Um Amor Capaz De Libertar
6 Capítulo V - Anjo
Notas iniciais
PS: Ta bem longo, me desculpem (ou não, tem gente que gosta), e pode ser um pouco forte dependendo de quem lê...
Bella
Pingos de chuva chocavam-se contra a janela da sala de jantar, de acordo com que o vento direcionavam-nos rumo à mesma, adornada com uma cortina simples e de tom claro, próximo ao creme.
Ela levou o garfo aos lábios rosados e mastigou um pedaço da seu filé à parmegiana. O silêncio na mesa a incomodava. Jacob estava logo na outra ponta da mesa, também calado, sem muito para dizer, quando percebeu que suas tentativas de animá-la eram totalmente vãs. Ele ora ou outra levava a taça com o líquido escarlate à boca. Fazia algum tempo que guardava aquele vinho caro para apreciar, enquanto Bella podia apenas beber um suco de uva e contentar-se com isso, afinal os três meses de gravidez a impediam de ingerir bebida alcoólica. Não estava mais com fome, então assim que deu-se por satisfeita, limpou a boca com o guardanapo de pano e levou seu prato e copo até a cozinha, lavando-os sem demora. O dia não amanhecera bem... Estava chovendo lá fora, o que era normal na cidade, mas naquele determinado dia em especial, era de um modo ruim; tudo estava ruim e seus pensamentos julgavam-na o tempo todo desde que acordou. Aquela noite tivera muitos pesadelos também, vale acrescentar. Não com James dessa vez, mas eram tão terríveis quanto. As manchas roxas delineando o contorno abaixo de seus olhos denunciavam a noite mal dormida.
Jacob continuava sentado à mesa, comendo, faminto como era! Mal conseguia olhar para o rosto dele nos últimos dias. Estava sendo mais frio e estressado consigo do que o normal, e sempre que ela rejeitava qualquer um de seus beijos, ou recusava sua atenção, ele parecia que iria explodir em ira com ela, mas logo se controlava. Achava que era justamente consequência da rejeição dela. Ela já nem tentava entendê-lo, ou ficar perto dele por muito tempo, até porque em cada oportunidade que tinha, Jacob tentava beijá-la, ou tocá-la. Ela odiava quando ele fazia isso, porque já estava mais do que claro para ele tanto quanto para si mesma que ela não queria ele, e ela tentou, juro que tentou, mas ele simplesmente não era para ela. Eles não deveriam ficar juntos.
Isabella suspirou e levou a mão à testa, deslizando-a até seus cabelos, que estavam soltos, e entrelaçando os dedos ali. Ficou assim, até decidida ir até o cômodo onde antes estivera e se colocar na frente do sofá em que o moreno e até alguns meses atrás, seu melhor amigo estava. Jacob vendo sua expressão séria desligou a televisão que passava um Talk Show qualquer, e encerrou qualquer ruído presente na sala, exceto por suas respirações. Isabella continha o cenho franzido, e o sentimento em seus olhos era de dor. Ele não via isso, mas Bella estava sufocada por aquele segredo que escondia dele a tanto tempo para quem queria tanto seu bem desde a infância. Bella sentia o bolo em sua garganta, como se nada fosse sair de suas cordas vocais, mas ela forçou a voz à preencher a quietude mesmo assim, enquanto o som saía rouco de sua boca, falhado.
– Eu menti pra você Jacob. — Ela olhava nos olhos dele e sentia seu coração bater forte no peito, ensurdecendo seus ouvidos.
As lágrimas já se formavam e ela sentia-se péssima. A vontade era de cravar uma faca em seu coração e morrer ali mesmo pelos erros que cometera.
– Eu menti feio! – Continuou, e Jacob levantou-se já com o olhar cego e inexpressível, indicando os sentimentos vazios dentro de si.
– Fala logo merda! – Já estava irritado só pelo fato de que ela ousara mentir para ele que tanto a amou e quis o bem. Caralho... Ela só sabia enrolar além de chorar. Cadê a maldita Bella que só dava sorrisos para ele? Ah sim, ela se foi quando inventaram aquela ceninha de marido e mulher, que só havia na mente dele, é claro, porque para Bella nem mesmo isso existia.
– Esse filho... Ele não é seu! – Os olhos de Jacob tornaram-se ameaçadoramente escuros, perigosos, enquanto ele a olhava incrédulo. — Eu menti pra você, e sei que errei nisso, mas... Tenta entender! Estou te pedindo...
Ele riu ironicamente, a face contorcendo-se em ódio enquanto a fitava de lado. – Você só pode estar brincando comigo... Como é que é?! – Ele olhou para ela com os olhos semicerrados e os punhos de ambas as mãos fechados, se perguntando se ouvira direito. Na verdade, ele sabia que ouvira muito bem o que ela disse, só queria ouvir de novo daquela maldita boca que ele sonhara tanto em beijar um dia.
– Esse filho é do James! Na noite que ele me estuprou aconteceu e eu te enganei. Foi isso que houve. Eu não queria acabar com sua felicidade aquele dia em que você apareceu lá em casa... – Ele agora andava de um lado para o outro no tapete persa, com as mãos atrás da cabeça, olhando para o chão e com o maxilar trincado, seu pomo de adão saltando em protuberância. – Mas agora eu to te falando a verdade, e eu realmente espero que você entenda porque eu...
Antes que sequer pudesse pensar, Jacob virou-se num ímpeto e pegou o braço dela com força, puxou-a para bem perto de si e olhava nos olhos dela, como se pudesse matá-la apenas com o olhar. A respiração dela tornou-se entrecortada e os olhos arregalados, frente o modo como ele agira com ela. Seu braço doía pelo aperto que ele dava, e havia um contorno amarelado em sua pele, envolta pelos dedos dele, indicando que ele agira com força, e propriamente para machucá-la. – Jacob, Jake ta me machucando! – Tentou puxar o braço e ele apenas apertou mais, fazendo-a grunhir.
– POR QUE EU FUI DESPERDIÇAR A MERDA DO MEU TEMPO COM VOCÊ? Você é tão... – Ele grunhiu — Você me dá nojo! Quem você pensa que é? – Fez uma pausa curta demais para ter durado sequer um segundo. — O que foi? – Observou, enquanto os olhos dela transbordavam em lágrimas. – Ta arrependida? Coitadinha... – Afinou a voz como se sentisse pena, porém não poderia haver mais sarcasmo no tom dele. — Todo aquele papinho de vítima... Você conseguiu jogar todos os anos que vivemos juntos por água abaixo! Merda! QUEM VOCÊ PENSA QUE É PARA JOGAR NOSSA VIDA JUNTOS FORA?
Ele a sacudiu violentamente, e sua mão formigava para dar um tapa naquele rosto que parecia tão inocente. Mas não... Agora ele sabia quem ela era, agora ele conhecia a vadiazinha que ela fora o tempo todo!
– Eu sou mesmo estúpido por ter confiado um dia sequer em você! – Ele não dava sequer uma abertura para Isabella falar. – Você é uma merda. E não... Não vá pensando que com isso se livrou de mim. Agora eu vejo a putinha que você é Bella, agora sim... Você mostrou que se fez de vítima, quando queria mesmo é que o tal do James – Cuspiu seu nome – comesse você e depois claro... Você não tinha como aparecer grávida em casa! A quem você poderia recorrer? Ao idiota e tolo do Jacob, que cedeu a porra da casa dele, pra você se fazer de santa e enganar ele na cara dura! Mas não Bella... Agora eu sei quem você é... – Ela tremia nos braços dele a este ponto. – Como eu fui me apaixonar por você Isabella? Você é desprezível...
Falou com desdém na cara dela, e as veias de seu pescoço pareciam saltar com a ira que sentia. Os olhos estavam irreconhecíveis, e ela só fazia chorar, soluçando muito alto enquanto os gritos dele preenchiam a casa inteira. Como ele ousava dizer que ela queria que James fizesse aquilo com ela? Será que ele não vira suficientemente o desespero nos seus olhos, quando recorreu à confiança dele?
– Foi bem feito você ter sofrido nas mãos daquele cara... Era isso que você merecia, que ele te arrombasse todinha e te desse um merda de filho que agora você vai criar sozinha! – Ele falou e ela se desesperou, debatendo-se nos braços dele.
– Não! Você não pode fazer isso comigo! Jacob eu não tenho pra onde ir... Você... Você me acolheu! – Falou mais alto agora enquanto ele subia as escadas furiosamente, para que o som chegasse até os ouvidos dele.
Ela o seguiu nervosa e com pressa, e ao chegar no quarto o viu jogando no chão todas as roupas dela, esvaziando cada armário e em seguida pegou uma mala, a abrindo e socando raivoso tudo ali. Ela correu até ele, tentando impedi-lo ao puxar sua camisa, e em troca, com um único movimento ao virar-se, Jacob desferiu um tapa no meio do rosto dela, a fazendo cair longe. – SAI DAQUI PORRA! – Ele gritou – Lugar de puta é na esquina, lá que é seu lugar, — Apontou em direção à rua. -, não aqui! Você não vai nem precisar de teto para exercer sua profissão, nem se preocupe com isso! – Esbravejou. – Esse filho era pra ser meu! MEU, BELLA!
Isabella esfregava a palma da mão no rosto, sentindo-o queimar da palmada que levou enquanto se encolhia no chão frio e a chuva se tornava mais forte lá fora, permitindo que os galhos da árvore ao lado da janela se movimentassem ferozmente com o vento, batendo contra o vidro. Ela chorava desesperadamente, as pernas sendo abraçadas e o rosto enterrado entre os joelhos. Sentia-se como se não tivesse forças o suficiente para levantar dali.
– Quer saber de uma coisa?! – Ela levantou os olhos marejados e muito vermelhos por causa do choro, para fitá-lo. A esperança de que ele a perdoasse em seus olhos. – Você devia mesmo até ficar... É, você devia exercer seu trabalho inútil de farsante e putinha aqui mesmo... – Ele falou aproximando-se dela lentamente. Assim que ela percebeu a sua intenção tentou levantar e correr, mas ele foi mais rápido e puxou-a pelo braço com uma força exagerada, empurrando-a contra a cama violentamente e segurando sua cintura com força enquanto ela o chutava na barriga e o empurrava, debatendo-se mais do que achava ser capaz, tirando uma força de dentro de seu ser, muito maior do que lembrava-se ter usado com James. Talvez, porque agora ela sabia a tortura que ele a fizera passar, e seu coração estava tão vazio e ferido que acreditava não ser capaz de aguentar a mesma tortura mais uma vez.
Não, de novo não... Pensou e chorava, gritando em um tom de voz muito alto, sentindo suas cordas vocais doloridas pelo som estridente e o esforço que utilizava para fazê-lo, porém a chuva abafava qualquer tentativa de pedir socorro, que ela desesperadamente manifestava.
Jacob viu o desespero contido no olhar dela e mesmo que ela estivesse grávida, sabia que isso não seria nenhum empecilho caso ele realmente quisesse violentá-la, mas deixou que suas mãos afrouxassem o aperto por um momento, e Bella ao debater-se tanto, não perdeu o tempo, nem a chance que eram tão valiosamente lhe dados, e escapou dos braços dele, sem dar abertura para ele conseguir pegá-la novamente, ao desviar dele passando por baixo de seu braço.
Saiu correndo o mais rápido que pôde. Desceu as escadas, praticamente tropeçando nos próprios pés, e correu em direção à porta, abrindo-a e invadindo a chuva forte que estava sobre Forks. Suas roupas encharcaram-se rapidamente, e seus cabelos pingavam. A água estava impressionantemente fria, mas isso não a impediu de correr. Correr até seus pés não aguentarem mais, até calos e bolhas formarem-se, tamanha a distância percorrida. Queria ficar o mais longe possível daquela casa agora. Sempre soube que Jacob não reagiria bem, mas jamais, nem em seus piores pesadelos, imaginara que ele ousaria tentar violentá-la, já que essa era sua pior lembrança, seu medo mais profundo. A dor de ter sofrido o que sofreu estava gravada à ferro em seu ser, em sua alma e seu coração, já tão desesperado em dor que parecia não querer bater mais. Mas ela sabia que mesmo inconscientemente, ele fizera isso de propósito, para que ela também sentisse dor. Não a dor física, mas sim a emocional que ele deveria estar sentindo por sua mentira. A única coisa pela qual ainda valia cada batimento cardíaco era seu filho. Somente ele a mantinha viva.
Jacob
Ele caiu no chão de joelhos, com as costas apoiadas na guarda da cama. As lágrimas encharcavam a camisa que usava e seu coração doía tanto! Teve de deixar que ela fosse... Ele a amava muito, mais do que a si mesmo, mais do que a qualquer coisa. Estava louco, viciado naquela garota, como sempre foi obcecado por ela. Quando se deu por conta do que iria fazer teve de soltá-la, incapaz de acreditar no seu próprio comportamento. A ira o transformava em outra pessoa. Mas ela mentira para ele... Enganou ele por tanto tempo e o fez fingir amar a merda de uma criança que nem dele era, só por causa do maldito amor que ele queria dela. Ele queria aquela garota mais que tudo. Ela era dele, desde sempre, e ele tinha que suportar tudo para convencê-la disto, fazê-la perceber que o seu lugar era ao lado dele. A mentira parecia corroer seus ossos, pois seu corpo inteiro doía agora. Sem raciocinar, tomado pelo ódio, pegou a mesa de cabeceira e a lançou com tudo que tinha dentro sobre a parede, observando a madeira se estilhaçar e então cair no assoalho. Não sabia mais nem quem era enquanto destruía metade do quarto. Gritava consigo mesmo. Xingava-se por ter acreditado nela. Batia-se por amá-la daquele jeito e ela não estar nem aí para ele. A vadia nem sequer queria beijá-lo, e agora ele sabia o motivo! Ela não sentia nada por ele, devia até mesmo ter repulsa quando estava perto dele. Maldita... Conseguiu tê-lo nas mãos direitinho! Mas agora ele inverteria os papéis, ah sim! Se havia alguém que comandaria toda aquela mentirinha dela agora, seria ele. Ele ditaria as regras. Ele faria o que fosse preciso para tê-la para si, e agora ela não teria escolha. Se pelo bem não funcionara, funcionaria pelo mal. Quando ela mentiu para ele, fez sua cova e esperava apenas para que ele a empurrasse. Lógico que ela optaria pelo lado mais fácil, por sustentar sua mentira, seu joguinho... Fosse por bem ou por mal, mas ela o respeitaria e o seguiria como a boa cadela que era. Agora ele entraria no seu jogo, e ela não teria sequer opção de negar, porque ou ela aceitava ou ela ia presa. Ah sim... Nada que o passado dela não pudesse resolver alguns probleminhas para ele. Se aquele era o pior vilão e o mais temido para Bella, era com esse mesmo que ele iria mexer. Com o passado dela. Com seu segredo.
Edward
Fechei melhor meu casaco antes de sair na rua, abotoando-o até o final, já que fazia certo frio aquela noite. Abri a porta da livraria em que estava e senti o vento gélido contra meu rosto, como se estivesse o cortando. Ainda não era inverno, e tão pouco nevava, mas em Forks mal havia verão, portanto não era de se estranhar tal reação climática.
Uma leve chuva caía, quase impossível de ser notada vista de longe, e isso era bom, pois quando entrara na livraria o tempo estava bem feio lá fora. Fui caminhando em passos largos até meu carro que estava na próxima esquina. Meus lábios entreabertos permitiam ser possível ver minha respiração, com o ar que era expelido de minha boca. Quem visse de longe, poderia dizer que eu estava fumando, mas isso era impossível no meu caso, já que eu não fumava fazia muito tempo, e nem pretendia retornar ao mau hábito. Passei na frente de um café, antes de fazer menção em atravessar a rua. Justamente quando iria fazê-lo, inconscientemente virei o rosto para a rua deserta que ficava logo ali na esquina, era até irônico não haver movimento de pessoas por ali, bem perto de tantas lojas. Nem sequer iluminação havia, mas naquele momento, nem mesmo isso me impediu de ver a sombra da garota, refletida apenas pelas luzes que atravessavam as janelas das casas acima dela. Sem saber o motivo, meus pés me levaram até um pouco mais perto. Apenas alguns passos à frente, e eu percebi de quem se tratava. Era a garota do supermercado, que tanto havia atormentado meus pensamentos nos últimos dias.
Segundos depois, ao perceber o que acontecia com ela, me tornei apavorado e sem mais nem menos, um instinto protetor que eu nem sequer sabia que existia dentro de mim, veio à tona. Não havia sido impressão. Ela precisava de mim.
Bella
Seu peito doía devido ao grande esforço que fizera correndo. Estava ofegante. Apoiou a mão na parede de tijolos à vista, tentando se recompor. Sentia seu rosto queimar, talvez pelo frio, talvez pelas lágrimas que desciam tão quentes e salgadas, parecendo marcar sua pele à fogo. Tossiu algumas vezes e notou que seu corpo tremia violentamente, já que suas roupas completamente molhadas davam a sensação de estar ainda mais frio do que provavelmente estava. Abraçou o próprio corpo, tentando se aquecer, e acabou por deixar todas as lembranças da briga com Jacob virem à tona. Ela não podia mais deixar aquilo acontecer... Estava indo longe demais, e Jacob estava muito estranho. Na verdade, ela agora tinha medo dele, do comportamento que ele tinha com ela. Onde estava com a cabeça quando foi encontrar James? Onde? Se sentia tão perdida agora! Com quem poderia contar, se todos com que um dia contou a abandonaram e feriram? Até aqueles que ela contou seu segredo, até aqueles que sabiam da verdade! Como doía saber que tudo fora um engano! Que ela jamais poderia ter confiado em alguém, nem em sua família, nem em seu melhor amigo... Talvez nem em si mesma.
Lágrimas rolavam pelo seu delicado rosto, que continha uma expressão sofrida e exausta. Exausta de mentiras, exausta de correr, correr do seu passado. O que poderia ela fazer afinal? Ela era só uma garota, uma menina que não teve a oportunidade de viver sua juventude e por causa de uma tragédia, de um trauma, uma menina que estava agora presa em um corpo de mulher que não era compatível com sua mente, despreparada para a vida que levaria agora, inocente demais para ter cometido tantos erros como cometera, e estes só provavam o quão ingênua Bella realmente era.
Recostou as costas na parede atrás de si, buscando apoio e fechou os olhos, apertando-os com força enquanto soluços sacudiam seu corpo com brusquidão. Ela só buscava por alívio, só buscava por algo que acalmasse seu coração tão delicado. Sua respiração tornou-se difícil, rápida e entrecortada, visto o descontrole de seus sentimentos enquanto chorava audívelmente e ainda que tentasse se controlar, seus esforços eram insignificantes perante seu desespero interior. A mão enxugou as próprias lágrimas quentes em um ato rápido, enquanto mais delas insistiam em descer pelas maçãs de seu rosto. O que ela estava fazendo?! Sentia vontade de gritar, mas a voz estava sufocada pelo choro constante.
Ela levou a cabeça para trás, ainda mantendo seus olhos, de orbes tão indecisas, fechados. Tomou uma única golfada de ar, em busca de fôlego para ao menos tentar se manter em pé. Estava ficando fraca, podia sentir isso em seu corpo, em suas veias.
Sem aviso prévio, Isabella passou a sentir uma cólica muito forte, mais forte do que jamais sentira na vida. Contorceu-se em dor e gemeu, abraçando o próprio abdome e notou sua respiração ofegante. A dor foi ficando mais forte ainda, se possível, e era como se algo dentro de si fosse descer, fazendo uma certa pressão em sua barriga. O que estava acontecendo com ela, afinal? Parecia que algo a dilacerava por dentro... Aquilo não era normal, nunca sentira tanta dor assim! Sentiu algo úmido, pegajoso e quente descer por suas pernas cobertas apenas pela meia calça, já em frangalhos devido ao estado deplorável, e as condições que teve de enfrentar para chegar até ali. Mordeu o lábio com uma força um tanto quanto exagerada, para não gritar, podendo sentir o característico sabor de ferro na ponta da língua. Enquanto uma mão mantinha-se apertando constantemente a barriga, levou a outra até entre suas pernas procurando identificar o que quer que estivesse escorrendo pelas mesmas. Assim que voltou os dedos à luz, frente ao seu rosto, observou a mão tingida de vermelho vivo. Seus olhos brilharam com o temor que invadiu sua alma naquele instante.
Entreabriu os lábios em um perfeito “O” enquanto a mão, paralisada no lugar em que a deixara, tremia em nervosismo frente aos olhos dela. O gosto salgado de suas próprias lágrimas atingia seus lábios em cheio, mas ela já não gemia, ou soluçava ruidosamente. Simplesmente perdera a faculdade de expelir sons pela boca frente ao que acontecia. Desejava imensamente ser um sonho... Não poderia ser verdade... Tinha de ser mentira! Deveria ser apenas mais um de seus pesadelos, daqueles que não a deixavam dormir por semanas a fio. Os olhos, como se necessitassem de uma prova, vagaram rumo ao chão e depararam-se com o sangue que gotejava por entre suas pernas, de encontro ao chão de material bruto. Sequer passou por sua mente chamar alguém para ajudá-la. O desespero de ter seu bebê indo embora, bem como ela sonhara, a desligara do mundo ou de tudo que houvesse em torno dele.
Ouviu o som de passos próximos de si, e forçou seu corpo a ir para trás, mas a parede a impediu de prosseguir. Ela podia perceber pela sombra que era um homem e céus... Que ele a matasse rápido! Era seu único pedido naquele momento. Ele aproximou-se mais de si, e parecia receoso com qualquer movimento. Já ela sentia-se mais fraca a cada segundo, a tontura estava tomando sua mente e ela percebia seus olhos tornando-se turvos lentamente.
Sentiu mais um passo da parte dele, devido ao calor que emanava dele com a aproximação. A dor latejava, mas ela evitava pensar naquilo, já que logo ele a mataria e de pouco importaria a dor! Ele não dissera sequer uma palavra desde que chegara ali um minuto atrás. Como se desejasse ver uma última coisa antes de morrer, levantou o olhar pela primeira vez desde que ele esteve perto dela. Seu rosto estava pouquíssimo iluminado pela ausência de luzes na rua, e ela mal pôde perceber qualquer detalhe da face do seu assassino. Não notara a sua beleza, não notara seu corpo, não notara a cor de seu cabelo ou de sua pele. A única coisa que ela viu, antes de tudo se apagar por completo, foram os olhos verde esmeralda dele. Suas orbes eram de uma forma líquida e escura, grandes, indicando o pavor que ele também sentia.
Sentiu sua respiração falhar naquele único segundo desde que seus olhos se encontraram. Sentiu-se estranhamente confortada. Aqueles não pareciam os olhos de um assassino... Na verdade, era impossível que um assassino tivesse olhos tão doces como os dele, e era como ela não só pudesse ver sua alma, mas ele também via a sua. Olhos tão lindos, capazes de tirar seu fôlego; porém não lindos fisicamente, eram lindos em alma.
E então ela depositou sua confiança nele, naquele exato segundo em que cruzaram sues olhares.
Um anjo. Ele era seu anjo, sua salvação. E então, tudo tornou-se negro, a escuridão tomando lugar nos sentidos de Isabella, fazendo seus olhos fecharam-se, adormecendo para sonhar com seu anjo. Sonhar com a última coisa que ela vira, antes de cair sobre os braços daquele que a libertaria; antes de cair no seu sono profundo, onde ela sonhava que era salva pelo portador dos olhos verdes mais lindos que ela um dia ousou maravilhar-se.
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