Um Breve Suspiro de Felicidade
18 O Último Dia de Toris No Casarão
Notas iniciais
Como Toris deixou de odiar Ivan para então tornar-se seu amante, e posteriormente o único que não o condenava por tudo, foi um processo longo e impossível de se compreender totalmente por fora e em poucas palavras. Alguns dizem que ódio e amor andam juntos, mas aqueles que os tiveram ao extremo pela mesma pessoa sabem que os dois sentimentos não poderiam estar mais distantes.
Talvez tenha parado de odiá-lo quando se apaixonou por Natália, e seu coração se encheu de alegria. Quando esse amor acabou, não pensava tanto em Ivan e sua situação, vivia num status quo e o evitava o máximo possível como mandava a prudência. Ódio é uma emoção que precisa de estímulo constante, seja interno ou externo. Mas mesmo assim, com a diminuição dele, ainda não parece um terreno fértil para alguém se apaixonar.
Para Ivan foi mais fácil, porque ele nunca odiou Toris. Pelo contrário, desde que se conheceram, ainda crianças, ele secretamente o admirava. Admirava como ele era bom com todo mundo e esforçado. Ficava triste quando ele tentava fugir, porque tinham uma promessa de serem amigos e ele realmente estava tentando. Mas quanto mais tempo passava, mais ele parecia distante.
E assim como o ódio, o amor precisa ser regado. Pensar tanto em uma pessoa era um caminho fácil para olhá-la de outro jeito. Tentou fazer isso com Natália e não funcionou, mas com Toris foi quase instantâneo, muitos anos antes de Féliks aparecer.
...
Tóris não esperava acordar naquele dia sentindo sua alma pesada como chumbo. Era dia 22, bela quarta-feira nublada. Em seu quarto não tinha janelas para a luz invadir, mas enxergava perfeitamente os pouquíssimos móveis nos minutos de reflexão antes de se levantar. Havia algo errado em seu coração, não fazia ideia do que, mas havia. Era ansiedade, muito provavelmente. Naquele dia, Ivan sairia de viagem para a Sibéria, e quando voltasse, Tóris não estaria mais lá. Talvez devesse se sentir alegre como nunca, afinal estava a um passo da liberdade, mas não se sentia.
Era mais agridoce o sentimento de passar pelos corredores de quadros medonhos sabendo que logo nunca mais os viria, ou preparar último café da manhã para Ivan, depois de anos repetindo o mesmo processo. Tinha mudado tanto e aprendido tanto naquele casarão, que nem se lembrava como era sua vida antes. Amou três vezes ali, chorou tantas noites, ganhou cicatrizes que levaria para o resto da vida. Chegou lá como um rapaz medroso, desmoralizado e melancólico. Perdeu o medo para o cansaço e sentiu-se esvaziar. Ganhou importância entre os outros coitados como uma figura admirável que nunca se imaginou. Conheceu o lado mais doce do pior homem do mundo, trabalhou até os ossos doerem. Sua vida não foi boa, mas teve uma história. Feliks só apareceu no último capítulo, para virar tudo de cabeça para baixo e arrancá-lo do fluxo normal das coisas.
Estava deixando tudo por ele. Era o que mais queria, mas parecia... estranho. No mínimo.
Bateu na porta de Ivan com o coração acelerado. Havia um medo infundado de que ele de alguma forma descobrisse que seria o último café da manhã que Tóris o traria. Afinal era Ivan, parecia capaz de enxergar sua alma.
Quanto entrou, tomou um pequeno susto ao vê-lo de pé, arrumando as roupas numa mala encima da cama. Deixou a bandeja no criado-mudo e espiou a arrumação: Mais coisa que o necessário, um pouco bagunçado.
— O senhor não prefere que eu ou Raivis resolvamos isso pro senhor? Não precisa se dar ao trabalho...
— Não é necessário. — deu um sorriso pequeno. — Eu até gosto, é melhor que me apressar para o trabalho de escritório.
— Se diz... — encolheu-se, achando sem surpresa o modo do chefe de ver as coisas um tanto curioso. — Mas se quiser ajuda...
— Basta. Não preciso. — interrompeu, um pouco impaciente. Mas então, retrocedeu. — Na verdade, aceito ajuda sim.
Tóris endureceu. Não esperava ter que ficar mais que dois minutos no quarto de Ivan, mas tendo que ajudá-lo, seu medo aumentava. Tentou ficar em silêncio enquanto dobrava as roupas, olhando para o chão, com o objetivo de terminar o mais rápido possível, mas era difícil quando perguntas chegavam a todos os momentos. Perguntas inocentes, com um sorrisinho de quem queria ouvir a voz de outra pessoa, simples assim. Mas o medo não acabava ai.
— Como vocês pretendem passar essa semana? — questionou em certo momento.
Uma pergunta tão insinuante fez Tóris congelar e se desesperar em sua cabeça, certo de que tinha sido pego. Milagrosamente, conseguiu disfarçar para responder.
— Normal, eu acho... Limpando a casa todo dia e garantindo que esteja tudo como o senhor deixou...
— Hm... — Ivan não parecia se importar. Fez uma pausa incerta, voltando a falar com uma voz muito mais sombria. — Sabe, Tóris, tem uma coisa me incomodando...
Os olhos dele não saiam das roupas a dobrar.
— O que é, senhor? — perguntou, gaguejando.
— Tentaram fugir antes... Quase colocaram fogo na casa quando minha irmã fugiu... — a lembrança fez Toris estremecer. Mesmo não tendo colaborado com os rebeldes, suas costas ainda não tinham se curado. — Tenho medo de deixá-los sozinhos e eles conseguirem, e quando eu voltar mês que vem não vou ter mais casa, nem família, nem...
— Não vão fazer isso... — tentou confortá-lo, mas por dentro sentia que quando voltasse para a cozinha, haveria já uma assembleia planejando outra fuga. — Quer dizer, senhorita Katyusha está aqui então não tem como...
Finalmente, Ivan levantou os olhos. Tão densos e sombrios que faziam o violeta parecer castanho.
— Você acha mesmo que ela pode impedir alguma coisa?
Sinceramente, não, não achava. Ela provavelmente sairia intacta por ser amada, mas não seguraria onze prisioneiros furiosos. Sem coragem de dizer isso, Toris apenas fez um sinal negativo muito sutil com a cabeça.
— Seria muito mais fácil se Natalia ainda estivesse aqui... — Ivan soltou uma risada nasalada e melancólica. — Ela protegeria isso aqui até de um exército...
— O senhor ainda tem contato com ela?
Fez que não, visivelmente muito triste. Mas então levantou o rosto, um tanto repreensivo.
— Por que quer saber?
— D-desculpa. — Tóris sentiu-se mais uma vez um idiota. — Não é minha intenção entrar na sua vida pessoal.
— Tarde demais, você não acha? — surpreendentemente, aquela pergunta veio com um sorrisinho cúmplice com milhares de interpretações, que Toris não foi capaz de responder.
...
Tóris viu Ivan chorar várias vezes. A primeira foi quando disse que o amava pela primeira vez. A segunda foi poucas semanas depois. Estava perdido em algum lugar do sono na cama de Ivan, que tinha o melhor colchão da casa. Acordou com um movimento estranho e brusco ali, que só poderia ser do homem que dormia ao seu lado. Ele tinha os olhos apertados e balbuciava com os dentes trincados. Estava tendo um pesadelo. Toris tentou acordá-lo devagar para acabar com seu sofrimento, mas quando ele abriu os olhos, eles se encheram de lágrimas ao vê-lo.
— Shh... Shh... — tentou acalmá-lo, para espantar a imagem do pesadelo da cabeça. — Tá tudo bem, Ivan... Você teve um pesadelo...
Ainda assustado olhando ao redor, ele começou a melhorar, abraçado aos joelhos. Toris fazia cafuné em seus cabelos e beijava sua testa, repetindo palavras de serenidade.
— Quer falar sobre isso? — Toris sussurrou, beijando sua cabeça.
Ivan fez que não com a cabeça, sem tirar os olhos do nada. Com um nó na garganta, tomou coragem e perguntou.
— Você acha que eu sou um monstro?
Toris recuou de surpresa com a pergunta. A vida toda tinha achado que sim, mas agora as coisas eram diferentes. Quando estavam só os dois, Ivan era outra pessoa. Ele era doce e atencioso, parecia incapaz de machucar uma mosca. Embora soubesse que ele não era, sentia que aquela doçura era seu reflexo verdadeiro.
Mas só ele pensava assim. Todos os outros, até seu subconsciente que criava os pesadelos pensavam diferente. Não sabia o que tinha visto o pesadelo, mas sabia que aquela pergunta o assombrava desde muito antes.
— Claro que não, não diga isso, Ivan... — sussurrou imediatamente, o abraçando mais forte e segurando seu rosto, para que olhasse para ele.
Naquele momento, pensou que Ivan tinha os olhos mais bonitos do mundo. Eram de uma cor tão inusitada, nunca tinha visto igual. Sempre havia um brilho profundo, mas ele sempre parecia quebrado por dentro. Era como uma nebulosa numa galáxia distante, inatingível. Imaginava que um monstro não teria brilho nos olhos.
— Você é doce... — continuou, mergulhado naquele olhar tão profundamente que poderia chorar também. — Você é pessoa mais doce que eu conheço... E se você fosse doce assim toda hora, não só quando está comigo...
Ivan era uma pessoa boa. Ele se importava com as pessoas e amava a todos sem medo. Mas era uma criança ainda, não tinha aprendido como funcionava o amor e os humanos. Só queria uma família e um carinho. Dava para ver o quanto seu coração se enchia de felicidade quando estava com Toris, porque Toris era o único que correspondia seu amor.
—... Mais pessoas te enxergariam... Do jeito que eu te enxergo...
Toris o enxergava com os olhos cheios de brilho e esperança. Ivan também amava seus olhos, poderia encará-los para sempre naquele momento. Queria que mais pessoas o enxergassem daquela forma. Toris desapareceu de vista logo depois, pois as lágrimas aumentaram até borrar toda a sua visão.
...
Logo que se despediu e foi preparar o almoço, aquele discurso dele despertou em sua mente. Ivan tinha razão, com certeza alguém planejaria alguma coisa. Poderia ser a hora perfeita para fugir, se todos fugissem ao mesmo tempo ele não poderia ir atrás de todos. Mas poderia muito bem estragar todos os planos. A reunião na cozinha deveria acontecer logo após o almoço.
— Nunca achei que tivéssemos tantas oportunidades perfeitas... Mas agora não poderia ser melhor... — foi a primeira fala que Toris ouviu quando chegou. — Em uma semana estaremos tão longe que Braginsky nem vai conseguir nos encontrar.
— Sem falar que ele está fraco. Não tem muito apoio de ninguém. — Eduard foi o segundo a falar, com o sorriso cínico de quem carregava alguns aprendizados de seus serviços para Natália. — Sem a Arlovskaya então... Ela era quem praticamente o mantinha em pé. Sem ela, ele é só uma piada.
— Não poderia estar melhor. Logo que ele for embora vamos simplesmente sair pela porta da frente.
Toris quis falar contra, mas não teve coragem. No fim, ele iria embora de qualquer jeito, querer impedir os outros era apenas hipocrisia. O plano era perfeito na simplicidade e inevitável. Até Ivan sabia.
— Não vai dizer nada, Laurainaitis?
Só assim Toris saiu dos pensamentos. Esperavam que ele falasse alguma coisa, com personagem principal tão costumeiro das discussões. Porém, para a surpresa de todos, não tinha o que ser dito.
— É um plano perfeito. Não tem como Ivan os impedir. Façam o que quiserem. Só me deixem fora disso.
— Se não vai nos ajudar, não fique assistindo à discussão.
— Eu já estava de saída.
Abandonou a cozinha, consciente do clima pesado que tinha deixado lá. Não tinha tempo para isso. Precisava arrumar suas coisas e estar na casinha cor-de-rosa a noite. Não queria problemas em seu último dia no casarão.
...
— Se você pudesse ter o quisesse nesse instante, o que seria?
Aquela pergunta saiu dos lábios de Ivan quando o caso deles já tinha alguns meses. Certa madrugada, em que nenhum dos dois conseguia dormir, ele abraçou Toris e ficou assim, o que o surpreendeu porque ele não era de iniciar contato inocentemente. Foi uma surpresa feliz. Então, sorrindo pra ele, Ivan fez aquela pergunta, com olhos brilhantes de criança e dedos entrelaçados nos seus.
— Pra que a pergunta? — Toris também sorriu, achando graça no jeito dele.
— Não sei, me sinto generoso hoje. — respondeu, se aproximando um pouco mais. — Pode pedir o que quiser
— Não faço questão de nada... — mentiu, desviando os olhos.
Sabia que Ivan poderia proporcioná-lo qualquer coisa em questões materiais, daria um quarto só para ele ou o levaria para viajar pelo mundo se pedisse, mas não era nada disso. O único pedido que tinha, Toris não teria coragem de dizer.
— Mas o que você quer? Todo mundo quer alguma coisa, Toris... Pode falar o que for.
Ivan parecia pedir para se magoar, com aqueles olhinhos inocentes desejando tanto uma resposta. Toris se perguntou se poderia mesmo dizer. Talvez, se falasse com jeitinho, Ivan compreendesse, talvez até deixasse.
— Bem... Eu queria liberdade de vez em quanto... — respondeu, suspirando, mas mantendo um sorriso carinhoso para que ele não entendesse errado.
— Você quer... ir embora? — como esperado, quase conseguiu ouvir o coração de Ivan se quebrando.
— Quero poder ir e vir quando eu quiser... — explicou, chegando mais perto dele, apertando o abraço. — Esse lugar é tão grande e assustador às vezes... A gente tem que ficar se escondendo e fingindo que não tem nada, e só pode ficar junto algumas noites que ninguém vá saber... Eu to cansado disso. Eu queria uma vida normal, com uma casa normal, sem tanta gente. Só eu e você, sabe?
Parece proposital o que o destino fez com ele, para que seu desejo fosse praticamente o mesmo anos depois, com um amante completamente diferente, mas quase na mesma situação. Toris não tinha como saber daquilo na hora, apenas desejar que Ivan compreendesse.
— Não somos normais. — o sorriso de Ivan já não existia mais, apenas um olhar triste perdido no nada.
— Eu sei, mas... Mesmo assim... É isso que eu quero.
O sonho de Ivan sempre foi uma casa grande cheia de gente, e logo agora que tinha, não iria negá-la por rapaz nenhum.
— Você me pediu a única coisa que eu não faria por você. — virou-se na cama, desfazendo o abraço e ficando de costas para Toris. — Mas se você odeia tanto esse lugar e quiser fugir, eu não vou te impedir. Fique a vontade.
Toris também sentiu seu coração quebrando em mil pedaços. Não por Ivan ter negado, mas por ter deixado ele tão triste a ponto de dizer que poderia ir embora. Detestava machucar as pessoas, mas olha só, tinha feito exatamente isso com o homem que na época amava.
Pensou em abraçá-lo e pedir desculpa, mas achou melhor ficar em silêncio e ir dormir. Porém, mesmo com a permissão de Ivan, Toris negou seu desejo de ir embora para ficar ao seu lado por vários anos depois. Ainda bem que fez isso, porque se tivesse ido embora, não só ninguém sabe como Ivan poderia reagir, como ele nunca teria reencontrado Feliks, e nada de nossa história teria acontecido.
...
Não tinha mais que uma mochilinha de roupas para arrumar, provavelmente essas que seriam imediatamente rejeitadas por Feliks por serem um crime contra a moda ou algo do tipo. Quando terminou, o meio da tarde se aproximava, numa chuva tranquila e nublada que deixava a casa toda em calmaria. Saiu para caminhar pelos corredores, procurando matar o tempo. Tinha todas as obrigações normais, mas que diferença faria? Ivan não o puniria nas vésperas da viagem e logo não estaria mais lá para responder. Podia ter um dia vazio para sentir o pesar.
Sua surpresa foi que não era o único assim. Descendo as escadas para a sala, encontrou Ivan sentado no sofá, largado apoiando-se no joelho, com os olhos fixos na garoa contra a janela. Toris acreditou que ele quisesse ficar sozinho, por isso deu meia volta, mas foi visto.
— Toris? — sua voz mansa o chamou. — Não vá embora.
Era apenas um pedido para se sentar e ver a garoa, mas afundou em sua alma como algo muito mais profundo. Não vá embora. Fique.
— O que o senhor tá fazendo? — aproximou-se dele no pequeno sofá.
— Nada... Só estou meio cansado... — soltou o ar, olhos fixos agora no chão. — Não quero viajar...
Toris congelou. Isso era ruim.
— N-não quer? Então o que o senhor vai fazer?
— Eu vou, né. — deu de ombros. — Infelizmente não posso simplesmente cancelar. Ordens são ordens...
— Sinto muito...
— Eu sei.
Veio silêncio constrangedor por alguns segundos. Toris queria ter a intimidade para lhe dar um abraço. Ivan tinha essa aparência forte, mas era tão frágil, tão frágil...
— Toris... — mais uma vez, seu nome quebrou o silêncio. — Você... me perdoa?
— P-pelo que? — cresceu uma hesitação. Perdão por algo que ele fez ou... que iria fazer?
Ivan desviou o rosto. Nem ele sabia. Só queria perdão... Tinha a sensação de que precisava concertar as coisas.
— Se você quiser... — suspirou, procurando as palavras. — Pode... — ir embora. Ser livre. Fazer o que quiser da sua vida. Era o que ele queria dizer. —... Vir comigo.
— Ir com você para a Sibéria? Ivan, eu não...
— Esquece, é uma ideia idiota. — desistiu e deixou o sofá, rápido demais para que Toris pudesse protestar. — Cuide de tudo enquanto eu estou fora.
Toris continuou no lugar por vários minutos. O breve convite girava na sua cabeça. Nunca aceitaria logo antes de fugir com Feliks, com o rapaz que tanto amava, mas não conseguia não pensar naquilo. Tentar pensar no que Ivan estava pensando. Era muito triste que não pudessem se despedir propriamente. Não o viu partir. Teria que aceitar que ela conversa tinha sido a última que teria com Ivan para o resto da vida.
...
Não foi muito tempo depois, que numa certa manhã ensolarada, uma certa moça iria colocar um ponto final nessa história. Natália atravessou os corredores até o escritório de Ivan pisando firme. Abriu e bateu a porta em fração de segundos, assustando o irmãozinho que apenas escrevia tranquilamente nos papeis de seu trabalho.
Natália sequer era maior de idade na época, carregava um brilho e energia adolescente que nos tempos hoje sumiram. Se hoje ela é uma maquina calculista e manipuladora, mas sempre calma, na época ela era uma explosão. E foi como explosão que ela disse cada frase naquele dia:
— Eu quero ele fora. — anunciou, com ódio no olhar.
— Quer quem? — Ivan perguntou, inocentemente. Não era incomum esses escândalos repentinos de tempos em tempos, mas ele nunca entendia ao certo porque.
— O cozinheiro! Sua putinha! Você sabe bem de quem eu estou falando!
— O que você quer? — estreitou os olhos, já não gostando da forma como ela falava de Toris.
— Não me ouviu? Quero. Ele. Fora. Mande pra Sibéria, mate, faça o que quiser com ele, mas não quero ele debaixo do meu teto!
— Do meu teto. Ele fica.
Essa resposta para a Natália do presente jamais seria aceita, mas naquele momento, ela viu como um ponto final. Os olhos de Ivan não poderiam estar mais simples. Toris ficaria ali até que um dos dois decidisse o contrário. Se Toris não fugiu quando teve chance, então agora ele ficaria.
— Se não vai expulsá-lo, ao menos pare de vê-lo. Não é um pedido.
— Você não tem esse direito! — levantou-se da cadeira, batendo as mãos na mesa.
— Ah, não tenho?
Em dois passos ela já estava do lado dele, tão rápido que ele voltou a se sentar de surpresa. Contornou seu rosto com a ponta dos dedos, muito boazinha, mas com os olhos mesquinhos de um domador de leões. Desceu os dedos para o pescoço, encaixando as unhas compridas. Apertou de leve, só o suficiente para que ele sentisse dor sem machucá-lo. Alguns milímetros a mais e ele não estaria mais respirando. Ela deixou isso bem claro.
— Quando eu dou uma ordem, você me obedece. É assim que vai funcionar a partir de agora. Tem sorte de eu deixei a bichinha ficar, mas você não encosta mais um dedo nela. — fez uma pausa, afundando um pouco mais as unhas. — Ou eu vou encostar.
Foi a primeira vez que Natália o ameaçou abertamente, algo que se tornaria rotina alguns anos depois. Com medo do que ela poderia fazer, ele aceitou.
Não foi fácil explicar a Toris, mas fez de forma fria e distante. Não queria que ele visse sua fraqueza, porque se ouvisse uma palavra de carinho, talvez não fosse capaz de dizer adeus. Mas deixou claro o motivo, e Toris não protestou. Passaram alguns meses se evitando pelos corredores, mas eventualmente o que um dia foi sentimento se desfez no mofo, se esqueceu. Toris nutria certo carinho por ele, mas era só isso. Talvez certa nostalgia, dó por conhecê-lo melhor que ninguém. Mas sentiu que acabou quando tinha que ser. Não aguentava mais aquele caso, ficar indo e vindo escondido, a ilusão. Apenas alguns anos depois estava com o coração vazio de amor e a carência necessária pra fazer tudo aquilo de novo, com um novo amante que nada tinha de novo, e ai voltamos ao trilho de nossa história. Ivan e Toris nunca foram para ser.
...
Finalmente, Toris voltou ao seu quarto, onde Eduard e Raivis tinham entrado a pouco tempo. Seus olhares também eram de um adeus, mas sem pesar. Tinham estado na vida uns dos outros por um bom tempo e tinham tentado se ajudar quando não tinham opção, mas não tinha com eles um vinculo profundo como tinha com Ivan. A hora do adeus era a hora do adeus.
— Decidiram? — perguntou, meio nervoso.
—Vejo que já fez até as malas... — Eduard comentou, levantando a mochilinha.
— Vamos fugir amanhã ao anoitecer. — Raivis explicou. — Para chamar menos atenção. Você vai, não vai?
— Ele deixou claro que não vai.
— Mas... Ele fez as malas
— Eu não vou... — Toris interrompeu. — Quer dizer, eu vou fugir, mas não com vocês.
Eduard arregalou os olhos:
— Como assim?
— Eu... Eu vou pra Itália. Eu vou me casar.
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