- Recupere a Nunnally, Rolo – disse o nii-san, sentado naquela mesa, enquanto seus cabelos negros caíam ao lado de sua face e seus olhos violetas me olhavam com determinação. Era incrível como ele apenas pensava nela. Eu andei com passos cientes pelo corredor, passos fortes, firmes. A voz do nii-san ressoava em minha cabeça.


Recuperar? Como assim recuperar? Para que recuperá-la? Ela já estava na cova do inimigo, tomada pelo inimigo. Ela era o inimigo.


Engraçado, nii-san. Você não disse que eu era seu único irmão? Então por que quer recuperá-la? Obviamente não é para fazê-la de refém, não é?


Então... Por que você simplesmente não disse: Mate-a?


Afinal, ela não é apenas uma britannian agora, nii-san? Ela não tem importância nenhuma... Assim como os outros que você matou.


Então deixe-me tomar essa decisão sozinho, já que você não consegue. Será que você liga se eu mudar apenas um pouquinho essa ordem, nii-san?


Tomara que não. Afinal, só vou mudar uma palavrinha...


Que tal: Mate a Nunnally?


Soa melhor em meus ouvidos...


Você acabará se acostumando com essas palavras também, nii-san, tenho certeza.


Não é?



Não foi tão difícil invadir a base de Britannia. Foi mais fácil do que imaginei. Foi apenas colocar um chapéu qualquer para cobrir meu rosto e nem precisei usar meu Geass. Bem, tive alguns imprevistos quando alguns homens apareceram em meu caminho, mas foi apenas tirar a arma do meu cinto e atirar. Era tão simples.


Um dos corpos no chão, deitado, ainda se remexia, apesar do tiro que eu havia dado em seu coração.


Por isso que eu digo... Nunca hesite em acertar a cabeça, não sai tanto sangue quanto se você atirar no peito, mas, geralmente, é fatal. Cheguei mais perto dele, virando-o com meu pé. Odiava ter de sujar as luvas brancas que o nii-san havia me dado, mas tive de me aproximar dele para revirar em seu bolso e achar seu comunicador. Que bom que não sujei...


O homem olhou-me com os olhos um tanto desesperados, assustados. Ele tentou alcançar a arma no cinto de sua calça, mas eu chutei-a rapidamente da mão dele quando ele conseguiu segurá-la nos dedos trêmulos.


- Você está morto – eu disse, pisando na cabeça dele com minhas botas – Realmente achou que podia contra mim, inútil? – era divertido mostrar o quanto eu era mais forte do que eles. E, para qualquer pessoa, ser pisado na cabeça mostrava um grau de superioridade para quem pisava e, para quem estava sendo pisado, a inferioridade e vergonha. E é claro que era tremendamente divertido.


Continuei andando e dei uma olhada no comunicador e na identificação daquele homem, que acabou vindo junto, sem querer. Que seja. Era até vantajoso.


- Aqui é o chefe de segurança Guliver falando, senhor – eu disse pelo transmissor, fazendo minha voz ficar levemente mais grossa – Parece que temos um intruso.


- Sim, já foi confirmado, senhor Guliver – o outro respondeu com a voz realmente muito mais grossa que a minha.


- Eu sei que o príncipe Schneizel e a princesa Cornelia podem se cuidar – continuei, que mentira que estava contando. Por que eles conseguiriam? Eles também não passavam de vermes – Mas e a princesa Nunnally?


- Chefe de segurança, avance para o quarto 406 e cuide da princesa – ele continuou – Te dou permissão para abrir fogo caso seja preciso.


- Onde fica mesmo o quarto 406? – perguntei. Bem, aquela frase poderia me entregar, mas seria mais rápido do que procurar em todos os andares.


- Como chefe de segurança, senhor Guliver, o senhor deveria saber melhor do que ninguém que o quarto 406 é a porta branca do quarto andar. Oras! Não dê uma de incompetente.


- Sim, senhor! – concordei, com certo fervor na voz. Estava chegando mais perto. A adrenalina avançava por todo meu corpo. Estava chegando a hora de... Matá-la – Estou desligando.


- Encaminhe-a para a cobertura!


Comecei a correr com certo afoito. Todos já estavam bem movimentados lá dentro naquele momento. Por minha causa. E por causa daquela movimentação iminente, ninguém percebeu um estranho desconhecido passar por eles.


O comunicador vibrou novamente.


- O que foi? – perguntei um tanto impaciente, ainda tentando, quase inutilmente, mostrar certa lealdade em minha voz.


- Parece que o intruso ainda está para fora... Mas nunca se sabe. Tome cuidado. Fique no quarto da princesa até que pareça tudo seguro, está bem? Acho que os seguranças poderão cuidar dele.


Ah, era verdade, a maioria dos seguranças não haviam me visto. Então nem todos da área onde eu havia passado estavam mortos...


- Sim, senhor! Pode deixar comigo! – concordei, ainda subindo o terceiro lance de escadas.


Eu estava tão perto. Apenas mais um lance de escadas. Estava tudo tão escuro naquele lugar, que ninguém poderia ter reparado em mim. Continuei. Cada degrau acompanhava uma batida de meu coração ansioso.


Tum-tum... Tum-tum... Tum-Tum...


Cheguei onde queria, procurando naquela escuridão alguma porta branca. Rapidamente a encontrei. A última do corredor. Fui me apressando para chegar nela, coloquei a mão em sua maçaneta dourada e hesitei.


Eu realmente queria matá-la. Aquilo não era dúvida nenhuma. Eu sabia. Minha mente sabia, até meu corpo sabia daquilo. Abri-a com cuidado, pois ela provavelmente estaria dormindo e eu não queria acordá-la por alguma razão. Mas, mesmo com aquele pouco som, ela levantou-se de supetão, assustada.


- Quem está aí? – ela perguntou calma como sempre, apesar de estar um tanto assustada. Sua voz era pura, bonita, mas não pude reparar na sua beleza naquele escuro e naquela distância.


Automaticamente, parei o tempo. Não queria que ela se lembrasse de mais nada. Não queria que ela se lembrasse de quem havia a matado. Aproximei, com uma das mãos no coração e a outra já segurando a arma que iria matá-la. Coloquei o objeto de metal na cabeça dela, enquanto olhei para aquela criatura tão bela, agora que estava mais perto para poder apreciar aquela beleza de maneira certa.


Ela não lembrava em parte alguma Lelouch. Seus cabelos tinham uma cor de mel, um tanto dourada. Entrelacei meus dedos aos mesmos, sentindo a maciez daqueles fios que pareciam ser de ouro. Seus olhos estavam fechados, mas seus cílios eram compridos e delicados e, tirando um pouco da coberta de cima de seu corpo, pude reparar em seu corpo pequeno e delicado, bonito, de uma garota que ainda estava para virar uma bela mulher. E seus lábios... Seus lábios eram delicados e vermelhos como morango. Imploravam por seu toque. Imploravam por ter outro lábio entrelaçado ao seu. Ela era linda e delicada como uma flor. As fotos não faziam jus a sua beleza. Eu não liguei mais para o tempo que meu coração estava sem bater, Apenas queria acompanhar a beleza dela por mais tempo, sem ser vilmente expelido daquela proximidade. Ela era realmente bela. Ela era tão bela que chegava a doer. E estava realmente doendo. Coloquei outra mão em meu peito, enquanto aquela dor já começava a se espalhar. Não liguei mais para as batidas do meu coração. Passei um de meus dedos por aqueles lábios virgens, que pareciam ter sido desenhados pela mão mais habilidosa e delicada do mundo. Inclinei-me sobre ela, fechando meus olhos, enquanto, atrapalhado, encostei meus lábios nos dela e senti aquela boca quente juntar aos meus lábios frios num beijo terno, curioso. Abri meus olhos, afastando-me. Mesmo assim, eles tentaram fechar-se, enquanto quase tive uma recaída em cima do corpo imaculado daquela garota.


Cancelei o efeito do meu Geass, mantendo a proximidade de antes, enquanto colocava as mãos em meu coração, tentando recuperar-me.


- Quem está aí? – ela repetiu, tentando ouvir ao seu redor.


-Não... Precisa se preocupar – disse, um tanto atordoado. Ela procurou o lugar de onde vinha minha voz. Ainda estava com certa dificuldade para respirar, e piscava freneticamente para reaver direito minha perfeita visão.


Ouvi alguns passos atrás da porta e pude sentir que a pessoa estava para abrir a porta. Assim que aquele homem abriu-a, parei o tempo, um tanto nervoso e descontrolado.


- Não nos interrompa! – disse, um tanto alterado, atirando no homem que nem iria lembrar-se de quem havia matado. Eu não atiraria nele sem parar o tempo para que a pequena princesa não se assustasse. Ele caiu morto assim que cancelei o efeito do Geass.


- Q-Quem é você? – ela continuava a perguntar, procurando-me. A sua boca um tanto entreaberta de surpresa, talvez medo. Que bom que ela não tinha percebido o homem...


- Sou Rolo – respondi, aproximando-me ainda mais dela – Apenas Rolo... – uma pausa. Ela fazia uma expressão confusa, mas não mostrou-se assustada e nem exaltou-se pedindo socorro – Estou aqui a mando de seu irmão.


- Do... Onii-sama? – ela perguntou com uma voz chorosa. Parecia que ia chorar. Não sabia de qual dos seus irmãos ela estava falando, mas preferi acreditar que era do Lelouch. Como ele podia fazê-la sentir-se daquele jeito? Ela estava triste por causa dele, não era?


- Sim, de Lelouch – respondi de imediato. Suas sobrancelhas levantaram-se automaticamente enquanto ela me procurava com a cabeça, pois seus olhos permaneciam fechados.


- Rolo... Rolo – ela suspirava, parecia algo como uma súplica, enquanto esticava o braço para que eu me aproximasse. Não foi difícil aproximar-me mais. Ela pedia por isso. Fui andando lentamente e ela abraçou meu corpo, enquanto senti algumas lágrimas molharem minha blusa azul-marinho.


- Por que choras? – perguntei, enquanto passei um de meus dedos debaixo dos olhos dela, segurando uma lágrima que estava prestes a cair em sua camisola rosa claro.


- Você... Tem o cheiro do onii-sama – ela continuava a sorrir em meio às lágrimas que caíam desesperadas – Ele está impregnado em você... – ela continuava a dizer com sua voz extremamente doce e suave, enquanto ela entrava em meus ouvidos e meu cérebro tratava de gravá-la em minha memória. Eu não queria esquecer aquele momento, eu não queria que ela deixasse de me abraçar.


Foi assim que descobri que meu Geass não serve apenas para matar. Ele servia para prolongar aqueles momentos tão doces e desejados. Parei o tempo novamente, enquanto ela abraçava minha costela, entrelacei minhas mãos aos seus cabelos novamente. Sequei suas lágrimas e fechei meus olhos, prolongando aquele momento que, de repente, tornara-se algo tão importante para mim.


Fiquei assim até que senti certa dificuldade em respirar. Cancelei o Geass novamente, apesar de não querer ter feito isso. Aquele momento estava tão agradável... Respirei com dificuldade enquanto aquela garota continuava a abraçar-se a mim. A solidão que ela sentia naquele lugar estava mais que visível em seus gestos, em suas lágrimas e em sua voz...


- Não chore – eu disse. Sua face era bela de qualquer maneira, mas me incomodava vê-la chorando – Por favor, não chore – repeti com mais ardor, já quase me entregando às lágrimas por causa dela.


As lágrimas que segurei para que não rolassem até minha boca não eram de minha tristeza, mas sim da tristeza que ela estava sentindo, que parecia ter passado para mim como algo anormal. Eram as lágrimas dela caindo sob o rosto de outra pessoa. Não tenho nada contra os homens chorarem, mas, por alguma razão, não queria demonstrar minha fraqueza na frente daquela criatura tão bela.


Aquela admiração que senti por aquela garota era algo que mal cabia no meu peito, que tinha de ser posta para fora. Fiquei pensando em quanto tempo ela teve de se segurar para não desfazer-se em lágrimas que nem estava fazendo agora...


Lelouch, afinal, tinha se esquecido de tudo e não precisou sofrer tanto quanto ela. Mas ela... Afastada dele, teve de manter todas as lembranças em seu coração. E, ainda assim, permanecer longe dele. Aquilo a fazia forte. Ela conseguia manter todas as lembranças felizes e continuar a viver, mesmo longe dele. Aquele era um feito e tanto. Eu nunca conseguiria...


- Será que... Como pagamento por ter vindo aqui... A senhorita poderia me conceder um beijo? – perguntei gentil. Não estava me aproveitando dela, apenas desejava aquilo mais do que tudo. Desejava que ela também sentisse o beijo, que ela não estivesse “dormindo” naquele momento.


- Como? – ela perguntou, suas sobrancelhas arquearam-se novamente, assustadas, ela tirou seus braços de meu corpo, com certo medo.


- Apenas... Um beijo – disse, ajoelhando-me para deixar nossas cabeças na mesma altura – É apenas isso que peço, princesa – continuei, enquanto ela parecia me rejeitar vilmente – Por favor... – o quanto decaí por causa de um beijo. Aproximei meus lábios dos dela e ela não se afastou, apenas ficou parada, esperando experimentar daquela experiência nova. Encostei, enquanto uma de minhas mãos repousava com delicadeza em sua cintura e a outra em seus cachos cor de mel.


Não foi preciso parar o tempo para sentir que meu coração parou de bater naquele momento. Eu estava de olhos fechados, sentindo aquela tão boa proximidade.Aquele amor que foi capaz de parar o tempo sem nenhum poder sobrenatural, apenas o toque de dois lábios...


- Nunnally – eu suspirei, me afastando. E eu agora não entendia como pude tê-la odiado daquele jeito. Ela colocou uma das mãos nos lábios, talvez sentindo a ausência dos meus entrelaçados aos dela. Minha boca latejava, mas eu não liguei – Será que você irá lembrar-se disso, princesa? – perguntei, quase desfazendo-me em lágrimas por lembrar do pouco tempo que ainda tinha com ela – Será que você ainda irá lembrar-se desse beijo? – me virei rapidamente, pronto para sair dali. Definitivamente não iria resgatá-la. E por causa de uma bobeira adolescente. Se eu a levasse, Lelouch ficaria grudado nela. Eu não queria isso. Eu amava o nii-san, mas num ataque de fúria, poderia, sem querer, matá-lo por ciúmes. Eu estava dividido...


- Não, Rolo – ela disse, um tanto exaltada, segurando a ponta de meu casaco e me fazendo virar, com os olhos arregalados, assustado com o que ela havia feito – O onii-sama preocupa-se tanto assim comigo para mandar um anjo vir até aqui só para não me deixar sentir-me sozinha? – ela dizia e pude notar algumas lágrimas saindo do canto de seus olhos. Como assim anjo? A própria Brittania mechamava de demônio... Eu não queria ir embora. Eu queria permanecer ali, com ela. Eu queria que aqueles segundos durassem para sempre, até meu coração deixar de bater. Pensei nessa possibilidade. Permanecer num beijo eterno, até morrer por dentro... Até, realmente, ter de abandoná-la.


- Me desculpe – disse, engolindo minhas lágrimas enquanto fazia força para não olhar para seu rosto suplicante – Me desculpe – repeti.


Tudo era tão complicado. Apertei suas mãos antes de ir, mas sem poder olhar para aquele rosto que só iria me fazer querer ficar.


- Adeus – sibilei, não resistindo em dar um beijo em sua testa antes de virar-me. Aquele adeus foi minha própria limitação. Já ouviram falar que adeus significa que você nunca mais verá a pessoa? Algo muito mais distante? Eu queria, realmente, me convencer disso. Adeus... Nunnally...



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Essa fic não quer dizer que eu apoie esse casal... Mas, bem, foi, na verdade, um desafio que me fizeram... Pegue um casal impossível de Code Geass e faça uma fic tão fofa que as pessoas até cheguem a gostar dele... O duro é que, quando eu estava na quarta página, eu descobri que já tinha um monte de gente que apoiava esse casal ==\'


Bem, vou ter que acabar fazendo outra, mas essa fic acabou se escrevendo sozinha, então espero que gostem *_*


Beijinhos

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!