Um Acidente de Natal

1 Algumas Coisas Estão Destinadas


O campo de treinamento estava coberto por uma fina camada de gelo.

Kakashi ajustou a bandana na testa e respirou fundo, sentindo o ar frio invadir os pulmões. O inverno sempre tornava tudo mais lento — músculos, reflexos, pensamentos. Ainda assim, ele estava ali. Como sempre.

— Você está atrasado — disse Sakura, cruzando os braços, o vapor da respiração escapando dos lábios rosados.

— Hokages têm esse privilégio — respondeu ele, com o tom preguiçoso de sempre.

Ela revirou os olhos, mas sorriu de canto.

Treinar com Sakura não era mais rotina oficial. Não havia ordens, nem relatórios depois. Era apenas... hábito. Algo que continuara existindo mesmo quando tudo ao redor mudara.

Eles trocaram golpes com facilidade conhecida, corpos que se entendiam sem palavras. Chakra fluindo, movimentos precisos. Kakashi desviou de um soco certeiro e girou para contra-atacar — rápido demais.

Ou talvez lento demais.

O pé escorregou no gelo.

Foi um detalhe mínimo. Um erro bobo. Um instante fora de compasso.

Kakashi sentiu o impacto antes de compreender o que havia acontecido. A cabeça bateu contra o tronco de uma árvore com um som seco demais para ser ignorado.

— Kakashi! — a voz de Sakura chegou primeiro que a dor.

Ele tentou se levantar, mas o mundo girou de forma desagradável.

— Ei... estou bem — murmurou, mais por reflexo do que por convicção. — Acho que meu tempo de reação ainda sente falta de um velho companheiro. — ele coçou o olho esquerdo como se estivesse certo de sua concepção.

Ela já estava ajoelhada ao lado dele, as mãos firmes segurando seu rosto, analisando as pupilas.

— Não está — disse, séria.

— Já tive dias piores.

— Cala a boca — ordenou, sem dureza. — Você vai ao hospital.

Ele abriu a boca para protestar, mas a dor latejou com força suficiente para fazê-lo fechar os olhos por um segundo.

— Só por precaução — acrescentou ela, num tom mais baixo. — Por mim.

Kakashi suspirou.

— Você é péssima com pedidos sutis.

— E você péssimo em ouvir o próprio corpo.

Pouco depois, um shinobi que passava ajudou a levá-lo até o hospital. Nada grave, garantiram. Um ferimento leve. Exames de rotina. Observação por algumas horas.

Sakura ficou.

Não porque fosse sua obrigação — mas porque nunca tinha sido só isso.

Quando Kakashi finalmente recebeu alta, o céu já começava a escurecer. A neve caía mais espessa, silenciosa, cobrindo Konoha com aquela falsa sensação de calma que só o inverno trazia.

— Repouso — disse Sakura, guardando a prancheta. — Nada de esforço hoje. Nem físico, nem mental.

— Isso elimina praticamente tudo o que eu faço — respondeu ele, resignado.

Ela o encarou por cima do ombro.

— Kakashi.

— Estou brincando... mais ou menos.

...

Já do lado de fora, ela ajeitou o cachecol ao redor do pescoço e, antes que ele pudesse dizer qualquer coisa, falou:

— Vai pra casa, toma um banho quente e descansa um pouco. — Fez uma pausa curta. — O jantar é mais tarde.

Ele piscou, surpreso.

— Jantar?

— Na casa do Naruto. — disse como se fosse óbvio. — Você vai.

— Isso foi um convite ou uma ordem médica?

— Os dois.

Kakashi suspirou, mas havia algo em seu olhar que suavizou.

— Certo — respondeu. — Eu vou.

Ela assentiu, satisfeita, como se tivesse resolvido um problema importante demais para ser discutido.

________

Mais tarde, Sakura chegou à casa de Naruto com os braços ocupados por sacolas e uma garrafa de vinho. O calor do interior a envolveu quase imediatamente, junto com o cheiro da comida e as vozes animadas.

Kakashi já estava lá.

Sentado no tatame, sem o manto do Hokage, segurava uma xícara de chá com as duas mãos, postura relaxada demais para alguém que tinha batido a cabeça algumas horas antes. Ainda assim, Sakura percebeu — o leve franzir de testa quando ele se mexia demais, o cuidado excessivo ao inclinar o pescoço.

Ela se sentou ao lado dele sem comentar nada, apenas empurrando discretamente um prato na direção dele.

— Come — murmurou. — E devagar.

Ele inclinou a cabeça, divertido.

— Sim, senhora.

Naruto observava tudo com atenção exagerada, até não se conter mais.

— Tá, pera. — apontou de um para o outro. — Desde quando você virou enfermeira particular do Kakashi?

Sakura não se deu ao trabalho de disfarçar.

— Desde hoje cedo. Ele bateu a cabeça no campo de treinamento.

— Bateu a cabeça? — Naruto arregalou os olhos. — Como assim?

— Escorregou no gelo — explicou ela, simples. — Nada grave. Mas ficou em observação.

Hinata levou a mão à boca.

— Kakashi-sama, você está bem?

— Estou — respondeu ele. — Graças à vigilância incansável da doutora Haruno.

— Incansável mesmo — Sakura retrucou. — Se reclamar de dor depois, a culpa é sua.

Naruto soltou uma risada curta.

— Isso explica muita coisa.

— O quê? — ela perguntou.

— Nada, nada — respondeu rápido demais. — Só... achei fofo.

— Naruto.

— Já parei!

Apesar do tom leve, havia algo diferente ali. Um cuidado silencioso, um entendimento que não precisava ser explicado. Eles já tinham passado o dia juntos. Agora, apenas continuavam.

A conversa fluiu. O jantar seguiu.

Mas havia algo... diferente.

Algo pairando no ar.

Ou melhor, sobre eles.

Sakura sentiu uma leve presença de chakra se manifestar acima de suas cabeças. Olhou para cima.

Um pequeno galho de visco flutuava ali, preso a nada, como se houvesse escolhido exatamente aquele ponto — bem entre ela e Kakashi.

Ela franziu o cenho.

— O que é isso?

Kakashi acompanhou seu olhar e arqueou uma sobrancelha.

— Parece um visco. Um... flutuante.

— Visco não flutua.

— Também pensava que não.

Naruto, que havia se levantado para ir até a cozinha, surgiu do corredor, carregando uma bandeja de sobremesas e fingindo total inocência.

— Ah, esse enfeite aí? Deve ser coisa do clã Hyūga. A Hinata disse que o pai dela mandou alguns encantos de decoração esse ano. Bem tradicional.

— Tradicional? — repetiu Sakura, desconfiada.

— É — disse Naruto, já colocando a bandeja na mesa. — Só tem uma regra, acho. Se o visco aparecer... bem... é necessário um beijo para que ele desapareça.

Sakura arregalou os olhos.

Kakashi, claro, só suspirou.

— Feliz Natal.

— Naruto... — disse ela, em um tom tão lento e controlado que até o bebê Boruto no colo da Hinata pareceu sentir o perigo.

— Eu juro que não tenho culpa! — ele ergueu as mãos como quem se rendia.

— E o visco encantado? — ela apontou para o enfeite flutuante, que agora pairava imóvel sobre as cabeças dos dois, feito um sentinela intrometido.

— Isso... não fui eu. — Naruto olhou rapidamente para a esposa. — Hinata?

Hinata negou com a cabeça, visivelmente confusa.

— Talvez tenha sido minha irmã. Ela tem usado selos de proteção para decoração. Mas esse... parece diferente.

Kakashi levantou um dedo, como se fizesse uma observação científica.

— Isso tem chakra. Não é só um selo qualquer.

Ele tocou o cabo da xícara de chá, como se não tivesse acabado de afirmar que estavam sob um jutsu natalino de natureza desconhecida.

Sakura esticou o braço para o visco. O pequeno galho flutuou alguns centímetros para longe, fugindo da mão dela — depois voltou exatamente ao mesmo lugar.

— Ótimo — murmurou. — Inteligente e teimoso.

— Eu conheço esse tipo de comportamento — comentou Kakashi. — Lembra você quando era genin.

Ela virou o rosto lentamente na direção dele.

— Você quer mesmo começar com isso?

Ele apenas deu de ombros, com aquele meio sorriso cínico escondido sob a máscara.

— Estou só tentando lidar com a situação.

— A situação, no caso, sendo uma maldição natalina que nos força a...

Ela parou de falar, as palavras presas na garganta.

Naruto tossiu, constrangido.

Hinata desviou o olhar enquanto balançava Boruto nos braços.

Sakura olhou para o visco, depois para Kakashi. Depois para a porta. Depois para o chá. Nenhuma daquelas opções parecia particularmente salvadora.

— Talvez seja temporário — disse, mais para si mesma do que para os outros. — Talvez desapareça sozinho depois de um tempo.

Kakashi se recostou no tatame, acomodando-se como se tivesse todo o tempo do mundo.

— Podemos esperar. Não tenho planos urgentes.

— Eu tenho. — Sakura cruzou os braços. — Trem para o interior. Amanhã cedo.

Ele fingiu pensar.

— Bom... temos a noite inteira, então.

Silêncio.

O visco flutuava firme, imparcial e impiedoso.

Naruto pigarreou, tentando dissipar a tensão.

— Tem bolo e chá. Alguém quer?

— Não — disse Sakura, ainda sem desviar os olhos do enfeite amaldiçoado.

Kakashi inclinou levemente a cabeça na direção dela, como se estivesse considerando a questão com um certo divertimento.

— Sabe... tecnicamente, só tem uma maneira de descobrir se isso realmente funciona.

Ela girou os olhos.

— Nem ouse sugerir.

— Eu não sugeri nada. Só estou dizendo... que a teoria existe.

Mais silêncio.

Sakura bufou.

— Isso é ridículo.

Mas não se moveu.

Kakashi também não.

O visco, acima deles, pareceu brilhar um pouco mais.

Sakura inspirou fundo.

Tentou manter a compostura. Apenas se afastar alguns passos e fingir que tudo aquilo não estava acontecendo. Levantou-se com cuidado, o olhar firme na porta.

Mas ao dar o primeiro passo, sentiu o corpo travar. Não exatamente paralisado — era como se algo a impedisse de seguir adiante. Uma resistência invisível, suave, mas intransponível, bloqueava sua saída.

— Mas que diab— — ela começou a dizer, antes de tropeçar no próprio pé e cair para frente.

Kakashi mal teve tempo de reagir. Ela tropeçou para frente, caindo direto em cima de Kakashi, que mal teve tempo de reagir. Ele a amparou no reflexo, os braços envolvendo sua cintura para evitar uma colisão mais desastrosa. O impacto os deixou perigosamente próximos, os rostos a poucos centímetros de distância.

— Aparentemente, o selo não gosta de fuga — murmurou ele, os olhos fixos nos dela.

O impacto foi suave, mas o constrangimento, instantâneo.

Ela estava praticamente sentada no colo dele.

O silêncio na sala foi quebrado pelo som abafado da caneca de chá caindo no tatame.

Kakashi arqueou a sobrancelha, a mão firme nas costas dela.

— Cuidado.

— Desculpa! — exclamou Sakura, tentando se levantar às pressas.

— EI! EI, EI, EI! Peguem leve aí! Pelo amor de Kami, não façam nada na frente do meu filho!

— Naruto! — protestou Hinata, rindo atrás da mão.

— Que foi? — ele disse, rindo também. — Se for pra continuar esse clima, vai pra um quarto, pô! Eu não sou obrigado!

Sakura finalmente conseguiu se desvencilhar do abraço improvisado, o rosto em chamas, tentando recompor a dignidade enquanto voltava a se sentar com o máximo de distância possível — o que, para o chakra do visco, parecia significar algo em torno de trinta centímetros.

— Não aconteceu nada. — disse ela, olhando para lugar nenhum.

— Ainda. — completou Naruto, rindo sozinho da própria piada.

— Naruto Uzumaki... — ameaçou ela.

— Tá bom, tá bom! Já parei! — ele ergueu as mãos, mas o sorriso idiota não saía do rosto.

Hinata apenas balançava a cabeça, divertida.

Kakashi permaneceu em silêncio, apenas ajeitando a manga do moletom e fingindo estudar o visco como se fosse um fenômeno científico de alto risco.

— Isso aqui tem uma lógica — murmurou ele. — Parece um selamento ligado a afinidade de chakra... ou talvez seja uma ilusão sensorial ativada por contato físico?

— Eu caí em você, Kakashi. Não é isso.

— Ainda assim, é interessante.

Ela bufou, cruzando os braços.

— Interessante é você não ter feito absolutamente nada pra evitar minha queda.

— Eu te impedi de um desastre, eu acho... — rebateu, com a tranquilidade de quem tinha a razão e sabia disso.

— Por que você tá tão calmo?

— Porque está nevando lá fora, tem chá quente aqui dentro, e você caiu no meu colo, não no do Naruto.

— HEY! — gritou o loiro.

Kakashi sorriu sob a máscara, satisfeito com o caos mínimo que estava gerando.

Sakura, por sua vez, afundou o rosto nas mãos.

O visco, acima deles, ainda não tinha se movido um centímetro.

Boruto soltou um choramingo sonolento, e Hinata balançou a cabeça, com sono evidente.

— Desculpem. A gente vai subir. Está tarde, e o pequeno precisa dormir. Fiquem à vontade, está tudo pronto na sala.

Naruto já bocejava, coçando a barriga por baixo do moletom.

— Boa noite, casal amaldiçoado!

Sakura soltou um resmungo abafado enquanto se erguia com um pouco mais de dignidade do que antes.

— Isso só pode ser karma — murmurou ela, alisando o vestido.

Hinata subiu as escadas com Boruto no colo, enquanto Naruto bocejava alto atrás dela, desejando um "boa noite" que mais parecia um aviso de abandono.

— Qualquer coisa, o quarto de hóspedes tá limpo! — gritou ele lá de cima, antes de desaparecer no corredor.

A porta do quarto se fechou, e o silêncio caiu com um peso inesperado sobre a sala.

Sakura ainda estava sentada no tatame, as pernas dobradas para o lado, e o visco flutuava acima de suas cabeças como um lembrete persistente — quase zombeteiro.

Kakashi soltou um leve suspiro e se espreguiçou com um dos braços. Depois, virou-se de leve na direção dela.

— Acho que deveríamos resolver isso logo.

— Resolver? — ela ergueu uma sobrancelha, desconfiada.

— Eu tenho que trabalhar amanhã cedo — respondeu ele com a calma de sempre, como se falasse sobre o clima. — Relatórios, reuniões, o inventário de suprimentos de inverno... esse tipo de alegria.

Sakura cruzou os braços.

— Você é o Hokage. Não deveria trabalhar no Natal.

Ele deu um meio sorriso por trás da máscara, sem humor.

— Exatamente por ser o Hokage, que deve ser eu quem mais tem que trabalhar amanhã. A vila não para. E não posso deixar tudo nas costas do Shikamaru.

— E você não pode continuar carregando tudo sozinho.

— É meu trabalho.

— Também é Natal — rebateu ela, firme. — Você devia estar comemorando.

Kakashi a encarou por um momento, até dar de ombros, como se o próprio corpo estivesse cansado da discussão.

— Com quem?

Sakura piscou, um pouco atingida pela simplicidade daquela resposta. Não havia autocomiseração, nem drama. Só a constatação crua de uma realidade que ele parecia já ter aceitado há muito tempo.

Ela olhou para as mãos por um instante, antes de dizer:

— Você podia ir comigo. Não quero saber que uma das pessoas que eu amo passou o Natal sozinho.

Ele parou. A expressão serena dele oscilou por um segundo, quase imperceptível. Mas Sakura viu. Um pequeno movimento no canto dos olhos. Um silêncio que cresceu demais entre uma respiração e outra.

— Se você quer que eu vá — disse ele, por fim, com a voz baixa — então vai ter que nos libertar daqui.

Ela bufou, erguendo os olhos para o visco insistente.

— Então vou precisar de saquê.

— Saquê?

— É — disse, ainda olhando para cima. — Um pouco de coragem líquida. Afinal, você foi meu sensei. Isso é estranho.

Ele riu, o som abafado pela máscara, mas genuíno.

— Não sou seu sensei há muito tempo, Sakura.

— Você ainda parece ser — respondeu ela, pegando uma das garrafinhas de saquê esquecidas na bandeja em cima da mesa.

— Nesse caso — disse ele, aceitando a outra garrafinha que ela ofereceu — é melhor eu beber também. Só por precaução. Assim, se alguém perguntar, posso culpar você. Ou o álcool.

— Justo — murmurou, sorrindo de lado.

Eles brindaram em silêncio, batendo levemente as garrafinhas uma na outra, como dois cúmplices prestes a fazer algo tolo demais para ser admitido de manhã.

E riram juntos, pela primeira vez naquela noite, com leveza de verdade.

Minutos se passaram entre goles de saquê e conversas aleatórias, os dois falando de tudo e de nada — desde a quantidade absurda de papelada na Torre do Hokage até uma discussão calorosa sobre qual era o melhor recheio de dango.

Sakura riu, apoiando o queixo na mão.

— Acho que falta uma coisa aqui.

— Ah, sim?

Kakashi arqueou a sobrancelha, virando o rosto e elevando a mão até o mesmo para que ela não visse seu rosto enquanto levava a garrafinha vazia à boca antes de perceber que não havia mais nada. — O quê? Mais saquê?

— Música — respondeu ela, com uma expressão quase sonhadora. — Deveria ter música natalina. Fica parecendo menos constrangedor quando tem música.

Ele inclinou levemente a cabeça, como se ponderasse seriamente a ideia.

— Está tentando criar um clima?

Ela estalou a língua e deu um leve tapa no braço dele.

— Não fala uma coisa dessas!

— Ai — disse ele, levando a mão ao local atingido e fazendo uma careta dramática. — Isso foi violento. Trauma de guerra. Um dia fui atingido por uma kunai e doeu menos que isso.

Sakura riu, balançando a cabeça, envergonhada e divertida ao mesmo tempo. Ele observou aquele sorriso por um instante, os olhos suavizando.

— Bom... já que não temos música — disse ele, apoiando as mãos nos joelhos — acho que vou cantar pra você.

— Por favor, não.

Mas ela já ria antes mesmo que ele começasse.

Kakashi pigarreou teatralmente, e com sua voz rouca e baixa, começou a cantar em um tom surpreendentemente afinado, embora suave, como se estivesse contando um segredo ao invés de entoando uma melodia:

"Wise men say (Homens sábios dizem)

Only fools rush in (Que só os tolos se apaixonam)

But I can't help (Mas eu não consigo evitar)

Falling in love with you..." (Me apaixonar por você).

Sakura o observou, surpresa pela serenidade daquilo. Por um momento, esqueceu-se do visco, da missão estranha que os prendia ali, da madrugada gelada. Havia apenas aquele homem diante dela — ainda com a máscara, mas exposto de um jeito que nunca estivera antes.

Quando ele terminou, ela sorriu — um sorriso cheio, largo, e quase triste.

— Sensei... eu não esperava que a primeira vez que eu fosse ver o seu rosto seria para fazer o que temos que irremediavelmente fazer.

Ele a olhou por um instante, então ficou em silêncio.

Depois, levantou-se, com lentidão.

— Sakura. Levante-se.

— Hã? O quê? Por quê?

Ele estendeu a mão. Ela, ainda confusa, a aceitou.

— Vamos dançar — disse ele, com simplicidade.

Ela riu, hesitante, mas se deixou conduzir. Ele a girou delicadamente, segurando sua mão com firmeza, a outra apoiada em suas costas. Os passos eram pequenos, quase imperceptíveis, mas bastavam. Era uma dança. Era íntima. Era só deles.

Kakashi voltou a cantar, baixinho, quase sussurrando as últimas linhas:

"Like a river flows (Como um rio que corre)

Surely to the sea (Certamente para o mar)

Darling, so it goes (Querida, é assim)

Some things are meant to be..." (Algumas coisas estão destinadas a acontecer)

Quando os pés de Sakura pararam de se mover, ele não a soltou. Os olhos dele estavam fixos nos dela, e ela soube, no silêncio entre uma nota e outra, o que viria a seguir.

Sem pressa, Kakashi levou a mão ao rosto e puxou a máscara para baixo, revelando-se por completo.

Por um instante, ela apenas o olhou. Não em busca de respostas ou explicações — mas como quem observa algo há muito tempo imaginado, e que, agora, finalmente se permite existir.

E então, sem dizer nada, ele se inclinou devagar e selou os lábios nos dela. Um beijo calmo, sereno, mas cheio de significado. Um toque sincero, livre da hesitação que os havia prendido até ali.

Lá fora, a neve seguia caindo. Silenciosa.

E sobre suas cabeças, o visco brilhou — e desapareceu.