Tênue
1 Tsumi
Notas iniciais
Eu odeio isso, eu só quero trancar todos os meus sentimentos".
O japonês acordou com um sobressalto do seu futon, posto no canto do quarto. As mãos trêmulas agarravam o cobertor que estava em cima de seu corpo tenso. Quando finalmente percebeu que estava tudo bem, suspirou e levantou-se dobrando o futon e guardando-o.
Ele sabia que não conseguiria dormir de novo.
O nipônico caminhou em passos calmos (mesmo que seu interior não estivesse calmo) até o banheiro. Evitou o próprio reflexo no espelho até o último momento, mas quando finalmente o encarou não gostou do que viu.
Estava cansado. Doentiamente cansado. Os olhos exibiam olheiras fundas de diversas noites sem dormir e o rosto estava pálido, quase doente. Seu chefe tentou lhe dar férias como todos os anos, mas ele recusou-se dizendo que estava tudo bem.
Kiku tentou parar de pensar no que aconteceu, mas mesmo que tentasse não conseguia conter os próprios sonhos. Ele sabia que não poderia simplesmente apagar as memórias boas (e até mesmo as ruins) com o “outro”.
Ele encostou-se na parede, continuando a encarar o reflexo sem vida que via na frente daquele maldito espelho.
“_Vamos, Kiku... Só um beijinho! _O outro riu da expressão de repreensão que o japonês lhe fazia, achava que ele ficava fofo daquela forma.
—Pare com isso, Alfred! Não em público! _O outro respondeu-lhe, tentando escapar das mãos do americano que o prensava contra uma parede da Sala de Reuniões dos países. _Alguém pode nos ver. _Ele acrescentou, esticando-se para se certificar pela milésima vez se a porta estava devidamente fechada.
—Eu tranquei a porta, não se preocupe... _O outro disse perto do ouvido do nipônico, que sentiu os pelos da nuca se arrepiarem.
—V-você... É um verdadeiro idiota. _Mal terminou de dizer isso, sentiu sua boca ser tomada pela –grande pátria americana-.”
Jogou água no rosto, ainda sentindo-se trêmulo. Tudo isso havia ocorrido há muito, muito tempo. Mas afinal, o que era o tempo para um país? Por quanto tempo ele poderia demorar para se recuperar? O destino dos países era totalmente incerto. Um dia eles poderiam estar bem e logo no outro terem sido dissolvidos.
Era uma maldição, ele sabia disso. Kiku sabia perfeitamente das suas próprias circunstâncias naquela época e consequentemente também sabia das de Alfred. Ele era um país, adotaria os costumes do seu povo e também seus aspectos e seguiria ordens dos seus superiores sem pestanejar, afinal, o que ele poderia ter feito naquela época? Absolutamente nada. Ele sabia disso também.
Se ele era apenas uma personificação, por que continuava se ferindo como se fosse um humano? Por que continuava culpando-se?
Por quê. Essa era a grande questão.
Japão saiu de seu banheiro, ainda cambaleando sem ter para onde ir. Seu cachorrinho logo apareceu e enrolou-se nas pernas do outro, como se soubesse o porquê do dono estar daquela forma.
—Pochi-kun... _Agachou-se para acariciar a cabeça de seu cachorro por um tempo. O bichinho abanou o rabo e latiu feliz e isso fez o outro sorrir fracamente.
Ele lembrava-se perfeitamente das palavras do antigo amante alguns dias antes coisas ficarem cada vez piores, antes do céu cobrir-se pela escuridão do tão próximo estopim da Segunda Grande Guerra.
“_Independentemente do que acontecer, eu vou continuar sendo um herói! _América falava rapidamente com seu costumeiro sorriso no rosto _Vou continuar sendo o seu herói, Kiku. As coisas não vão mudar depois que tudo isso acabar.”
Então, Pearl Harbor.
O nipônico sentou-se no Engawa* de sua casa, com seu cachorrinho ao seu lado.
Alfred tinha prometido ser “O Herói” para sempre, mas antes mesmo que ele pudesse cumprir com sua palavra o ataque ao seu país aconteceu. Kiku havia traído a confiança dele, mesmo que não fosse totalmente sua culpa. Ou seria? Ele preferia pensar assim.
Ele se sentia extremamente enjoado pensando em quantas vezes teve que sujar as próprias mãos de sangue, e sentia-se pior ainda quando se lembrava que também matou gente inocente. No fim, eles não poderiam apenas ter evitado isso tudo?
As coisas não faziam muito sentido na cabeça dele, efeito talvez de ainda estar muito perturbado com a data que o país “comemorava”.
E então ele sempre voltava para o mesmo questionamento: será havia alguma forma de impedir o que houve naqueles dois dias? Será que ele poderia ter impedido que tantas pessoas morressem por uma Guerra tola? Kiku pela milésima vez respondeu a sua própria pergunta: “Não, não havia como. Eu sou apenas um subordinado de meu chefe e não é como se tivesse poder real”.
O japonês observou o sol preguiçosamente levantar-se anunciando mais um dia, observou também seu jardim sendo iluminado lentamente pela luz solar, seu cachorrinho correndo atrás de alguns pássaros que ciscavam o chão e a suave brisa que batia em seu rosto.
Afinal, era apenas mais um dia.
Ele finalmente levantou-se, teria que pôr um fim em tudo aquilo de uma vez. Então, faria como todos os anos:
Ele não tentaria conversar com Alfred, não contaria a ninguém como se sentia, iria trancar seus sentimentos em uma caixinha para que só ele mesmo tivesse acesso. Ele esticaria ainda mais a linha tênue da sua culpa, porque afinal, ele sabia que ela nunca quebraria.
Kiku Honda havia feito isso durante toda sua existência, então que mal faria continuar com toda essa farsa? Ele viu seus amigos se tornarem inimigos, viu momentos históricos de perto, viu o quanto a traição pode destruir alguém por dentro, até porque para um país não havia uma segunda chance, seu erro estará exposto para a humanidade pelo resto da sua existência.
Ele aguentou 71 anos e, no fundo, sabia que Alfred de certa forma também carregaria isso consigo mesmo para sempre (ou até o fim da existência deles dois).
Caminhando para dentro da sua casa, ele começou a preparar seu café de manhã enquanto ouvia os noticiários pelo rádio. “O que será que faço hoje para o almoço? Ah... Preciso sair para comprar mais sorvete urgentemente, é difícil ficar sem sorvete! Preciso ligar para o Itália-kun também, faz tempo que não nos encontramos.”
Como se nada houvesse acontecido.
Notas finais
Bom... Esse é meu primeiro angst e também minha primeira fanfic de Hetalia. Comecei esse rascunho faz dois meses e só consegui terminar agora. Infelizmente não saiu da forma que eu gostaria, mas fazer o quê, com o tempo eu juro que vou melhorar!
Essa oneshot teria inicialmente dois capítulos, um narrando o ponto de vista do Japão e o outro do Alfred, mas infelizmente eu só consegui escrever (muito mal por sinal) a parte do Japão. Quem sabe numa próxima eu consiga fazer algo melhor~
Em breve estarei postando aqui mais algumas oneshots de AmeriPan e Nichu, em conjunto com um angst que estou preparando do Rússia.
Um obrigada especial para a França nii-san que torceu para que eu conseguisse terminar a oneshot à tempo e para a Gio, que deu uma olhada no rascunho inicial ♥
*Engawa: denominação dada à faixa tipicamente pavimentada em madeira que ressalta da face das paredes constituídas por portas corrediças (shōji), cujo espaço está sob o beiral do telhado da casa tradicional japonesa. Equivale ao espaço designado no Ocidente de "varanda".
*A música usada nas notas iniciais se chama Perfectionist Complex e você pode ouvi-la aqui: https://www.youtube.com/watch?v=6d-hw65NNIM
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