Um Amor Para Recordar
39 Capítulo 14 — Conversas sérias
Notas iniciais
Perseu
— Não! Eu não vou ir! — gritei para os três homens a minha frente – Me poupem.
Chris soltou um longo suspiro e me deu um tapa.
— Ah, você vai sim!
Fazia três horas, pelo menos eu acredito que fazia que estávamos nós quatro ali e os três estavam tentando me convencer a ter uma “conversa séria” com meu pai sobre relacionamento. Eu já tinha 28 anos e “conversas sérias” entre pai e filho costumam ser sobre sexo, e sexo era algo que eu entendia muito bem. Não precisava do meu pai para isso.
— Vamos logo Percy — Nico resmungou — Você tem que fazer algo em relação a Annabeth.
— Nossas fãs chamam de “Percabeth” — Charles contou, olhando no celular, com certeza ele estava no Twitter — Eu gostei.
— Eu não — Chris murmurou — Prefiro Chrisse. Desse eu gosto. — ele riu.
— O meu favorito é Robsten, eu não sei por que, mas eu gosto — Nico declarou.
Respirei fundo, muito fundo.
— Ei! Vocês poderiam, por favor, voltar a atenção para mim?
Eles me encararam.
— E eu não gostei de “Percabeth”.
— Como não? — Charles colocou a mão na testa — Certo Percy, você realmente precisa da ajuda do seu pai!
Eles me pegaram pelos braços e começaram a me arrastar até a porta.
— Não! Pessoal! Por favor! Deixem-me pelo menos pegar meu casaco!
Chris pegou a jaqueta e voltou a me puxar. Quando chegamos ao elevador, desisti de lutar. Eu podia ser forte, mas eles também eram.
E eram três.
— Poderiam, por favor, me soltar? — pedi — Estão me machucando.
— Vamos com o carro de alguém? — Charles perguntou.
Ninguém falou nada.
— Tudo bem, vamos com o meu! — ele ergueu as mãos em sinal de rendição — Percy, porque seu pai mora numa casa no fim do mundo numa estrada com mais buracos que...? Eu sei lá!
— Ele apenas gosta de ficar no canto dele, sem ser incomodado por paparazzis — expliquei — Alias, acho que é exatamente isso que eu deveria fazer. Ficar num lugar calmo. Todos nós.
Chris riu.
— Eu nunca vou abandonar a minha cobertura em frente ao Central Park se é isso que você esta pensando. É o melhor lugar para se morar em Nova York.
— Você odeia aquele lugar — Nico retrucou — Só mora lá porque Clarisse gosta.
— Talvez...
O elevador chegou ao saguão e abriu. Descemos e caminhamos calmamente até o carro de Charles. Sentei no banco do passageiro e coloquei o cinto de segurança.
— Silena está pirando por causa do casamento — Charles anunciou — Apenas ontem fomos a cinco igrejas diferentes e ela disse que nenhuma delas combina com o casamento dos sonhos dela. Foi o meu recorde de igrejas. Eu só fui a duas capelas em toda a minha vida! Porque as mulheres ficam tão loucas com casamentos?
— Eu entendo. — Chris concordou — Foi exatamente assim no meu casamento com Clarisse, e eu nem sabia que ela se importava com essas coisas. Parece que elas guardam um bicho maligno dentro delas que só é libertado quando elas tem um casamento.
Nico e eu rimos.
— Não entendemos nada do que vocês estão falando, e agradeço por isso! — ele zombou. Levantei a mão e fizemos um “Hi-5”.
Nico bateu no banco do motorista.
— Charlie, você pode parar, cheguei ao meu ponto — ele pediu — Desculpa galera, eu tenho que ir.
Ele desceu e olhei para os meus amigos.
— O que ele vai fazer no subúrbio?
— A “namorada” — Chris fez aspas com a mão — dele mora aqui.
— Eu vi a foto no celular, ela é linda. Ruiva de olhos verdes.
— Hum.
Fiquei magoado por Nico não ter me dito nada sobre essa “namorada”. Nós éramos tão amigos e descobrir que ele guardava um segredo de mim.
Mas... Talvez seja porque ultimamente eu saio mais com a minha “namorada”, então ele não teve tempo. É, isso fazia mais sentido.
— Espera! — disse — Ruiva de olhos verdes?
— Aham — Charles confirmou — Eu acho que a conheço. Mas...
Não. Não podia ser Rachel. Na pagina dela do Facebook era bem obvio que ela ainda morava na Califórnia. Se ela estivesse em Nova York, eu com certeza saberia. Ela adorava postar fotos.
Assim que chegamos à casa do meu pai, meu estomago começou a embrulhar. Eu sabia que ele tinha uma namorada nova, e era um pouco difícil conhece-la agora que a minha mãe morrerá.
— Percy — Charles despertou-me — Você esta bem?
— Claro. Só estou um pouco nauseado.
A resposta não o conquistou, mas ele apenas assentiu e desceu do carro.
Meu pai fazia o tipo simples e elegante, e sua casa seguia essa linha. Dois andares, amarela e com portas e janelas marrons, eu a achava maravilhosa.
Ele saiu de casa vestindo uma camisa havaiana e bermuda bege, surrada.
— Filho!
Ele veio a meu encontro e me abraçou.
— Oi pai.
Poseidon cumprimentou meus amigos e nos estudou tentando compreender o porque de estarmos ali com apenas um profundo olhar.
— Vocês vão me contar por livre e espontânea vontade ou terei que testar minhas técnicas de tortura? — ele brincou.
— Livre e espontânea vontade! — Chris gritou assustado — Sem pensar duas vezes senhor.
Rimos de seu medo. Meu pai nos convidou a entrar e o seguimos para dentro da casa.
— Bela casa Sr. Jackson — Charles elogiou.
— Na realidade, meu sobrenome não é Jackson.
Olhei-o com repreensão. Ele pigarreou e continuou.
— É um erro comum.
Sentamo-nos na sala de estar, que, contradizendo a estrutura da casa, era apertada.
— Então meninos — ele começou — A que devo a honra da visita?
— Queremos que o senhor de um jeito na vida amorosa de Perseuzinho — Chris foi direto ao ponto — Ela está uma merda.
— E ele não gosta do shipper Percabeth — Charles lembrou — O que prova que o caso é sério.
Meu pai assustou-se com a rapidez deles. Ele me lançou um olhar longo, profundo, que parecia ler e decifrar minha alma. Suspirou.
— É a Annie?
Assenti. Meu pai era um homem esperto.
Ele suspirou de novo.
— Para que tantos suspiros? — indaguei — Até parece que engravidei a menina.
Poseidon se levantou.
— Essa não é a questão Percy.
Ri pelo nariz, debochado.
— Então qual é a questão pai? — instiguei-o.
— A questão Percy é que mulheres devem, e merecem ser valorizadas filho! — ele suspirou, novamente — E isso é exatamente o que você não faz.
Revirei os olhos. Encarei meus dois amigos como que dizendo “Sério que me trouxeram aqui para ouvir um discurso sobre valorizar as mulheres?”.
Papai caminhou até um pequeno balcão no canto da sala. Ele pegou uma garrafa de uísque, colocou dois gelos num copo e virou a bebida batendo o copo com força ao terminar. Chris avançou esperando que ele oferecesse. Mas o homem apenas continuou encarando a parede.
Aquilo estava me irritando.
Ele abaixou-se e massageou as têmporas.
— Você nunca vai aprender certo? — ele voltou-se para mim — Eu faço o mesmo discurso desde que você começou a se envolver com mulheres, e me pergunto se, por pelo menos um segundo, você me ouviu.
— Dá para parar de colocar tanta ênfase nas palavras?
Ele maneou a cabeça.
— Eu sei que não sou o melhor exemplo para você. Deixar sua mãe sozinha com uma criança não foi a melhor das minhas atitudes, mas você precisa entender que ela nunca me contou que você era meu filho. Eu descobri isso dezesseis anos depois Percy — ele hesitou — E eu tentei ao máximo me redimir com você e te dar o máximo de lições possíveis, e essa foi uma das primeiras. Pergunto-me como você virou o que virou.
Levantei-me abruptamente, assustado meu pai.
— Olha, se vocês querem saber, não entendo porque dizem que não valorizo Annabeth. Por algum acaso eu dormi com ela e depois a larguei sem dar satisfações? Não!
— Mas é obvio que você a ama — ele replicou — Você esta apenas saindo com ela e depois vai larga-la porque tem medo do amor.
— Graças a ela! — exclamei.
Percebi a fúria de minhas palavras tarde demais. Eu a estava culpando e aquilo parecia tão ruim.
Um silencio terrível pairou sobre a sala. Meu celular o quebrou. Olhei no visor e vi o nome de Annabeth acompanhado de uma antiga foto dela sorrindo.
— Com licença — murmurei e sai da casa. Caminhando até o quintal.
Apertei “atender”.
— Alo?
— Oi Percy — ela disse chorosa.
— Annabeth, está chorando?
Antes de responder, tive a confirmação. Ela desabou em lágrimas e senti vontade de abraça-la.
— Annie, fale comigo — pedi — Me diga o que esta acontecendo.
— Me desculpa Percy — ela suplicou — Me desculpa.
— Pelo o que?
Ela se calou.
— Annabeth, porque devo desculpa-la?
Silencio.
— Annie, por favor, me diga!
Ouvi-a fungar.
— Eu... Oh Percy! Eu não queria!
— Annabeth, antes de qualquer coisa. Responda-me — exclamei — Preciso que me diga o que esta acontecendo para eu entender.
Ela suspirou. Deveria estar escolhendo as palavras certas para me contar o que tinha feito.
— Você se lembra de quando... Tomei banho na sua casa e dormimos juntos?
— Sim, claro — respondi — O que tem?
— Percy, você usou camisinha?
Fiquei calado, pensando. Eu não fazia a menor ideia.
— Eu... Na realidade, eu não me lembro. — falei — Bem, devo ter usado. O que tem isso?
Ela ficou em silencio novamente.
— Percy, eu estou gravida.
Meu coração passou a bater mais rápido e minhas pernas bambearam. Senti meu corpo ficar mais leve, passei a perder o controle dele, quando meus joelhos bateram no chão. Eu caíra. Estiquei as mãos a frente do corpo para evitar uma queda mais feia. Fiquei parado tentando entender a frase que acabara de ouvir, esperando que ela começasse a fazer sentido. E ela começou.
Tateei em busca do meu celular e o achei entre as plantas. Peguei-o e me atrapalhei, tentando lembrar como era a maneira correta de segura-lo.
— Percy? — Annabeth chamou — Percy? Por favor!
— E-eu estou aqui... Eu...
Minha cabeça começou a girar.
— Eu sinto muito — ela choramingou.
— Não, não... — neguei tonto — A culpa não é sua, eu...
Segurei minha cabeça entre as mãos e tentei concentrar meus pensamentos. Minha mente foi voltando ao normal gradativamente.
— Annabeth, isso é confirmado? — indaguei — Você fez algum teste?
— Sim, eu fiz — ela confirmou — Mas... Ainda não saiu o resultado... Eu...
Senti uma esperança crescer dentro de mim.
— Então... Você pode não estar...
— Percy! — ela gritou — Eu tenho certeza! Eu sei que existe um ser dentro de mim Percy! Eu tenho certeza disso! Acha que eu não sei que existe uma vida dentro de mim?
Respirei fundo.
— Desculpe-me, mas... Annabeth, eu não posso ter esse filho — anunciei — Eu preciso de uma confirmação, um resultado válido.
— Você não confia em mim? — ela questionou.
— Mas é obvio que eu confio Annie, mas... Você pode estar confusa.
Eu insistia em me segurar naquela pequena esperança que crescera no meu amago.
Eu não poderia ter um filho, a mídia iria me atacar e eu sofreria. E isso não seria nada bom para Annabeth.
— Annabeth?
— Sim? — ela respondeu rude.
— Não quero magoa-la, mas... Não é o melhor momento para isso.
— Quando vai ser? Você quer que eu arranque esse filho de dentro e só o coloque de novo quando for o melhor momento? — o tom seco continuava presente em sua voz.
Olhei em volta, procurando uma resposta em todas aquelas arvores que rodeavam a casa de meu pai.
— Nós precisamos conversar.
— Sério?
— Eu estou sim falando sério Annie. Eu não poderei hoje, mas precisamos falar sobre esse... Essa... Essa criança — disse calmamente, escolhendo da melhor maneira as palavras — E precisamos de uma confirmação.
Ela suspirou.
— Eu verei quando posso.
Novamente, o silencio interminável.
— Annabeth, eu preciso desligar — murmurei — Precisamos conversar.
— Certo.
Ela desligou o celular.
Fiquei ali, olhando tudo em volta. Ouvi passos atrás de mim, uma mão em meu ombro e uma pergunta. Continuei em meu estado catatônico, quando fui balançado por mãos fortes.
— Filho, me responde — meu pai disse.
Encarei-o.
— Esta tudo bem Percy? Aconteceu algo?
Em meus pensamentos, sorri. Será que estava tudo bem? Ter engravidado Annabeth podia ser considerado um “tudo bem”? A perguntei ficou cutucando a minha cabeça.
“Esta tudo bem?” era uma pergunta realmente engraçada. Será que as pessoas realmente querem saber se esta tudo ok com você? Ou será que a única coisa que elas querem é serem educadas? Elas esperam que você seja sincero ou apenas querem ouvir um “estou bem sim, e você?”.
Olhei nos olhos do meu pai e percebi: ele realmente queria saber se estava tudo bem.
— Filho?
Lembrei-me do que falei para ele “Para que tantos suspiros? Até parece que engravidei a menina.”.Foi inevitável não rir, eu dissera aquilo fazia apenas alguns minutos, e bem, eu tinha feito aquilo.
— É pai — disse — Você estava certo em suspirar.
***
Encontrava-me num parque, ele estava escuro como breu. Havia apenas as árvores os bancos, e uma imensidão negra. As arvores se fechavam em torno de mim como uma cúpula. Elas me protegiam ou me sufocavam? Senti uma angustia familiar crescendo dentro de mim, senti algo subindo do meu estomago até a minha boca e descer novamente.
Houve um gemido ao fundo e assustei-me. Pelo visto não estava sozinho. O medo tomou conta do meu ser, a angustia crescendo.
O gemido se repetiu e prestei mais atenção nele. Naquele gemido havia dor, solidão. O medo sumiu e foi substituído por pena, dó.
— Eu tenho que acha-lo — sussurrei e percorri o parque procurando aquela dor.
O gemido estava ficando mais alto. Estava me aproximando.
De repente, fui atacado por um brilho repentino. Eles brilhavam e desapareciam, e faziam isso repetidas vezes. Aquela luz cegaria os olhos de qualquer um, mas não incomodavam mais os meus não como antes. Eram flashes. Câmeras. Fotógrafos.
O gemido se transformou num choro angustiante, meu desejo de encontrar o dono daquela dor aumentou e eu corri até ele. Ignorando as câmeras.
Finalmente o encontrei e não era o que esperava.
Parado ali no centro do parque, com uma roupa suja e rasgada, cabelos desgrenhados e o rosto doce vermelho de chorar, estava uma criança. Uma criança frágil e pequena, daquelas que você tem vontade correr, apertar, abraçar... Proteger. Ela tinha os cabelos tão escuros quanto o breu que envolvia aquele lugar. Seus olhos, que agora começavam a ficar vermelhos, eram cinzentos.
Eu conhecia aqueles olhos.
A criança fungou e limpou suas lagrimas com a roupa suja.
Ela tampou os olhos e voltou a chorar. Somente naquele momento percebi as câmeras que a rodeavam a imploravam por fotos. Os fotógrafos gritavam, fazendo diversas perguntas.
Ele me olhou e seus olhos me imploravam uma... Resposta.
Corri até ele querendo abraça-lo e protege-lo. Fui interrompido por uma forte batida, meu rosto contra um vidro imaginário.
Minha cabeça começou a latejar e eu cai no chão. Meus olhos queimavam graças ao flash das câmeras.
Ouvi um guincho muito distante dali, mas não era a criança. Eu conseguia senti-la silenciosa. O guincho vinha de outra pessoa.
Obriguei meus olhos a se abrirem e vi. Lá estava ela, sofrendo, também vestida com trapos e com cabelos desgrenhados. A mãe da criança sofria, mas tentava esconder sua dor. Ela se contorcia caída no chão, e eu não conseguia identifica-la com aquela expressão de dor.
Ela parou de se mexer, seu rosto se suavizou e eu me deparei com Annabeth. Ela entrou na minha alma com apenas um olhar e sorriu.
— Eu estou bem meu bebe — ela disse, ou melhor, se obrigou a dizer. A dor estava estampada em seus olhos.
Ela olhava para algo atrás de mim.
Virei-me lentamente e encontrei a criança em pé ao meu lado.
— Porque você me deu esse futuro papai? — minha criança disse com uma voz doce e melodiosa, como um violino.
— Me desculpe — supliquei baixinho. — Faça isso parar.
— Você pode fazer isso parar — ela respondeu. — Percy! Acorde!
— Eu estou acordado.
— Porque você esta gritando? Percy, acorde! — ela ordenou. Sua voz mudara, agora era a voz de uma mulher adulta e furiosa.
— Eu não estou gritando!
— Percy, acorde Percy!
***
Sai do sonho, ou melhor, pesadelo. Encontrava-me em casa, no meu sofá, deitado de barriga para cima. Encarando-me, estava Clarisse. Ela estava com a expressão preocupada.
— Percy, o que você estava sonhando? — ela indagou — Conte-me Percy! Você estava... Gritando! Mandando parar e fazendo perguntas sobre uma criança. O que você sonhou Percy? — sua voz se suavizou — Você se lembra? Pode contar para mim?
A encarei por longos minutos, tentando submergir a realidade. O que eu estava sonhando?
Comecei a balbuciar coisas sem sentido.
— Percy, se acalme. Você esta ofegante! — Claire exclamou — Está transpirando igual um porco!
— Isso não ajuda — consegui dizer por fim.
— Desculpe-me. — ela suspirou — Você se lembra de o que estava sonhando? Quer me contar? Você parecia estar realmente sofrendo.
Tentei voltar ao sonho para me lembrar. Havia câmeras, arvores escuridão e havia uma criança e Annabeth.
O sonho veio à tona como abruptamente. Como uma tapa eu “revivi” tudo aquilo e era tão horrível. O que aquela historia toda significava afinal?
— Eu... Eu estava num parque — comecei — E estava muito escuro lá.
— Você sabe qual parque Percy? — ela perguntou.
— Deve ser o central Park. É o único que eu realmente conheço — respirei fundo e continuei — Eu estava sozinho e... E eu ouvi um gemido, naquele gemido havia tanta dor. Eu fiquei muito assustado de inicio, mas depois fiquei com pena. Eu...
Ela me instigava a continuar com o olhar. Como podia estar tão curiosa? E... O que ela fazia ali?
Lembrei-me de que ela viera cuidar de mim, por causa do que acontecera na casa do meu pai. Eu passara mal, minha pressão baixara e eu havia desmaiado.
— Percy, o que você fez?
— Eu comecei a correr atrás da pessoa desesperado, eu queria — ri — abraça-lo e protege-lo, esse instinto foi despertado dentro de mim.
Ela sorriu.
— Continue.
— Eu achei a criança, e... Ela estava num estado horrível, abandonada. Ela chorava e seus olhos estavam irritados — procurei na minha mente o porquê — Havia câmeras, muitas. Elas faziam perguntas àquela criança e imploravam por fotos. Ela me olhou e eu... Eu corri para abraça-la, mas bati a cabeça e cai.
Ela arqueou a sobrancelha e depois sua expressão suavizou. Ela entenderá. Clarisse desviou o olhar e fez um sinal para que eu continuasse.
— Quando eu olhei para trás, eu... Eu vi a Annie, ela estava caída no chão na mesma situação que a criança e... Eu soube que a criança era o nosso filho — meus olhos marejaram e eu ri.
— Porque esta rindo?
— Por que... A criança Clarisse, ela me perguntou por que eu fizera aquilo com ela.
Silencio.
Clarisse me encarou.
— Você entendeu esse sonho né?
— Entendi.
Pigarreei.
— Esse filho não vai ser meu e de Annabeth não é?
Ela assentiu e respondeu em meu lugar:
— Esse filho será da mídia.
Mais silencio.
Minha mente começou a trabalhar num ritmo frenético. Eu não podia dar esse futuro a uma criança, eu não podia deixar aquilo acontecer. Era nojento. Era ruim.
— O que eu devo fazer?
Ela suspirou. Passei a odiar suspiros.
— Já fez essa pergunta a si mesmo?
O que eu devo fazer? O obvio apareceu.
Levantei-me abruptamente.
— Percy, o que vai fazer?
— Eu não posso deixar Annabeth ter esse filho — expliquei — Não posso deixar uma criança sofrer com as câmeras e a mídia. Não posso. É o meu filho e eu não quero ouvi-lo questionar o porquê de... Ter essa vida.
Senti a lagrima antes de ela deixar meus olhos.
— Eu não me perdoaria.
Fale com o autor