Tórm, Volume 1: no Coração das Trevas
1 Capítulo I: Malignidade.
Notas iniciais
“Meu corpo era uma fornalha de pesadelos.
Enquanto o mundo girava, meu corpo suava,
Minha alma queimava e minha visão turvava.
Eu era apenas um fantoche nas mãos deles.”
Afogado na mais sombria e vulgar escuridão, jazia ele, amedrontado, agachado num dos cantos dum cárcere fétido e sujo, acompanhado de cadáveres mutilados, furados e esmagados, alguns já em decomposição, alguns mais frescos que a comida que lhe haviam deixado; uma mistura de aparência enojadora e gosto vil como o veneno mais malicioso, feita a partir de ingredientes de natureza duvidosos, por mãos encharcadas de ódio e rancor. Ele não era bem-vindo, e sua vida acabaria logo; fosse pela fome, fosse pelo alimento envenenado, fosse pela força do carcereiro, o abominável ser responsável pela chacina que ocorreu através dos dias mais gélidos, dentro daquela cela maldita. Ele tinha prazer em rasgar a carne daqueles que lá permaneciam, mas não tanto quanto vê-los sofrer, suplicar e se humilhar por perdão. Exceto que perdão não era de sua natureza, e todos que imploraram foram torturados até a morte. Havia algo que este carcereiro odiava, porém, e era quando ele perdia a oportunidade de mutilar seus indefesos prisioneiros: quando eles morriam de fome ou se suicidavam. Em situações assim, ele se enfurecia e mutilava o cadáver e todos os outros residentes da mesma cela, até que sua fúria cessasse. Era um poço de horrores, um submundo vulgar, de sofrimento certo, onde a liberdade simplesmente não existia. Um cárcere imundo sob a terra, sob a luz, sob a esperança.
O rosto do jovem, que jazia no canto de sua cela de pedras frias e ensanguentadas, suava incessantemente; seu coração batia fortemente; seu corpo suado tremia de frio; seu sangue fervia com adrenalina; sua barriga roncava de fome; sua garganta engolia em seco; suas mãos tremiam unidas; sua mente não raciocinava, só aguardava. Cabisbaixo, ele aguardava o momento em que o carcereiro voltaria de sua refeição, para torturá-lo e então matá-lo. Era o fim…
Com um estampido seco, um jovem cai de sua cama com a cara no chão. Seu corpo febril e suado se debatia, então ele acordou, e seus olhos abriu. Lá estava ele, em seu quarto, estirado no chão de pedra. Lentamente ele se levantou, trêmulo. Ao seu redor, suas coisas, em seus devidos lugares. Uma brisa pois beijou seu rosto, enquanto a mesma fazia as cortinas sedosas nas janelas se debaterem suavemente.
– Outro maldito pesadelo.
Uma vez em pé, pegou de cima de sua mesa de cabeceira um belo relógio de bolso, feito de prata e adornado com pequenas, esculturais safiras. Uma pequena aba no canto direito abria a tampa, e se constatou que eram 6:42 da manhã. Caminhando em direção à janela, seus longos cabelos de cor azul balançavam com o vento. Suas mãos apoiou na janela. Seu quarto era no topo de uma torre alta, que se voltava para o sul – encarando silenciosamente uma floresta úmida, cujo nome era Glealla, todavia bem conhecida como a “floresta silenciosa”, assim chamada pois era um lugar extremamente silencioso, escuro e úmido – berço de muitas lendas e mitos obscuros, assustadores. Àquele dia, excepcionalmente, havia uma névoa grossa que cobria essa floresta – até mesmo as árvores mais altas só tinham seus cumes aparentes. Nos quartos abaixo do seu próprio, dormiam seus subordinados: homens que juraram lealdade a suas ordens e estratagemas. Afinal de contas, este homem de cabelos azuis não era nada mais nem nada menos do que o general de uma das quatro brigadas especializadas em resguardar as paredes de Morik, a capital do império. Fundada exatamente para o propósito da proteção, esta fortaleza foi batizada com o nome de Movakta, um complexo caracterizado por quatro torres, cada uma encarando uma direção dos pontos cardeais. No coração da fortaleza, um palácio erguia-se; o local onde acontecia tudo dentro daquela construção. As torres também eram a moradia das brigadas defensivas, enquanto que no palácio vivia o general de divisão, o homem que mandava na Divisão de Defesa da capital. Sua voz era lei entre aquelas paredes. Sua presença era honorífica.
O sol ergue-se lentamente no horizonte à esquerda, no leste, e sua luz aos poucos abraça calorosamente a grande construção militar. O general de cabelos azuis se troca para o desjejum em seu quarto, no mais alto andar da torre, seguido pelo terraço, onde homens observam cautelosamente todo o arredor, para o caso de algum inimigo espreitar. Sobre uma mesa, um revólver descansa pacificamente sobre um tecido vermelho e adornado com tiras douradas. O homem cuidadosamente pega a arma, e aciona um mecanismo no lado esquerdo para revelar o tambor da mesma. De uma gaveta, tira uma caixa verde e branca em cujo interior sete projéteis de calibre 38 descansavam. Ele os remove do compartimento e os insere metodicamente à arma. Ao terminar, empurra o tambor novamente ao seu lugar e então a insere num compartimento de couro à esquerda de sua cintura. Vira-se, então, para o lado e pega uma espada comprida, então se pôs a fixá-la a seu cinto, logo abaixo do revólver.
Neste meio tempo, alguém subia as escadas freneticamente, até que alcançou o mais alto andar da torre sul, e, recobrando seu fôlego, posiciona-se ereto diante de uma porta de tábuas espessas, dispostas verticalmente, e urra:
– General Einar, senhor! Coronel Arvid reportando, senhor!
Faz-se silêncio por um minuto.
– Entre, coronel. – Disse uma voz de dentro do quarto.
Respondendo à voz, o coronel gira uma maçaneta metálica e rígida, até que ouve o som da chaveta da porta abrindo. Com as pontas dos dedos, ele então empurra a porta, abrindo-a. No quarto, o general recostava-se à janela, observador. Minutos de silêncio passaram, enquanto o coronel aguardava à entrada. O general, por sua vez, pouco se mexeu, até o momento em que tornou a falar.
– Arvid, – começou a falar, lentamente – quero vigias extras por todo o nosso perímetro. – Suspirou, então, levemente. – Hoje é um daqueles dias de má visibilidade na floresta.
A passos secos e rudes, os cabelos do general esvoaçaram de um lado ao outro, em seu caminhar decidido ao saguão de refeições. Ao seu lado, mas de forma significativamente mais discreta, seu subordinado o acompanhava. Enquanto atravessavam o corredor longo, de pedras brutas, soldados de baixo-calão davam leves reverências por respeito, mas em alguns momentos se podia ouvi-los sussurrar uns com os outros, blasfemando o general. Apesar disto, por mais que achasse divertido reprendê-los, eles estavam fora de sua alçada pois pertenciam a outras brigadas. Isto sem contar que, em sua mente, seu trabalho era proteger aquelas paredes, e, em seu coração, algo estava errado àquele dia. A sombra da névoa densa daquela manhã bloqueava a visão da floresta num raio de dois quilômetros, e o vento pesado trazia consigo um cheiro ligeiramente diferente. Ao contrário dos dias normais, o odor no ar deveria ser da umidade oriunda da terra que nunca tomava sol, devido as árvores altas e espessas, que sempre bloqueavam o sol. Sua mão esquerda, que descansava no punhal de sua espada, suava. Deveras, ele não descansava sua mão, mas sim apertava o punhal com força. Sua mão direita, por sua vez, coçava, e ele não conseguia parar de apertá-la, numa tentativa trivial de aliviar a sensação. A qualquer momento, ele sentia que agarraria seu revólver. A qualquer momento, ele precisaria…
– General, senhor! – Uma voz ecoou, uma voz que vinha de trás.
Como se tivesse se assustado, Einar virou-se num salto, sacando levemente seu revólver, quando notou que quem o chamara era seu notavelmente assustado subordinado. Ao seu redor, todos o olhavam apavorados. Seus olhos definitivamente exalavam um cheiro pútrido de horror. Einar, por sua vez, sem saber como explicar sua atitude, retoma sua posição firme e rígida, lentamente assentando sua arma no compartimento. Seus braços ele relaxa, olhando serenamente seu subordinado Arvid. Lentamente, ele aliviou sua tensão. Minutos passaram no silêncio, mas Einar preferia assim, do que dezenas de vermes rastejantes envenenando o ar com o pus que esguichavam de suas bocas nojentas. Ao menos, era assim que ele os via.
– Coronel. – Num salto, Arvid agilmente toma a posição de sentido.
– Sim, senhor?
– O que queria me dizer, agora há pouco? – Àquele momento, o coronel hesitou.
– Senhor, na verdade... – mais um pouco de hesitação – você passou reto pela entrada do saguão de refeições, senhor.
Então, a expressão serena de Einar foi levemente substituída pela de surpresa. Por deveras, lá estavam as grandes portas do saguão, a uns metros de distância. O general soltou um suave, discreto suspiro, antes de readquirir sua expressão de seriedade. Ele então tomou seu rumo para o saguão.
– Vamos, coronel. – Disse, quase sussurrando, quando passou por Arvid, que formalmente esperou o general passar por ele, para então virar-se e segui-lo.
As portas abriram-se ruidosamente quando Einar as empurrou. O primeiro pensamento que passou por sua cabeça foi, o porquê destas portas sempre estarem fechadas. Ele não se incomodava em caminhar entre homens de baixo-calão mas de alta-inveja, nem de cometer gafes como quase apontar suas armas para seus subordinados, mas ter que abrir estas malditas portas toda santa manhã, fazendo um barulho desgraçado e chamando a atenção mais do que se estivesse nu, isto sim o irritava profundamente. Dentro saguão, obviamente, estava lotado de militares. De cadetes a generais, todos faziam suas refeições neste imenso saguão.
Não dando a mínima para as odiáveis portas, o general Einar toma seu rumo para seu assento, adjacente aos outros três generais que, juntos, regem as quatro brigadas de defesa da capital do império. Mas nada daquilo eram flores, pois grandes ressentimentos transpiravam através da pele de seus "colegas generais". Emoções negativas que eram explicadas pelo passado deles. Entretanto, àquele dia, Einar não se sentia inspirado para lembrar-se de seu passado, e muito menos para comer seu desjejum. Perante ele, o prato vazio jazia. Sua barriga roncava, mas sua garganta parecia pronta para expelir o primeiro alimento que fosse engolido. Estendendo sua mão, porém, ele pega uma fatia de maçã e a ingere rudemente. Aliviado que não regurgitou a refeição, trouxe um segundo pedaço à boca, e depois outro. Logo ele teria comido todas as fatias de maçã, quando notou que elas eram decorativas (mas ainda comestíveis), dispostas ao redor de um prato cujo conteúdo parecia momentaneamente venenoso, mas que era na verdade uma feijoada. Com cara de nojo, Einar decidiu nunca mais olhar aquele prato novamente.
– Quem come feijoada no desjejum, de qualquer maneira? – Comentou o general, voltando-se ao coronel.
– Bem, está aí para quem quiser comer. – Retrucou ele com um sorriso oblíquo.
Einar continuou devorando as frutas decorativas, quando sentiu que era observado. Ajeitando-se para ficar ereto em sua cadeira, fechou seus olhos. Logo uma voz surgiria de seus arredores:
– Parece que nosso garoto prodígio não está se sentindo bem hoje. – A voz vinha da frente; um homem meio calvo, com cabelos descoloridos. Em seus olhos brilhava malignidade.
Einar, ligeiramente desconfortável, abre seus olhos e observa com serenidade para o homem que acabara de falar. Este homem era outro general, e seu nome era Ladek Wandre.
– Meu estômago não está muito bem, – respondeu Einar, forçando um sorriso – mas e como vai o seu?
– Com certeza melhor que o seu. – Retrucou vilmente o general de olhos invejosos.
Repentinamente, Einar sentiu que estar ali era uma perda de tempo. Ele olhou ao redor de sua cadeira, e viu que os outros generais o observavam pelo canto do olho. Ao seu lado, Arvid cerrava seus punhos, engolindo suas palavras. Provavelmente ele odiava a forma com que os outros generais agiam com seu superior. Entretanto, não era com isto que Einar estava preocupado. Os generais podiam todos ter infartos e ele não ligaria. O que o preocupava, era algo que estava além das paredes espessas de pedra negra daquela fortaleza. Algo que estava rastejando ao redor daquele lugar. Como num estalo, Einar percebeu que tinha algo a fazer.
– Arvid, venha. – Ordenou rispidamente o general ao seu subordinado. Este, por sua vez, levantou-se num salto, quase que assustado.
– S-senh... – Começou a falar o coronel, mas quando se deu conta, Einar já tinha deixado a mesa e estava a alguns metros à frente, andando a passos largos e vorazes. Arvid então sai correndo atrás dele, perplexo.
Antes de sair do saguão, contudo, uma voz ríspida ecoou. A voz era autoritária, e logo silenciou o recinto.
– O que está fazendo, General Einar? – A voz era agressiva, e soava como o sibilar de uma serpente. – No desjejum todos os generais têm que relatar a situação dos portões para mim.
Einar cerrava os dentes e punhos. Ele não precisava se virar para ver quem estava falando. Era claramente seu superior, o major-general Snafo Liab. Ele, sem dúvida nenhuma, era o homem mais poderoso daquela fortaleza, e a ele todos reportavam. Suas palavras eram lei, e suas ordens nunca eram confrontadas. Ele tinha poder absoluto sobre a Divisão de Defesa Imperial, que por sua vez era composta dos quatro batalhões. Um destes batalhões estava sob a jurisdição de Einar. Enfurecido por estar sendo obrigado a perder tempo precioso, mas sem o direito de indeferir as ordens de seu superior, Einar volta à mesa, e senta-se metodicamente. Todos o observavam diretamente. Seus olhares praticamente perfuravam sua carne, fazendo-o sentir que estava tendo hemorragias.
– Agora que estamos todos aqui, comecemos. – Expeliu o major-general, rispidamente, com seu olhar fixado em Einar, que engolia em seco, mas olhava fixamente em frente.
À sua frente, porém, Ladek se remexia em seu assento. Era uma visão repugnante.
– Não precisava ter fugido, general, – Ladek começou a falar – eu não quis magoá-lo. – Disse isto com um sorriso maligno.
– Não perca seu tempo precioso, então, Ladek, – retrucou Einar, com gosto de bile na boca – aposto que você tem centenas de coisas para relatar hoje.
Contudo, Ladek era na verdade um preguiçoso, que deixava todo trabalho para seus subordinados e relaxava o dia todo. Todos os generais sabiam disto. Ladek, aliás, nunca reportava nada, pois quem o fazia era seu subordinado coronel. A verdade era que Ladek nunca sabia o que estava acontecendo com seu portão, irresponsavelmente.
– Então comecemos… – iniciou o major-general – General Wandre, qual é a situação do portão norte?
Àquele momento, todos os olhos voltaram-se para Ladek. Por um momento, Einar pôde se aliviar da atenção que constantemente recebia. Visivelmente desleixado, Ladek ergueu-se num salto, e fez posição de sentido. Ele era um homem baixo, gordo, de narinas espessas. Sua postura era horrível, e parecia corcunda. Naquele momento, porém, o medo o deixou mais ereto que uma estaca de madeira.
– E-está tudo bem, senhor... – reportou Ladek, gaguejando.
– Mm, é mesmo? – Disse o major-general. – Ouvi dizer que houveram problemas de madrugada. – Ladek engoliu em seco: era óbvio que ele não sabia o que estava acontecendo. Um tanto desesperado, ele fez um sinal para seu coronel, que veio correndo.
– Senhor! Um grupo de sequestradores tentou se refugiar com uma vítima nas proximidades de nosso portão. – Àquele momento, Ladek dava sorrisos bobos e balançava a cabeça positivamente, fingindo estar a par de tudo. – Uma esquadra foi enviada para dominar os bandidos e resgatar a vítima. – Notoriamente, gotas espessas de suor escorriam pelo rosto de Ladek.
– E qual foi o resultado desta ação, General Wandre? – Questionou com rispidez o major-general, com seu olhar perfurando diretamente os olhos do general em questão. O coronel voltou a falar.
– A esquadra se posicionou ao redor dos bandidos, silenciosamente, e... – Então a mão do major-general ergueu-se, e o coronel se calou.
– Não me leve a mal, Coronel Joff, mas eu estou me dirigindo diretamente ao General Ladek agora. – Sua voz seca e rude reverberada por todo o saguão, e momentaneamente até Einar sentiu temor. – Portanto, peço que se retire, Coronel Joff.
O coronel, por sua vez, fez sistematicamente uma posição de sentido.
– Sim, senhor! – Disse, em voz alta, e deixou o saguão.
Ladek estremeceu, e suas pernas amoleceram. Deveras, o general parecia que quebraria a qualquer momento.
– General Ladek – continuou o major-general, dizendo em ênfase – reporte os detalhes desta arriscada operação.
– A-a esquadra se posicionou ao redor dos bandidos, senhor, – Ladek repetia o mesmo que seu coronel dizia – e, silenciosamente, – então ele hesitou, por longos minutos – renderam os sequestradores...
– Você está inventando isto. – Retrucou o major-general. Ladek ficou pálido, parecia morto. – A esquadra falhou, a mulher foi morta e dois deles fugiram entre as árvores.
Era claro que Ladek tentava dizer alguma coisa, pois gemia em suas tentativas, mas não conseguia pronunciar nada inteligível.
– General Ladek, quem se responsabilizará por este erro?
– E-eu, senhor. – Gaguejando, Ladek finalmente mostrou que conseguia ainda falar.
– Ótimo. – Enquanto dizia isto, virava seu olhar para os outros generais, com um sorriso macio no rosto. Seu sorriso, definitivamente, era mais assustador que sua seriedade. – Está dispensado. Depois resolvo que farei com você.
Ladek agora tremia mais que vara verde, quando fez posição de sentido e praticamente saiu correndo do saguão. Por vários minutos, fez-se silêncio no recinto. Olhares perdidos vagavam de um lado ao outro, mas ninguém falava, sequer cochichava. Então, o major-general tornou a falar.
– General Smuj, reporte. – Rispidamente disse.
Meza Smuj, o general da 2º Brigada, era um homem de cabelos sebosos e negros, que praticamente escondia seu rosto fino. Magro, inteligente, e sanguinário, Meza se sobressaía em comparação com aos outros generais por sua atmosfera sombria.
Calmamente, o general pôs-se em pé, e fez posição de sentido. Àquele momento, o sorriso frio que carregava consigo apagou-se.
– Pois não, senhor, – sua voz fria e ríspida fazia um dueto perfeito com o major-general – a falha do general Ladek resultou nos bandidos fugirem para o portão leste – que era o portão em sua responsabilidade – e aproveitamos para testar as novas armas de fogo que recebemos.
Um brilho vulgar acendeu nos olhos do major-general.
– Oh, refere-se aos novos fuzis de 5,56mm? – Um sorriso malicioso brotou de seus lábios. Definitivamente, a visão do inferno.
– Sim, estes mesmos, – o sorriso frio voltou, então, à face do general – eles se mostraram precisos e letais.
– Ótimo, então está dispensado.
Tranquilo, Meza levantou-se e deixou o saguão, levando consigo uma aura egocêntrica.
– General Aske, reporte. – Disse o major-general, sem nem ao menos olhar para sua subordinada.
A general, a única mulher daquela fortaleza, era responsável pela 3ª Brigada de Defesa Imperial, e defensora do Portão Oeste da fortaleza Morivak. Pondo-se em pé, ela fez posição de sentido. Notavelmente bonita, sua pele pálida questionava a existência do sol, seus cabelos louros, cortados com precisão militar, jaziam logo acima de seus ombros finos e frágeis. Em seu rosto, porém, sempre carregava uma expressão de escárnio, principalmente quando se diria a Einar, Ladek, ou um de seus subordinados. A Einar, porque o odiava por achá-lo irritante. A Ladek, porque o achava asqueroso, devido às suas inúmeras tentativas de conquistá-la. Todas em vão. Contudo, quando se tratava do major-general, uma expressão seriamente calma surgia em seu rosto pálido como a neve.
Sua personalidade não era muito diferente dos generais Meza e Ladek, mas no fundo era ainda pior que eles. Aos olhos de Einar, era uma mulher competente, mas manipuladora ao extremo, tanto que jamais mediria esforços e métodos para alcançar seus objetivos, fazendo uso de qualquer um ao seu bel prazer.
– Senhor, – ela começou a reportar-se, quando o major-general ergueu sua mão.
– Ouvi relatos de que o alarme do Portão Oeste foi disparado às primeiras horas da madrugada. – Só então o major-general ergueu sua cabeça, e fez contato visual direto com a general, que hesitou.
– Aproximadamente às duas da madrugada, um soldado pulou de uma das janelas da fortaleza, num ato suicida. – Ela reportava, mas seus lábios tremiam ligeiramente. – Alguns recrutas faziam ronda àquela hora, e entraram em pânico com a cena, no que resultou que eles soaram o alarme equivocadamente.
Einar observou atenciosamente às reações da mulher. Talvez fosse pelo fato de que ela era uma mulher, ou talvez porque algo o chamava a atenção, mas Einar realmente não pôde deixar de observá-la. Foi quando percebeu que havia um brilho distinto em seu olhar. Sua boca tremia, e ocasionalmente seus olhos se desviavam para posições aleatórias. Sentindo sabor de bile na boca, Einar concluiu que ela estava mentindo. Não seria tão difícil que ela o fizesse, pois rumores sombrios ecoavam entre as paredes daquela fortaleza, que diziam respeito à general em questão. Estes rumores sussurravam que ela era implacável, e jamais perdoava erros, assim como manipulava os soldados, e que seus subordinados praticamente eram fanáticos por ela. Seguindo esta linha de pensamento, Einar imaginou que o pobre homem havia sido vítima das presas venenosas da general, que pode tê-lo assassinado como punição por algum erro que ele haveria cometido, ou até mesmo como uma forma de disciplinar recrutas problemáticos. Concordando consigo mesmo, Einar percebeu que acreditaria mais em sua teoria do que no relato da general.
– Compreendo. – Disse o major-general, rispidamente, acordando, também, Einar de seus devaneios e teorias. – E o que houve com estes recrutas falhos? – Ele questionou, com um leve, mas notável, sorriso malicioso.
– Serão devidamente castigados por seus erros. – Recrutou a general, com satisfação estampada em seu rosto.
– Então está tudo bem. – Disse o major-general, voltando seu olhar para uns papeis que carregava consigo. – Está dispensada. Só trate de manter seus homens sob controle.
A general deu uma última olhada em Einar, com sua expressão de desdém profundo, e então deu as costas, deixando o saguão. Minutos de silêncio se passaram, enquanto o major-general lia a papelada que carregava consigo. Einar, impaciente, não podia fazer nada senão esperar que ele o chamasse, o que não demorou muito.
– General Einar. – Quase um hábito, o general levantou-se e fez pose de sentido, aguardando pela ordem de reportar, que não aconteceu. – Você é jovem, e indisciplinado. – Einar engoliu em seco, enquanto o major-general falava olhando para os papeis em sua mão. – Será que vou precisar dispensá-lo de seu posto?
– Isto, – retrucava, inseguro, o general – não será necessário.
– Você está sabendo de algo que não deveria saber? – De repente, o major-general mudou o rumo da conversa drasticamente, e olhou diretamente nos olhos do general.
– N-Não, – o general gaguejou levemente, sob a atmosfera desconfortável – nada que precise ser reportado ao senhor.
O major-general se levantou e bateu na mesa com sua mão. O barulho seco ecoou e chamou a atenção de todos os militares do ambiente. Einar expressava dúvida e confusão, diante da atitude impensada de seu superior.
– Claro que tem que reportar! – Ele aumentava o volume de sua voz, e, antes de prosseguir apontou o dedo para o general. – Você deve reportar tudo para mim, ouviu bem?
Cerrando seus punhos e dentes, Einar se enfureceu. Por que diabos o major-general estava agindo desta forma ridícula? Cada vez mais, Einar sentia que o motivo de estar naquela fortaleza era para ser manipulado, e não para proteger o império.
– Vou reportar, então – Einar decidiu retrucar, perigosamente – a general Aske abusa de sua autoridade e tortura seus subordinados! – Uma jogada estranha, até mesmo para Einar, que decidiu partir para a ignorância.
– Estou ciente disto. – Disse o major-general, surpreendendo Einar, que, no fundo, imaginava nesta hipótese.
– E não vai repreendê-la? – Uma gota de suor escorreu por seu rosto.
– Não. – Retrucou firmemente o major-general. – E também sei que Meza pediu para Ladek espantar os bandidos para o Portão Leste, para fazer uso dos novos fuzis. – Einar ficou sem palavras. – Eu sei de tudo que acontece em Morivak, pois nada passa despercebido aos meus olhos. – Ele dizia isto enquanto sua imagem parecia aumentar, fazendo sua sombra engolir o saguão todo. – Eu sou o senhor desta fortaleza, general Einar, e você, é apenas um cão militar. Você não deve agir por conta própria, e muito menos esconder coisas de mim.
A boca de Einar estava seca. Ele estava recebendo um sermão de um homem que só faltava referir-se a si mesmo como um deus. Nas proximidades, Arvid estava pálido, imóvel. Até parecia uma pedra. Sem saber qual atitude tomar, Einar só pôde imaginar uma coisa a ser dita.
– Sim, senhor.
– Nunca mais me desafie, general Einar, ou você realmente será repreendido. – Disse o major-general que, por sua vez, não mudou sua expressão agressiva.
– Sim, senhor. – Era tudo que Einar poderia dizer para não piorar sua situação.
Parecendo mais satisfeito, o major-general relaxou e sentou-se, no processo dando a impressão que sua imagem e sombra diminuíam, voltando ao normal. Alguns segundos se passaram. Segundos que pareceram eternidades.
– Inicie seu depoimento, general Einar. – Sua frase costumeira mudou ligeiramente, resultando em hesitação por parte de Einar, que logo voltou a si.
– Devido a um nevoeiro espesso pairando sobre as árvores de Glealla, a ronda e observação da floresta foi difícil. – Einar fez uma pausa. – Achávamos que o nevoeiro se dissiparia às primeiras horas do dia, contudo ele se mantém intacto devido ao clima--
– Não é por causa do clima. – Disse o major-general, interrompendo Einar.
– Qual é, então, o motivo? – Indagou o general.
– Você descobrirá, mais cedo ou mais tarde. – O major-general sequer olhava para Einar àquele momento. – Está dispensado. – Ele disse, interrompendo o depoimento de Einar.
O general, por sua vez, fez posição de sentido, e deu as costas ao major-general. Arvid seguiu ao seu lado, ainda parecendo uma pedra. A voz do major-general ecoou mais uma vez no saguão.
– Faça uso da precaução, general. – Ele disse, sem sequer olhar para Einar.
Einar parou, e olhou lateralmente para o major-general, que estava de costas, lendo sua papelada. Aquilo realmente incomodou o general, que a passos pesados dirigiu-se à porta do saguão, que estava fechada. No fundo, ele queria chutar aquela maldita porta, mas, se o fizesse, arriscaria ser repreendido novamente por seu superior, que se achava o deus de Morivak. Por isto, ele respirou fundo, contou até dez, e visualizou mentalmente a cor azul, enquanto levemente abria as portas, para passar, e depois a fechou. Einar se afastou das portas do saguão, encostando-se à parede no lado oposto do corredor. Arvid, ao seu lado, lentamente recuperava sua cor normal.
– Que dia. – Bufou Arvid. Era tudo que ele podia dizer, e tudo que ele diria sobre aquilo.
– Vamos para o portão, coronel. – Einar disse, já caminhando em direção ao seu novo destino. Rapidamente, Arvid o alcançou.
Atravessando o corredor frio, que gradativamente ficava mais iluminado devido à luz que vinha de fora, o coração de Einar começou a bater mais forte. Ele não fazia ideia do porquê, já que havia feito aquele caminho uma centena de vezes. Talvez fosse porque aquele dia estava excepcionalmente incômodo, ou talvez por causa da situação em Glealla, e as palavras misteriosas do major-general. A luz do dia se aproximava cada vez mais de Einar, enquanto ele se aproximava da saída.
Perante o portão sul, ventos gélidos vinham dentre as árvores da floresta e tocavam seu rosto, ligeiramente balançando seus cabelos. De um bolso, tirou um relógio e o abriu. Onze horas da manhã. Nuvens espessas e negras cobriam a fortaleza, e a névoa da manhã continuava a cegar a visão da floresta Glealla. Um odor levemente incômodo era trazido junto aos ventos. Arvid estava ao seu lado, aguardando, quando se aproximou.
– Senhor, os soldados em patrulha sobre a muralha reportam que algo está errado, – então Arvid hesitou, por uns instantes – mas dizem que não sabem o que é.
Einar não demonstrou reação alguma, então olhou para o céu. Ele gostava quando o céu estava azul e limpo, pois ele sentia estar limpo como o céu. Mas àquele dia o céu estava escuro, sombrio, negro, e sua alma parecia estar tão sombria, escura e negra quanto. Após um profundo suspiro, Einar voltou-se para seu subordinado.
– Pressentimento?
– Provavelmente. – Respondeu o coronel.
Einar apontou para o topo da muralha, e Arvid acenou positivamente com a cabeça. Então, a passos largos, os dois subiram os degraus que davam sobre da muralha. O coronel apontou para um soldado que rondava, e foi até ele, para pegar mais informações sobre o tal pressentimento. Einar, contudo, não estava atento a isto, pois seus olhos pregaram-se em Glealla, a floresta sob o nevoeiro. Um arrepio percorreu seu corpo, e respirar tornou-se difícil. Gotas de suor começaram a escorrer por seu rosto. A floresta parecia chamá-lo silenciosamente, aclamando para devorar sua alma. Lentamente, o nevoeiro pareceu sumir, e o que se escondia na floresta começou a aparecer perante os olhos de Einar…
Uma mão tocou seu ombro e, num salto, o general voltou a si. À sua frente, o nevoeiro parecia sólido, por tão denso ser, e, ao seu lado, o coronel Arvid o olhava preocupado. O corpo do general tremia, e ele respirava forte. Definitivamente esta não era uma boa imagem para um general, por isto Einar respirou fundo e retomou sua posição rígida. Einar então adiantou-se para dizer algo antes de seu subordinado.
– Eu posso sentir, – começou a falar – a malignidade.
Arvid tirou sua mão do ombro de seu superior, e estremeceu.
– O que quer dizer, senhor?
– Algo definitivamente está escondido sob a névoa. – Ele apertava seus olhos, tentando enxergar mais uma vez através da névoa, enquanto dizia isto.
Arvid o observou por segundos, e então fez posição de sentido.
– Quais são suas ordens, senhor? – Disse em voz alta.
Einar voltou a si, ao ouvir isto. Certamente, ele entendeu um significado oculto na atitude de seu subordinado. Por Arvid ser mais velho que Einar, com seus 31 anos, às vezes o coronel deixava-se levar por este fator e via seu general como um pai via seu filho. Durante meses, os dois andaram pelos corredores de Movakta, analisaram fatores estratégicos, e comandavam a brigada juntos. Isto porque Einar era inexperiente, por mais que genioso, em comparação com seu coronel. Arvid nunca entendeu o porquê de um rapaz jovem ter sido aceito na Divisão de Defesa Imperial, mas também não podia ignorar que ele era um jovem em um milhão. Com respeito mútuo e honra, os dois militares criaram um laço de entendimento. E foi por isto que Einar percebeu que sua postura àquele dia não era a de um general, mas a de um rapaz.
Uns momentos passaram enquanto Einar refletia sobre tudo, com seus olhos fechados. Os momentos eram longos, mas Arvid manteve-se em sua posição de sentido, respeitoso e honorável. Ainda de olhos fechados, o general ergueu sua cabeça para o céu, mas sem realmente poder vê-lo. Algo molhado então tocou seu rosto. Abrindo ligeiramente seus olhos, Einar viu que começara a chover. Ignorando a chuva que molhava seu rosto a uma gota por vez, ele fechou novamente seus olhos. A chuva foi ficando cada vez mais pesada, e cada vez mais forte. Seus cabelos longos e azuis estavam ensopados, assim como sua
Verificar que vestimenta ele estava usando.armadura. Finalmente, ele chegou a uma conclusão, e abriu seus olhos.
Ao seu redor, vários soldados estavam em posição de sentido, seguindo Arvid. Sentindo uma pontada de emoção e orgulho, mas não os demonstrando, Einar tomou a palavra.
– Quero atiradores de elite sobre a muralha, – ele berrava suas ordens, vencendo o ruído da chuva – holofotes iluminando os arredores de Glealla, – a chuva era forte e barulhenta – e minha brigada toda preparado para guerra!
– Sim, senhor!! – Urrou triunfantemente seus subordinados, assim como Arvid, e então o último voltou-se para o lado interior da muralha, fazendo gestos para outros soldados, que carregaram as ordens adiante.
O alarme soou e ecoou por toda a muralha e, em pouquíssimos minutos, um pelotão armado com fuzis subiu a muralha e posicionou suas armas nos vãos da construção, prontos para defender. O oficial responsável fez posição de sentido perante o general, e aguardou suas palavras.
– Defendam estas paredes a qualquer custo. – E voltou-se para a escadaria, descendo-a. Às suas costas, Einar pôde ouvir um “sim, senhor!”.
No solo, uma companhia de reconhecimento aguardava-o. Sem delongas, Einar ordenou ao oficial superior que fizessem reconhecimento da floresta.
– Usem cordas para atravessar a muralha. – Ele disse.
Outro “sim, senhor!”, então Einar voltou-se para seu coronel.
– Avise ao oficial de atiradores de elite que a prioridade é proteger a companhia de reconhecimento.
Outro “sim, senhor!”, então Arvid correu para o topo da muralha. Einar notou, então, que os holofotes haviam sido ligados e estavam rondando todo o perímetro da floresta. No fundo, Einar sabia, mas até então tinha hesitado aceitar: aquilo seria uma guerra contra o desconhecido. Desde que acordou, ele sentia isto, mas só naquele momento ele aceitou aquele fato. Afinal de contas, ele odiava a guerra. Odiava o militarismo. Odiava armas. Odiava a morte.
Bang! Um fuzil disparou seca e violentamente. Instintivamente, Einar voltou seu olhar para a fonte: o pelotão de atiradores de elite começou a reagir, disparando sincronizadamente. Definitivamente, era o começo da guerra, e o general respondeu rapidamente, dirigindo-se ao coronel, que reportou imediatamente:
– General, senhor! – Urrava o homem. – Elementos desconhecidos surgiram da floresta, mas não parecem estar vestindo armaduras ou quaisquer proteções!
Einar apertou seus olhos. Era o desconhecido.
– E quanto a companhia de reconhecimento? – Questionou, secamente. Ele sabia o que ouviria.
–E Não sabemos se há sobreviventes, mas alguns dos elementos – Arvid hesitou, estressado, mas depois prosseguiu – carregavam cabeças em suas mãos.
Einar desta vez arregalou seus olhos.
– Como resposta, os atiradores começaram a atirar. – Completou o coronel seu relato.
Einar coçou seu queixo, como se houvesse alguma barba ali.
– Vamos eliminá-los. – Disse com sua voz de comando. – Quero fuzileiros estourando os miolos destes desgraçados.
Arvid respondeu com seu “sim, senhor!”, e saiu comandando os batalhões. Einar, por sua vez, decidiu subir a muralha e ver pessoalmente a situação. A cada degrau que subia correndo, seu coração batia mais rápido. Ele odiava a morte assim como matar, mas odiava ter seus companheiros mortos. Ao alcançar o corredor da muralha, abaixou-se e aproximou-se de uma das fendas da parede. Os atiradores de elite disparavam constantemente. A chuva parecia ainda mais forte, lavando os rostos dos militares e piorando sua visão. Através da fenda, Einar viu um elemento encapuzado, sua túnica cobria mais do que seu rosto, como também pés e mãos. Nada podia ser visto, além de uma figura sombria e atormentadora. De repente, a figura ergue seus braços, e uma bola de fogo tomou forma perante suas longas mangas. Einar arregalou os olhos. Aquilo era magia, uma magia perigosa, e disto ele tinha certeza. A bola de fogo foi crescendo e crescendo, até que Einar finalmente notou que ela vinha em sua direção.
– General!! – Gritou uma voz conhecida de algum lugar.
Então, uma mão puxou Einar, que, reagindo, começou a correr para longe de onde estava. Uma explosão veemente ocorreu, destruindo a parte superior da muralha. Surpreendido, Einar voltou-se para Arvid, que o salvara.
– Quero o batalhão de artilharia… – Começou a ordenar, mas foi interrompido pelo próprio coronel.
– Já estão em posição senhor, esperando seu comando! – Urrou o subordinado. Um sorriso aliviado brotou de leve no rosto do general.
– Não percam tempo e explodam estes malditos! – Urrou Einar, voltando-se para soldados com morteiros, que se dispunham no fundo da muralha.
Categórica e sincronizadamente, os morteiros começaram a disparar. Explosões começaram a acontecer do lado de fora da muralha, não apenas fazendo os inimigos encapuzados voarem pelos ares, como também destruindo parte da floresta. De repente, um inimigo apareceu, flutuando no ar, sobre a muralha. Numa rápida reação, Einar puxou seu revólver, apontou-o para a cabeça do ser, e disparou sem pensar duas vezes. A vítima foi levemente empurrada para trás, devido à força do projétil, que atravessou sua cabeça, abrindo um buraco muito maior na nuca do que o fez na testa. O sangue negro que corria pelas veias do elemento jorrou através dos buracos para fora. Um vento contrário soprou, revelando a identidade do inimigo, que, morto, passou a cair. Um grito de horror pôde ser ouvido, à visão da face dos seus inimigos. Pois não eram nem ao menos humanos.
– Mantenham a calma, – reagiu imediatamente o general, controlando a situação – não importa o que sejam, foi provado que não podem sobreviver a um tiro certeiro na cabeça! – Retomando seu fôlego, continuou. – Mirem em suas cabeças e acabem com eles!
Os morteiros continuavam a destruir a floresta, assim como bolas de fogo destruíam a muralha. Logo não seria mais seguro estar ali, e o general sabia disto.
– Coronel, tire todos de cima desta muralha, – ordenou o general, tomando cuidado para que só o coronel ouvisse – pois ela não vai suportar por muito tempo.
– Sim, senhor! – Gritou o subordinado a comum resposta.
A um homem de cada vez, eles desceram as escadarias da muralha e se abrigaram atrás de barreiras feitas com agilidade e precisão. Atrás destas, prosseguiram com os disparos. Por um momento, Einar ignorou que estava no meio do campo de batalha, e observou a situação com frieza. Olhando atento para um dos monstros que es aproximavam da muralha, ele ouviu um disparo de fuzil, que atravessou em cheio a cabeça da criatura. Esta, por sua vez, caiu rígida no chão, e assim permaneceu.
– Ao menos acho que posso considerar que eles morrem da forma usual. – Disse para si mesmo.
Com revólver empunhado, ele se abaixou e se posicionou próximo a uma das fendas ainda intactas da muralha. Tentando não se expôr, mirou com frialdade num dos inimigos, e disparou, acertando seu peito. A criatura estremeu, caindo de joelhos, como se sentisse dor. Então, estendeu seu braço de forma desajeitada, na direção do general, de forma que revelou um braço esquelético e dedos compridos. Como se acariciasse o ar, a criatura movia seus dedos, e algo começou a se formar em sua mão. Einar nunca foi muito para magia, mas ele podia dizer que aquilo era Mági, a forma mais pura de magia. Após constatar este fato, ele rapidamente deixou o local onde estava. Segundos depois, enquanto descia a escadaria, uma explosão extremamente violenta aconteceu, ferindo os tímpanos do general. O deslocamento de ar, igualmente violente, empurrou-o com uma força tal, que o empurrou para fora da escadaria, a dez metros do chão, e, num baque surdo, Einar colidiu com o chão, perdendo a consciência.
O mundo estava escondido sob uma espessa camada de neve, uma neve pura e límpida. Einar olhou seus arredores, e reconheceu um vilarejo tranquilo, pacífico. Seu corpo estava encostado numa árvore, cujos galhos estavam cheios de neve. A qualquer momento, toda aquela neve cairia sobre sua cabeça, mas mesmo assim ele não sentiu vontade de sair de lá. Era como se ele estivesse esperando por alguém. E ele estava, pois, do horizonte branco, uma garota surgiu correndo em sua direção, com seus cabelos louros esvoaçando e seus olhos azuis brilhando. Era baixinho, mas Einar pôde ouvi-la falar. “Egil”, ela dizia. “Egil”, ela chamava por. Afinal de contas, quem era este tal de Egil? Quem era esta garota? Seu coração batia forte à imagem dela, mas sua mente parecia nebulosa.
Quando pensou na palavra “nebulosa”, então ele reagiu, percebendo que estava em guerra até agora há pouco, e não deveria estar naquele lugar. Uns momentos se passaram, e a garota continuava se aproximando, mas nunca o alcançando-o. Ela continuava a chamar pelo Egil, até que Einar começou a rir.
– Ah, é – ele começou a dizer para si mesmo – quase esqueci que Egil é meu nome.
Ainda rindo de sua própria estupidez, ele sente mãos quentes, invisíveis, o envolvendo. Lentamente, a paz daquele mundo de neve começou a cessar, e a neve a derreter. Aos poucos, ele foi acordando, acordando, até que seus olhos não viam mais a planície glacial, mas sim um campo de batalha.
– General, senhor! – Uma voz chamava por ele. – O senhor está bem?
Einar abriu seus olhos, e viu que estava sendo tratado por um médico. Perto dele, Arvid observava a situação da batalha. O general não demorou para se levantar, enquanto o médico ainda fazia algumas checagens para ver se ele havia quebrado algum osso.
– Coronel, reporte. – Comandou o general, preocupado se tinha perdido muito da batalha.
O coronel, por sua vez, olhou para o chão, hesitando. Ele respirou fundo.
– General, senhor, – começou – logo depois que o senhor desmaiou, os inimigos começaram a usar Mági de nível avançado, e começaram a aniquilar nossa infantaria. – Einar olhou para cima, procurando alguma solução, quando notou que a chuva parara. – Com o senhor inconsciente, eu tomei a iniciativa de pedir reforços dos outros generais, mas… – Arvid hesitou ao dizer, então o Einar tomou a palavra.
– E qual foi o resultado? – Questionou.
– Na verdade, – começou o coronel – eles não pareciam preocupados com a queda do Portão Sul, mas sim com o fato de termos que pedir ajuda deles.
Cerrando seus punhos, o sangue do general foi ficando quente.
– Malditos. – xingava ele, baixinho. – Numa hora destas, só pensam nisto.
– Mas disseram que viriam.
Àquele momento, Einar ficou surpreso, e um pouco mais confiante.
– Eles não prestam, mas se ajudarem, podemos reverter a situação. – enquanto Einar dizia, Arvid concordava. – Há quanto tempo você pediu reforços?
– Já faz meia hora.
Mais uma vez, sangue pegou fogo nas veias do general.
– Maldição! O que eles acham que estão--!? – Mas antes que o general terminasse sua frase, soldados com fardas de outros portões apareceram. Os reforços finalmente haviam chego.
Ajudado por Arvid, Einar pôs-se em pé, perante os generais que haviam acabado de chegar. Olhando meticulosamente, Einar teve a impressão de que a general Asha estava maquiada. No meio da guerra.
O primeiro a se manifestar foi Ladek.
– Então, no final das contas, o garoto prodígio precisou de nós para sobreviver. – Veneno escorria em suas palavras.
– Nossas tropas vão salvar Movakta, mas não sua reputação, general. – Meza sibilava enquanto falava.
– Mas não pense que vai se safar assim tão facilmente. – Asha foi a última a dizer, e também a mais comprometedora.
Sem palavras, Einar não viu como poderia responder àquelas atitudes. Ele sempre soube que era odiado, mas não imaginava que usariam aquela situação em sua vantagem.
Ao redor deles, morteiros disparavam, fuzileiros atiravam, e homens corriam de um lado para o outro. Observando o campo de batalha, agora o número de homens estava triplicado, e a situação poderia melhorar. Contudo, a presença dos outros generais lhe trouxe um pressentimento ruim.
– O que farão? – Retrucava Einar. – Eu posso ter falhado, mas era porque não havia como defender o Portão de criaturas como estas. – Sua voz aumentava. – Vocês, por sua vez, fizeram questão de cruzar os braços e observar, suas cobras! – Neste ponto, Einar urrava. – Vocês não dão a mínima para esta fortaleza ou o império, – as expressões dos outros generais demonstravam que eles não gostavam do que ouviam – pois só ligam para a droga do cargo que estão ocupando!
Einar sabia que havia passado dos limites. Ele poderia estar dizendo somente a verdade, mas não era por isto que ele poderia dizê-la. Os generais à sua frente tinham amargura e desgosto estampados em seus rostos, quando Asha desembainhou sua espada -- um florete -- e apontou para Einar.
– Cale sua boca, fedelho. – Ela disse, com agressividade em sua voz e atitudes. – Eu posso muito bem te matar aqui, enquanto a guerra está acontecendo.
Ao lado do general Einar, o coronel Arvid cerrava seus punhos com tal força que suas unhas poderiam muito bem rasgar as palmas de suas mãos.
– Mas matá-lo aqui não estava em nossos planos! – Começou a surtar o general Ladek, sem saber o que fazer.
– Pelo contrário, – retrucava Meza, ando uns passos à frente – se o matarmos aqui e agora, podemos culpar os invasores, e nunca mais precisaremos nos preocupar com este moleque.
Facilmente corrompível, os olhos de Ladek brilharam.
– Ótima ideia, – dizia, enquanto esfregava as mãos – realmente, maravilhosa!
Einar então percebeu que eles falavam sério. E, por um momento, buscou seu revólver, que havia sumido. Asha aproximou-se, com seu florete apontado para o pescoço de Einar, quando outra espada desviou a arma da general. Arvid, sério como uma rocha, começou a lutar com ela.
– General Einar, por favor busque abrigo! – Ele urrou, enquanto desafiava a general.
Por um momento, o que passou pela cabeça de Einar foi “onde ele arranjou esta espada?”, mas logo depois ignorou esta questão e tentou desembainhar sua própria espada, quando descobriu que ela não estava mais lá. Nem sua bainha. Ao olhar novamente para seu subordinado, ele entendeu donde vinha aquela espada.
– Desculpe senhor, – gritou o coronel, reparando que o general sentiu a falta da arma – mas foi necessário!
Einar sabia que ninguém conseguiria deitar-se com uma espada em sua cintura, por isto o perdoaria. O problema, porém, era como sairia daquela situação. Ele não pensava em fugir. Foi aí que Meza apontou seu revólver para Einar.
– Seu fiel coronel não pode protegê-lo de dois generais ao mesmo tempo, – dizia ele, divertindo-se – isto é infeliz para você, mas feliz para mim!
Ao lado de Meza, Ladek estremeceu.
– Smuj, por que disse ‘dois’ se somos três?
– Porque você é pior que um verme e não conta. – Retrucou secamente o general, fazendo Ladek estremecer ainda mais e diminuir mais do que já era pequeno.
Einar começou a sorrir.
– Qual é a graça? Enlouqueceu? – Questionava Meza.
– Vocês parecem os três patetas. – Retrucou rispidamente Einar. – Não conseguem nem matar um cara? Vocês são uma piada!
Com uma careca de horror, Meza não disse nada, mas sim engatilhou o martelo do revólver e, friamente, apertou o gatilho. Por um momento, o tempo parou, quando à sua frente, repentinamente apareceu Arvid. Bang! -- A arma disparou, e Arvid caiu no chão, imóvel. Ao redor deles, Einar notou que Asha estava caída no chão, mas movia-se -- aparentemente havia sido derrotada --, Meza tinha ódio e fúria em seu rosto, e Ladek tremia de medo. Após uns minutos, Meza tomou a palavra.
– Matar um ou dois não fará diferença, – gritava – o que importa é apagar este desgraçado da face de Nôbrom!
Seguindo suas palavras, Ladek empunhou sua pistola, e Ashe, já em pé, também o fez.
– É o fim da linha para você, fedelho! – Gritava Ashe, enlouquecida. – Seu protetor está morto, e você vai estar com ele em breve!
E foi neste momento que vários fuzis apontaram para os generais. Olhando para os lados, Einar reconheceu seus subordinados.
– O que vocês farão? Matarão três generais? – Meza parecia mais desesperado que nunca, enquanto falava.
– Protegeremos nosso general a todo custo! – Uma voz conhecia urrava dentre os homens. Einar o reconheceu como o oficial do pelotão de atiradores de elite.
– Deixem de ser estúpidos! – Retrucava Asha. – Eu ordeno que vocês abaixem estes fuzis!
– Não podemos seguir suas ordens, general! – Respondia o oficial, que virou-se então para Einar. – General Einar, senhor, por favor fuja!
Surpreendido, Einar reagiu.
– Como assim, ‘fuja’?! – Ele também gritava. – Não vou fugir e largar meu posto--
– Esta fortaleza não é o que o senhor pensa que é. – Disse o oficial, com uma voz mansa. – Se eles chegaram a este ponto, eles o matarão, com certeza. Eles farão de tudo para isto.
Einar, sem palavras, ainda tentou recrutar, olhou para o corpo de Arvid no chão. Sim, eles o matariam, mesmo que perdessem tudo. E aqueles homens que estava o protegendo também sofreriam punições. Mas estes homens, ao menos, estavam prontos para isto. Foi quando Einar decidiu.
– Eu voltarei. – Ele disse, com uma voz decidida, mas mansa. – Não vou abandoná-los aqui.
O oficial então acenou positivamente com sua cabeça, e Einar deu as costas aos generais, correndo para a muralha arruinada. Meia dúzia de soldados o seguiram.
– Espere aí!! – Urrou Ladek, desesperado. – Se falharmos, será meu fim! – Ele realmente estava desesperado, e por isto apertou o gatilho de sua pistola.
Por um momento, Einar quis voltar, mas evitou sequer olhar para trás. Logo ele ouviria o som de revólveres e fuzis travando uma batalha.
Floresta adentro, Einar e companhia fugiam através das árvores. Raízes grosseiras e desenterradas dificultavam o progresso, assim como o terreno desnivelado. Enquanto fugiam, ficou claro para Einar que estavam descendo até o nível do mar. O quão mais do miolo da floresta eles se aproximavam, mais úmido o ar se tornava, mais acidentado o terreno se tornava, e mais densa a floresta ficava. Em pedras e raízes eles constantemente tropeçavam, e no barro eles escorregavam. Galhos exageradamente folhados e baixos tentavam seriamente acertar suas cabeças, obrigando-os a abaixá-las para evitá-los. Sinais da chuva que recentemente havia acabado eram claros, pois tudo estava molhado, e nem às copas das árvores eles podiam se encostar, ou senão escorregariam, e cairiam de cara no chão. Einar sempre soube que aquela floresta era de difícil passagem, mas não imaginava que fosse também vil. Ele podia sentir as árvores o subjugando, ordenando que ele deixasse seu lar. Mesmo sem olhos, Einar sentiu que era observado pela natureza. Se as árvores pudessem falar, certamente o expulsariam. Mas, mesmo sem falar, ele podia sentir o desejo profundo como suas raízes, atravessando os corpos de madeira junto da seiva. Entretanto, Einar tinha que sumir do mapa, e aquela floresta maligna não seria o suficiente, e por isto pôs-se a atravessá-la. O quanto antes deixasse aquele lugar, melhor.
Galhos no chão quebravam sob seus pés, a lama gemia com seu pisar. O vento sibilava, sendo rasgado pelas copas das árvores. Lutando contra a natureza, o grupo continuou a marcha, até que pisaram em falso num barranco, que, sob seus pés, decidiu sofrer erosão, derrubando os militares numa clareira. O sol brilhava com força no céu azul, surpreendendo Einar, que, sob a vegetação fechada de Glealla, começara a crer que era noite. À clareira, até parecia que o mundo poderia se tornar pacífico. Pondo-se em pé, Einar caminhou até o centro, e observou. Ao seu redor, e em todas as direções, a floresta se fechava novamente. Era amedrontador, mas o verdadeiro problema que martelava Einar era que ele não sabia mais para qual direção seguir. Ele não tinha sequer uma bússola, e o sol ainda não havia se deitado o suficiente para que Einar pudesse sugerir um sentido. Neste momento todos os soldados que o acompanhavam já estavam ao redor dele, fazendo guarda, quando um deles se aproximou do general.
– General, – chamou o soldado, fazendo posição de sentido – consegui recuperar suas armas. – Disse isto enquanto, de uma mochila, removeu o revólver e a espada de Einar.
– Bom trabalho, soldado. – Congratulou-o o general, enquanto re-equipava-se. – Aliás, eu não sou mais um general, então podem me chamar da forma que quiserem.
Einar, no fundo, não gostava da ideia de perder o cargo que tanto lutou para ter, mas sentiu que seria errado forçá-los a tratá-lo como se ele ainda fosse um militar de alta-patente. No mínimo, ele era agora um foragido. Foi neste momento que ele parou para pensar no porquê ele realmente havia fugido daquela maneira. Repentinamente, seu coração bateu com tanta força que poderia explodir -- será que ele agira exageradamente ao fugir de Movakta? Não seria sido melhor apenas evitar os outros generais, e então reportar o ocorrido ao major-general? -- Refletindo sobre o passado, Einar lembrou-se das últimas palavras do major-general: “faça uso da precaução, general.” O que diabos aquilo significava? Ele sabia que isto aconteceria? Se fosse assim, não seria uma boa ideia recorrer a ele para ser protegido.
Algo rastejava às sombras, inspirando a luz e expirando trevas, absorvendo a vida e expelindo a morte. A malignidade novamente pairava no ambiante, infectando os corações dos mais corajosos a se tornarem covardes, esmagando o espírito de todas as criaturas vivas, até que não restasse nada além de medo e ruína. Sob aquela atmosfera de podridão espiritual, uma luz brilhou no coração de Einar. Ele não sabia dizer o que era, nem o que significava, mas repentinamente tudo se iluminou em sua mente. Ele fugiu porque sabia que tinha que fugir. Porque sabia que se tivesse ficado lá, as garras das trevas o esmagariam, e as mandíbulas das sombras o mastigariam. No fim, sua alma seria devorada, por aqueles que carregavam a escuridão em seus corações. Einar não entendia perfeitamente bem o que tudo isto significava, mas a luz que clareava sua mente o fez aceitar esta forma de ver a situação. Sem ter como explicar, disse a si mesmo que era sua intuição.
Então sangue jorrou perante seus olhos -- o soldado que há pouco lhe retornara suas armas estava com sua jugular exposta, derramando sangue violentamente. A violência, a morte, o desespero e o medo dominaram novamente o coração até então iluminado de Einar, que, por sua vez, ficou sem reação. Mas não reagir seria aceitar a morte, e foi por isto que ele afastou toda a escuridão de seu coração, enquanto saltou para trás e puxou seu revólver, seu melhor amigo.
– Soldados, – ele berrou, enquanto olhava ao seu redor para verificar se alguém ainda estava vivo, e, para seu alívio, todos os outros soldados ainda estavam vivos – não se rendam! Mirem na cabeça!
Mas falar era mais fácil do que fazer. Mesmo com os famosos fuzis 5,56mm, negros e robustos, e suas rajadas de disparos, as criaturas pareciam, no mínimo, dez vezes mais agressivas do que demonstraram ser na última batalha. Elas se moviam rapidamente, ziguezagueando para esquivarem-se dos projéteis. Com dificuldade, Einar contou três inimigos. À sua direita, um soldado xingava os monstros como, possivelmente, nunca xingou algo ou alguém antes. Eram tantos palavrões que, momentaneamente, até mesmo Einar ficou boquiaberto. Haviam expressões que ele nunca ouvira antes, mas que, de alguma forma, ele entendia o que significava. Disparando seu fuzil desesperadamente, o soldado boca-suja estava claramente fora de si, ou assim percebeu Einar. Seus olhos não tinham brilho. Era como se a escuridão estivesse devorando seu coração. E foi aí que Einar percebeu que, provavelmente, era o único que não se sentia assim. Perante esta revelação, um novo tipo de coragem toma forma dentro dele. Dando um tapinha no ombro do soldado, que, reagindo, parou de atirar, Einar segurou seu revólver com sua mão esquerda e desembainhou sua espada, empunhando-a com sua mão direita. Correndo em direção à criatura que ziguezagueava, ele desferiu um corte quase horizontal, esquivado pela criatura por pouco, que, por sua vez, avançou e, mostrando uma mão com unhas longas e imundas, agarrou a lâmina da espada. Um momento de hesitação, e então um disparo, vindo do lado, dado pelo soldado que Einar acalmou há pouco. O projétil do fuzil abriu caminho no crânio da criatura, que afrouxou sua mão quase que imediatamente, soltando a espada de Einar, que, por sua vez, fez um sinal positivo com a cabeça para o soldado, que sentiu-se encorajado. Voltando sua atenção à batalha, outras duas criaturas esquivavam e atacavam os outros soldados. Outros dois homens já haviam sucumbido, e jaziam no chão, com expressões de horror e sangue tingindo a grama úmida de vermelho. Por falar em sangue, o sangue negro que saíra da cabeça da criatura manchara ainda mais as vestimentas de Einar, que já estavam barrentas. Desta forma, seria ainda mais difícil escapar. Entretanto, aquele não era o momento para pensar nisto.
– Soldado, eu vou pará-lo e você-- – Começou a dizer Einar, mas o soldado o interrompeu.
– Deixe comigo, general. – Ele dizia, corajoso. – Desta vez eu tomo o risco.
Einar não gostou de trazer riscos ao soldado, mas não tinha escolha, pois não cria que discutir aquilo era sequer relevante. O soldado agiu primeiro, correndo até a criatura e, sem qualquer medo mas dificuldade, agarrou os braços da mesma. Àquele momento, sem hesitar, Einar embainhou sua espada e empunhou seu revólver com suas duas mãos, para dar um tiro certeiro. Para o soldado, este tempo provavelmente durou eras, mas Einar precisava mirar bem, e o revólveres eram mais difíceis de mirar do que fuzis. Com seu polegar direito, Einar então engatilhou o martelo da arma. O tiro vivia logo em seguida, quando algo surgiu do peito da criatura, em forma de chifre, e penetrou no peito do soldado, perfurando-o, e saiu do outro lado. Einar quase hesitou, mas não podia mais. Se hesitasse, o soldado morreria em vão. Então Einar disparou, e, quase imediatamente, sangue saiu pela nuca da criatura, que à hora do disparo olhava para Einar. O sangue negro espalhou-se no ar, enquanto a criatura caía de costas e o suposto chifre, que havia surgido de dentro da túnica dela, recuou e desapareceu. O soldado, com um buraco enorme aberto em seu peito, caiu no chão, já morto. Muito, muito sangue vazava do soldado, tingindo a grama com a cor que começava a dar náuseas a Einar. Dentre todos os males, pelo menos só havia mais uma criatura. O problema, porém, é que só haviam agora dois soldados vivos, e os dois estavam totalmente fora de si, tanto que, num movimento vil, enquanto os soldados disparavam alucinadamente nela, ela passou entre eles, fazendo com que eles atirassem em si mesmos. Por incrível que parecesse, aquilo havia dado certo, porque um dos soldados acertou a cabeça do segundo, e este acertou o joelho do primeiro. Um caiu morto, e o outro ficou de joelhos, gritando de dor, e nem atirar mais atirava. Einar apontou seu revólver com firmeza e, sem nem mirar direito, aproveitou que sua arma já estava engatilhada, e disparou. O projétil fez sua trajetória reta até o braço da criatura, perfurando-o. Àquele momento, Einar notou que o braço dela se tornou inútil, e viu isto como um trunfo. Contudo, a criatura o surpreendeu, atravessando a grande distância que havia entre eles em milésimos de segundo. A criatura se aproximou tanto de Einar que este ficou sem reação. Cara a cara, ele sentiu a malignidade do monstro atravessar seu corpo.
– Se ficarmos sérios, – a criatura começou a falar, com sua voz vulgarmente gutural – nem você vai sobreviver, Egil Einar.
Momentaneamente, Einar arregalou seus olhos, perante a criatura que não apenas era totalmente anormal, como também o conhecia. Ao menos sabia seu nome. A criatura, por sua vez, soltou uma risada guturalmente perceptível. A visão disto encheu Einar de raiva, que, sem hesitar, largou seu revólver e puxou sua espada, já aproveitando a deixa para desferir um corte diagonal na criatura, que foi pega desprevenida. Neste momento, Einar sentiu que o monstro não era assim tão inteligente, já que baixou sua guarda tão facilmente, mas foi surpreendido logo depois pela criatura, que, gemendo com sua voz roucamente gutural, avançou sobre o soldado, que ainda gemia de dor pelo joelho ferido, e abaixou sua cabeça sobre a cabeça dele, que entrou dentro do capuz da criatura como se fosse vazio. Sons similares aos de carne sendo rasgada e osso sendo moído surgiram, até que a criatura levantou-se. O soldado estava decapitado, e sangue jorrava de sua jugular exposta. Einar hesitou, espantado. A criatura voltou a rir grotescamente.
– Não nos compare com humanos, Egil. – A criatura continuava a chamá-lo por seu primeiro nome. – Somos superiores.
Enfurecido, Einar deu um passo à frente, batendo seu pé com força na grama, que absorveu maravilhosamente o impacto, por estar úmida e ligeiramente mole.
– E o que são, então?! – Ele questionou, gritando. A criatura parecia se divertir.
– Somos a sombra que devorará seu mundinho. – Ela disse, e então apontou para o cadáver do soldado, estatelado no chão, que acabara de devorar. – Do mesmo modo que devorei seu camarada.
Raiva brotou profundamente no coração de Einar, que tentou ainda atacar. Contudo, a criatura deu as costas a ele e, entrando na floresta, desapareceu na escuridão. Foi rápido demais para atacar. Deveras, estas criaturas não poderiam ser derrotadas assim, de forma tão direta. Até aquele momento, Einar já havia aprendido que elas podem usar Mági e mover-se em qualquer terreno numa velocidade incrível, além do fato de que podem consumir humanos. Agora, se isto era só para aterrorizar, ou se tinha algum motivo profundo, ele não sabia. Entretanto, uma coisa era adequada para se dizer: naquele momento, era impossível derrotá-los. Já era difícil o suficiente sobreviver a eles. E foi com este pensamento, e um sentimento de impotência, que Einar observou ao seu redor, enquanto retomava seu fôlego. Seus companheiros estavam esquartejados, devorados, mutilados, assassinados. Ainda assim, ele estava vivo. Não apenas vivo, como também intacto. Bem, intacto não, já que uma porção de ferimentos leves castigavam seu corpo, mas quando ele olhava seus subordinados mortos, ele não conseguia pensar que estava machucado. Einar sabia que tinha que ir. Se ele lá permanecesse, mais demônios viriam. Em seu coração, um pesar o continha, porém, pois ele ciente estava que estes homens mortos jamais teriam um enterro decente. Eles seriam ignorados e esquecidos, e seus corpos apodreceriam naquela clareira. Mesmo assim, ele tinha que ir. E quando ele finalmente conseguiu se mexer, quando finalmente deu as costas aos mortos, um fardo pesou em seus ombros. Ele poderia deixar a floresta e sobreviver, mas jamais salvaria aqueles homens mortos. Respirando pesadamente, ele deixou a clareira.
Ele corria como nunca correu em sua vida. Desesperado, exasperado, seu fôlego esgotado era suprido pela adrenalina e um desejo íntimo, quase selvagem, de sobrevivência. Através das árvores, sobre terra molhada, pedras, raízes e galhos secos, sob véus de galhos folhados. Qualquer ruído lhe havia seu coração tremer, mas suas reações deixaram de ser conscientes. A imagem dos homens mortos martelava sua mente, o medo devorava sua sanidade. Sua única resposta para qualquer coisa que fizesse barulho ou se mexesse era fugir o mais rápido possível. Com seu coração numa mão, e sua espada na outra, ele abria caminho freneticamente e nunca parava. Ele nem sabia se estava realmente indo no caminho certo. E então, de repente, a floresta terminou. Um céu azul cobria o mundo, tranquilo, apático. Belas nuvens brancas planavam suavemente aqui e ali. Era como se o mundo tivesse mudado completamente, como se todos os perigos tivessem desaparecido. Tudo isto quando deixou para trás a floresta do silêncio, Glealla. Uma brisa beijou-lhe o rosto, e então sentiu como se tivesse acabado de acordar. Meio tonto, sentiu como se tivesse estado em transe o tempo todo. Ele estava em pé, olhando o céu, com cara de bobo, mas nem entendia o porquê. Mas talvez entendesse. Talvez ele quisesse olhar uma última vez o céu azul, antes de morrer. Mas ele ainda estava vivo, e por isto não podia parar. Ele tinha que fugir, mas, para onde iria? Para onde ele poderia ir? Ele precisava de um lugar onde o império não tivesse poder sobre. Não havia. Ele precisava de um lugar que fosse um ponto cego do império. Não existia. Ele precisava de um local seguro, onde poderia dormir, onde poderia viver com sua irmã--. Sua irmã. Um calafrio extremamente desgostoso atravessou suas entranhas, seguido por um medo inimaginável que o estrangulava, dificultando sua respiração. Sua irmã mais velha, Elin Einar. Sua única família. Naquele momento, Egil Einar foi dominado por um sentimento pior do que o medo da morte. Ele passou a temer com todas as suas forças. Seu temor, que usassem Elin para capturá-lo, que ferissem ela, que torturassem ela, que matassem ela. Ela vivia num vilarejo um tanto quanto esquecido pelo mundo, chamado de Iflyn, em Iglori, um continente polar, distante da capital. Suor escorria em seu rosto, seus lábios tremiam, assim como suas extremidades. Se eles eram capazes de destruir um forte inteiro, eles muito bem usariam sua irmã. Egil não entendia os motivos, mas sabia que estava sendo perseguido por aqueles monstros e, como consequência, estava estigmatizado com uma pena de morte. Ele sabia que não podia mais ficar ali, que tinha que correr até Elin. Seu corpo, então, estremeceu, quando percebeu que estava de frente para o porto da capital. Por um momento, ele se perguntou se estava ali desde o princípio ou se suas pernas haviam se mexido sozinhas, mas, como sentia que não tinha tempo para perder, ignorou isto e correu para uma pequena casa que ficava ao lado do porto, onde as passagens eram vendidas. Com seus passos desajeitados, respiração pesada e corpo exausto, ele entrou cambaleando na construção. Dentro havia várias pessoas, umas sentadas, aguardando a partida de seus navios, outras em pé, conversando entre si. Nenhum estava no balcão comprando passagens, mas o vendedor lá estava, aguardando um cliente. Mas, no momento em que as pessoas viram Egil entrar, suas expressões mudavam completamente, ficando sérias, sombrias, desgostosas. Uma negatividade esmagava o corpo cansado de Egil, que mesmo assim cambaleou até o balcão. Contudo, no momento que chegou lá, o balconista se afastou, olhando-o com profundo desdém.
– As passagens esgotaram. – Ele disse friamente, como se estivesse esfregando uma verdade desconfortante na cara de Egil.
– Mas eu nem disse para onde quero ir. – Retrucou impacientemente o jovem – Eu quero passagens para Iglori!
– Como eu disse, não há mais passagens! – Exclamou venenosamente o balconista. – Não para você, ao menos.
Aquelas palavras ecoavam dezenas de vezes em sua mente, martelando-a, amassando-a. Algo estava estranho, mas agora algo estava errado. Olhando aos seus arredores, Egil percebeu que todos o observavam com expressões odiosas. Algo definitivamente estava errado. Mas Egil não podia parar para pensar, e nem dar chance para que contratempos ocorressem. Elin precisava dele, precisava da proteção que só ele podia fornecer. E ele precisava ir até ela. Os civis sentados se levantaram, os em pé o cercaram. De dentro de bolsos, bolsas, malas , até de baixo de bancos, os supostos civis retiraram punhais, revólveres, e até espadas. Egil não precisava de mais provas, e nem mais motivos, e sacou seu revólver. Atrás dele, o balconista vasculhada algo que parecia estar escondido sob o balcão. De repente, Egil instintivamente pula para o lado, conseguindo desviar de um balaço que abrira um buraco do balcão. Pondo-se em pé, o balconista revela uma escopeta.
– Por que estão fazendo isto?! – Exclamava freneticamente Egil. – Vocês são civis, não são? – Tentando comprar tempo, ele questionava as atitudes deles.
– Quem mexe com o império mexe com os civis também, seu rato maldito! – Um homem que empunhava uma espada com sede de sangue respondeu.
– E pelo que me julgam?! – Egil questionava, agora esquecendo do plano de comprar tempo, e tentando descobrir a verdade. Naquele momento, o balconista se manifestou.
– Calado, seu assassino! Você sabe muito bem o que fez! – Egil não pôde retrucar com nada, senão mantendo contato visual. – Mas se ainda precisa que sua memória seja refrescada, então eu farei este último favor para você, que assassinou nosso imperador!
Um gelo atravessou a espinha de Egil como um raio. O imperador fora assassinado, e Egil fora dado como culpado. Não podia ser mais clichê e obviamente mentira, mas provavelmente havia algo por trás, para fazer aquelas pessoas irem ao ponto de vingarem-no com suas próprias mãos.
– Você foi o mandante da invasão da fortaleza, desgraçado! E enquanto o caos reinava, você o matou com suas próprias mãos! – O homem com um revólver exclamou, tremendo.
– Não! – Egil retrucou. – Movakta foi atacada por invasores desconhecidos-- – Mas foi interrompido pelo balconista.
– Maldito, desgraçado! Se vai mentir, não diga algo tão ridículo! – O balconista cuspia enquanto discutia, claramente estando no limite de sua fúria. – Vai dizer aquela história ridícula que monstros atacaram o forte? Todos sabem que foi você quem abriu o portão para eles entrarem!
– Não! Isto está errado-- – Egil começou a falar, quando o cano da escopeta, apontado para ele, o fez calar-se.
– Morra!! – O balconista urrava com todas as forças.
Egil sabia que matar civis era contra a lei. Ele não queria carregar em suas costas ainda mais mortes. Mas, agora ele era o assassino do imperador. Não havia nenhum crime que fosse puni-lo mais do que o crime que ele não cometeu. Um sentimento selvagem de sobrevivência dominou seu corpo e, quase sem pensar, ele se jogou em direção à escopeta, de forma que ela ficasse logo acima de seu ombro. Foi neste momento que o balconista apertou o gatilho, liberando um balaço que raspou em seu ombro, rasgando a pele. Com um gemido doloroso, a adrenalina preencheu seu sangue. Rolando para ficar de costas para o chão, Egil aponta seu revólver para o rosto do balconista. Ao redor deles, civis amedrontados e sem reação observavam. Aquele revólver nunca deveria ser usado para matar pessoas. Com seu polegar, Egil engatilha sua arma. Aquele revólver foi dado a ele por sua irmã, e foi feito para proteger pessoas. Mas agora ele só podia matá-las, e Egil aperta seu gatilho, liberando um projétil que atravessou a cabeça do balconista, entrando por sua bochecha gorda e saindo por sua nuca. Sangue jorrava, encorria, como um rio, dos orifícios. E então, o homem cai no chão como uma pedra. Imóvel, ensanguentando o chão, e sem vida. Mas aquele momento não era para apreciar a morte de um homem. Egil agilmente levanta-se, e nota que dois terços dos civis já haviam fugido da casa. Só restavam dois: um com uma espada e outro com um revólver. Mas para Egil já não havia mais volta. Aproveitando-se do fato de que o homem que empunhava o revólver parecia não saber usá-lo (além de tremer intensamente), Egil desembainhou sua espada e, num golpe rápido, decepou as mãos do homem, que se jogou no chão, agonizando, enquanto rios de sangue vazavam de suas veias.
– Seu assassino!! – Urrou o último homem.
Investindo contra Egil, ele ergueu sua espada. Mas foi interrompido por um murro ao estilo gancho, dado por Egil, na boca de seu estômago. O homem tossia incessantemente, e, derrubando sua arma, logo foi ao chão, ficando numa posição fetal, agonizando. Por um momento, Egil quase olhou ao seu redor para ver o estrago, mas decidiu não fazê-lo. A partir de agora ele era um assassino, e só podia seguir em frente, sem nunca olhar para trás. Assim, ele embainhou sua espada ensanguentada e puxou seu revólver, correndo para fora da casa. Ele mal sabia que as mortes que fez até agora e daquele momento em diante voltariam para assombrá-lo.
Do lado de fora da casa, nenhum civil, mas vários soldados apareceram. Sem pensar duas vezes se eram seus ex-subordinados ou não, ele disparou seu revólver duas vezes, acertando e furando o pescoço de um soldado, e o olho de outro. Egil sempre mantinha-se em movimento, correndo na direção do cais. Um soldado investiu contra ele corpo a corpo, recebendo como resposta um corte profundo na garganta. Outros soldados estavam na retaguarda, e disparavam com fuzis. Mas, para sorte de Egil, eram inexperientes e erravam muito. Ainda assim, um tiro perfurou seu braço. Correndo pela sobrevivência, Egil se jogou atrás de uma pilha de caixas com comida, para abrigar-se. Voltando-se para um soldado que investia contra ele, Egil pontou seu revólver e disparou, sem efeito. Sua munição havia acabado. Com o soldado bem encima dele, Egil perfura seu tórax com sua espada. Ele precisava sair dali. Olhando para o cais, nenhum navio estava atracado. Não havia outra alternativa. Egil embainhou sua espada e guardou seu revólver, levantou-se com dificuldade, e correu como louco para o mar. Tiros o seguiam e perseguiam, perfuravam o cais de madeira e ricocheteavam nas partes metálicas. De frente para o mar, ele tomou a única rota de fuga, pulando para o oceano. O sal das águas penetrava em suas feridas, causando-lhe dor de intensidade impronunciável. Praguejando e sofrendo, Egil tentou nadar, mas sem êxito. Sua visão começava a turvar. Seu corpo ficou pesado. Seus membros não respondiam aos seus comandos. Não havia mais o que fazer, senão deixar a correnteza levá-lo embora. Ele perdia a consciência, perguntando-se se estaria morrendo.
Mas morte era uma mordomia cuja ele não tinha o direito de ter.
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