-la por vingança a família. – recordou Morgan.
― David Smith e Belinda Copland nem são daqui de Virgínia, John Curtis planejou tudo. – disse Rossi.
― Charlie, como você foi resgatado? – perguntou Alvez sentando-se próximo ao garoto.
Charlie narrou como tudo ocorreu desde o início: Charlie tinha oito anos de idade e em um dia de verão foi com sua mãe ao shopping para ver um filme no cinema, após assistir o filme eles passearam pelo shopping e este foi o momento do seu sequestro.
― Uma mulher começou a gritar “Lindsey” e perguntava a todos se alguém tinha visto sua filha, minha mãe ficou aflita em querer ajuda-la então aconteceu... – relatava o garoto – Foi tudo muito rápido, senti que fui puxado e agarrado por um homem alto e forte, ele colocou meu rosto pressionado ao peitoral dele e senti que ele saiu correndo, depois ele me jogou dentro de uma van e me deu um soco para que eu não gritasse, logo em seguida entrou a mulher que gritou no shopping e ele deu partida no veículo feito louco. – Charlie respirou fundo para continuar o seu relato, mas fez uma pausa quando Garcia e JJ retornaram com uma refeição para ele.
Depois de se alimentar ele se encorajou e voltou a falar, ele estava disposto a dizer tudo, pois era algo que ele desejava há muito tempo:
― Eu passei uma ou duas semanas trancafiado em um quarto minúsculo, toda vez que eu chorava pedindo por minha mãe a mulher ia lá e me agredia, depois de um tempo ela disse que matará minha mãe e que eu era deles daquele momento em diante.
― Como suportou tudo isto? – perguntou Agatha emocionada com o relato do garoto.
― Eu pensava na minha mãe todo dia, sempre lembrava dela, nunca acreditei no que aquela mulher disse de que ela estava morta, sonhava com o dia em que a reencontraria e do jeito que minha mãe é teimosa sabia que ela não desistir de mim. – respondeu ele.
Charlie narrou com detalhes o que o casal fazia com ele, revelou que muitas crianças eram levadas, mas que elas não ficavam muito tempo na onde ele estava.
― Eu acho que eles as vendiam. – comentou ele.
Charlie explicou que não perdeu a noção do tempo porque teve acesso a um relógio e um calendário em seu cativeiro por ele ter se comportado bem.
Aos doze anos de idade Charlie teve acesso a sair do cativeiro, mas sempre acompanhado dos sequestradores, mas eles o levavam para o exterior com más intenções, ele passou a participar dos sequestros.
― Eu cresci rápido, com doze anos já tinha uma altura boa, eles faziam questão de me alimentar bem dizendo que eu deveria ser um garoto forte – disse ele – e me forçavam a participar dos sequestros, enquanto ela fingia procurar por sua filha Lindsey era eu que pegava as crianças e saia correndo enquanto o homem já estava no volante da van.
― Que horror! – Garcia tirou seus óculos para enxugar as lágrimas.
― Foi você que levou Amy Lynch? – indagou Morgan.
― Sim senhor – Charlie não conteve uma lágrima – mas juro que a levei forçado.
― Nós compreendemos. – respondeu Seaver.
Charlie ficou naquela vida até Karl Arnold surgir e assim matar o casal de sequestradores.
― O casal já confiava em mim, eles diziam que eu estava do lado deles até meu nome mudaram, eu fingia ser do lado deles para um dia poder fugir, eles permitiam que eu andasse pela casa, enquanto as crianças que eles sequestravam ficavam trancadas no cativeiro, então esta noite passada um homem de estatura mediana apareceu batendo a porta, eu que o atendi e ele entrou de repente atirando no casal, achei que ele fosse me matar só que ele garantiu que iria me salvar, a única criança no cativeiro era Amy Lynch então eles nos levou com ele, adentramos uma van escura e lá estavam as outras crianças da foto.
― Para onde ele o levou? – indagou Hotchner.
― Eu para canto nenhum, ele me entregou este envelope e mostrou uma foto dela em seu celular – Charlie aponta para Agatha – dizendo que eu deveria entregar este envelope e escreveu nele o endereço daqui, disse que ela era do FBI.
― Ele não mencionou mais nada? – perguntou Agatha.
― Não, exigiu que eu viesse até aqui, me largou em uma esquina qualquer e disse que se eu não fizesse o pedido as outras crianças morreriam, como era tarde fiquei junto a um mendigo que permitiu que eu passasse a noite ao lado dele.
― Charlie, você precisa descansar – disse JJ – Eu acho que ele já falou muito.
― Tem razão – concordou Hotchner – JJ, entre em contato com a mãe dele.
― Eu vou poder ver minha mãe? – desta vez ele desabou em lágrimas.
― Claro que vai! – exclamou Garcia o abraçando.
Charlie foi levado por Garcia e JJ para outra sala enquanto o restante permaneceu na sala de reunião.
Agatha levantou-se da mesa e encostou-se a enorme janela de vidro e não conseguindo inibir seu pranto rendeu-se a chorar. Hotchner achegou-se a ela e a envolveu em seus braços.
Eu não era uma criança covarde, mas eu estava com medo.
(3.096 Dias — Natascha Kampusch)
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