Um Amor Arranjado
19 A Origem da Flor
Notas iniciais
Shaoran se sentara em frente à lareira, aconchegando-se no calor que as chamas transmitiam. A mente voara para longe, em lugares que nunca pensara um dia ter que flutuar. Colocou as mãos em seu rosto, suspirando alto.
– Olá, querido. – disse Yelan sentando-se ao lado de seu filho.
– Oi. – falou o rapaz retirando as suas mãos do rosto, em tom exasperado.
– Estou preocupada com a Sakura-chan. Ela não sai daquele quarto há dias. — disse a sua mãe observando o fogo revirar-se em sua agonia.
– Sinto o mesmo. – murmurou o rapaz abaixando a cabeça.
– Não quero que esta jovem passe pelo o que passei. – disse Yelan. Shaoran revirou os olhos, discreto.
– Como se sente?
– Sakura se recusa a retirar os seus pés daquele quarto, e eu perdi um filho. – respondeu secamente.
– Eu perguntei como se sente, e não sobre os fatos, rapaz. – retrucou a mulher.
– Pensas que estou feliz? Que estou a saltitar por aí? Nunca passara pela minha mente a dor de perder algo que nem sequer eu mesmo tinha o conhecimento de ter. – falou Shaoran, asperamente.
Yelan suspirou, colocando as suas mãos sobre as do filho. – Eu sei como se sente. – sussurrou com os olhos vazios.
Shaoran arregalara os seus âmbares. Esquecera por completo da morte de sua pequena irmã, que morrera tão prematura nos braços da própria mãe. Pensara na dor que Yelan sentira em seu seio ao deparar-se com algo inerte em seu colo, algo com a ausência de uma palpitação necessária. O coração do Li passara a pesar com uma nuvem acinzentada sobre si, de tamanho arrependimento, mas algo em sua mente o puxara para a volta de sua estrada amarga que fora a sua infância.
– Perdi uma mãe. — fungou, levantando-se.
– Perdoe-me. – disse Yelan abaixando a sua cabeça.
– Esqueça. – disse Shaoran por fim, retirando-se.
Sobre as cabeças de mãe e filho, encontrava-se uma pequena cerejeira, paralisada em seu canto sobre a cama. Como de costume, o vento brincava entre uivos, enquanto as cortinas debatiam-se excessivamente. Sakura estava a fitar o teto do quarto pertencente à dinastia Li. A sua mente recusava-se a se esforçar, recusava-se a processar fatos que ocorreram há poucos dias. Encontrava-se em choque. Perdera um fruto seu, perdera algo que nem conhecera, porém, amava sem limites. Suspirou revirando-se em sua posição. Fechou os olhos, permitindo a saída das teimosas lágrimas.
O sol voltara para o topo do céu, após uma noite longa para aqueles que tinham o sofrimento em suas vidas.
Shaoran e os seus parentes, encontravam-se no escritório, enquanto debatiam os últimos ocorridos tragicamente.
– Por favor, Reed. Estou tentando fazer com que o senhor entenda. – disse a mãe do Li sentada atrás de sua mesa.
– E estou disposto a ouvir. – falou o velho sentando-se em frente à mulher.
– Sakura-chan perdera vosso herdeiro em um momento importuno. – explicou-se Yelan. Fei Reed riu amargamente, deixando-se sucumbir.
– Bem feito. Uma bela resposta que o destino lhe dera pelo seu passado. – falou cruzando os braços.
– Aquela moça... – iniciou os seus argumentos, porém sem um fim. Shaoran o pegara pela gola de suas vestes, prestes a enforca-lo a qualquer outro sinal de desrespeito à sua mulher.
– Retire o que disse. – falou o rapaz entredentes, apertando o seu tio cada vez mais.
– Apenas disse a verdade. — dissera o seu tio entrecortando as suas palavras com a falta da absorção do oxigênio. Arregalara os seus olhos ao deparar-se com o fogo nos âmbares de seu sobrinho, sentira o ódio com aqueles olhos a fita-lo repulsivamente.
– O que há com você, Shaoran? – disse o seu tio em tom mais alto. – Encontra-se enfeitiçado por aquela Kinomoto?
– Nunca chegastes a reparar naqueles olhos de cigana oblíqua e dissimulada? – Shaoran pousou a sua cabeça para o lado, incerto quanto as palavras de seu tio.
– Quem os deu fora o diabo. Essa moça está tentando encanta-lo, meu jovem.
– Enlouqueceu?! – esbravejou o rapaz jogando o seu tio no chão. Fei Reed sentara-se rapidamente ofegante, enquanto colocava uma mão em seu pescoço. Levantara o seu rosto, fitando Yelan, que observava a tudo boquiaberta.
– Quero os meus direitos. Se este filho não vir á tona, irei assumir com os negócios da família Li. – argumentou Reed, apontando para o próprio peito e retirando-se do cômodo com dificuldade. Shaoran suspirou alto, sentando-se na cadeira e se afundando.
– Sinto muito, meu filho. – disse Yelan colocando a sua mão sobre a do filho na mesa.
– Tudo bem. Irei ver a Sakura. – falou retirando a sua mão da mesa e dando às costas à sua mãe.
No caminho ao quarto da cerejeira, pensara no que fora dito pelo seu tio. Rira consigo mesmo de tanta asneira. Entrou no quarto, deparando-se com o corpo calmo de sua esposa a dormir tranquilamente. Ajoelhou-se em frente à moça, acariciando o seu rosto. Sakura abrira os seus olhos com certa dificuldade, expondo o seu oceano esverdeado. “Olhos de cigana oblíqua e dissimulada” o rapaz pensara consigo, mas logo balançara a sua cabeça debilmente, se afastando de tal pensamento.
– Bom dia! — sorriu o Li. Sakura o fitou inexpressiva. Shaoran suspirou, logo recompondo o seu sorriso amarelo.
– Dormiu bem? – a jovem apenas assentiu. O rapaz franziu o cenho, sentando-se ao lado da moça, passando a encara-la com dor em seus olhos.
– Sakura, por favor, fale comigo. – suplicara o jovem Li. A flor arregalara os seus olhos, os voltando para o quarto. Passou a fitar o seu esposo, pigarreando.
– Sinto muito. – disse com a voz falha e constrangida. Shaoran sentira o seu coração palpitar, prestes a saltar para fora de seu corpo.
– Pelo que? – sussurrou o rapaz se aproximando.
– Por fazê-lo perder um filho. – respondeu, abaixando a sua cabeça. Shaoran a observou, sentindo-se o verdadeiro culpado naquele momento.
– Não, não é a sua culpa, Sakura. – falou, beijando-lhe a testa. A jovem levantara o seu rosto, a centímetros da face pertencente de seu esposo. Shaoran a fitara em total silêncio. Mesmo tão melancólica, encontrava-se tão bela.
– Preciso lhe mostrar um lugar. – anunciou sorrindo largamente.
– Um lugar? – o jovem assentiu fitando-a nos olhos de cigana.
Shaoran não fora capaz de aguardar a resposta de sua dama. Pegou-a pela mão, a arrastando para distante daquela casa. Já em outras terras, observou-a de esguelha reparando na expressão confusa de sua flor. Queria leva-la para os seus braços, enlaçando-a docemente, enquanto suas narinas inalavam o aroma floral de sua mulher.
Pisara com os seus pés onde almejava trazer a sua flor para o seu verdadeiro recanto, sua origem. Sakura arregalara os seus olhos, quase os pondo para fora de órbita ao deparar-se com um verdadeiro mar de flores. Ficara boquiaberta, indo à frente de seu marido de costas para o rapaz, enquanto fitava aquela dádiva que Deus dera ao mundo. Shaoran não pôde observar as reações de sua flor. Sentia a ansiedade e a curiosidade de saber o que atravessava a mente de sua mulher naquele momento, mas encontrava-se incapacitado de atrapalhar. Esperara mais alguns segundos, aproximando-se da cerejeira e pousando a sua mão delicadamente sobre o ombro da jovem.
– O que acha Sakura-chan?- questionou docemente. Sakura deixou-se levar pelo doce tom do rapaz, mesmo que sua mente estava a estranhar.
– Isto é tão belo. – disse virando-se para Shaoran, oferecendo o seu sorriso mais belo. O jovem Li a abraçou calorosamente, preenchendo o seu seio com aquilo que esteve ausente por dias. Sentia tanta falta daquele sorriso, daqueles olhos, de sua flor em si. Abraçou-a mais forte, disposto a esquecer, e fazer a jovem esquecer qualquer resquício de infelicidade. Sakura fechara os seus olhos, tranquila nos braços já conhecidos de seu esposo.
Permaneceram neste estado até o despertar da moça, que sorriu levemente afastando-se do rapaz. O encarou ainda a sorrir, proporcionando um leve brilho em seus olhos. Shaoran sorrira de volta. Sakura gargalhou, enquanto tocava delicadamente no tórax de seu marido.
– Está com você. – disse rindo e correndo em direção ao aglomerado de cores e flores. Shaoran a olhara confuso, mas logo retomando os sentidos, correu em direção de sua cerejeira.
Ambos sentiam as flores brincando com as suas peles, enquanto corriam entre este mar. O som do vento, dos pássaros, das plantas a debater-se, se misturavam com aquelas doces gargalhadas incontroláveis dos jovens.
Shaoran avançara rapidamente, encurtando o espaço entre ambos. O rapaz a puxara pelo braço, chocando o seu corpo com o da moça. Foram de encontro ao chão, ainda a gargalhar com a diversão. Shaoran a apertara com força sobre o seu corpo, sorrindo.
– Peguei. – sussurrou no ouvido da jovem, que sentiu uma pequena pontada de cócegas com a sua voz máscula e o leve roçar dos lábios do rapaz com a sua orelha.
Sakura ficara séria, afastando-se do rosto do rapaz e o fitando nos olhos. – Senti a tua falta. — confessou o Li, corando. Sakura rira baixinho agarrando-se as vestes do marido.
– O que foi?- questionou Shaoran sorrindo.
– Não brigamos há semanas. – riu a moça. Shaoran semicerrara os olhos pensativos, logo concordando.
– É verdade. – gargalhou. Ficaram em silêncio, apenas se observando de forma curiosa. Apreciando a beleza de sua moça, aproximaram-se colando os seus lábios. Deitou-a delicadamente entre as flores, enquanto a sua mão percorria o pescoço da cerejeira. Quase rira consigo ao pensar no medo que possuiu de perdê-la nas flores, porém a reconheceria pelo cheiro único.
Sobre o teto do quarto da cerejeira, Shaoran a fitava com doçura. Poderia afirmar com total segurança que o que estava a visualizar era o mais belo que já vira. Sakura encontrava-se deitada na cama, completamente despida, apenas com um lençol branco a cobri-la. Seus cabelos estavam levemente bagunçados, e seus lábios cheios permitiam a saída dos suspiros. Era mais uma noite escura, apenas uma vela ao lado da cama dava certa luz a cena.
– Isto é uma obra de arte. – Shaoran sussurrou para si.
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