Um Breve Suspiro de Felicidade
15 A Melhor Ventríloqua Da União Soviética.
Notas iniciais
Houve uma manhã especialmente nublada um dia desses, daquelas que tudo era nuvens e cinza, numa ameaça constante de chuva que só ameaça mesmo. Dias nublados pareciam significar dias de caos nos últimos tempos, dias que ninguém queria viver. Porém, naquele dia, havia uma pessoa sorrindo. Uma moça linda como um tigre em pele de cisne sentada graciosa no parapeito de sua janela, brincando com os cabelos enrolando-os nas pontas dos dedos. Na outra mão, um telefone e um papelzinho com um número a discar.
— Bom dia, mana. — riu para o aparelho. — Achou que escapou da gente, não?
Do outro lado da linha, uma moça linda virou gelo.
— N-Natália?
— Bu.
...
...
...
— C-Como você me achou?
— Eu tenho meus contatos, não vem ao caso. — em frente à voz horrorizada, Natália não conseguia evitar aumentar seu sorriso. — Mas então, me conta como estão suas férias.
O outro lado da linha continuava em silêncio. Fugir da vida nunca seria efetivo por muito tempo se sua vida for Natália. Katyusha subestimou esse fato quando entrou no trem. Mas agora a voz gélida e mortal da moça que sempre ganha estava em seus ouvidos outra vez. Se conseguisse se mexer, desligaria imediatamente, mas suas mãos tremiam tanto que mal seguravam o telefone. Suor frio, nó na garganta.
— Não vai falar? — ainda mais vitoriosa, Natália quebrou o silêncio — tudo bem, então eu vou te contar como estão as coisas por aqui.
Fez uma pausa para uma possível resposta, mas Katyusha continuava desconcertada demais para entender o que viria em seguida.
— As coisas não tem estado nada bem desde que você foi, mana… — fez uma voz manhosa, como se fosse vítima. — Se continuar assim, não sei como vou ficar…
— Você sempre dá um jeito. — respondeu friamente, ou ao menos tentando ser fria em meio à tremedeira da voz.
— Não sei não… Lembra do Ivinho, seu irmão que você abandonou? Ele oficialmente enlouqueceu.
O coração dela, coitada, deu um dolorido salto ao ver o apelido do rapazinho que tentar se convencer que não abandonara. Ele sempre pareceu bem sem ela, cada vez mais afastado porque estava crescendo. Ela mesma disse que não precisava mais dela, por isso penso que poderia fugir. Mas Natália não conhecia Ivan. Ela conhecia. Mesmo que soubesse que ele não ficaria bem, nunca seria capaz de manipulá-lo para sempre. Era cega para o que mais precisava ver.
— Os ratinhos não sofreram desse jeito na mão dele faz tempo… — dar essa notícia fazia Natália sorrir. — O primeiro apoiar apanhar foi aquele alto, Toris… Deu pra ouvir alguns gritos do meu quarto. Agora já foi todo mundo… Eu não quero te alarmar, mas eu acho que o nosso irmão está querendo se matar.… Não dá pra descontar o abandono nos outros pra sempre.
Não conseguiu ficar alarmada, não conseguiu ficar preocupada. Não conseguiu sentir nada. Era como se cortasse em sua cabeça não golpe só. Indolor, mas sem humanidade. O coração se quebrando em uma casca vazia. Se seu irmão morresse por sua culpa, teriam sido três vidas vividas em vão. Um dos motivos pelos quais fugira era para tentar ser dona da própria vida, depois de tantos anos vivendo por Ivan. Não era fácil como parecia.
— E você não está fazendo nada para impedir? — tentou intimar Natália. O amava também, vivera por ele também, não ficaria parada assistindo.
— Estou trancada no meu quarto. Não saio faz duas semanas. Estou esperando ele vir me procurar quando se arrepender do que fez.
— Então vocês não sabe como as coisas realmente estão…
— Tenho minhas fontes, mas de fato, com atraso. Talvez ele já esteja até morto. — mentiu, cutucando as unhas. — Mas sei que ele fica gritando sobre você enquanto bate nos coitados dos ratos. Se eu soubesse que ele estava assim por culpa minha, voltaria pra Rússia imediatamente.
— Se está tentando me manipular, esqueça.
A vida de Katyusha começava a dar sinais que tomaria rumo. Na Suécia, conheceu amigos que arranjaram uma passagem para América, tinha começado um curso de datilografia e mandado o currículo para alguns escritórios, aprendendo como sobreviver nesse mundo capitalista, que era muito melhor do que ouvia. Logo agora Natália decidiu aparecer pra arrancava de lá. E se quisesse mesmo, conseguiria. Por mais que Katyusha defendesse sua nova vida, sabia que as noites em claro a convenceriam a comprar a próxima passagem para São Petersburgo.
— Te manipular? Imagina… Estou apenas te deixando ciente da situação. Sei que vai tomar juízo.
— Você me convenceu a ir embora. Porque me quer de volta?
— Isso, Mana, é problema meu. Por enquanto, estou apenas reunindo dois irmãos amados. — afirmou, mesmo sabendo que ninguém acreditaria. — Se vier, prometo nunca mais infernizar a vida dele, que tal? Só vocês dois, sem a irmã do mal, como costumava ser. Vai dizer que não é isso que você quer?
Não. Queria uma vida que fosse sua. Queria aquilo que estava começando a rascunhar. Mas quando lembrava de seus irmãos, inclusive Natália, seu coração apertava com as indagações de como estavam girando ao redor da sua cabeça. Jamais estaria realmente em paz enquanto não estivesse com eles para ver. Mesmo que não estivessem bem quando eu estava lá, ao menos poderia dizer a si mesma que fazia tudo que podia. Realmente uma vida que fosse sua parecia nada mais que uma ilusão.
— Você tem dois dias para pensar. Ligo de volta depois de amanhã.
E desligou.
...
— E então senhorita?
— Tudo como planejado, ela vai voltar.
E lá estava Natália, outra vez a um passo da vitória. Agora tinha Ivan e Katyusha na palma de sua mão, um pelo outro. Seu plano solidificava diante de seus olhos. Era apenas questão de jogar às cartas no tempo certo.
— Ivan precisa saber disso o mais rápido possível… — ordenou alegre pra si mesma, esperando que o rapaz do outro lado da porta ouvisse.
— E como quer fazer isso, senhorita? — Eduard sorriu com tranquilidade sua voz.
Sabia da pressão de um plano daqueles para os desejos de Natália. Desde que for intimado a intermediar seu contato com o exterior em seus dias de greve e isolamento, Eduard era surpreendido dia após dia com as habilidades quase proféticas de Natália. O único imprevisto foi telefone de Katyusha cair tão facilmente em suas mãos, mas era apenas uma vantagem. Eduard ajudava porque ambos tinham sede de vingança e inteligência. A ele faltava força, portanto subordinar-se a Natália era o caminho mais possível e no final, Ivan estaria quebrado, e ele estaria livre. Essa era a promessa.
— Mande um telegrama. — sua resposta era assertiva, mas cheia de entusiasmo. — Ele não vai saber como consegui se estou trancada, e vai dar um tom "dramático"! — brincou, com os olhos brilhando.
— E o que quer que eu diga? — ele estranhou a decisão, mas discordar dela era suicídio.
— Diga que ele deve bater na porta do meu quarto o quanto antes, e terá sua amada irmãzona de volta. Apenas isso
— Sim, senhorita.
...
E Eduard mandou. Não demorou para chegar, ainda de manhã. Ninguém além de Ivan ficou sabendo, mas, se houvesse alguém na sala, veria como os olhos dele brilharam incrédulos diante do nome das irmãs, e como seu coração parou. E ele foi. Depois de muita hesitação e de remoer cada palavra do telegrama, foi. Nunca antes no casarão foi Ivan quem andou temeroso pelos corredores, oprimido pelos quadros. Porém, era impossível não se sentir apavorado de ansiedade com a proposta de Natália. Não parava de pensar em suas duas irmãs quando foi embora. Mesmo que tivesse que se casar com ela e se mudar pra marte, faria se pudesse ter uma família de volta.
Temia que eu encontrasse muito magra quando entrasse, com muita fome muita sede, ainda não encontrava explicações para sua sobrevivência isolada. Por mais que sua mente fosse um caos sem Katyusha, não dá pra ignorar a saudade que sentia da irmã mais nova. Até porque, quando eram crianças, ela foi mais perto de um amigo que ele teve. Ela era importante. Era apenas uma pena que fosse tão tóxica.
Até a porta de Natália ela inteirinha branca. Bateu.
— Olha só quem veio… — ouvir sua voz abafada pela madeira ainda fechada congelou seus sentidos. Às vezes se esquecia da ameaça constante em sua fala.
— Vai trazer a mana de volta? — foi direto ao ponto.
A porta se abriu, revelando uma Natália contente e perfeitamente nutrida, como se a greve não passasse de ilusão. Cobra.
— Vamos negociar.
Ela fez sinal para que ele entrasse e trancou a porta.
...
— Feliks… Feliks, atenda…
Katyusha não poderia estar mais angustiada. Desde a ligação de Natália, nada mais parecia no lugar certo, tudo girava borrado. Sem muito a quem correr para pedir conselhos naquele momento, decidiu ligar para o artista carregador de malas que conheceu no dia que fugiu, único que conhece seus motivos. Conversaram quase todas as noites desde que ela chegou no novo país, então talvez tivessem algo próximo de uma amizade. Além disso, ele era bom levantar questões que ela precisava enfrentar. Num estado desses, o som repetitivo do telefone em espera ele desesperador.
— Katy, oi! — finalmente atendeu, fazendo Katyusha pular de susto com a voz estridente repentina. — Tava demorando pra ligar, como é que tá?
— Minha irmã me achou… — a notícia trágica saiu antes de seus pensamentos. Era assustador dizer em voz alta.
— O que…? — ele demorou pra ligar os pontos — Sua irmã maluca?
— Sim, ela conseguiu meu telefone, não sei como. — Ops — agora ela quer que eu volte pra casa…
Feliks ficou em silêncio por um instante, se perguntando se deveria contar que era o culpado ou não. Decidiu não, pois envolveria explicar como chegou na casa denunciando o caso com Tóris. Melhor deixar quieto e ouvir.
— E você quer voltar?
— Eu não sei… — ouvia-se claramente que ela choramingava. — Minha vida está começando a se ajeitar, mas estou tão preocupada com eles…
— Siga seu coração… Não fica colocando as coisas na balança, só faz o que tem que ser feito…
— E o que tem que ser feito?!
Feliks soltou uma risada na salada.
— Eu não faço a menor ideia.
...
Era a primeira vez que Natália saiu do quarto em duas semanas. A caminhada até o escritório era o contraste entre uma marcha da realeza e uma marcha fúnebre, tanto para Ivan quando pra Natália. Ela tinha vencido, mais uma vez. Mas ele não saíra sem indenização alguma, teria irmã de volta. Não sabia de que Katyusha voltaria independente de suas atitudes, pois se soubesse nunca teria assinado os papéis. Contudo, sentado na poltrona do seu escritório com Natália sentada na ponta da mesa, sentiu uma forte sensação de dever cumprido. Quando pegou a caneta e a tinha manchou a folha, era pra valer.
— Muito bem… — a voz assassina de Natalia e seu sorriso de tubarão. — Sua irmãzinha está a caminho. Assim que ela chegar, eu vou pra Moscou.
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