Um Breve Suspiro de Felicidade

4 Todas as Famílias Infelizes São Infelizes de Sua Maneira


Notas iniciais
SIM, EU ESTOU HÁ UM MÊS SEM POSTAR. Acontece. Provas, é, nada fácil, to sem tempo, sem falar então do bloqueio criativo monstro que anda comendo meus cérebro ultimamente. Por isso acho que esse capítulo pode ter ficado meio estranho, em relação a cronologia e a escolha de algumas cenas. Sem falar que capítulos de transição são naturalmente muito chatos... Apesar de tudo, espero que dê pra aproveitar ao menos um pouco. Por favor, comentem, sério. Me digam se concordam com esses pontos que eu falei e os rumos que a história está tomando. Sugestões são muito bem vindas.

— O céu está tão lindo...

Toris suspirou. Estava deitado sobre a grama do pequeno quintal da casa de Feliks, debaixo do lindíssimo, azulíssimo e salpicado de estrelas céu da primeira noite sem neve em muito tempo. Seu olhar estava profundamente concentrado na beleza do universo, flutuando imerso, anestesiado. A única coisa que o prendia a Terra naquele momento era o suave toque dos dedos de Feliks entrelaçados aos seus. Era algo quase mágico.

— É como se estivéssemos mergulhados no espaço... — sussurrou para ele.

— Alguém está poético hoje. — Feliks soltou uma risada nasalada. — Por acaso nunca viu o céu?

Toris retribuiu a risada.

— Se eu pudesse, seria astronauta... — confessou, tirando os olhos do céu para o rosto ainda mais lindo ao seu lado, contornado pela luz das estrelas. — Pegaria um foguete e voaria para bem longe, só para olhar as estrelas...

— Sério? — Feliks pareceu achá-lo bobo. — Mas teria que usar aquelas roupas horrorosas que engordam uma tonelada? — franziu o nariz e mostrou a língua, fazendo careta.

— É, acho que você não serviria para astronauta. — ele riu. — Mas às vezes eu até gostaria...

Gostaria de ir para bem longe.

Um céu infinito.

— Estou bem, obrigado. Se eu quiser estrelas, eu pinto uma e não preciso daqueles uniformes bizarros.

E uma pessoa legal.

Se pudesse, era isso que teria. Mas se olhasse para o lado, veria a janela de seu quarto apontada para eles de cima, e a do quarto do seu chefe, e de tantos outros cômodos que conhecia de cor e via todo dia. O casarão fazia sombra no quintal de Feliks quando o sol batia, tão real que metafórico.

Mas, naquele instante, ele poderia se dizer um homem feliz, estava tomado pela paz que as estrelas traziam e pela serenidade de ter uma boa companhia. Naqueles breves momentos que estava com Feliks, percebia quantas coisas simples da vida ele sentia falta fazia tantos anos sem perceber. Carinho, sorrisos que melhoram nossos dias e conversar sobre nada importante, ar puro, tantas coisas que abandonara quando foi morar com Ivan.

Incrível como tudo aquilo estava escondido em uma casinha e em um amigo de infância quase esquecido. Mesmo que a amizade deles como um dia foi não estivesse mais lá, tampouco o Toris e o Feliks que um dia foram melhores amigos, a sensação de bem-estar não ia embora. E mesmo um amante que nada era além de um mero amante poderia fazer feliz alguém que só conhecia a dor com apenas beijos e estrelas. E conversas. De todas as coisas que faziam, nada Toris prezava mais que as conversas.

Às vezes se perguntava como Feliks se sentia em relação a eles, se não era para ele um estorvo, afinal ele já demonstrara que seu comportamento de ir e vir sem nenhuma estabilidade o irritava, e que queria que Toris se explicasse mais, só não tinha como saber o quanto isso o irritava. Mas se não o quisesse, já o teria expulsado há muito tempo.

— Ei, Liet. — chamou-o como se lesse seus pensamentos. — Quando nós vamos sair de verdade?

— Hã?

As estrelas pareciam ainda mais brilhantes refletidas nos olhos dele.

— Nós ficamos trancados na minha casa toda vez... Eu quero sair, ir para algum lugar, por que a gente nunca faz isso? — disse com um biquinho, a voz meio miada.

Toris demorou para entender o que ele queria, mas quando entendeu, soube que o drama das noites anteriores iria se repetir.

— Desculpa, não dá...

Não era essa a resposta que ele queria.

— Como não?! — ele se levantou, ficando sentado no chão e obrigando Toris a fazer o mesmo.

— Não precisa gritar... — sussurrou, encolhendo os ombros. — É só que é melhor aqui e...

— Mas... Casais de verdade saem!

Casais de verdade podem aparecer na rua...!

— Desculpa...

— Me diz uma razão para não podermos sair!

— Não dá para explicar, só... Não dá. — abraçou os joelhos, encarando a grama úmida.

— De novo com isso... — revirou os olhos, já ficando em pé de vez para voltar para dentro. — Faz o seguinte: — colocou as mãos na cintura, de saco cheio. — Quando eu tiver alguma relevância na sua vida, você me fala, tá? Que eu já estou farto dessa sua enrolação.

Dito isso, ele voltou para seu quarto a passos pesados, largando Toris no quintal sozinho. Ele até se apoiou nos braços para se levantar e ir atrás dele, mas desistiu com um suspiro largo. Aquilo era cansativo. Como uma noite tão gostosa tinha acabado daquele jeito? Ele chegou a perguntar as estrelas, que continuavam no mesmo lugar brilhando como sempre.

Fizeram as pazes depois, porque Feliks não era de ficar bravo por muito tempo, mas aquilo continuou a incomodar Toris por um bom tempo, até a manhã chegar, quando o céu estrelado já estava outra vez longe.

...Ivan talvez fosse irmão das duas mulheres mais lindas do país, isso era consenso. Natália, com sua frieza onipresente e o sedutor medo delicado que causava fazia metade dos homens se ajoelhar, diante daquela beleza de princesa cruel. Katyusha conquistava a outra metade, com seus olhos de Pin up e seu grande coração guardado numa embalagem maior ainda. Eram ambas solteiras, não por falta de opção, mas por falta de interesse. Katyusha só trabalhava nos campos o dia inteiro; por trauma de infância que a fazia pensar que comida faltaria. Já Natália era um completo mistério, ninguém sabe o que ela fazia.

Toris se apaixonou por ela primeira vista. Talvez por sua beleza, talvez por seu suspense, talvez por sua graça; o que importa é que depois que chegou, passou meses sem tirar ela da cabeça. Limpava seu quarto com mais carinho que qualquer outro, trazia seu chá sempre mais quente e com dois biscoitos a mais.

Conseguiu coragem para convidá-la para sair vários meses depois, nessa ocasião que ela quebrou seus dedos ao segurar sua mão. Ele continuou a amando. E o bateu até seu rosto fica roxo. Nada mudou. Ela quebrou sua perna. Nada. O amor platônico que ele construiu parece indestrutível. Até que ela finalmente disse o que sentia de verdade por ele. Foi uma enxurrada de palavras tão intensas e tão avassaladoras que não havia amor que suportasse. Ossos saram, sentimentos são para sempre. Mas ele não a culpava. Natália era um animal de escuridão, não queria um companheiro, muito menos um empregado fracassado e sem graça como Toris. Com tempo, a paixão se desfez. Agora olhava ela de longe e ela era só a garota por quem ele um dia se apaixonou.
O tempo vai passar... pensou, em frente à porta de Feliks. O tempo tinha passado.

Naquela manhã logo cedo, a cozinha já estava como formigueiro a todo vapor. Dos doze empregados da casa, pelo menos oito corriam de um lado pro outro, trocando entre si panelas de panos, numa dinâmica que a primeira vista parecia somente bagunça. Mas para eles que trabalhavam juntos há tanto tempo, quando a rotina se acelerava, cada um sabia o que deveria fazer, assim organização se mantinha facilmente. A cozinha do formigueiro, e eles eram as formigas operárias. A razão de todo agito era o anúncio de Ivan, por intermédio de senhorita Natália, que aquela noite haveria um riquíssimo banquete no salão digno de imperador que raramente usavam. Significava logo grande, grande coisa, um evento fantástico e súbito que ninguém imaginava a motivo. Mas o burburinho já começava.

Toris, como de costume, ficou encarregado de coordenar os outros cozinheiros e preparar o prato principal, mas algumas de suas tarefas ele não foi dispensado pelo trabalho que estava. Entre essas, tinha que servir o chá de Ivan, Katyusha e Natália no meio da tarde. Não era um problema, visto que a tarefa ocupa pouco tempo ele trazia chance de saída daquele caos da cozinha. Estava tudo sob controle, ele pensava em seu Feliks que não veria aquela noite graças ao trabalho, mas sua imagem em sua mente não mais o trazia dúvidas ou estresse, e sim mantinha um sorriso pequeno em seu rosto. Claro que ainda tinha medo de serem pegos, mas quanto mais isso demorava para acontecer, mais parecia que jamais aconteceria. Escapara e voltara mais de quinze vezes, estava cada vez mais fácil. Ivan não parecia desconfiar de nada e seus colegas não fizeram mais questionamentos. Toris deu-lhes uma rápida explicação e ficou por isso mesmo. Com doses de alegria aqui e ali, ficava mais fácil viver e aguentar a dor do dia-a-dia.

Infelizmente, sua pequena alegria trazida da lembrança foi interrompida por sinal de alerta em sua mente. Não notara que já tinha aprontado as bandejas de chá e saído, e agora estava na porta do quarto de Natália. Cautelosamente bateu.

Ele já estava com a mão na maçaneta esperando a concessão para entrar, mas ela chegou de forma tão incomumente alegre que o fez hesitar. A voz de Natália era costumeiramente baixa, curta, e atravessava o ar como uma navalha, mas estava... alta e viva. Isso ele notou apenas nas palavras abafadas de “pode entrar” através da porta.

Não deixou de obedecê-la, e assim que entrou percebeu o quanto tinha algo de errado naquilo. Ela estava de costas para ele, se olhando no longo espelho emoldurado, onde se refletia seu belo sorriso caloroso que só aparecia uma vez por milênio. Natália sabia sorrir, mas eram sádicos e ameaçadores. Ela. Mas não naquele momento. Ela parecia presa numa felicidade falsa e suas bochechas pareciam doer, mas de um jeito ou de outro ela estava muito feliz. Uma felicidade que fez Toris recuar um passo de estranhamento.

— T-trouxe chá, senhorita... — anunciou como de costume, com a voz tremida. No espelho, ela levou os olhos até ele, agora seu sorriso parecia mais o de um tubarão em frente a um peixinho.

— Sim, sim, deixe aí. — cantarolou, penteando os cabelos com a ponta dos dedos.

Ela estava se arrumando para o jantar, mas se saísse do jeito que estava, os homens na rua desmaiariam em seus pés. Seu vestido justo na cintura a fazia parecer ainda mais magra, talvez até demais, sua saia até o joelho era rodada como de uma princesa, mas deixava bem a mostra suas pernas riscadas por sua meia-calça. As mangas bufantes prendiam no braço, deixando o colo e os ombros aparentes também, seus cabelos loiríssimos escorregavam por suas costas de leite como uma obra de arte. Tudo num preto profundo de céu sem lua.

Ela percebeu rapidamente o olhar dele sobre ela, tímido e de canto, tentando disfarçar.

— O que achou? — ela provocou, alisando o vestido na cintura. — Quero uma opinião masculina.

Toris se segurou para não recuar instintivamente no mesmo instante. Aquilo não poderia estar acontecendo de verdade, Natália, pedindo sua opinião? Alguns xingamentos que ouvira dela ao longo de sua história eram um tanto ofensivos sobre sua masculinidade, e ela sempre o desprezara. Realmente não fazia sentido.

— Está bela, senhorita... — não estava mentido, mas se limitou ao dizer. Estava terrivelmente desconfortável na presença dela e queria dar o fora dali.

— Estou, certo? — ela pareceu satisfeita, se inclinando no espelho para passar seu batom vermelho escuro, quase preto, eu seus finos e endiabrados lábios.

Ainda não tinha recebido permissão para se retirar, então Toris era obrigado a permanecer parado a assisti-la se maquiar, tentando entender por que ela fazia aquilo. Nunca sentiu tanta ansiedade para sair do quarto de Natalia para ir para o de Ivan.

Para seu estranhamento, ela ao terminar de se maquiar, ajeitou elegantemente sobre seu rosto um véu preto de recém-viúva, salpicando sua s belas feições com folhas pretas. Até ali, ele achava que ela estava se arrumando para o banquete, mas talvez tivesse outros planos.

— Vai a um funeral, senhorita? — comedidamente questionou, torcendo para que depois daquilo ela o dispensasse.

— Não é um funeral, Laurainatis. — ela riu, achando-o ridículo. Então, disse muito calmamente, com uma pontada óbvia de alegria. — É uma comemoração.

Engoliu em seco. Temia o que aquilo podia significar.

Sem receber resposta, ela prosseguiu.

— Bem, imagino que você e seus ratinhos de cozinha não estejam acostumados com esse tipo de evento, não seria muito adequado o convite. — ela não tirava os olhos de si mesma no espelho, virando o rosto de vários ângulos para se observar, muito vaidosa. — Mas não se preocupe, vocês logo saberão do que se trata

Conhecendo Natália, ele já podia imaginar, mas ela matinha o mistério intrigante.

— Agora, — ela finalmente virou-se para ele, com sua expressão fria de sempre. — pode ir, está me atrapalhando.

Não que ele quisesse ser dispensado ouvindo que era um estorvo, mas estava aliviado, e não tardou a obedecê-la.

Na saída, esbarrou em Katyusha prestes a entrar. Ela se desculpou de seu jeito estabanado habitual, mas ele notou que logo que ela entrou que o sorriso dela desapareceu. Apesar da curiosidade despertada, ele já não tinha mais permissão para estar ali, e teve de voltar para a cozinha com mais desconforto ainda.

Por que senhorita Katyusha fez aquela cara depois que eu saí? E o que a senhorita Natália quis dizer com aquele papo de “comemoração”? Ela estava vestida para um velório... Então alguém morreu? Mas pra que aquele banquete nesse caso? Essas eram as perguntas que rodavam na cabeça de Toris no caminho para pegar o chá de Ivan e ir servi-lo. Mas no final chegou a conclusão de que não tinha nada a ver com Natália ou com ninguém daquela família esquisita, não tinha nem que pensar em se intrometer, era melhor não pôr a mão no fogo.

Mas as coisas ficaram ainda mais confusas quando chegou ao escritório de Ivan com seu chá e biscoitos. Primeiro porque ele demorou mais que o normal para conceder sua entrada, e Toris quase não ouviu porque sua voz estava muito fraca. Ao entrar, não o viu de imediato, graças às pilhas de papel em cima de sua mesa tampando seu rosto. Mas quando o viu, ele estava com olheiras profundas.

— Toris... — ele pareceu surpreso com sua presença, mesmo sendo seu horário diário.

Não eram apenas as olheiras, não era apenas o cabelo bagunçado, não eram apenas as roupas amassadas. Ivan estava inteiro num estado lamentável, o fundo de seus olhos violeta estava completamente quebrado. Seu característico sorriso sadicamente infantil não dava sinal em seu rosto, tomado por um cansaço aparente. Não era rosto de alguém que preparava um banquete tão extravagante.

Será que alguém realmente morreu? As únicas pessoas que imaginava que pudessem deixá-lo assim eram suas irmãs, e as duas estavam bem vivias. Por mais que devesse achá-lo um monstro que não merecia simpatia, vê-lo assim era de quebrar o coração. Toris não se conteve:

— Perdoe minha intromissão, senhor... — sussurrou, tentando não fazer contado direto. — Mas... Aconteceu alguma coisa?

— Sempre acontece, não? — ele respondeu quase de imediato.

Ele se aproximou da escrivaninha e depositou a bandeja. Toris era uma pessoa boa e se preocupava com as pessoas genuinamente, querendo ou não. O que quer que o abalasse, queria poder ajudar.

— Não está animado para o jantar? — entregou a xícara quente em suas mãos, como uma mãe entrega a seu filhinho resfriado.

— Eu acho que estou, não estou? — seu olhar suplicava.

— Eu não posso responder isso por você...

— Ah... — ele virou o rosto, cabisbaixo. — Eu acho que não...

Ele deu um gole no chá e um suspiro.

— Sabe, às vezes eu acho que eu deveria querer essas coisas e agradecer por elas... — ele sussurrou, parecendo perdido. — Mas eu não consigo querer...

— O jantar? — agora estava mais confuso. Ivan parecia citar algo muito maior.

—... Isso também.

Ficaram em silêncio por um longo momento que pareceu ainda maior. Toris detestava aqueles momentos de silêncio porque eles soavam como se todo o ar que respiravam estivesse errado. Se pudesse, queria simplesmente desaparecer daquela sala, daquele mundo, apenas por algumas horas, porque realmente odiava aquela sensação. Era como se não fosse bem-vindo.

— Ei, Toris...? — a voz calma de Ivan o despertou, contida e profunda.

— S-sim, senhor?

Ele fez mais uma terrível pausa antes de continuar:

—... O que você faria?

— Huh? — segunda pergunta que recebia completamente sem sentido. Não sabia nem mesmo a que Ivan se referia.

— Se estivesse no meu lugar, o que faria?

Seria muito mais fácil responder se ele explicasse o que tanto o agitava, mas algo o dizia que pedir essa explicação acabaria em desastre para ele. Por isso, depois de muito pensar, continuava sem resposta. Ivan não gostaria nada disso.

— Eu não sei, senhor... — mentiu, para evitar mais daquela conversa estranha.

Ele virou o rosto.

— Acho que não... Dispensado.

Aquelas palavras foram como peso arrancado de seus ombros, ele deu meia volta e se dirigiu a porta. Claro que ainda estava com todas aquelas dúvidas, mas achava sinceramente que era melhor não saber. Estava prestes a girar a maçaneta, quando a voz de Ivan o puxou de volta.

— Ei, Toris, espera...

Já havia ouvido aquelas palavras antes, em vários tons diferentes. Poderia significar um simples adendo ou uma tortura além da morte. Ele tirou as mãos da tão querida maçaneta e ajeitou a postura.

— Algo mais, senhor? — virou o rosto sobre os ombros, tentando manter a voz tranquila e a guarda alta.

Ivan abriu a boca para falar, mas logo fechou de novo, repetindo o movimento de incerteza algumas vezes. Aparentemente, tinha mais para falar do que as palavras e a coerência permitiam. Por fim, soltou um suspiro nasalado e desviou o olhar para o tapete.

— Se importa de não trabalhar essa noite? — perguntou num sussurro. A parte estranha não era só que ele realmente sugeria uma noite sem trabalho, mas que ele parecia de fato pedir, ao invés de ordenar com interrogação.

— Mas essa noite será tão agitada, alguém precisa servir vocês...

— Os outros rapazes podem cuidar disso por você. — ele estreitou levemente o olhar. Pareceu um pouco menos um pedido. — Eu só acho que será melhor para todo mundo se você não estiver por perto essa noite...

Algo eu sua expressão estava genuinamente triste por dizer aquilo, mas não impedia Toris de se sentir mal. Então era mesmo um estorvo? Por que seria melhor se estivesse longe? Era incompetente, isso?

— Po..por que, senhor? — levantou a voz no começo, mas se conteve quase de imediato.

— Só... Será melhor que você não esteja aqui para ver. — ele levantou o rosto, cujas feições voltaram subitamente ao seu ameaçador normal. Ivan, o terrível, estava de volta. Talvez nunca tivesse saído. — Agora anda, anda, você tem que terminar seu trabalho antes do banquete começar, ou vai ter que repor depois, viu? Até mais...

Depois daquela quase-expulsão em voz tão infantil, Toris saiu e fez o que fora ordenado.

Por último, mas cada vez mais assustado, Toris foi para o quarto de Katyusha, o último antes de voltar ao trabalho como ordenara Ivan. Imaginava que ela já tivesse voltado para seu quarto naquele momento, para se arrumar. Ao menos, a irmã mais velha era também — dentro do limite do possível — a mais normal da família, então esperava ter menos problemas. Logo que entrou isso pareceu se confirmar, quando ela o cumprimentou com sue largo sorriso e voz alta animada, mas logo depois tropeçando e caindo no chão como uma pata, estabanada como era. Quase o aliviava ver alguém assim, mas continuava nervoso demais para rir da cena.

— Ai, eu sou tão desastrada! — reclamou para si mesma ao se levantar, espalmando a saia do vestido. Era um de cor vinho elegantíssimo que valorizava suas fartas curvas, bem diferente da roupa de Natália e até de seus macacões de trabalho normais. Estava igualmente linda, claro, mas seu vestido tinha um grande rasgo. — Já consegui estragar minha saia!

Ela praguejou um pouco em voz baixa, sentindo-se inútil e desesperada, como se o rasgo fosse o fim do mundo. Porém, logo que se lembrou da presença de Toris, relaxou e sorriu.

— Ah, que bom que você tá aqui! Chegou bem na hora! — disse praticamente puxa do pela bandeja para ele entrar no quarto. — Pode remendar isso? É rapidinho...

Katyusha tinha uma estranha mania de falar saltitando quando estava feliz ou nervosa. Outra vez, por pouco ele não riu, já que de tanto saltitar ela quase tinha caído pela segunda vez em menos de trinta segundos.

— Estou um pouco ocupado, senhora, só vim trazer seu chá... — explicou, mas não esperava que ela compreendesse.

— Não vou te atrasar, juro! Mas se eu não concertar agora eu vou me atrasar também...

Ele sabia que não adiantava insistir, e além do mais, ela estava sendo simpática. Sentou-se em seu banquinho e ela na borda da própria cama, com a longa saia rodada jogada no colo dele para que ele remendasse. Seria mais fácil se ela não mexesse tanto as pernas.

— Então, o Ivinho está fazendo um jantar incrível, não acha?— perguntou ela, causalmente.

— Está... — dessa vez, ele deixou uma pequena risada. Era tão irônico o apelido para um homem tão grande e temido como Ivan Braginsky. — Os funcionários não param...

— Eles são uma graça. — ela deu um sorriso caloroso, como se ouvisse sobre crianças. — Aliás, não vejo a hora de ver o que você preparou, sua comida é tão boa! — ela lambeu os lábios com os olhos azuis céu brilhando.

— O-obrigado, senhora... — riu, envergonhado.

— Mas é verdade... O Ivinho que adora sua comida, sempre que tem jantar ele só fica falando de você...

Toris levantou o rosto, meio surpreso.

— Fica?

— Claro que fica... Ele diz que você é muito competente e fiel, diferente dos seus colegas... Não que eu ache que eles também não sejam, mas você sempre tem os créditos...

Ele engoliu em seco com o “fiel”, quase sentindo culpa. Só quase.

— Ele me deu uma folga hoje a noite...

— Deu? — foi ela quem ficou surpresa. — Por quê?

— Não sei... — sussurrou, tentando se concentrar na agulha atravessando o pano. — Ele nunca fez isso... Ele é estranho...

Logo que disse isso, quis voltar atrás, com medo do que Katyusha pensaria se tomasse aquilo como ofensa a seu preciso irmão mais novo:

— D-desculpa...! eu não quis...!

— Não, tudo bem, é verdade... — ela sorriu, não parecendo se importar mesmo. — Sabe, meu irmãozinho é um rapaz estranho às vezes, mas ele é muito atencioso...

Toris não respondeu. Sabia que era verdade, mas via de uma forma mais complexa que Katyusha. Ivan era atencioso, mas lembrar disso fazia seu estomago revirar.

— Toris... — Depois de alguns minutos, ele estava quase terminando o serviço, a voz dela voltou a surgir, num sussurro calmo. — O Ivan... se importa você.

Toris franziu as sobrancelhas, lutando contra o calor do rosto. Calor de raiva.

— Eu sei... — murmurou, querendo não ouvir a própria voz.

— É verdade... E eu me importo com ele... — suspirou. — Mas ele não me ouve mais, estou ficando preocupada...

Toris levantou os olhos, sem entender. Sentiu a mão dela tocar carinhosamente seu rosto, como uma santa numa criança de rua.

— Então cuide dele por mim, pode ser? — ela pediu, com uma súplica muito leve no olhar, que parecia beirando a lágrimas.

— O-o que...? — perguntou, meio assustado.

Mas antes de receber qualquer resposta, ela puxou a saia que segurava de volta para si e sua expressão mudou completamente para seu doce desastrado de sempre.

— Quer saber? Acho que te atrasei de mais, está bom assim. — ela voltou a se levantar, praticamente empurrando Toris pra fora. Ele ainda precisa terminar o remendo ou voltaria a rasgar, mas essa não parecia ser sua preocupação. — Obrigada por tudo, bom trabalho, buvay!

E bateu a porta na cara dele.

Oficialmente, tinha algo de errado com aquela família.

De volta à cozinha, Toris cozinhava distraído, olhando de um lado para outro para as pessoas ao redor, se perguntando se deveria alertá-los ou não. Algo fedia naquela história, podia sentir. Ivan estava triste e Natália estava feliz. De certa forma, ficava feliz em não precisar estar lá para ver, apenas torcia para que ninguém desse por sua falta bem longe dali.

À noite, menos de uma hora antes do jantar começar, as mesas já estavam postas e os pratos estavam quase todos prontos, dando aos empregados tempo para se aprontarem para serem garçons por uma noite. Nessa ocasião, Toris, Eduard e Raivis estavam em seu quarto a se vestirem, e o mais velho julgou se um bom momento para alertá-los sendo o único a não amarrar sua gravata e alisar seu ridículo terninho de pinguim, ele educadamente interrompeu o diálogo frustrado sobre como eles não queriam trabalhar para trazer o assunto.

— Eu conversei com senhor Ivan hoje... — anunciou.

Os dois demonstraram alguma pena, mas nenhuma surpresa, como de costume.

— O que ele fez dessa vez? — perguntou Raivis, pronto para ficar com raiva e nervosismo.

— Nada, na verdade... — explicou — Mas ele estava triste...

Eduardo estalou a língua em desinteresse, voltando a se concentrar na gravata.

— Ele merece.

— Não foi isso que eu quis dizer... Ele estava... Pra baixo, sabe? E dona Natalia estava feliz.

Com isso, ele ganhou atenção de imediato.

— Feliz? Como feliz? — Raivis arregalou os olhos.

— Radiante. — respondeu, com as sobrancelhas franzidas.

— Alguma coisa aconteceu... — Eduard apontou o óbvio, com os olhos fixos no chão como fazia quando pensava.

— É, e eu estou preocupado... Eu ganhei a noite de folga, não se por que, mas de todo jeito, tomem cuidado vocês...

Ninguém o respondeu. Ninguém o questionou. Ninguém contestou. Eles apenas balançaram a cabeça positivamente, com a expressão incomodada e muito séria refletindo na situação de cada um em sua própria mente. O típico silêncio de previsão de que algo horrível poderia acontecer.

Notas finais
Isso aê, capítulo de transição é chato. Mas precisamos dele. Acho que foi o mais fraco até agora, vou me esforçar pra trazer o próximo melhor. E dentro do meu planejamento de postagem a cada duas semanas, se bem que não tá nada facil. Choremos Ç.Ç Até mais, mores. COMENTEM OU O IVAN VAI PUXAR SEU PÉ.