Um Banco na Beira da Estrada
1 One Shot
Notas iniciais
Nada como uma viagem para esfriar a cabeça. Só eu e Liho.
Mas tudo o que é bom dura pouco, estou correta?
Me apoio em uma janela de frente da minha rua. Olho para o fundo da sala e vejo minha gata quieta no canto. Tomo um gole do chá quente e soltei um suspiro. Liho anda em minha direção e pula no sofá e depois na janela. Olhei para fora e vi uma garota de pele morena, óculos e cabelos castanhos sentada em um banco perto da rua. Com tantos carros passando, ela parece com a atenção bem fixa em um livro que não identifico.
Vamos, Natasha! À essa distância é quase impossível. Você não identificaria sem um equipamento adequado. Não que eu tenha me arrependido de ter deixado a S.H.I.E.L.D., mas há coisas que me dão uma certa saudade dos velhos tempos. Mesmo assim, não me arrependo.
A imagem daquela garota me deixa hipnotizada. Vejo, por fim, que distrações são boas as vezes. Devo admitir que algo naquela figura me deixa curiosa. E não é sem motivo. Com lugares mais silenciosos, ela decide ler na beira de uma estrada? Não faz muito sentido. Alguém bate na porta. Caminho até lá e a abro para minha vizinha.
— Olá, Ana. — falo.
Observo então que ela está com malas prontas.
— Bom dia, Natasha! — respondeu – Que bom que voltou! Eu só queria dizer que... você estava certa. Estou de partida.
— E veio se despedir? — questiono.
— Na verdade...
Ana é interrompida por Liho, que passa por nós mais rápido do que uma flecha de Clint. Desço as escadas rapidamente e só então percebo que ela já está do outro lado da rua. Espero os carros diminuírem a frequência e, com a chance, atravesso, pego a felina e volto.
Isso é realmente estranho. Liho é calma e gosta de ficar dentro de casa. Ela é muito parecida comigo: quieta e solitária. O que havia dado nela?
— Hey, ruiva! — chamou uma voz feminina.
Olho para o lado e vejo a garota que eu observava da janela. Não me parece de grande beleza, pois tem um nariz ligeiramente grande e usava aparelho em seus dentes. Seus olhos são castanhos. Pela cor de sua pele e o sotaque, eu presumo que seja sul-americana.
— Bom dia. — respondi.
— Senta aí! — ela pediu.
A encaro e tento formular uma boa desculpa para não o fazer, mas seus olhos castanhos me intrigam. Eu prefiro ficar só com Liho, mas aquela jovem de, no máximo, dezenove anos, tinha alguma coisa, algum brilho, que me atraia.
— Bom, por que não? — digo me sentando.
— Belo gato! Gosto de gatos. — falou.
— O nome dela é Liho. — respondo.
— Minha avó tinha uma gata. Ela era linda. Se chamava Natasha.
— Jura? Esse é o meu nome! — falo surpresa.
— Sou Thalita! — ela me estende a mão.
— É da América do Sul, certo?
— Sim, brasileira. — ela ri – Rio de Janeiro.
— E o que está lendo? — a pergunta sai quase sem querer.
Não sei porque pergunto. Deve ser o pensamento e a pitada de curiosidade que eu antes tinha, enquanto a via pela janela. A garota fecha o livro e me mostra a capa. Era laranja com cubos pretos, tendo eles uma letra em cada, escrito em vertical "JESUS" e em horizontal, ainda usando o "E" do nome, "FREAK". A escrita formava uma cruz.
— É uma Bíblia. — ela afirma.
— Conheço a Bíblia como um livro de capa preta de couro real ou sintético escrito "Bíblia Sagrada" em dourado! — afirmei.
— Existem varias traduções e capas diferentes para Bíblias. — ela afirmou – Essa é do movimento "Jesus Freak", quer dizer que geralmente, quem carrega esse símbolo, é um louco por Jesus. Eu procuro ser. Aliás, só tenho a agradecer a Ele! Foi Ele quem me trouxe aqui! — ela afirma sorridente.
— Então é uma seguidora de Jesus Cristo? — questiono, mantendo meu respeito que tenho por ela. Acredito, mas não sigo essa fé por motivos óbvios.
— Cristã? Com certeza! Você... suponho que não. — ela afirmou.
— Por que? — pergunto curiosa.
— Temos um... um brilho diferente. Conseguimos nos identificar. Alguém cheio do Espirito Santo sabe identificar a outra pessoa.
— Interessante. — falei. Mas quando vou me retirar...
— Mora por aqui? — ela pergunta.
— Bom... sim. — respondi. Não foi preciso dizer onde exatamente eu morava.
— Vi você saindo daquele prédio. — aponta para trás de mim, o prédio onde eu moro — Estou hospedada aqui perto. Vim do Brasil só para publicar um livro onde ele possa ficar famoso e virar um filme. — ela basicamente brinca.
— Um filme? Espere... é escritora? — ela prende minha atenção.
— Sim! E estudante de psicologia. Mas gosto de "escritora".
— Legal... e sobre o que é o seu livro?
— Uma garota japonesa que aprende com um rapaz russo o significado do amor. — ela diz, abrindo sua Bíblia — Mas logo vou escrever algo que seja parecido com a história do apostolo Paulo.
— Quem? — pergunto um tanto confusa.
— Um assassino que virou missionário. — dá de ombros.
Não sei porque me surpreendi quando ela disse. Já disseram-me que Deus sabia de todas as coisas, inclusive cada detalhe do meu passado, mas era um fato que tentei ignorar minha vida inteira. E com sucesso. Definitivamente, eu nunca pensei nisso. Nunca me importei com isso.
— Me parece uma história legal. — falo.
— Ela mostra que todos temos uma segunda chance.
— Imagino que nem todos. — me defendo, sem que ela saiba que é uma defesa.
— Quando Jesus morreu na cruz, ele pensava em todos nós e em pagar todos os nossos pecados, Natasha. Os pecados de toda a humanidade. E Ele sabia que alguns de nós faríamos valer a pena. Tenho certeza de que Ele faria tudo de novo.
— Morrer na cruz? — minha pergunta soa debochada – Sabe, eu entendo um pouco de história e uma morte de cruz está longe de ser algo legal.
— E você acha que foi? — ela pergunta – Pois não foi nem um pouco. E ainda foi pior a dele do que qualquer outra morte de cruz. Diferente dos outros, veio com brinde uma coroa de espinhos e os pulsos e pés pregados ao invés de amarrados. Não foi legal. Foi preciso.
— Não era só Deus perdoar e pronto? — digo levemente revoltada.
— Como hoje é? Hoje é assim porque Ele se sacrificou por nós. Na época, precisava-se de um animal puro para matar e derramar seu sangue como sacrifício. Jesus foi o cordeiro sem pecados que foi capaz de redimir a humanidade. Também é o Leão de Judá, que está sempre ao meu lado nas lutas que eu enfrentei por toda a minha vida.
— Como está ao seu lado se está morto?
— Cristo reviveu no terceiro dia! — diz como se fosse obvio.
— E você acredita?
— Dã! — ela respondeu.
— Mesmo assim, eu... isto é... há pessoas que não podem ser perdoadas por seus erros.
— Pois eu não acredito. — afirma a garota de calça jeans e regata branca.
— Thalía...
— É Thalita.
— Você acha mesmo que todos podem alcançar o perdão?
— Claro! Conheço pessoas que foram gays, pedófilos, prostitutas, drogados... mais ainda drogados, já que minha igreja do Brasil frequenta até hoje centros de tratamento para dependentes químicos. Conheço pessoas que tinham tudo para ir ao inferno e foram perdoados e vivem para Cristo hoje!
— E... conhece algum... — não sei se devo perguntar.
— Um assassino? Não, essa é nova. — ela falou.
Ela perguntou justamente o que eu iria perguntar. Isso me assustou. Ela é uma mutante? Telepata? De alguma forma, ela sabe. Prefiro não contar com a possibilidade de que ela está apenas dando palpites.
— Então...
— Mas é como diz um pastor que eu admiro: "Pecado, pecadinho, pecadão, só que não". Isto é, todo pecado vale por igual. Se é gay, drogado ou assassino, tanto faz! Tem uma chance de ser perdoado.
— Tem certeza? — questiono, pensando sobre isso.
— Claro! Vai que hoje é sua chance! E se sua gata... Liho, não é? Bom, e se ela correu porque Deus quis que você viesse aqui e falasse comigo? E se for tudo um propósito d'Ele?
Pensei sobre isso. Não é normal minha mente se perder e se distrair com qualquer coisa, muito menos com uma garota que lia um livro em um lugar barulhento. Não é normal Liho sair correndo pela rua. Não é normal eu parar para conversar com outra pessoa.
— Faz sentido. — respondo.
— Acho que foi por sua causa que o Espirito Santo me incomodou e me trouxe até aqui. Isso faz sentido também.
Minha mente estava louca. Nunca ninguém sentou ao meus lado e falou da salvação de Jesus, de seu sacrifício, da mesma forma que aquela garota falou pra mim. Começo a considerar suas palavras. Essa sim pode ser uma boa forma, a melhor forma, de ser boa. Me levantei, mas Thalita se levantou também e falou, colocando a mão na bolça ao seu lado:
— Espere um pouco. — ela retira uma pequena cruz de madeira, coloca em minha mão, e continua – Meu pastor aqui dos EUA deu essa cruz, uma para cada membro, e achei bom que você ficasse com ela. Se você acreditar n'Ele, com certeza vai ser aceita com amor. Está esperando por você há muito tempo do que você imagina.
— Guardarei isso. — respondo.
Ela me abraçou e sussurrou no meu ouvido: — Um destino um tanto original para uma espiã assassina, não acha, Viúva Negra?
Ela sabe. Agora eu tinha certeza. Antes que eu pudesse fazer qualquer coisa, ela põe o dedo indicador nos seus lábios e faz som de chiado, indicando o seu silêncio sobre o assunto. Com Liho nos braços e a cruz que Thalita me deu, voltei para meu apartamento considerando as palavras da jovem.
Eu tenho uma chance.
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