Um Breve Suspiro de Felicidade
7 A Festa dos Ratos
Notas iniciais
O sol atravessou as janelas do casarão naquela manhã com a hesitação que acordaram as pessoas, escondido atrás de uma fortaleza de nuvens. Mesmo o astro-rei sabia que a tempestade que vinha era uma ordem para todos procurarem abrigo, não se meterem. Por isso o dia estava tão nublado. Não nevaria, pois o medo da neve sábia não era menor. Apenas a calmaria assassina que precede a tempestade estaria no céu àquela manhã.
No banquete do dia anterior, o casarão havia silenciosamente perdido dois de seus quinze moradores. Após a barulhenta e destrutiva briga com Ivan, Natália saíra sem rumo pelas ruas geladas e ninguém sabe o que ela fez por lá. Voltou pela manhã com a firmeza nos pés de uma ditadora que queria ser e seguiu até seu quarto branco por completo, trancou a porta e as janelas. Não abriu para o café, nem almoço, nem chá nem janta, ninguém sabia o que fazia lá, não sabia nem se continuava viva.
Por outro lado, o quarto bordô de Katyusha amanheceu vazio. Não vazio como o quarto de Ivan, pois seu dono dormira no banco do quintal observando as estrelas, rendido pelo cansaço. No quarto de Katyusha também estavam vazias as gavetas e armários, como se ninguém dormisse lá há tempos. O motivo só Natália sabia, mas ela estava trancada demais para dizer.
A notícia do sumiço da irmã logo chegou aos ouvidos do chefe pela voz tremida do pequeno empregado. Este viu uma expressão em Ivan que talvez ninguém jamais tivesse visto, talvez apenas Katyusha ou Natália, que não estávamos lá para confirmar a precedência de aquele olhar assustadíssimo e sem chão, olhar de íris como vidro quebrado, sobrancelha arqueada, desamparo. Haviam acontecido coisas demais, brigas e gritos demais, e agora com o fim da guerra, tinha o silêncio de luto ao ver as vítimas estiradas no chão.
Ivan não tinha mais família, logo as únicas que as pessoas que jurava que nunca abandonaria, as únicas que não tortura, não castigava, cuidava como cuidaram, agora tinha ido. Natália sabia que trancar-se servia de melhor tortura psicológica para seu irmão, porque ele se reviraria a imaginá-la sem comida, sem poder ir ao banheiro, olhando para o teto até morrer devagar logo ali, em sua própria casa. Sabia que ele pensaria nisso e foi imediatamente o que aconteceu. Mas a fuga de Katyusha foi ainda pior. Natália poderia querer torturá-lo, mas Katyusha jamais. Era seu porto segundo, sua mana, que o abraçou forte o dia que chorara, beijara sua bochecha e acariciará se os cabelos. Katyusha que cantava canções de ninar e o cobria de mantos remendados.
Ele enlouqueceu. Após o desamparo, a tempestade. Quebrou uma xícara. Na gaveta havia um punhal, agora um punhal havia na parede, cravado na parede. A cabeça de urso empalhada na parede foi parar no chão, gritos histéricos acompanhando. Rasgou as cortinas e jogou os papéis da mesa longe, quase destruiu o seu escritório. Chorou ao, mas ninguém viu as lágrimas. Engoliu em um gole metade de uma garrafa de vodca, bebeu assim até que a sobriedade abandonasse seu corpo, e então, bebeu mais. Quebrou as garrafas no chão do escritório destruído. Cambaleou sem rumo pelos corredores hora ou outra destruindo alguma coisa para tentar destruir o desespero. Os servos fugiam, sabiam o que poderia acontecer se encontrassem com Ivan tão furioso.
Observavam de longe, trêmulos e temerosos, até que ele desceu a escada e sumiu no porão. O porão era o destino daqueles que o irritavam, mas agora ele estava lá sozinho. Um grito ou outro ainda dava para ouvir bem abafado. Os outros moradores temiam o que ele poderia estar fazendo.
Toris foi o último dos moradores a ouvir a notícia. Raivis avisou. Sem Ivan, sem Katyusha e sem Natália, estavam sem governo, sem ordem, sem quem servir. Era nesses momentos que se reuniam na cozinha os sem-poder, em sua melhor ágora, se a cozinha algo adiantasse. Nessas reuniões, querendo ou não, Toris acabava sendo um dos discursadores.
Na cozinha, o burburinho constante e desesperado competia espaço com o oxigênio. Os olhares desconfiados corriam pelo cômodo, um comentário o outro chegou aos ouvidos de Toris. O rapaz barraqueiro da Geórgia deu seu característico soco no balcão para tentar silenciá-los.
— Fiquem quietos minutos, bando de animais! — gritou, conseguindo o silêncio. Toris não gostava nada dele, sentia o sermão sobre fuga vindo outra vez.
— Ele enlouqueceu, enlouqueceu completamente… — gaguejou um rapazote de olhos viciados, nativo do Turcomenistão. — Vai destruir a casa toda.
— Ele foi para o porão agora… — uma jovem do Cazaquistão prendeu a respiração.
Ao ouvir isso, Eduard levantou a voz:
— Estão todos aí?! — falou com o certo alarme. Se entre olharam. Após uma contagem rápida, ele deu uma pequena relaxada. — Meu medo é que alguém estivesse lá com ele.
— O que houve com senhorita Katyusha?— perguntou uma menininha do Uzbequistão, beirando aos 15 anos, uma das protegidas da senhorita Braginskya.
— Sumiu, fez as malas e evaporou. Abandonou a todos nós… — disse o rapaz da Geórgia, na tentativa de indignar a menina para começar seu discurso.
— Porque ela faria isso?
— Saiu sangrando ontem. — lembrou Eduard. — Na posição dela eu também não ficaria.
— E Natália? Ela ainda está aqui, não está?
— Alguém aqui se candidata a ir tirar a rainha do gelo de seus aposentos? — disse a moça do Cazaquistão com escárnio. A resposta foi silêncio.
Ninguém falou nada por alguns longos segundos, que quase não foram quebrados de tão baixa e acanhada foi a voz de Raivis ao sussurrar:
— E o que fazemos agora?
Era a pergunta que não queria calar em todas as mentes. Mais um soco no balcão.
— Agora temos a vantagem que sempre esperamos! Não podemos simplesmente desperdiçar. — ele abriu a gaveta de facas onde encostava. — Cada um pega uma faca. Isso só até o quarto onde o Braginsky guarda as armas. — sua voz era autoritária, mas calma, esbanjando confiança e revolta de um general perdendo a guerra, mas prestes a virar o jogo. — Cada um tem cinco minutos para pegar todos os pertences, só o estritamente necessário.
— Os cães virão atrás de nós assim que perceberem... — lembrou Eduard com um sorriso desdenhoso. Mas pelo brilho rebelde desceu os olhos atrás dos óculos, ele tinha adorado a ideia.
— Então queimem tudo que restar, até não sobrar nada.
Toris já estava com dor de cabeça só de ouvir aquilo. O mesmo discurso todas as vezes. Dessa vez, tinha uma vantagem real, mas sua intuição dizia que não adiantaria de nada fuga ou motim. Talvez estivesse jogando fora uma oportunidade gigante, mas era um risco que não queria correr. Os rostos daqueles que pensavam o mesmo o encaravam, esperando sua fala para acabar logo com isso. Que pressão.
— Não podemos deixar o casarão pegando fogo… — desviou o olhar, hesitando começar a falar. — Senhorita Natália ainda está no quarto, vai morrer queimada.
Viu alguns esticarem um sorriso com a ideia. Que grande fim para a rainha do gelo.
— Pois eu estou pouco me fodendo. — respondeu a garota casaquistanesa, uma amiga do encrenqueiro da Geórgia. — Aquela vagabunda já vai tarde.
Era incrível as coisas que diziam quando os chefes estavam longe.
— Não é melhor que ela falando assim.
— Não preciso de você me dando lição de moral, viadinho. — rosnou ela.
— De qualquer modo, se colocarem fogo aqui, vai chamar mais atenção que vocês querem, a polícia vai vir atrás. Daí vocês sabem para onde vamos…
— Sibéria. — murmurou Eduard, tentando raciocinar. Assim como a maioria, ele estava desesperado para usar a oportunidade para sair.
Toris não podia negar suas razões egoístas para querer ficar. De que outro modo voltaria a ver Feliks? Mas será que ele valia desistir da liberdade? Já nem se lembrava como era viver lá fora, tinha medo também… No casarão tinha Ivan, mas fora dele se escondiam demônios piores.
— Já falei, não sejam imprudentes. Não sabemos quando Ivan vai sair, pode ser dias, mas também pode não ser mais nenhum minuto. Ele não vai gostar de ver a fuga.
— Talvez demore, mas não vamos ficar perdendo tempo para descobrir. Que deixem os cachorros irem atrás! Até nos acharem, já estaremos na Alemanha.
— E por acaso você tem um passaporte? Algum documento que não entregue? — Toris colocou em cheque.
— Damos um jeito!
— "Damos um jeito", "damos um jeito"... Se se fosse tão fácil, e já teríamos fugido há muito tempo. Mas você sabe tão bem quanto eu que não dá para sair desse lugar sem um plano de verdade…!
Tinha raiva legítima nos olhos de Toris, diluído na preocupação. Já estivera no lugar desses jovens, com aquela mesma mentalidade, e sabia o resultado. Se ao menos alguém naquela casa o ouvisse...
— Então o que você sugere? — até o georgiano sossegou, com um suspiro irritado.
— Já disse que não vou impedir ninguém de fugir. Mas se quiserem mesmo fazer isso e se Ivan ficar lá dentro tempo suficiente para fugir, ao menos usem um pouco desse tempo para pensar em um plano concreto.
Os revoltosos bufaram, aceitando de contragosto. Às vezes Toris se surpreendia com sua própria persuasão. Mas sabia que sua próxima sugestão não seria tão bem aceita:
— Mas também… — disse baixo, com medo da reação. — Eu acho que deveríamos ver como Ivan está. Os gritos pararam.
— O que? — berrou a casaquistanesa, obviamente ultrajada com a ideia. — Isso exatamente destruir nossas chances até de criar a porra do plano!
— Ele estava bebendo garrafas de vodca direto do bico! Se eu sequer pensar em beber metade disso eu morro! — lembrou o barraqueiro da Geógia, ainda não totalmente derrotado — Se o fígado dele não for mutante, ele já está no mínimo desmaiado agora.
— Com tantos anos aqui, sabemos bem o quanto de vodca ele consegue aguentar... — continuou, tentando se explicar. — Eu só estou dizendo que…
— Se ele se matar, vão atrás da gente. — completou Eduard, com uma justificativa plausível que Toris não conseguiria pensar. Realmente, se algo acontecer com Ivan, a polícia daria um jeito de incriminá-los.
— Ele não vai se matar, até parece. — a menina revirou os olhos.
— Não duvido disso. — reforçou Toris, mas sabia que sua preocupação com Ivan levantaria suspeitos que poderiam colocá-los contra ele. Por isso não confiava ninguém para uma fuga.
— Se está tão preocupado com ele, então vá você checar. — o jovem da Geórgia desafiou, grunhindo, com as sobrancelhas unidas. — Mas se o fizer sair antes e nos atrapalhar…
Não só não confiavam, que pretendiam jogá-lo sozinho na toca do leão. Achava que deveria falar com Ivan, mas isso sozinho parecia suicídio.
— Só eu seria loucura...
— Qualquer número seria loucura. Mas se você insiste...
Toris se perguntou se estava mesmo preocupado. A verdade é que só queria tirar Ivan do porão para acabar com aquela ideia suicida de fuga. Mas também não consegui evitar se preocupar. Entendia o ponto de vista de Ivan, ele havia sido abandonado. Logo ele que tinha tanto medo de abandono que amava tanto companhia. Abandoná-lo agora seria falta de coração, nem ele merecia. Sim, por isso convenceria os outros a ficar.
— Insisto. — ergueu o queixo, decidido.
Não tentaram convencê-lo do contrário. Nem mesmo Eduard e Raivis, que eram seus amigos e viviam a boa intenção no fundo. Toris esperou em silêncio as discussões findarem e rumo ao porão. Abriu a porta rangente da longa escada que dava a dois andares abaixo da casa. Sua certeza sumiu junto com os degraus mais baixos, onde a luz do corredor não batia. Mas até por uma questão de moral não poderia voltar atrás. Fechou a porta atrás desse e desse seu temeroso os degraus infinitos, no breu total.
Passos leves, coração audível. Não sabia o que encontraria quando abrisse a porta de aço do porão. Debaixo dela saia um feixe de luz pelo vão, que cresceu triangularmente quando abriu a porta devagar, fazendo-a ranger ainda mais, como um gemido fúnebre.
— Senhor Ivan… — sussurrou, espiando dentro do cômodo.
O porão de Ivan era estranhamente iluminado e limpo, como um consultório médico de paredes cinza. A escuridão agoniante dos castigos fazia com um venda ou máscara. Um balcão cheio de todo tipo de lâmina e chicote, mas agora boa parte das armas estava espalhada pelo chão. No centro do cômodo, uma pequena figura de um grande homem a chorar abraçando os joelhos, movendo os ombros de soluços, o rosto coberto de cabelo loirinho e despenteado. Parecia tão vulnerável, como no escritório no dia anterior. Quem diria que um dia Ivan Braginsky estaria de joelhos? Toris sentiu pena. Pena e saudade, saudade do riso psicótico que mantinha tudo na normalidade. Agora entendia porque ele não o queria presente no jantar.
O rostinho inchado e sem sorriso se levantou para ele, como uma criança órfã vendo a mãe de outra criança.
— Toris?
Fale com o autor