Tô Nem Aí

19 019. Um Milhão de Sonhos


Notas iniciais
Penúltimo capítulo ♥

Alexei havia acabado de acordar e já estava pronto para dormir novamente. Era finzinho de tarde de quinta ou sexta, não sabia exatamente, havia perdido a noção dos dias há algum tempo. Sentia como se estivesse mergulhado numa piscina escura como a noite, que limitava seus sentidos e lhe fazia sentir nada além de um grande vazio inexplicável – e, claro, o ódio que construía sobre si mesmo, que, por mais apático que a depressão o tornasse, não desaparecia nunca.

Estava sozinho, o que era novidade, visto que os amigos pareciam frequentemente revezar companhia consigo. Ficavam falando e falando por longos minutos, em monólogos frequentes e sem sentido. Foram raras as vezes em que Alexei deu o ar de sua voz, muitas vezes falando só o mínimo ou esboçando reações como “me deixa dormir” ou “por que eu tenho que ser assim?”. Alex havia estado mais consigo mesmo que com qualquer pessoa do mundo exterior. Independentemente de quantas visitas ele tivesse, sua auto companhia era tudo que preenchia seus dias. Acabou por se questionar se haviam mesmo passado dias, ou se tudo não era ilusão de uma mente que apenas havia vivenciado algumas horas... ou tenebrosos meses. Não soube discernir. Estava tudo tão confuso.

As lembranças eram tão ligeiras que mal podiam dizer “oi” antes de serem expulsas de seus pensamentos enevoados pela escuridão daquele sentimento poderoso. Não tinha fome, não tinha sede, não queria amar... Só queria que todos fossem embora e vivessem longe de si... Pois o ódio que cultivava por si mesmo ainda era maior que qualquer coisa... E lhe fazia sentir que a vida de todos seria muito melhor sem a sua presença. Sequer pensou em Ignácio Cruz ou Roman Medina, muito menos na irmã e em Nimbus... Não queria fazer bolos. E isso sim era preocupante. A confeitaria foi tudo que sobrou para Alexei se adaptar a uma nova realidade, se inserir novamente na sociedade e deixar para trás toda raiva e se tornar a melhor versão de si mesmo... Fazer bolos era como uma terapia de Versa, só que sem muitas palavras e com muito mais açúcar. Ah! O doce sabor do açúcar... Alexei tinha saudades disso, mesmo tendo certeza que não sentiria nenhum sabor além do amargo.

Ouviu uma voz pelo apartamento. Não era Teresa, nem Ramona e muito menos Edric. Franziu a testa, confuso, e reuniu as poucas forças que lhe restavam para se arrastar para fora da cama e espreitar pela fresta da porta: era Oliver, o novo vampiro transformado por acidente. Parecia exageradamente irritado, discutindo com alguém pelo telefone... Enquanto fumava, numa pose estranha para o mesmo vampiro de outrora, doce, carismático e estranhamente querido. Parecia outra pessoa... E isso era realmente estranho.

Em todo caso não pôde observar por muito tempo. Sentiu seus ombros pesarem como se erguesse elefantes, caiu sobre os próprios pés e se envolveu na manta grossa e delicada, feita de desenhos de gatinhos, sobre o tapete felpudo do próprio quarto, enquanto se aconchegava na própria tristeza, para poder voltar a dormir...

Ramona e Alexei

Acordou com cheiro de açúcar queimado. Estava, relativamente, menos fraco naquela manhã, sabe-se lá o dia. Alexei, ainda envolto na manta de gatinhos, caminhou, meio encarquilhado, para a cozinha do apartamento, encontrando Ramona se aventurando na tentativa de fazer alguma coisa doce. A irmã segurava um livro de receitas com uma mão e uma colher de pau com a outra, enquanto o fogão ardia sob uma panela rasa de aço prateado, com açúcar estalando sobre o ferro ardente.

− O que você tá fazendo? – Alexei questionou, confuso. Ramona se assustou com sua presença e quase derrubou o livro no chão.

− Ah, você acordou! Que bom! – ela afirmou, contente, envolvendo o irmão num abraço exageradamente doce – Eu tava tentando fazer... Hum... Bem – ela desviou o olhar para a página do livro, curiosa – Creme brulee – respondeu. Alexei riu, num tom meio entristecido.

− Que ótima francesa você é que nem sabe fazer creme brulee sem ler a receita – disse num tom cômico, ao passo que também meio desanimado. Ramona revirou os olhos – Coloca água se não o açúcar queima – contou, dando as costas e fazendo menção a caminhar de volta para a cama.

− Mano, espera! – Ramona gritou. Alexei virou-se e encarou a irmã, que lhe olhou de cima a baixo, sem saber exatamente o que dizer. Essa era a Ramona: a garota de poucas palavras, mas muitos pensamentos. Era assim desde que ele pode se lembrar: não sabia se expressar com a voz, mas tudo que ela sentia fica subentendido nas ações, retido nos pensamentos constantes e poderosos. Alexei sabia o que aquele olhar compadecido significava: eu te amo.

− Também te amo, irmã – respondeu, com um sorriso melancólico. Ramona suspirou, mordeu o lábio e sorriu, meio envergonhada por não saber como falar tudo diretamente.

− Você é o melhor irmão que eu poderia pedir ou sonhar – ela afirmou, com um sorriso fraternal e compadecido. Alexei abriu os braços, com um brilho curto e quase apagado nos olhos, deixando que a irmã lhe presenteasse com o aconchego de seus braços cansados e feridos, cheios de cicatrizes e marcas das drogas do passado – Eu, sabe, estou limpa há algum tempo... Queria te dizer isso. Acho que o mais pesado que bebi foi absinto... E isso naquela festa, aquele dia... – e isso sim era uma verdadeira dádiva da eternidade: poder viver o bastante para ter uma notícia tão maravilhosa quanto essa. Alexei se sentiu preencher por um calor de felicidade sem igual, que lhe trouxe certa vontade de continuar lutando contra tudo que vinha consumindo seus dias, mas que logo se apagou ao se chocar com a escuridão do imenso vazio que se instaurava no seu coraçãozinho de confeiteiro.

− Estou orgulhoso de você... De verdade – Alexei afirmou, apertando a irmã mais forte no seus braços – Te amo muito, j’aime vous... – uma lágrima desceu involuntária do olho de Ramona e molhou seu nariz rosado. Meio envergonhada, se afastou do irmão, se recompôs e abriu um sorriso.

− Que tal sair hoje? Queria tomar sorvete... – ela suplicou. Alexei estava próximo a negar, quando a irmã interveio – Pra comemorar. Por favor. Por mim – era impossível de se negar uma coisa daquelas, não importasse quantos graus de sentimentos ruins esfriassem seu coração. Alexei sorriu, a contragosto, e anuiu. Ramona deu pulinhos de felicidade em comemoração.

− Vou só descansar um pouco... Mais tarde vamos – afirmou, voltando para o quarto para se acalentar na própria solidão.

Ramona aguardou que ele saísse para pegar o telefone, discar um número e fazer uma ligação. Teresa atendeu de imediato.

− Tudo certo – Ramona confirmou.

− Ramona seja louvada – Teresa disse.

Teresa

Tersa terminava de ajeitar algumas coisas restantes na confeitaria após a ligação de Ramona. A ausência de Alexei praticamente duplicou todo seu trabalho, bem como de toda a equipe. Naquele dia, no entanto, não haviam produzido encomendas, mas sim uma centelha de doces, alguns bolos e alguns quitutes deliciosos para o evento que planejaram com tanto esmero. Tê estava confiante e convicta na ideia de que aquilo poderia fazer com que Alexei voltasse a ser a pessoa que era e que fora apagada pela maldade descomunal de pessoas sem coração. Ela, com toda certeza, poderia matar Ellen Guttenberg e Dulla Swanna por tudo que haviam feito ao amigo, todavia, tudo que lhe restava era fingir que elas não existiam e se poupar de toda irritação de ter que ouvir suas vozes recheadas de hipocrisia e preconceito.

Day Flores parecia um pouco aflita quando entrou na cozinha, enquanto Teresa empilhava caixas com doces de chocolate com caramelo e uva.

− Que foi? – Teresa questionou. Dayana suspirou, olhou ao redor e coçou os cabelos.

− Sua sogra tá aí – afirmou, meio sem jeito. Teresa suspirou, engoliu seco e pensou “É, não terei paz tão cedo”. – Mando ela ir embora? – questionou.

− Não – disse, convicta. Pensou em todo mal que a sogra fez para si, para o amigo e para pessoas inocentes, e decidiu que devia dar um fim nisso, de uma vez por todas – Tenho que enfrentar meus medos. Pelo Alexei – afirmou. Dayana anuiu e saiu meio sem jeito. Teresa suspirou novamente, ajeitou os próprios cabelos e se foi atrás.

Ellen Guttenberg estava com o mesmo sorriso sínico e hipócrita de sempre. De longe tão doce e bondosa, de perto uma serpente venenosa e sem escrúpulos. Teresa detestava toda essa pose de mulher idônea e preocupada com a família que ela tanto tentava perpetuar, detestava como ela era hipócrita em todos os sentidos, como usava as palavras para machucar, criticar e envenenar as pessoas, sem se preocupar com o que elas sentiam. Era a representação perfeita da falsidade, da perversidade e da maldade.

− Teresa! – Ellen afirmou, com um sorriso aparentemente amigável no rosto quando viu a nora. Tê continuou com um olhar impassível e irritado – Trouxe a versão final da lista de convidados! Espero que não se importe, claro... Como sua prima não me disponibilizou a lista oficial, fiz a minha própria... Mas, claro, deixei alguns lugares vagos para você botar seus, é, amigos... – ela afirmou, entregando à Teresa um papel. A moça analisou, absurdamente incrédula, e acabou gargalhando de nervosismo.

− Que merda é essa? – questionou. Ellen pareceu assustada com o tom da moça – Você simplesmente tirou TODO mundo que eu conheço das cadeiras da frente para botar gente que eu nunca vi? – afirmou. Ellen deu um risinho.

− São amigos da igreja.

− Você diz da igreja dos velhos daqui da rua? – Teresa questionou, irritada, observando os nomes – DULLA SWANNA? Você quer chamar a Dulla Swanna pro meu casamento?? – Teresa gritou, irritada. Ellen engoliu seco, numa pose orgulhosa.

− É claro, é minha amiga e...

− EU CAGUEI SE ELA É SUA AMIGA! – Teresa perdeu toda a paciência que vinha resguardando sua raiva haviam meses. Ellen pareceu absurdamente admirada – Meu deus, quem você pensa que é? Cara, meu deus... Você me deixou menos que dez lugares para meus amigos NOS FUNDOS da igreja, pra encher meu casamento daqueles velhos idiotas viciados em bingo! – gritou, a voz ficando um tom mais rouca de tanta raiva. Sentia sua garganta se fechar, seus olhos arderem e seu sangue correr pelas veias numa queimação imparável de adrenalina. Ellen permanecia impassível.

− Teresa? Não estou te reconhecendo... – Ellen disse, num tom indignado e amargurado – Como pode falar assim dos meus amigos? Pessoas tão boas...

Aquilo era demais para qualquer um aguentar. Teresa riu, caminhou pelo salão e extravasou todo seu ódio rasgando a lista em mil pedacinhos na cara de Ellen, sentindo com prazer cada rasgo alegrar sua alma e lhe preencher com uma descomunal energia de satisfação, algo melhor até que um orgasmo. A sogra ficou boquiaberta, indignada.

− Que se danem seus amigos, sinceramente – afirmou odiosa, jogando os pedacinhos de papel no chão e pisando com gosto – O casamento é meu. A lista é minha. O marido é meu – afirmou. Ellen encarou a cena por longos instantes, com um olhar que mesclava raiva, ódio e intemperança, parecia próxima a explodir a qualquer momento. A boca torcida e o nariz arrebitado apontando para o teto, com as sobrancelhas dobradas sobre os olhos dando a entender toda sua descompensação. Ela poderia ter surtado e gritado, em vez disso riu em indignação.

− Como você OUSA? – ela questionou irritada, pela primeira vez num tom além do cínico de sempre. Estava em sua verdadeira forma, longe de máscaras, hipocrisia e cinismo. Os olhos azuis ficaram vermelhos com raiva – Eu fiz de tudo por você e por esse maldito casamento! Tudo que você tem que fazer é aceitar o que eu digo!

− Mas eu não aceito – Teresa respondeu convicta, inflando ainda mais o ódio de Ellen.

− Eu devia ter percebido a pessoa que você era – Ellen respondeu, tirando um cigarro da bolsa, acendendo e colocando na boca – É claro que meu David sequer saberia escolher uma mulher que prestasse. Não bastasse escolher uma da sua ra... – ela parou por um instante – Laia... Ainda tem que escolher uma que vive cercada de vampiros, de gays e todo tipo de perversidade. – Teresa cerrou os olhos, odiosa e desconfiada com o que Ellen falaria antes de se interromper, e riu com o absurdo do momento.

− Mas é claro que você não seria racista só com vampiros – e riu novamente em indignação – Tem que vir o kit completo: racista, preconceituosa, homofóbica... Por que que EU não percebi antes o tipo de pessoa que você é, Ellen Guttenberg?

− O TIPO DE PESSOA QUE EU SOU? – Ellen gritou, extremamente irritada – Eu sou do melhor tipo de pessoa que você pode encontrar, querida, da melhor estirpe. Devia dar graças a deus por ter uma sogra como eu, seria a primeira coisa a se orgulhar nessa sua vida, diferente dos seus amiguinhos do mundo, que bebem sangue, fazem orgias carnais e sabe-se lá o que usam naquelas veias para se entorpecer – Teresa cruzou os braços e encarou a sogra com um olhar irritado – Sim! Drogados! É o que eles são! TODO MUNDO SABE! Não bastassem serem doentes e estarem por aí passando AIDS enquanto respiram, ainda ficam se drogando na frente de todo mundo. Acha que eu não sei? – Ellen tragou o cigarro e soltou a fumaça – Deus que perdoe esses pecadores.

É. Teresa não era o tipo que batia em senhoras de idade, infelizmente, mas a vontade existia e era explícita. Em vez disso suspirou, procurou todas as suas energias positivas, olhou ao redor e encontrou um copo meio cheio de suco, provavelmente deixado pelo cliente que sentou ali mais cedo. Sorriu, pegou e com toda calma e todo poder de seu zen e seus chacras, energizou toda sua luz e atirou tudo na cara da sogra, com toda positividade de seu coração, que estava distraída demais para perceber até que quase se afogou naquela mistura roxa e pastosa. Ellen gritou, descompensada, cheirando à um oceano de uva.

− O QUE DIABOS VOCÊ FEZ? – ela gritou possessa, de olhos fechados. Teresa riu.

− Te ajudando. Você é tão contra as drogas... Não devia estar fumando uma – Teresa respondeu com uma aura de deboche única e adorável. Não se arrependia, não sentia medo de uma reação e estava pronta pra tudo que viesse. – E, não sei se você sabe, mas eu fui uma drogada também... Por muitos anos – Ellen, já de olhos abertos, os arregalou, confusa, engolindo seco com gosto doce de uva – Heroína, conhece? Usei... Usei por muito tempo. Mas fiquei limpa. Escondi isso de você porque morria de vergonha de que você soubesse dessa parte do meu passado... Mas nossa... Quero que você se foda. Caralho. É muito bom poder falar palavrão pra você. Vai se foder. Vai tomar no seu cu. Puta que pariu você é um lixo radioativo preconceituoso pior do que tudo que surgiria da explosão da Chernobyl, Fukushima e nagazaki, convergido com todo ódio mundial, mesclado com o filme que a Taylor Swift é um gato de CGI – falar aquilo era como se libertar de correntes apertadas e pesadas como pedra. A cada palavra Teresa se sentia mais livre pra voar, e, Ellen, parecia mais estupefata – Alexei me ajudou muito a sair das drogas... E eu tinha vergonha de me lembrar disso... Não sei porque, sabe... Não tem aquele ditado: O que não te mata te faz mais forte? Caralho, Ellen, eu estou mais forte que nunca para poder fazer tudo possível para ajudar meu amigo

Ellen pensou em responder. Ergueu o dedo como se estivesse pronta pra gritar tudo aos céus. Em vez disso, no entanto, bufou, recolheu as próprias coisas, pegou os papeis picados do chão, ajeitou o cabelo meio desgrenhado e caminhou para fora da confeitaria, a contragosto, com o rosto vermelho como um pimentão. Antes de sair, todavia, parou e encarou Teresa, com ódio.

− Isso não acabou aqui! – afirmou irritada, bufando seu ódio como um dragão que protege uma torre. Atrás de si, na rua diante da confeitaria, havia um movimento de pessoas usando roupas coloridas e segurando instrumentos musicais. – Não acabou! – gritou já do outro lado da rua. Teresa suspirou e se foi até a porta, para ver se a sogra havia sumido no horizonte e aproveitar para ouvir a banda que ensaiava na calçada em frente a faixada da Veludo Vermelho.

Era uma banda orquestral, cerca de dez a doze membros. Alguns com flautas, clarinetes e trompas, outros com baterias, pratos e zabumbas. Carregavam fitas coloridas nos uniformes azuis e vermelhos, com chapéus mirabolantes e grandes. O maestro estava na frente, se preparando para que a banda tocasse a primeira sinfonia.

− Um, dois, três... Marchando... – afirmou, chacoalhando as mãos num movimento sinfônico que conduziu a banda por todo quarteirão, até dar a volta na rua, com sua música ressoando por todo lado.

Teresa suspirou aliviada, como se tivesse se livrado de um peso enorme nos ombros. Fechou os olhos, sorriu e pegou o celular para olhar as horas... Ainda era cedo, no fim.

− DAYANAAAA! – ela gritou, trazendo a mocinha correndo dos fundos da cozinha – Se a Ellen voltar fala que eu morri e fui pro inferno.

Ignácio e Versa

Versa Coumarine se servia de chá de capim santo com limão durante o dejejum da manhã, enquanto comia delicados bolinhos de chuva com amêndoas que trouxe da confeitaria de Alexei no outro dia, quando bateram-lhe à porta. Suspirou, fechou os olhos e sorriu.

− Veio mais cedo que imaginava— pensou, caminhando delicadamente para a porta do consultório e dando de cara com um homenzarrão extremamente forte, de braços torneados e pele bronzeada, com olhos escuros e um sorriso que tanto havia ouvido falar. O amor de Alexei. O amante herege e iconoclasta, que ela se limitava a chamar de – Ignácio. Achei que você viria... – afirmou. O homem suspirou e coçou a nuca, meio envergonhado, com os ombros cabisbaixos e uma aura extremamente cinza e triste. Versa diria... apagada.

− Quando eu te vi soube que precisava falar com você, Verônica – ele afirmou, com um olhar preocupado. Versa sorriu. Fazia tempo que não lhe chamavam assim – Posso entrar? – suplicou. A terapeuta sabia exatamente o assunto... E havia se preparado para aquilo por anos, mas, mesmo assim, ainda sentia uma pontinha de insegurança ferir seu coração.

− Claro – respondeu, com um olhar amigável – Mas ninguém me chama mais de Verônica. Adotei um pseudônimo... Versa – contou, abrindo a porta e esticando o braço para convidar Ignácio para dentro. O homem entrou, meio acanhado, enquanto coçava a própria barba e se esforçava para não esbarrar em nenhum dos móveis do consultório, delicadamente adornados com estatuetas de gatinhos e golfinhos. A terapeuta o conduziu em silêncio até a sala de terapia e o convidou a sentar-se no divã, enquanto ela mesma se sentou no sofá de sempre – Espere – ela disse, antes de se sentar – Vamos inverter isso. Por hoje – suplicou, pedindo para que Ignácio se sentasse no sofá e ela pudesse se sentar no divã.

− Não entendi onde isso vai nos levar – Ignácio disse, com um risinho. Versa se aconchegou naquele divã e encarou o teto, com um sorriso carismático.

− É a primeira vez que me deito aqui em anos – afirmou ela, com um tom meio admirado – Já tinha até esquecido da sensação, sabe... Não me deito aqui desde... – ela hesitou por um instante. Ignácio a encarou com curiosidade – Seu irmão – contou, com um pesar de tristeza e arrependimento obscurecendo seu coração. Ignácio se recostou no sofá e alisou as próprias pernas – O Carlos gostava muito do cheiro do consultório, sabia?

Ignácio deu um risinho nostálgico.

− Ele me dizia que cheirava a gente velha – afirmou – Pra mim cheira à camomila e sabão de coco.

− Cheiro de gente velha – Versa respondeu, se imergindo nas lembranças – E, provavelmente, de gente próxima a morrer, agora... – pensou, com um olhar amargurado – O Alexei me lembra muito ele. Eles têm o mesmo brilho... Mas você já deve ter percebido isso – afirmou. Ignácio anuiu.

− Ele tinha uma capacidade única de te fazer querer viver e enfrentar todos os seus medos – Ignácio recordou – e o Alexei também tem isso, ainda que ele não perceba. Sem falar que os dois são destrambelhados na mesma intensidade... e dramáticos também, não esqueço disso – afirmou em um tom mais cômico. Versa deu uma risadinha meio tossida.

− Disso não tenho dúvida... Carlos conseguiu quebrar umas vinte estatuetas de gatos minhas... Mas sempre trazia uma de golfinho para tentar se desculpar – ela respondeu. Repentinamente, seu olhar ficou mais amargurado, arrependido e triste – Ele foi meu último paciente.... Antes do Alexei, claro – Versa se sentou no divã e encarou Ignácio, olhos nos olhos, com lágrimas rebeldes insistindo em sair – Eu nunca mais fui a mesma desde a morte dele. Me culpava todos os dias... Por meses, anos... Foi aí que descobri que tinha menos que um ano de vida e pensei em tudo que havia perdido afundada nesse medo que tinha surgido... Medo de não saber o que fazer, novamente, e perder mais alguém.

Ignácio Cruz suspirou e limpou algumas lágrimas dos olhos.

− Era dele que você estava falando, não é? – questionou – Na reunião que a Teresa organizou – Versa anuiu – Eu não tinha certeza sobre quem você era até aquele momento... Quando você falou que não perderia mais ninguém... Me lembrei na hora do dia do velório do Carlos, da nossa conversa, de como você disse que eu tinha que ser forte para ajudar minha mãe.

Versa torceu os lábios e encarou o chão.

− Talvez uma das piores coisas que eu já fiz, se não a pior – Versa afirmou – Eu quem devia ter ajudado sua mãe... Mas fui muito covarde. Tive muito medo de que ela fizesse o mesmo que seu irmão... – Versa riu em tom de nervosismo – Devia saber que ela era mãe... E uma mãe sempre tem força guardada, escondida, no fim... – ela suspirou – De qualquer maneira... Eu fugi. Não devia. Me escondi e fiquei à mercê desse medo por todo esse tempo... Um dia fui ao médico para uma consulta de rotina e descobri que tinha uma doença num estágio que seria impossível curar... Bem, eu já estava com uma bomba relógio no coração... Então decidi que ia fazer tudo diferente e aproveitar tudo que não pude enquanto me isolava... Foi aí que recebi a ligação desesperada de um rapaz, que mais tarde descobri ser pelo menos cem anos mais velho que eu, e que tinha uma confiança no fundo do poço, que o impedia de viver plenamente... Logo ele, que podia aproveitar a vida eternamente – a lembrança a fez sorrir – Já na primeira sessão com ele eu senti vontade de sair por aí e, sei lá, viver, como você disse. Fiz tantas coisas desde que conheci ele, Ignácio, namorei, transei novamente, beijei, dancei, bebi, comi coisas que nunca havia comido... Mas aí... – o sorriso desapareceu e deu lugar para um olhar melancólico – Aí eu me apaixonei... E percebi que em três meses ou quatro eu já não poderia mais ver ele... Nunca mais... E isso me desmoronou como um castelo de cartas.

− Eu sinto muito, Versa, de verdade – Ignácio disse, compadecido. Versa sorriu, coçou a nuca e se lembrou de Alexei: Eu encontrei meu motivo para viver, Versa, tenho certeza que você vai encontrar um também. Observou, novamente, o homem de corpo bronzeado, suspirou, e pensou em seu amado.

− Não sinta – ela afirmou, pensativa – Uma vez um amigo me disse que eu encontraria motivo pra viver... – ela riu – Essa paixão, que me fez perder as esperanças num momento, foi o que, agora, me deu mais motivos para não desistir enquanto não acabar – afirmou, com um sorriso confiante e um olhar esperançoso – Mas e sobre você... O que te trouxe aqui, exatamente? – questionou.

Ignácio coçou a nuca, confuso, com as palavras lhe fugindo da ponta da língua, envolto numa tormenta de pensamentos confusos.

− Você sabia sobre mim e o Alexei? – questionou.

− Bem, eu achava muita coincidência um Ignácio Cruz com as descrições que ele deu não ser você – afirmou, cruzando as pernas. Ignácio mordeu os lábios, confuso. Versa cerrou os olhos, desconfiada – Você já disse para ele o que você sente?

− Eu... – ele tentou falar. Não precisava de resposta. Versa suspirou.

− Você tá esperando o que, Ignácio? – ela questionou, sem muitos rodeios – Você é forte. Tem todo o tempo do mundo com o seu amado... E, se estivesse com data de validade marcada como eu, ia querer passar todo tempo possível com ele do seu lado – afirmou irritada – Me diz você... Se descobrisse que ia morrer amanhã... Você ia ter coragem de dizer que o ama? – questionou.

Ignácio Cruz fechou os olhos. Sentiu todo medo, todo amor, toda paixão, toda tesão e toda esperança preencherem seu ser de uma só vez. Seus pensamentos estavam cheios de dúvidas e marcados pelo medo, mas seu coração ardia em paixão como uma estrela, cuja luz vinha dos maiores graus de amor possíveis. Pensou na mãe, na irmã, em Alexei e, finalmente, no irmão.

O que Carlos aconselharia a fazer? – Ignácio se questionou, confuso. Pareceu ouvir a voz do irmão nos fundos das lembranças, como um sussurro cheio de magia carregado pela brisa: − Assume logo, bobão, você não vai estar aí para sempre.

− Você não vai estar aqui pra sempre – Versa disse, cortando o silêncio reflexivo de Ignácio, que arregalou os olhos, surpreso, com as palavras da terapeuta, que pareceu ouvir dentro de sua mente e também escutar a voz de Carlos em suas lembranças. Sorriu, encarou o próprio medo e as próprias dúvidas, fez um instante de silêncio dramático, e disse:

− Eu amo o Alexei, caramba – cuspiu as palavras que a muito estavam grudadas nos fundos de sua garganta. Pareceu se livrar de pesos tão grandes que estagnavam seu caminho e impediam sua vida. Ficou ofegante, quando menos percebeu, e sorriu ao ouvir as palmas de Versa. − Dizer isso é muito libertador – afirmou.

− Espere até você dizer para ele, então – ela respondeu. Ignácio engoliu seco, coçou a nuca e sorriu.

Ouviram uma banda passando pela rua e tocando uma melodiosa música que ressoou por seus ouvidos e os fez sorrirem, encantados.

Edric e Roman

Edric tinha o costume de tomar Prep uma vez ao mês, como modo de se prevenir de eventuais DST’s que poderiam vir de brinde após alguma transa. A profilaxia pré-exposição o livrava, inclusive, da possibilidade de se contaminar com vírus poderosos, como do HIV – que, por mais surpreendente que possa soar, também contaminava os vampiros, ainda que temporariamente, diminuindo e muito sua capacidade de regeneração.

Havia esquecido – como de costume – de que o dia do mês para seu tratamento era no mesmo em que marcou com os amigos a reunião-evento para ajudar Alexei a se sentir melhor, então, numa tentativa de matar dois coelhos com uma única pedrada, marcou sua consulta no hospital próximo à confeitaria do amigo, de modo a ir direto para lá após o uso dos medicamentos.

O look do dia era exaustivamente básico. Teve se esforçar bastante para não exagerar no brilho e acabar ofuscando a verdadeira estrela do evento – o amigo Alexei −, mas não poderia evitar de mostrar que estava bem, diferente dele. Usava camisa social rosa-pastel, com os dois primeiros botões em aberto, para dentro da bermuda jeans meio apertada. O sapato de sempre era o clássico e inofuscável tênis preto de cano alto. Usava óculos de sol meio quadrados e pequenos demais para envolver os olhos... e cheirava a perfume doce.

Estava distraído demais na sala de espera, mexendo no celular e stalkeando pessoas no grindr e tinder. Tamanha sua surpresa quando lhe tocaram no ombro. Saltou da cadeira onde estava com o susto do momento e quase deixou o celular cair. Levantou os olhos e precisou erguer a cabeça por completo para ver o rosto do homenzarrão gigante que lhe cumprimentava.

− Ei! Você estava na reunião do Alexei, não é? – ele questionou, com um sorriso amigável naquele corpo de gigante. Edric engoliu seco e anuiu, meio assustado – Sou Roman. Roman Medina, prazer!

Edric ergueu a mão e apertou a de Roman, amistosamente. O homem era exageradamente sorridente e simpático, mas parecia boa pessoa.

− Edric. Acho que só Edric basta – afirmou, convicto, com um risinho. Roman sorriu.

− Vai no evento do Alexei, não é? – questionou, esperançoso, se sentando na cadeira ao lado do rapaz vampiro.

− Claro – Edric respondeu, menos assustado – Não perderia por nada. Ele se tornou um grande amigo para mim – contou, feliz consigo mesmo por ter encontrado uma amizade como a de Alexei.

− Para todos nós, eu acho – Roman interveio, com um ar meio apaixonado, porém com grandes dúvidas no fundo do coração. Edric percebeu cada um desses receios em seu olhar entristecido, ainda que amável – Não dá pra acreditar que alguém não gosta dele.

Edric olhou o homem de cima a baixo, percebendo todos os sentimentos confusos que tornavam seu coração numa tempestade interminável, e sorriu para si mesmo.

− Você gosta dele. Tipo, não como eu, ou como a Teresa, mas de verdade – Edric afirmou sem rodeios. Roman arregalou os olhos, surpreso, engoliu seco e alisou a nuca.

− Eu... – ele não soube o que dizer, se limitando a encarar o chão. – Eu não sei. Eu gosto, mas tem outra pessoa que eu não posso simplesmente deixar...

Edric estava curioso.

− Como você pode gostar de alguém se importando tanto com outra pessoa, ao ponto de arriscar o que você sente só para agradar a ela? – e aquilo era como uma cutucada numa ferida aberta... E Edric não se importava. Gostava de provocar quando tinha um bem maior por trás. Roman engoliu seco.

− Eu... Eu não sei. Ele é diferente de tudo que eu já conheci. Ele é mágico – afirmou. Edric concordou – Eu nunca achei que gostaria de alguém novamente, mas aí eu conheci ele e meu coração se tornou capacho dele. Caramba... Isso é estranho. Estou abrindo coração para alguém que nem conheço – ele disse mais para si que para Edric, que sorriu.

− Eu tenho esse poder... Fazer as pessoas me dizerem o que sentem – afirmou – E porque você achou que nunca mais gostaria de alguém? – questionou.

− Por que meu coração pertence a alguém que eu provavelmente nunca mais verei... E que eu simplesmente não posso abandonar para ficar com outra pessoa... Já até tentei, várias vezes, mas nunca deu resultado – contou. Edric estava confuso com aquela ladainha.

− Você ama alguém que te deixou? – questionou, confuso. Roman riu da ironia do momento.

− Não exatamente – afirmou, encarando Edric no fundo dos olhos – Eu me importo com alguém que eu não posso ter mais... Por que ela está aqui, mas ao mesmo tempo não está – afirmou. Ok. Edric estava mais confuso ainda e, agora, potencialmente irritado com toda aquela enrolação.

− Vai ficar de esfinge até quando? – questionou. Roman riu.

− Vem comigo – chamou, estendendo a mão para que Edric o acompanhasse pelos corredores do hospital – Eu venho aqui sempre para visitar ela... Foi aqui que conheci Alexei... Mais ou menos... – afirmou, enquanto atravessavam a imensidão branca e vazia do hospital e chegavam, finalmente, a um quarto que cheirava a alecrim.

Havia uma cama rodeada por equipamentos, com uma cortina azul-marinho cobrindo a visão de quem estava deitado. Ouviam-se sons de maquinaria hospital, como o beep do equipamento que marcava batidas do coração, e o zumbido do ar mecânico. Edric não gostava muito daquele cenário mórbido e frio.

− Essa é a pessoa com que eu me importo muito e não posso ter – Roman afirmou, meio entristecido – Ela está em coma há mais ou menos cinco anos... E não há previsão de melhora – contou, observando a silhueta da vampira pela cortina – E pode ficar assim pra sempre... Já que não é uma humana – contou. E isso sim era de se surpreender. Os olhos e Edric ficaram arregalados involuntariamente. Era uma premissa triste, melancólica, imaginar que um humano amava alguém que estaria eternamente em coma, o aguardando, enquanto o tempo passava impassivelmente para ele e não para ela.

− Eu sinto muito, Ramon, de verdade – Edric não errava nomes intencionalmente, mas no geral, quando estava triste, o fazia sem querer – Acho que entendi seu ponto agora... Você não quer deixar ela sozinha para poder viver sua própria vida... – Roman anuiu. Edric engoliu seco – Mas aí... Mas aí você vai perder tudo que te faz feliz para ficar do lado de alguém que você nem sabe se vai continuar vivo quando acordar? – e novamente Edric cutucava uma ferida extremamente profunda e dolorida... mas era necessário. Roman encarou o chão, reflexivo e amargurado. Ele se importava verdadeiramente com Tori, mas sabia que não poderia cuidar dela para sempre... Já havia perdido muito para viver exclusivamente por aquele amor fadado ao tempo.

No fim, após muito refletir, não sabia exatamente o que responder. Sorriu meio contrariado, encarou Edric e coçou os olhos.

− Posso ver? – Edric pediu, tentando cortar o clima tenso que havia se instaurado. Roman anuiu.

− Claro.

O rapaz vampiro não perdeu tempo. Se aproximou da cortina azul e a afastou delicadamente, observando a serenidade no rosto de Tori, como de alguém que dormia com a leveza de uma soneca matutina, depois do almoço... E quase caiu do chão com a força da surpresa que acertou seu coração e fez suas pernas tremerem. Seus batimentos estavam tão acelerados que poderiam ouvir à quilômetros de distância. Suas veias ardiam com o atrito constante do sangue bombeado. A adrenalina queimava sem seu estômago e emanava energia e reações por todo seu corpo.

Era ela. Edric sabia.

− Victória? – Edric disse à moça que dormia serenamente. Roman cerrou os olhos e arqueou as sobrancelhas, confuso. Ele havia dito o nome dela? Se questionou.

− Sim... Mas eu chamo ela de Tori... – ele respondeu, ainda surpreso com a reação de Edric, que permaneceu boquiaberto, diante da vampira serena, com o queixo caído e as mãos tremendo.

− Eu procurei ela por tanto tempo... E ela esteve tão perto – Edric afirmou, mais para si mesmo que para qualquer um, com um olhar esperançoso e feliz. Involuntariamente, lágrimas saíram de seus olhos, enquanto alisava o rosto da vampira com as pontas dos dedos – Ela não mudou nada... – então, fez uma pausa em todo seu drama e abriu uma expressão pensativa – O que era de se esperar, no fim, afinal ela é uma vampira – afirmou e logo voltou a seu momento dramático. – Mon cheri.

Aquilo estava estranho demais para Roman.

− Tá... Agora você é uma esfinge. Pode me explicar, por favor? – suplicou. Edric engoliu seco, sorriu e encarou o homenzarrão.

− A Victória... Tori. Foi ela quem me transformou em vampiro – contou, com a nostalgia do momento – Meu deus! Ela foi a pessoa que mais amei em toda minha vida... Sem ofensas, cara. Ela e Sean... Você sabe do Sean? – questionou. Roman arregalou os olhos, surpreso,

− Sean Lovestone? – questionou. Edric anuiu – Ele morreu... Nas fogueiras. Eu consegui ajudar a Tori a fugir, mas ele... Acabou ficando para trás – contou, meio amargurado. O coração de Edric murchou momentaneamente com a tristeza do momento, sentiu tudo em si pesar, mas logo se recompôs. Estava feliz demais por estar novamente com Victoria, que não se abalaria por nada.

− Eu me perdi deles durante as fogueiras... Depois disso os procurei por todos os meus dias... E nada... – o tom de Edric estava mais amargurado – A resposta, então, era essa... Um dos meu amores foi queimado como carvão e o outro está dormindo eternamente...

Meu amor” – as palavras de Edric ressoaram na mente de Roman como um eco interminável. Havia uma intensidade tocante nos sentimentos do rapaz vampiro que o fazia não ter dúvidas sobre a veracidade do que ele sentia.

− Você... a ama? – questionou. Edric engoliu seco e anuiu.

− Mais do que amo a mim mesmo e isso sim é algo de se notar. Nunca a esqueci – afirmou sorridente. Toda felicidade do mundo havia preenchido seu ser e lhe tornado algo além da explicação – E eu vou estar aqui... Todos os dias... Se você permitir.

− E porque eu negaria? – Roman questionou, apertando o ombro de Edric em um tom amigável – Nós dois dividimos amor e preocupação por ela... Você vai estar aqui quando ela acordar... E eu... bem... – ele pensou em dizer, sem saber exatamente o que. Edric lhe olhou com um olhar compadecido, como se já soubesse exatamente o que ele pensava.

− Você vai continuar amando ela... Mas vai deixar seu coração livre para alguém que ama mais... Alexei – ele afirmou, convicto. Roman engoliu seco, cheio de dúvidas – Não estou dizendo para esquecer a Victória, jamais, só que, bem... Você pode viver, agora, por que eu estou aqui para cuidar dela também.

Roman encarou Edric e não teve reação a não ser lhe envolver num caloroso e apertado abraço amigável, com uma força tremenda que quase esmagou os ossinhos daquele pobre rapaz vampiro magricelo. Estava renovado em esperanças, em amores, em felicidade e em alegria. Ele não estava mais sozinho por Tori... Então não precisava abdicar de tudo por ela.

Ouviram uma música orquestral tocando do lado de fora do hospital, se desvencilharam do abraço e foram na janela observar uma banda passando e cantando coisas de amor.

− Daqui eu vou direto para a manifestação – Edric afirmou para Roman, ainda admirado pela ironia do destino de encontrar seu amor num momento tão inesperado. Tori permanecia serena, aproveitando o toque calmo e delicado do rapaz vampiro em seu rosto tão liso e macio quanto porcelana.

− Também irei – Roman respondeu, convicto, se desvencilhando do abraço e se sentando numa poltrona ao lado da cama – Acho que hoje devo dizer ao Alexei o que eu sinto. O que você acha? – questionou. Edric riu.

− Acho que você perdeu tempo demais, honey.