Um Amor Para Recordar
31 Capítulo 6 — Lista de encontros
Notas iniciais
Annabeth
É engraçado aquilo que uma pessoa irá recordar tantos anos depois: o que fica guardado em nossa mente e o que não fica. É engraçado que cada momento meu com Percy fosse sendo recordado a cada minuto. Lembranças invadiam minha mente de um jeito que eu não conseguia entender.
Tamborilava os dedos na minha barriga no ritmo de "She will be Loved" do Maroon 5. A música que ele tocara há tanto tempo naquele teste de escola. Deitada em minha cama, estava envolvida numa preguiça arrebatadora que te transforma num tetraplégico assim que o despertador toca. Não estava com sono, ao contrario, encontrava-me bem desperta. Mas simplesmente perdera qualquer vontade de me levantar, tomar o meu café e me arrumar e ir para qualquer lugar na cidade para fazer uma coisa qualquer.
Não tinha o que fazer hoje, apesar de ser uma manhã de segunda feira e Nova York já se encontrar no seu ritmo frenético. A Broadway não funcionava nas manhãs de segunda feira e naquela em especial, eu também não.
Depois de muito enrolar reuni forças e rolei na cama para me certificar de que tudo ainda funcionava.
Como um zumbi, levantei-me e sai para o corredor estreito do meu apartamento. Ao chegar à sala de estar ouvi risadas vindas da cozinha: Jason deveria estar lá. Calculei se seria bom interrompe-los para pegar algum pão ou coisa parecida e depois vir tomar o café na sala. Se a situação fosse inversa, eu jogaria a manteiga na cara de Piper.
Optei por voltar ao meu quarto e me trocar. Voltei para a sala e abri a porta silenciosamente, sendo interrompida por um pigarro baixo. Olhei para trás e encontrei Thalia sentada no sofá já vestida.
— Vai sair? — ela perguntou num sussurro.
Assenti com a cabeça.
— Então vamos juntas.
Ela levantou-se e enroscou seu braço no meu. Juntas descemos no elevador e caminhamos até o Starbucks mais próximo, ou seja, o da nossa rua. Havia milhares daquele em todos os lugares. Uma bela jogada de marketing tem que assumir.
Sentamo-nos numa mesa do lado de fora. Thalia estudou-me.
— Porque você está tão quieta? — ela indagou.
— Apenas... Não encontro o que falar — murmurei.
Thalia riu.
— Percy e o encontro enigmático mexeram com você — Thalia comentou — Não vai me contar sobre?
— Claro que vou — confirmei — Mas primeiro eu quero comer um donut.
Pedimos o tal donut e depois de terminar de comer, comecei a contar.
Thalia ficou atenta e exigiu todos os detalhes. Enquanto contava as imagens iam passando na minha mente como um deja vu. Assim que terminei, ela ficou me encarando e depois sorriu.
— Você quer mais.
— Como?
— Ele te deixou com essa vontade desesperada de encontrar ele de novo, proposital ou involuntariamente, mas deixou. — ela explicou — Liga pra ele!
— Thalia, por favor — suspirei — Não posso ligar para ele, ele vai pensar que estou desesperada.
— Mas você esta desesperada. — ela disse como se fosse obvio, e talvez fosse — Certo, não está agindo como uma. Mas eu vejo que você quer mais.
Ri.
— Você esta certa — assumi — Eu quero mais. Mas não vou ligar.
Thalia revirou os olhos.
— Annabeth, Annabeth... Eu não vou falar nada pra você. — Ela levantou-se e olhou em volta — Ali! — indicou uma loja.
— O que é que tem?
— Tem cara de que está precisando de uma vendedora bonita e comunicativa, eu vou lá. — ela explicou — Você fica aqui! Volto com um emprego.
Bufei.
— OK, pode ir.
Assisti pacientemente enquanto Thalia atravessava e entrava na tal loja. Tantos anos se passaram e Thalia era a mesma. Não tenho certeza se posso dizer o mesmo de mim.
Já fui uma garota doce e tímida, preocupada mais com suas notas e em ter um futuro grandioso. Agora não mais. Nem sequer entrei na faculdade. Terminara os estudos em Nova York e depois me esforcei no teste. Trabalhei em alguns teatros menores até conseguir um papel secundário numa peça da Broadway e depois de muita luta finalmente era a principal.
Thalia me desperta dos meus pensamentos com um estalar de dos.
— E então, conseguiu? — perguntei.
Ela soltou um riso e depois sorriu de orelha a orelha.
— Consegui sim! Mas não como vendedora e muito menos naquela loja. Assim que eu disse a gerente que fizera medicina, ela deu um pulo! — Thalia contou sorridente — Ela contou-me que seu tio era o chefe de uma clinica particular e precisava de algum médico e eu vou ir lá amanhã para uma entrevista.
Fiquei boquiaberta.
— Mas você não disse que não queria trabalhar como médica? — indaguei.
Thalia suspirou.
— Eu sei que disse isso, mas quero me dar essa oportunidade. Gastei uma vida fazendo essa faculdade — ela explicou melancólica — Mereço uma chance.
Meus olhos marejaram.
— Sim, você merece.
Thalia me sufocou com um abraço, comecei a rir e ela me acompanhou.
— Certo, depois do seu discurso eu tomei coragem e vou fazer alguma coisa — decidi.
Ela me encarou.
— Você não esta pensando...
— Em ligar para Percy? — completei — Claro que estou.
Peguei as minhas coisas e voltei para casa, ao chegar havia um bilhete de Piper "Eu e Jason saímos, fui conhecer os pais dele. Me desejem sorte!". Perguntei-me porque ela usou o plural quando vi algo mais anotado lá embaixo. "P.S. Já descobri sobre a sua amiga, Thalia. Achei-a uma graça".
Joguei-me no sofá e peguei o telefone. Disquei o número de Percy torcendo para que ele já estivesse acordado. Depois de chamar três vezes ele atendeu.
— Alo? — ouvi sua voz, ele devia ter acabado de acordar porque seu tom indicava sonolência.
— Olá Percy — disse casualmente — Aqui é Annabeth.
— Ahh, olá Annie. A que devo o prazer de ouvir sua voz? — ele zombou e eu ri.
— Eu... Bem... — pensei numa desculpa qualquer, deveria ter feito isso antes de ligar — Bem... Não vou mentir: eu queria ligar para você.
— Se você quer saber, eu estava pronto pra ligar pra você e lhe chamar para almoçar. Você aceita?
— Hmmm — fingi pensar a respeito — É, eu estou livre hoje na hora do almoço.
— Maravilha, posso passar ai ás 11h30min então? — Percy perguntou.
Olhei em volta.
— Acho melhor não... Ei, eu tive uma ideia! — exclamei.
— Fale.
— Posso passar na sua casa e fazemos o almoço juntos — hesitei — Como antigamente.
A respiração de Percy ficou ofegante.
— É uma ótima ideia — ele concordou — Então você passa aqui as 11h30min?
— Passo sim.
Ele desligou o telefone e eu o enganchei ao aparelho. Soltei um longo suspiro. Tinha um almoço com Percy, tudo estava ótimo.
***
Algumas horas depois eu estava parada em frente ao prédio de Percy. Subi até o seu apartamento e toquei a campainha. Ele atendeu com um sorriso no rosto. Estava vestindo um daqueles aventais de cozinha e uma camisa amarela por baixo, que eu achei social demais para a ocasião.
— Olá Percy — sorri.
— Olá Annie.
Dei-lhe um beijo no rosto e entrei na casa. Fiquei parada na sala esperando Percy fechar a porta.
— Então, como você esta? — ele perguntou.
— Estou bem e você?
— Também.
Ficamos num silencio constrangedor por alguns minutos. Era estranho conversar com ele casualmente. Percy quebrou esse silencio com uma alta gargalhada.
— Porque esta rindo? — indaguei — Tem algum problema comigo?
— Não — ele respondeu entre risos — O problema somos nós dois.
— Como é que é?
— Porque estamos tentando parecer duas pessoas que acabaram de se conhecer?
— É como se quiséssemos recomeçar — observei.
Percy sorriu.
— Esse é o problema — ele disse — Eu não quero recomeçar.
Encarei-o indignada, incrédula, encabulada e qualquer outro adjetivo que possa definir uma pessoa que está totalmente confusa.
— Q-que? — gaguejei — Mas Percy...
— Annabeth, eu não quero apagar o passado — ele explicou — Apesar de tudo, temos lembranças boas juntos, e até mesmo as coisas ruins eu quero comigo. É bom ter lembranças, são elas que nos constroem. E eu não quero um novo começo com você, porque em primeiro lugar, nós nunca tivemos um fim.
Continuei encarando-o formulando alguma coisa pra falar.
— Era pra você ser um machão — falei.
Percy arqueou a sobrancelha.
— Que?
— Você se passa por machão sem sentimentos para a mídia e me fala uma coisa dessas.
— Eu não me passo por machão sem sentimentos! — ele protestou — Eu apenas me... Conservo-me para que eles não me destruam.
— Você não se conversa — retruquei — Você se esconde. Esconde-se por que eles já te destruíram. Destruíram-te com criticas e perguntas. Então você cria outra pessoa pra ser para se esconder!
— Você tem razão — Percy suspirou — Sim, eu me escondo. Escondo-me de toda a mídia — ele confirmou num tom ofegante — Mas eu não criei outra personalidade. O cara "machão", o bad boy que você esta vendo agora, sou eu.
Aproximei-me dele, permitindo que seus olhos focassem somente em mim.
— Talvez sim Percy — falei — Mas nós dois sabemos que é irrelevante.
Percy focou em mim.
— Eu posso não saber muitas coisas — ele ofegou — Mas sei que este momento, agora, está muito estranho.
Revirei os olhos e me afastei.
— Você não pode levar nada a sério? — reclamei — Meu Deus Percy.
Percy riu.
— Desculpe-me. É que... Bem, eu estou com fome e o papo estava estranho. Podemos por favor, começar a fazer o almoço?
Suspirei.
— Esta bem — resmunguei — Mas vai logo.
E assim passamos a meia hora seguinte cozinhando, enquanto Percy contava piadas fajutas e falava sobre as coisas idiotas que ele passava sendo um astro do Rock.
— Eu me lembro de que uma vez — ele recordou — Fui jantar na casa do Justin.
— Como é que é? — indaguei — Você esta brincando comigo?
Percy sorriu.
— Na verdade sim. Ele me convidou, mas eu tinha um show e então ele nunca mais falou comigo.
Ele soltou um longo suspiro.
— Ele não sabe o que esta perdendo — murmurei.
— O que?
— Nada, esquece. — Provei o nosso "risoto" e avaliei — É, já está pronto. Arruma a mesa?
— Ok.
Colocamos os pratos, os talheres e depois coloquei o risoto numa travessa. Levei até a mesa e servi. Percy provou e fez uma careta.
— Não gostei da consistência — ele disse.
— Você sequer sabe o que é isso? — questionei, entre risos.
— Não, mas os caras do "Top Chef" sempre falam esse tipo de coisa.
— Tinha que ser o Percy.
Quando estávamos quase acabando, Percy se espreguiçou.
— Sabe? Esse pode ser o inicio de uma lista de encontros diferentes.
— Como assim lista de encontros? — indaguei — Você...
— Desculpe, estou me adiantando né?
— Não, não, é que... Não entendi essa historia de lista de encontros.
— Bem, nós já fomos jogar paintball, agora nós mesmos preparamos o nosso almoço, eu pensei... — Ele hesitou — Pensei que podíamos fazer isso mais vezes sabem?
— Está me convidado para mais encontros?
— Sim e não. Estou te convidando para mais encontros, mas não encontros comuns, quero fazer coisas diferentes — Percy explicou — Você sabe... Nada de jantares num restaurante francês caro, coisas inusitadas.
— Eu aceito — disse — Vai ser interessante.
— Ótimo.
— Ótimo.
Olhei no relógio e vi que já era 13h30min.
— Oh meu Deus, Percy, desculpe eu tenho que ir.
— Ok, eu chamo um taxi ou você veio de carro? — ele perguntou.
— Não preciso, eu vim a pé. E...
Pensei se deveria contar que nunca tirei a minha carteira de motorista, mas desisti.
— E eu volto desse jeito mesmo — completei — Na verdade, não vou voltar pra casa, vou ir para o ensaio.
— Está certo, eu te levo até a porta — ele decidiu e não objetei.
Fui até a porta com Percy e lhe dei um beijo no rosto.
— Eu te ligo, ou você me liga. Ai nós combinamos o nosso próximo encontro.
— Claro, pode deixar.
Estava indo embora quando ele segurou meu braço.
— Ei, eu posso ir te ver algum dia?
— Como?
— Ir ver a sua peça — ele explicou — Quando é a próxima apresentação?
— Quarta-feira e... Eu adoraria te ver lá.
— Certo, eu vou comprar os ingressos.
— Certo.
Acenei e desci as escadas correndo. Agora que Percy ia me assistir eu precisava mesmo ensaiar.
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