Um Amor Sem Fronteiras
15 Desvendando Alguns Mistérios - Parte I
Notas iniciais
De trás da sepultura ergue-se uma garota de rosto assustado, branca, de olhos verdes claros e cabelos ruivos compridos. Com olhos arregalados, caminhou até o corpo de Samantha e, depois, saiu correndo até a casa vizinha, onde agarrou uma senhora pelo braço.
– O que é Bianka? – perguntou a mulher. – O que aconteceu?
Bianka fazia sinais e em sua mudez desesperada, conseguiu afinal arrastar a mulher até a capela. Quando dona Alice chegou lá e viu Samantha caída, levou as mãos à cabeça.
Dali a pouco outras mulheres chegaram correndo.
– Antigamente havia um cadeado fechando o portão daquele cômodo – explicou dona Alice enquanto Samantha, na casa da mulher tomava um cafezinho e um grupo de senhoras conversavam todas ao mesmo tempo. – Mas mesmo assim, Bianka pulava o portãozinho e ia se esconder atrás do túmulo. Aí, a gente desistiu e tirou o cadeado porque ela poderia ainda cair e se machucar ao saltar o portãozinho.
– Por que ela gosta de ir lá? – perguntou Samantha, ainda impressionada.
– Quem é que sabe? – e dona Alice encolheu os ombros. – Mania de boba, vai ver. Cá pra mim – e baixou à voz – essa menina é mesmo biruta. Eu se fosse à mãe dela, dava um jeito de internar a tadinha numa clinica de saúde antes que se ponha a fazer coisas piores por aí. Afinal, quem não tem a cabeça no lugar pode cometer as maiores maluquices. Nuca se sabe, não é?
Samantha não respondeu, mas, depois daquela pergunta começou a pensar em uma porção de coisas... Por isso, sentiu um arrepio que lhe estremeceu o corpo inteiro. Um arrepio pior do que sensação de febre.
Só depois de obter a promessa de que as mulheres não comentariam com ninguém do casarão o que havia acontecido que Samantha saiu.
Caminhando devagar a sombra das palmeiras da avenida, Samantha remoía os pensamentos que pouco faltavam para ferver. O que deveria fazer? Sentia-se ainda mais desnorteada! Sua primeira intenção era pegar um ônibus e fugir para Acácia, onde ficaria livre daquele clima pesado. Mas fugir não era a melhor saída. Além disso, havia Luna.
Naquele momento, olhou para a casa de seu Aurélio, localizada atrás do casarão, e fez um movimento afirmativo com a cabeça:
– Talvez dona Lucinete tenha algo de novo para me contar...
Animada com a decisão, desceu pelo caminho a cascalhado, contornou o jardim do casarão e seguiu por uma trilha no gramado até a casa de tijolos à vista. A construção não era muito recente, mas obedecia a linhas modernas, em um violento contraste com o casarão. Talvez por isso tivesse sido construída atrás do casarão para não ser vista por quem chegasse pela alameda das palmeiras.
Ela subiu um caminho de pedras que cortava um pequeno pomar de laranjeiras à frente da casa. As árvores estavam carregadas de frutos amarelos. No alpendre havia muitos vasos com samambaias cujas folhas compridas chegavam quase ao chão.
A porta estava aperta, do radio vinha música sertaneja.
– Posso entrar? Perguntou Samantha.
– Entre, entre! Respondeu uma voz lá do fundo. – Estou na cozinha.
Samantha entrou. A sala era espaçosa, tinha apenas um jogo de sofá, uma mesinha com uma TV antiga e na parede, dois quadros: o Sagrado Coração indicando a chaga e Nossa Senhora. Em cima avia uma espécie de cavidade aberta na parede na qual avia uma Nossa Senhora Aparecida com uma luz acesa no alto da cabeça. O chão estava brilhando de encerrado. Samantha passou para a cozinha, e a primeira coisa que viu foi o radio em cima da geladeira vermelha. Dona Lucinete olhou para trás. Estava com um lenço na cabeça e usava chinelo de dedo. Era baixinha risonha, e fofa.
– Oi, Samantha, como vai? Não reconheci sua voz...
– Bem, e a senhora?
– Tocando a vida como Deus deixa. Quer um cafezinho? Está quentinho...
– Sim, obrigada...
Dona Lucinete serviu o café, e Samantha começou a tomar aos golinhos;
– Incomoda-se se eu continuar sovando meu pão? – perguntou dona Lucinete mostrando a massa na bacia.
– Claro que não! Fique à vontade. Eu estou passeando e a senhora esta trabalhando. Cadê o Lipe?
– Enfiado aí por esses campos. Estão escolhendo uma quadra de terras para uma plantação de limoeiros.
– E seu Aurélio?
– Junto, lógico. Onde está um está o outro.
Samantha mordeu os lábios e por fim, tocou no assunto que a havia levado até a casa.
– E Bianka?
Dona Lucinete demorou a responder:
– Quem é que sabe?! Por aí, também...
Samantha levantou-se e se aproximou de dona Lucinete que, de um momento para outro, havia assumido uma expressão angustiada.
– Bianka é quase da minha idade, não é? – perguntou.
– Tem 13 anos.
– Nasceu muda?
– Não, não. Ficou muda quando estava com seis anos. Foi muito triste
– Se a senhora não quiser falar do assunto...
– Não, eu quero sim! Me alivia um pouco, sabe? Porque falando, pode ser que algum dia a gente endenta o que aconteceu. Isso porque até hoje ninguém entende...
– Não? Como foi?
– Bem, a gente morava de pouco aqui na fazenda. Aí, vieram dona Olivia e seu Vinicius pra morar aqui na fazenda depois que os antigos patrões resolveram vender o lugar. Aí, chegaram também às duas crianças: Vivi e Luna. No começo não sabíamos se deveríamos deixar nossos filhos brincar com as filhas deles. Afinal, eram gente estudada, gente rica, gente da cidade...
– Eu entendo.
– Mas foi bobagem pensarmos que eles seriam orgulhosos. Logo descobrimos que dona Olivia e seu Vinicius eram ótimos, não tinham um pingo de orgulho e, por isso, as crianças ficaram amigas. Pareciam quatro irmãos! Onde estava um, estavam os outros. Aprontavam cada reinação que quase me deixavam louca!
Dona Lucinete sorriu triste e, depois, continuou:
– Vivi sempre foi à mandona do grupo. O único que ela não conseguia dobrar era o Lipe. Os dois não se bicavam, entende? Estavam sempre discutindo e, às vezes, até rolavam, aos sopapos, pelo chão.
– Não diga!
– Vivi não era do tipo de menina que desistia por nada. Quando queria uma coisa, queria mesmo! Daí o Lipe acabou se afastando do grupinho que ficou reduzido a três crianças. Bianka adorava Vivi, vivia dizendo que queria ser igualzinha a ela, queria usar roupa igual à dela, penteava o cabelo do jeito dela. Nuca vi uma amizade tão grande assim!
– E a Luna?
– Vivi sempre mandou nela também. O que ela falava para Luna era lei
Samantha suspirou.
–As três eram muito curiosas – continuou dona Lucinete. – Ora na estrebaria, ora no lago, ora na colônia... sempre mexendo em tudo, vendo tudo, querendo saber tudo. Até que um dia... aconteceu a desgraça!
– Como?
– Certa tarde, sem autorização de ninguém, Vivi pegou a chave do casarão que ficava fechado e foram xeretar lá dentro. Os patrões guardavam aquela chave com o maior cuidado, não queriam que ninguém entrasse lá. Afinal existiam coisas de muito valor lá dentro e as crianças poderiam quebrar...
– E o que aconteceu? – perguntou Samantha, muito curiosa.
– O que aconteceu direito lá dentro, a gente nuca vai saber – concluiu dona Lucinete. – O que Vivi contou é que Bianka se assustou com o retrato de Ana Beatriz e desmaiou de medo e, ao acordar... estava sem voz.
– Meu Deus! Então foi um choque emocional!
– Os médicos acharam que sim, mas a gente não sabe, só acredita nas palavras de Vivi porque a Luna, depois que saiu daquela casa, disse que não se lembrava de nada que havia acontecido lá dentro.
– E já fizeram tratamentos em Bianka?
– Sim, claro! Fizemos internações, levamos a menina a uma série de médicos. Seu Vinicius e dona Olivia queriam até leva — lá para o estrangeiro, sentiam-se responsáveis porque foi a Vivi quem pegou a chave e convenceu de levar as crianças para visitarem o casarão. Mas eles não tiveram a culpa de nada, coitados! Ninguém teve. Foi só uma brincadeira de crianças, nada mais.
– Que triste! – murmurou Samantha impressionada. – Eu não sabia!
– Pois é, foi muito triste mesmo! Não gosto de contar este caso a ninguém porque até hoje dona Olivia chora quando fala dele. Então, para evitar... Sabe, nós gostamos muito de dona Olivia e seu Vinicius, não queremos que eles sofram mais por uma coisa da qual não tiveram culpa, entende?
– Sim, claro que entendo! – murmurou Samantha meio constrangida.
– Bem, agora falemos de coisas alegres – propôs dona Lucinete espantando a tristeza. – conte-me um pouco a respeito da sua vida.
Samantha então mudou de assunto e começou a falar. Mas no fundo, continuava mesmo com o pensamento ligado em tudo aquilo que tinha acabado de ficar sabendo.
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