Um Amor Para Recordar
42 Capítulo 17 — Cega, muda e sem movimentos
Notas iniciais
Annabeth
Tudo era negro, tão escuro. Eu não conseguia ver nem a mim mesma.
Eu os ouvia, é claro. Mas não era nada muito claro para mim, era complicado entender porque eu não lembrava quem eles eram. Era como ser cega muda e tetraplégica. E talvez eu fosse, mas não conseguia me lembrar do porque de estar nessa escuridão toda e nada antes disso.
Eu os ouvia chorar, e falar sem parar usando termos médicos que eu já ouvira, e talvez algum dia eu soubera o que significavam, mas hoje me pareciam outra língua.
Os termos médicos não eram a pior coisa, mas sim as lagrimas. Elas eram horríveis, eu as sentia caindo sobre mim e sentia uma vontade avassaladora de abrir um guarda chuva e me proteger. Em um dia (ou era uma noite? Bem, é impossível saber com essa escuridão toda) não foi uma chuva, mas sim uma tempestade, e a pessoa chorava enquanto trançava o meu cabelo. Eu sabia que estavam trançando-o porquê sabia quem chorava, era minha mãe. Eu tive muita vontade de dizer “mãe, qual é, eu estou bem, eu só não consigo ver nada”, mas pelo visto ela não conseguiu me ouvir.
Porque eu odiava as lagrimas? Porque elas me levavam para o fundo, eu me sentia afundando, caindo mais no abismo e ficava longe de tudo, porque suas vozes ficavam mais baixas e era mais difícil saber o que eles faziam. Mas sempre tinha aquilo que me trazia de volta.
O toque dele.
Ele estava sempre ali, alisava a minha mão e fazia carinho de maneira incansável, eu o sentia tocar meu rosto e ele nunca chorava, acredito que ele sabia que não gostava, porque fez uma tempestade no inicio, mas depois parou. E eu sempre via uma luz tão forte quanto o sol quando ele estava lá. Como minha mãe uma vez me disse “depois da chuva, sempre vem o sol” e logo me veio à cabeça uma musica que eu adorava cantar quando chovia e depois o sol aparecia: “chuva e sol, casamento de espanhol”. Mas era só uma luz que ficava cada vez mais distante, e eu ficava muito furiosa, porque queria ver minhas pernas. Sentia-me envergonhada porque sabia que meus pelos estavam crescendo e ele estava vendo. Eu não queria que ele me visse assim, ele tinha que me ver sempre bela.
Ele? Eu não sei quem é ele. Reviro a minha mente, mas não encontro nenhuma lembrança, mas eu sei quem ele é, eu sei que tenho que me animar quando ele esta aqui e sei quando ele esta. Sempre que ele me beija, eu me vejo subindo e subindo e tenho uma fresta de luz de verdade, e não aquela luz artificial, mas eu me canso de lutar contra a gravidade e ela me traz de volta pra baixo. Eu queria tanto me lembrar de porque ele é tão importante na minha vida.
Um dia, ele me beijou de maneira tão intensa e senti suas mãos passarem pelo meu corpo, e foi o toque e o beijo e eu subi tanto, tanto e quando senti sua mão na minha eu a apertei, porque queria me segurar, queria continuar lá em cima sentindo, mas ele parou e eu comecei a cair, estava gritando para ele me segurar de novo, mas ele continuava sem fazer nada e eu caia, então a tempestade começou e eu soube que as lagrimas eram dele porque eram as mesmas que eu sentira no inicio. Eu o ouvi gritar que eu estava viva, e gostei de saber que estava. Era difícil não se sentir morta com toda aquela escuridão.
Ele começou a me puxar para cima com mais frequência e eu ficava mais tempo segurando a sua mão, ouvi a voz dos médicos me pedindo para responder com apertos de mão e eu me esforcei ao máximo para apertar a mão duas vezes quando eles perguntaram se eu sentia as minhas pernas, e me senti corar, porque eles estavam olhando a minha perna que agora, provavelmente, devia lembrar muito a do King Kong.
Desejei poder subir para cima igual ele subiu o Empire State, mas aquelas comparações passaram a me deixar triste, porque eu só me sentia ainda mais peluda e com mais vergonha, e então eu parei de fazê-las e continuei lá embaixo como uma pessoa com pelos em tamanho normal.
Mas chegou um dia que eu não senti ele ali comigo, e esse dia foi se transformando em semanas e depois em meses. É incrível, mas depois do questionário que fizeram comigo, comecei a ganhar certa noção de tempo. E depois de muito tentar, consegui me levar para cima sem a ajuda dele, apenas eu, porque eu precisava conferir se ele estava ali, mas ele nunca mais voltou. E eu senti um grande buraco se criar dentro da minha barriga. Apesar de tudo, me senti feliz porque eu sabia onde estava a minha barriga.
Um dia, eu pude sentir a presença dele, mas bem distante e eu deduzi que se conseguisse subir ainda mais, ele poderia se aproximar. E eu subi sem parar, e voltei as comparações com o King Kong para conseguir me estimular, cheguei lá em cima e abri os olhos e consegui dar uma boa olhada aonde estava, era um quarto verde oliva, com algumas cadeiras e um sofá que me parecia bem confortável, havia uma estante e um aparelho de televisão ligado, onde um jornalista anunciava:
— Hoje, no dia 29 de dezembro...
E eu não ouvi mais porque fiquei assustada, 29 de dezembro? Eu me lembrava de pegar o resultado de um teste no dia 05 de novembro. Eu fiquei inconsciente por cerca um ano? Ou fazia mais de um ano? Por quanto tempo eu fiquei na escuridão?
Continuei a correr minha olhar por ali, desesperada por alguém que me respondesse, mas vi apenas uma garotinha que me lembrava de muito uma amiga num canto, mas era a amiga que eu conhecera, com cerca de dois anos e com os olhos limpos. Tentei lembrar seu nome, para tentar chama-la, mas não saiu nada e a garotinha apenas continuou a encarar um urso de pelúcia gigante que estava a sua frente. Parei meu olhar na porta, onde eu imaginava que ele estava, mas não havia nada ali apesar dela estar aberta e haver varias pessoas passando. Ninguém dirigiu sua atenção a mim, como se eu não fosse digna de um olhar.
Fiquei triste e senti uma lagrima escorrer pelo meu rosto, e como sempre, as lagrimas me levaram para o fundo.
Eu ouvi uma voz e eu soube de quem era.
— Amanda, vamos? Você já ficou bastante tempo com a sua tia Annabeth.
Então a garota se chamava Amanda, e eu Annabeth. E a garota, agora uma mulher, Thalia.
Era tão bom ouvir sua voz, porque eu soube que ela era importante para mim e soube que boa parte daquela chuva de lagrimas que tanto me afundou, era dela. Mas eu soube também que ela não fizera por mal, porque boa parte da minha vida apenas quis me fazer sorrir.
Eu queria vê-la, precisava daquilo. Conferir para ver com ela estava. Já que agora, ela tinha uma família, e provavelmente se casara com... Ronald? Era esse o nome do antigo namorado dela? Não, não... Era Robert. Mas eu não sentira a presença dele ali, apenas a de outro amigo e meu amigo sempre me pareceu tão triste, mas depois que ele se foi, passou um tempo e eu o senti mais feliz.
Eu comecei a me debater querendo subir, e me motivei pelo amor que sentia por aqueles dois amigos e senti que fui subindo, e subindo, e subindo e eu fiquei tão cansada que arfei. Tão cansada que tive que lutar para abrir os olhos e encontrei Thalia num estado catatônico.
— O-o-o... i — lutei desesperadamente para dizer, e arfei mais vezes. Eu estava tão cansada.
Ela correu até mim e me envolveu em seus braços. E chorou tanto. Mas aquelas lagrimas eram de pura alegria, tinham um gosto doce, apesar de saber que no fundo elas continham muito sal. E eu apenas subi para cima.
Com uma certa dificuldade coloquei as mãos em suas costas e me senti ótima, porque estava abraçando alguém que eu sabia que ficara ali aquele tempo todo. E não me abandonou quando as coisas ficaram mais difíceis.
***
Thalia se arrumou melhor na ponta da minha cama, se preparando para me contar tudo o que acontecera. Já se passara duas semanas e eu me recuperara o bastante para conseguir ficar acordada por pelo menos 2 horas sem dormir.
Estávamos sozinhas no quarto e eu não conseguia tirar os olhos da sua aliança de casamento, que não estava no dedo de Robert quando ele viera me visitar de passagem há três dias, e eles não se cumprimentaram. Mas Luke tinha uma aliança, e não havia sinal de Gabbe. Bem, eu me lembrava de ver uma garota ruiva me visitando, eu não consegui me focar o suficiente para reconhecê-la, mas percebi que sorria demais. E Gabbe não sorria tanto. Nem balançava tanto sua cabeleira ruiva.
— Desde que parte você não se lembra?
— Eu me lembro de ir conversar com ele — murmuro.
— Ele?
Assenti.
— Eu sinto muito — disse — Mas não consigo me lembrar do nome dele.
Ela passou os olhos pela sala, para conferir se havia alguém ali.
— O nome dele é Percy — Thali declarou — Você consegue se lembrar?
Eu sorri.
— Eu gosto de Percy — contei — Com certeza esse deve ser o nome dele. Onde ele esta?
— Como? — ela parecia desconfortável.
— Percy. Onde ele esta? — indaguei — Eu me lembro de sentir a presença dele antes de subir... Mas depois ele sumiu. O que aconteceu?
Thalia não ficou confusa quando disse subir, ela já entendia os termos que eu usava.
— Eu prefiro contar a historia desde o inicio. Tudo bem para você?
Balancei a cabeça, concordando.
— Eu até prefiro assim.
Ela engoliu a saliva, pigarreou, e tomou coragem.
— Você foi conversar com Percy sobre... Sua gravidez — Thalia começou a cada palavra que dizia eu ia me lembrando, as memorias surgiam como fogos de artificio e explodiam em minha mente, me fazendo relembrar cada detalhe em um único segundo — Vocês chegaram a uma conclusão, iam casar. Mas Annie... Eu preciso perguntar.
— Pergunte.
— Você se lembra de que o resultado deu negativo não se lembra?
— Sim, eu me lembro.
— Certo... Eu vou continuar. Você disse a ele que a maquina quebrara e o resultado não era confiável, mas contou que deu negativo e disse que ia refazê-lo. Você estava... Era gravidez psicológica. Lembra-se?
Eu abaixei a cabeça envergonhada, eu desafiara minha própria amiga, e o namorado dela e ainda contara uma mentira a Percy.
— Quando você saiu de lá — ela continuou — O seu ônibus foi acertado por um caminhão pipa. E você estava bem na direção, ele atingiu as suas costas e quebrou quatro colunas. Você ficou inconsciente por muito tempo Annie, foram sete anos.
Ela evitara me contar quanto tempo passara, queria contar a historia completa quando eu me recuperasse o máximo possível. E bem... Foi um verdadeiro choque.
— E-eu tenho... — fiz as contas em minha mente — 35 anos?
Ela confirmou com um aceno de cabeça.
— Ah meu Deus —exclamei.
Ela fungou, ia chorar? Eu esperava que não. Porque teríamos que parar a historia e eu queria muito saber o que me acontecera.
— O que aconteceu nesses sete anos? — exigi saber.
— Bem... No inicio, Percy ficou aqui, ele simplesmente não abandonava o seu quarto e precisávamos trazer comida para ele. Então um dia — Thalia hesitou — Ele percebeu que sua barriga não crescera e eu disse a ele que era gravidez psicológica. Ele perdeu a cabeça, estava tão afetado com tudo que acontecera que... Ele disse que você o enganara para tentar roubar o dinheiro dele.
Ao ouvir aquilo, desejei que aquele caminhão pipa entrasse pelas paredes, quebrasse o resto das minhas colunas, minha espinha, era melhor que conviver com aquilo.
— Ele não estava nada bem — ela começou a explicar — Bem... Ele foi embora e nunca mais foi visto. Bem, não foi visto, mas um dia ao assinar o livro de visitas eu vi o nome dele lá e fiquei feliz pensando que ele podia ter melhorado. Então procurei os amigos dele, e marquei um encontro com Nico Di Angelo e ele me contou que Percy estava indo a um terapeuta e me levou até ele, e então o terapeuta me contou que Percy não queria mais te ver, porque ele sabia que você morreria, ele acreditava tão fortemente naquilo que queria se afastar o máximo possível, e se afastou, só voltou aqui para... Ele não disse o que, apenas falou a palavra “perdão” e saiu da consulta, nunca mais tocando no assunto.
Eu estava chorando, Thali se aproximou de mim e limpou minhas lagrimas com as costas da mão.
— Certo, vamos parar de falar disso.
— Me conte sobre o que aconteceu com os outros — pedi — Me explique essa aliança e me conte sobre Amanda.
Ela respirou fundo, ia ser uma longa historia.
— Eu e Robert nos separamos no mesmo dia do acidente e eu fiquei uma semana inteira no hospital, me dedicando somente a você para afastar meus problemas... Quando Luke me obrigou a ir para uma festa — ela riu — Eu sinto muito, mas me fez bem. E então ele me contou que só me levou ali porque também estava mal, a Gabbe... Ela recebeu uma oferta de emprego na Nova Zelândia, e eles terminaram, porque ele não podia ir e ela... Ela não queria se casar com ele. Ele tinha esperança de que quando ela voltasse eles pudessem reatar, mas não foi bem assim. Ela arranjou um namorado e agora eles estão noivos... E...
Ela estava gaguejando.
— Eu já sei o que aconteceu — comentei.
— Ah é? — ela riu — Então me diga sabichona.
— Vocês perceberam que são apaixonados desde os 16 anos, que tudo que viveram até então foi pura ilusão e agora tem uma linda filhinha de 2 anos que se chama Amanda Beth Castellan. — deduzi.
Ela parecia incrédula.
— E como você chegou a essa conclusão? — Thalia indagou, rindo.
— Sua filha me contou que se chama Amanda Beth Castellan. Simples — expliquei e então apertei sua mão — E ela disse que gosta de mim, porque estamos ligadas, eu perguntei o porquê e ela disse que por causa do Beth.
— É uma coincidência.
— Eu sei bem a coincidência que é. — brinquei.
Thalia me abraçou tão forte que eu senti minhas costas estalarem.
— É tão bom tê-la de volta — Thali murmurou.
— É tão bom estar de volta.
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