Um Ato de Amor
1 Capítulo Único
Um Ato de Amor
Por Pikenna
One-shot
"A força não provém da capacidade física e sim de uma vontade indomável."- Frase de Mahatma Gandhi
Era tarde de inverno, o sol se preparava para dormir no oeste, seus tons alaranjados se mesclando com o azul claro do céu, originando um leve tom rosado ao redor do astro. A neve branca e fofa cobria toda a extensão do enorme quintal de uma pequena e simples casa no meio da floresta.
Uma mulher de pele alva se encontrava sentada no meio do quintal, ladeada por várias árvores desfolhadas, cobertas pela neve. Seus cabelos negros em contraste com o tom de sua tez e de seus olhos esverdeados, semelhantes a duas esmeraldas, balançavam conforme o vento gélido vinha ao encontro deles.
Ela fitava o nada, concentrada em tentar sentir cada movimento da natureza. Sua mente vagava longe. Encontrava-se totalmente perdida em devaneios. Estava preocupada com alguma coisa que não sabia realmente do que tratava. Sentia o coração apertar, algo ruim aconteceria.
Não deveria se preocupar com nada, afinal, os mafiosos estavam presos há anos e só sairiam da cadeia, mortos. Ninguém mais podia machucá-la ou ferir seus familiares e amigos. Mas, ainda sim, uma sensação muito estranha afligia seu coração.
O nome de seu namorado a todo o momento aparecia em sua mente. Algo muito ruim estava acontecendo a ele e não conseguiria se acalmar enquanto não ouvisse a voz dele lhe dizendo que estava bem.
Subitamente, ela escuta uma voz gritar-lhe o nome. Conhecia muito bem a dona daquela voz melódica, pertencia a sua irmã caçula. Pelo tom, a jovem estava perturbada. Através do barulho dos passos dela, soube que sua irmã se aproximava.
_Anne! Anne! – A caçula continuava a chamar, enquanto corria na direção da irmã mais velha.
_O que houve Jéssica? Qual o motivo desse desespero todo? – A mulher de cabelos negros perguntou ao sentir o toque de sua irmã em seus ombros cobertos pelo enorme casaco de couro.
A jovem possuía os cabelos curtos que batiam no ombro, o mesmo tom negro que o da irmã mais velha, seus olhos caramelos em contraste com sua pele cor de bronze. Ajudou Anne a se levantar e lhe entregou seu guia, uma vara feita de metal longa, que a ajudava a caminhar e não se machucar com degraus e paredes.
Anne era cega. Ficou deficiente depois que os mafiosos lhe feriram os olhos. Até seus vinte anos conseguia enxergar perfeitamente, depois, tudo virou escuridão. Só voltaria a ver com uma doação de córnea, mas até lá demoraria muito, afinal a fila de espera era enorme.
_Um dos mafiosos conseguiu fugir da cadeia, o líder. E ele acabou de ligar... – Jéssica fez uma pausa, olhando para a irmã, em busca de uma má reação da mesma. Contudo, Anne permaneceu quieta, apenas tentando escutar atentamente o que a caçula dizia – Ele está com muito ódio de você por tê-lo colocado atrás das grades. Quer que você vá ao encontro dele... Se não for, ele matará o Sthepan.
_Jéssica, arrume uma mochila para mim com armas, mantimentos e roupas. Vou atrás do meu cão guia. – Anne falou, a voz transmitindo medo.
_Claro que você não vai. Perdeu o juízo? É um blefe. – A irmã caçula tentou impedir a mais velha, a voz afônica.
_Ele está com meu namorado, o único homem que me amou verdadeiramente todo esse tempo. Não adianta, eu vou e nada vai me impedir, muito menos você. Se ele morrer eu morro junto. Sem ele a vida não tem mais graça para mim. Agora vá rápido, faça o que eu lhe pedi. – Anne ordenou, caminhando rapidamente a procura do cão.
A irmã mais nova correu até ela, lhe deu um rápido abraço, permitiu uma lágrima cair de seus olhos e correu para dentro da casa fazer o que Anne lhe pediu. Jéssica sabia que não conseguiria impedir a irmã. Seus olhos já se encontravam marejados de lágrimas.
Se Anne realmente fosse atrás de Sthepan, ela não voltaria com vida e Jéssica não queria perder uma irmã. Estava derribada, sem saber o que fazer. Pegou um banco na cozinha e o levou para o quarto, usando-o para subir e alcançar uma mochila que se encontrava em cima do guarda-roupa feito com madeira pura e escura.
Assim que pegou a mochila, abriu o guarda-roupa e começou a pegar algumas peças de roupa e jogar dentro da mesma. Depois arrancou a última gaveta e retirou uma tampa falsa, revelando um fundo feito no armário. Pegou duas armas de porte pequeno e guardou na mochila junto com a roupa.
Em seguida, correu até a cozinha e procurou por alguns mantimentos que não estragavam facilmente. Embrulhou-os cuidadosamente com papel alumínio e guardou na mochila. Estava tudo pronto.
Foi ao encontro de sua irmã. Ela acariciava um enorme cão da raça São Bernardo. Parou com o gesto assim que percebeu a presença da caçula. Jéssica chorava muito, desolada com a vontade de Anne de ir atrás do namorado para salvá-lo.
_Ele falou onde devo encontrá-lo? – Anne perguntou, tentando mostrar-se forte e corajosa.
_Na fábrica abandonada que fica no alto da colina há dez quilômetros daqui. – Jéssica respondeu, a voz embargada pelas lágrimas que teimavam em cair de seus olhos.
_Se cuide irmã. Eu prometo que voltarei. – Anne disse, procurando consolar a caçula. Pegou a mochila com Jéssica, abraçando-a em seguida.
Ficaram assim, abraçadas, um longo tempo, até que a mais velha se soltou. Despediu-se de Jéssica e com o cão como guia, partiu, em busca de Sthepan. Não fazia idéia de como o salvaria, mas tinha fé que conseguiria. Seu coração a guiaria na hora certa e seu anjo da guarda a protegeria.
Essa era a única coisa que a confortava. Se não possuísse fé, com certeza estaria perdida. Não possuía medo da morte, pois sempre aprendera em sua vida que a morte é apenas uma passagem para outro mundo que se situa em um plano superior a esse.
Caminhou durante algumas horas, fazendo algumas paradas necessárias para comer e descansar. Logo chegou a fábrica abandonada, a qual se encontrava em um estado deplorável. Não funcionava há anos e por isso o seu estado atual era decadente. Com a ajuda do cão e de seu outro guia, Anne respirou profundamente e entrou na fábrica silenciosamente.
Teve um pouco de dificuldade, afinal, a fábrica estava totalmente coberta tanto pelo mato que crescia ali, quanto pela neve. Andava com cuidado, para não ter o perigo do chão se abrir sobre seus pés. Com o sentido do tato, foi seguindo as paredes.
Escutou um grito, como se alguém acabasse de sofrer uma tortura. Seu coração acelerou de medo, o pavor tomou conta de seu corpo. Aquele grito provavelmente era de Sthepan. Estava desesperada para encontrá-lo, se ele morresse sua vida não teria mais sentido.
Começou a apressar os passos, tentando alcançar seu amado o mais rápido possível. Virou a esquerda, guiada por seu cão. Encontrou uma porta e a abriu. Devido à ferrugem da mesma, a porta fez um enorme barulho. Com medo, ela adentrou no local.
Todavia seu cão parou, deitando no chão. Ela tentou puxá-lo, mas ele não se levantou. Algo o deixou assustado e o cão não quis continuar. Então, vendo que não tinha solução, Anne soltou o cachorro. Ela o mandou ficar ali, esperando por ela.
Subitamente, Anne escuta passos se aproximando. Um calafrio perpassou dos seus pés até sua cabeça, fazendo-a se arrepiar. Escutou uma risada maléfica, que a aterrorizou. Abriu a mochila e pegou uma das armas, colocando-a dentro da calça jeans que usava, prendendo-a no cós.
_Então a ceguinha resolveu aparecer. Você é completamente idiota, pensou que conseguiria salvar seu amado? Uma cega como você? Posso ficar totalmente em silêncio que você jamais saberá onde estou. – Uma voz grossa e que transbordava maldade falou.
_Onde está Sthepan? – Anne perguntou, suas pernas tremendo de medo. O cão chorava, parecia que também estava assustado.
De repente, um estrépito, semelhante a um tiro de revólver e o choro do cachorro não pode ser mais escutado. O animal foi silenciado. As lágrimas dos olhos claros de Anne já rolavam pelo seu rosto. Queria gritar, queria correr, mas não podia, não sairia dali sem Sthepan.
_Esse seu cachorro já estava me irritando, agora podemos conversar sem interrupções. – O homem falou.
_O que quer de mim? Já não basta ter me tirado a visão, me machucado, me traumatizado! – Anne gritou, a voz totalmente embargada.
_Não foi o suficiente, você não aprendeu a lição. Colocou-nos naquele inferno de prisão. Agora, vai pagar caro. Primeiro, vou torturar seu namorado na sua frente e depois matá-lo. Em seguida vou torturar você até pedir meu perdão. Estou até pensando em fazer uma visita para sua irmã mais nova... Sei que ela ainda é virgem. – Ele disse, dando uma gargalhada maléfica.
_Se tocar um dedo na minha irmã, juro que te mato. – Anne falou, a cólera e o ódio subindo-lhe a cabeça.
_Acho que não. – O homem se aproximava da mulher de cabelos negros. Ela escutava o barulho dos pés dele em movimento. Tentava se concentrar para atirar nele, contudo, em vão.
Ele a pegou pelos braços, empurrando-a até uma parede dura com uma força desnecessária. Anne bateu as costas, sentindo uma dor lancinante. O homem segurou seu rosto, o toque pesado, compelindo-a a ficar cara a cara com ele. Se ao menos pudesse ver...
_Seja boazinha e talvez eu lhe poupe um pouco da dor. – e então ele deu um tapa no rosto dela, soltando-a.
Escutou-o novamente andar, agora se afastando. Ele deixou o quarto, estava sozinha. Pegou a arma que prendera no cós da calça jeans e a escondeu atrás de si. Assim que ele voltasse, atiraria. Já estava preparada para isso, quando o homem se aproximou de novo. Ele arrastava algo, talvez alguém.
Anne congelou. Não poderia mais atirar, se não correria o risco de matar seu próprio namorado. Estava desolada, não sabia o que fazer, como prosseguir. Seu cão tinha sido assassinado e Sthepan estava para ser torturado na sua frente.
_Agora, você vai escutar os gritos de seu namorado. – O homem falou.
_Não, vou lhe matar primeiro. – Ela disse. E em um ato de desespero, pegou a arma e apontou para sua frente. Suas mãos tremiam.
_Claro que não fará isso. Estou usando nesse momento seu namoradinho como escudo. Atire e vai matá-lo. – O tom de voz do homem era de zombaria, ele estava brincando com Anne.
_Por favor, deixe-nos ir, prometo que ficará livre para sempre. – Anne começou a implorar, não conseguindo segurar as lágrimas que teimavam em cair de seus olhos.
_Tarde demais gracinha. – A mulher começou a escutar vários chutes sendo dado em Sthepan.
_Pare. – Ela gritava desesperada. – Pare. – Ela pedia com eloquência.
_Anne... – Sthepan sussurrou, a voz fraca, quase sumindo.
Anne não suportou, correu em direção ao homem, escutava-o chutar seu namorado. Tentou acertar uma coronhada nele, contudo, ele a segurou, jogando a arma no chão. Deu mais um tapa no rosto dela e a jogou longe, fazendo-a bater as costas com violência na parede mais uma vez.
Ele avançava na direção dela, uma fúria incontrolável transparecendo em seu rosto. Levantou-a e a segurou pelo pescoço, querendo enforcá-la. Anne já estava ficando sem ar quando sentiu as mãos do homem se afastar. Escutou alguns barulhos, tentava decifrar o que era, mas não conseguia. Foi então que ouviu um fragor. Um tiro acabara de ser disparado.
_Sthepan! Sthepan! – Ela chamou aterradora.
_Eu... Estou... Aqui. – Ele respondeu com dificuldade. – Matei...
Anne tateava o lugar inteiro em busca de seu namorado. Tropeçou em um corpo. Colocou a mão sobre ele e sentiu um liquido viscoso lambuzar-lhe o tato. Era sangue, conseguia sentir o cheiro forte, rançoso do liquido.
_Ai meu Deus. Sthepan? – Ela perguntou afônica.
_Anne... Estou aqui. – Ele respondeu, a voz vinha de outro lugar. Deduziu que aquele corpo era do chefe dos mafiosos. Então, acabou? Finalmente acabou? Ele estava morto...
Voltou a procurar novamente pelo seu namorado e quando o encontrou, sentiu um alívio enorme. Uma felicidade grande se apoderou dela. Aquilo parecia inacreditável. Anne o abraçou com força.
_Ai... Estou dolorido... – Sthepan falou, um sorriso pequeno, mas verdadeiro, riscando os lábios dele.
_Que bom que está bem. Fiquei tão preocupada... Eu... – Ela tentou dizer, mas as palavras não vinham, era muita emoção.
_Não diga nada... O... Ai. – gemeu ele – Importante é que estamos vivos.
Anne o ajudou a se levantar, apoiando-o em seu ombro direito. Assim que saíssem daquela fábrica, deixaria para traz esse dia fatídico e sumiria para outro país com seu namorado e sua irmã. Mandaria que buscassem seu cachorro para enterrá-lo, afinal, ele merecia descansar em paz.
Com dificuldade e morosamente, o casal conseguiu sair daquele âmbito. E, quando Anne pode sentir o vento tocar-lhe a tez, ela se permitiu esboroar, ajoelhou-se no chão, as lágrimas indo de encontro à neve branca. Sthepan ajoelhou na frente dela e a abraçou.
Aquele abraço significou muito para Anne, sentia-se protegida. Aquela desforra tinha lhe sugado as energias e todas as suas forças. Não estava contrita do que decidiu fazer, Sthepan e Jéssica eram seus tesouros, tudo o que possuía de mais precioso nessa vida. Moveria mundos para salvá-los. Mas estava totalmente cônscia de que aquilo que fez foi loucura.
Podia ter chamado a policia, ter pedido ajuda aos amigos próximos, mas na hora, não pensou em nada disso. Só tinha uma coisa na cabeça, salvar seu namorado. Talvez, se não fosse pela coragem dele de atirar naquele homem torpe, ela não estivesse mais viva.
Sthepan, percebendo que Anne se encontrava confusa, em uma guerra de pensamentos, ele a soltou de seu abraço e, segurando com fineza o queixo dela, a fez olhar para ele. Com carinho, Sthepan depositou um leve beijo nos lábios rosados de Anne.
Com aquele ato, os pensamentos da mulher de olhos esverdeados se esvaíram. Sua concentração voltou-se ao homem que a beijava e sem pensar em mais nada, deixou-se levar por aquele ósculo, correspondendo-o. Para ele, tal gesto significava muito e bastava para esquecer por alguns segundos todos os seus problemas.
Porque afinal, ela amava Sthepan. Ele era seu namorado, o homem por quem daria sua vida, o homem que desejava passar ao lado pelo resto de sua humilde vida. E, foi com esse ocorrido, que Anne pode perceber que nada e ninguém podem separar um grande amor, porque com a ajuda da fé, o amor vence tudo...
E apesar do medo que passara, Anne estava feliz e nunca se esqueceria de agradecer aos céus por ela e Sthepan terem sobrevivido.
_Te amo Sthepan, sempre. – Ela sussurrou para ele.
_Também te amo, sempre. – Ele repetiu, voltando a beijar Anne.
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