Ultraviolento

1 Apresentação


Notas iniciais
Olha que cabelo bonito!

₪ O Cais ₪

Você gosta do que está vendo? O conforto deste céu amarelado nos torna parte desta ponte. Não se preocupe com o que os outros pensam, pois eles não estão neste lugar. Você se sentirá vivo enquanto estiver aqui.

Estamos tão preocupados com o que temos a fazer que quando não há mais nada estamos perdidos. Esqueceram-se de como é vento acariciando a pele ou o asfalto gelando os pés – enquanto alguns calçados esperam de molho ao pôr do sol – , o leve toque das mãos no frio corrimão ou o sol aquecendo o rosto. Amarelo, amarelo. Quase laranja. Amarelo queimado. Não aquele amarelo sem graça. Amarelo vivo, reluzente.

Segure firme a mão de alguém antes de ir embora. Você vai aprender a pegar uma sensação e depois deixa-la ir.

— Ei, não é lindo?

— Sim...

Um breve trecho comum. Ações, pensamentos e anseios de um triunfo enigmático.

₪ A garota ₪

Terminados os ânimos, andava pelo corredor estreito, com armários ao lado esquerdo e grandes janelas visualizando a quadra de esportes, no térreo. A luz forte e agonizante do sol batendo na cara, digo, refletindo na face. A cada bloco de armários, algum mural ou porta para uma sala.

O dia corria fiel ao seu antecessor. Passos curtos, mão no rosto, refugiando-se do sol. Olhei para frente ou para o chão. Pernas à frente. Uma garota linda mexendo num armário metros à frente. Pare!

Pare um pouco, observe bem. Não a conhecia e nunca a tinha visto. Cabelos pretos, claros e curtos, um pouco despenteados e pontudos. Olhos verdes, meio cianos. Estatura média. Usava o uniforme feminino: camisa social branca, pequeno blazer azul escuro, saia acima dos joelhos. Embora inviável observar as curvas como os garotos bem querem, adoro ver a parte detrás dos joelhos – coisa que as calças não permitem.

Oh, querida! Você me faz respirar mais rápido só de passar perto. É melhor me apressar e correr pra bem longe de você. O ambiente escolar já é suficiente pra me deixar sufocado, por isso sempre evitei as pessoas. Ao contrário do que você pensa, não tenho medo de me aproximar, apenas medo de me aproximar demais, o que é bem diferente – ou o inverso muito pelo contrário.

— Com licença! – uma doce voz me chamou. Seria a voz daquela garota? Apesar de curioso, segui meu caminho a passos calmos e curtos.

Imaginei-me segurando a mão dela e depois sacudindo. A lua cresceu e ficou cheia, dez vezes maior. As luzes da cidade se apagaram e os postes derreteram. Uma imensidão de estrelas antes não vistas começou a brilhar. A lua assumiu um aspecto pouco amarelado, quase imperceptível. Pulei a janela e ela estava lá para me salvar. Agora nós estamos juntos, cada vez mais subindo. Ou será o céu caindo? Se for, eu não me importo mais. Se você não sentir, eu não sinto. Se você não quiser, eu não quero. Dê-me um tapa na cara, me belisque. Continue vivendo, mas seja você mesmo. Vamos correr nus por aí e ouvir os uivos dos gatos sem vergonha. Andando por cima do telhado, vamos pulando, vamos. Nada pode nos impedir. Navio navegando pelas águas molhadas, sobe no mastro durante a surdina. As luzes do farol gritam.

— Terra à vista! – gritaram.

Assustei-me com barulho do despertador. Amanheci com o rosto congelado na parede. Fui levantando devagar. Bati a cabeça no violão pendurado parede. De onde raios ele surgiu? Sentei na cama e coloquei o pé esquerdo sobre o chão. Procurei algum par de chinelas usando meu tato apurado. Só achei o lado esquerdo. Calcei e não me importei muito com o outro pé. Vira-se bem enfiado numa meia com um buraco de ventilação no dedão. Bocejei, cocei o traseiro e cambaleei. Entrei no banheiro e espremi um pouco de escova no creme dental. O buraco do tubo é um absurdo. Há visão pior que a que você vê no espelho enquanto escova os dentes? Cabelo desgrenhado, olhos roxos inchados, espuma na boca e uma mancha enorme de creme dental no pijama.

Sentei para tomar o café da manhã. Procurei alguma coisa na geladeira, mas só achei um queijinho velho seco pra colocar dentro do pão e tomar suco de maçã dentro da xícara. Provavelmente isso foi fruta da minha cabeça, com base em Jack andar espalhando pela escola uma teoria em que todos os sucos, de todos os sabores e gostos, são na verdade sucos de maçã. “As empresas alimentícias querem diminuir os gastos das plantações”, afirmava. Ri um pouco pensando nisso e depois olhando para aquele relógio de pêndulo antigo. Esse relógio faz um barulhão.

₪ Fim ₪

“Se não quer se machucar, fique longe daquilo que você ama”. Eu acreditei nisso por muito tempo. Mas a cada dia, a cada hora que passava, me sentia mais invisível. Eu não aprontava, não era um grande esportista, nem tinha as maiores notas.

— Você só está assim porque você não faz nada.

— Cara, que susto! Você não pode interromper minha narração desse jeito. Eu nunca te falei sobre isso.

— Eu posso ler sua mente!

— Cala a boca.

— Nós vamos ter que fazer umas coisas legais esse ano, pra você sair dessa miséria.

— Agradeço a preocupação, mas estou bem.

Antes de levantar, no dia seguinte, aperte a função soneca umas cinco vezes. É o tempo que se gasta para tomar coragem de sair cambaleando, dar uma bocejada, coçar o traseiro e acariciar a porta com o rosto – aliás, busque abrir os olhos antes que seja tarde. Não há visão pior que a que você vê no espelho enquanto escova os dentes: um cachorro raivoso. Pelo menos é assim que eu vejo.

Notas finais
Tchau.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!