Notas iniciais
Capitulo de hoje inspirado na música True Love do Coldplay. Espero que gostem!

Diga que me ama

E se não me ama, então minta

Minta para mim.

True Love – Coldplay.

Uma tarde de dezembro de 1965

A neve caia tão tranquilamente que John acreditou que jamais havia visto coisa mais simples no mundo.

O inverno sempre o deixará melancólico. Mas o inverno em Nova York o fazia se sentir solitário. Mesmo com Kate ao seu lado. Na verdade, tê-la ao seu lado era se sentir mais solitário ainda. Ela era confusa e extremamente ausente. E ele precisava por um fim nisso. O relacionamento estava péssimo para ambos os lados.

Ele estava sentado em um banco no coração do Central Park esperando a loira chegar. Eles estavam juntos há quase um ano, mas a relação era quase tão destrutiva quanto se era possível ser. Ambos se gostavam, mas ambos tinham opiniões bem diferentes em relação ao mundo. Digamos que não era ela que poderia ser convocada para a guerra a qualquer momento.

Ele viu Kate chegar de longe. Ela vestia aquele casaco creme de casimira que ele tanto gostava, uma meia calça de fio 80 e uma bota que ia até os joelhos da mesma cor do casaco. E uma touca de pelúcia da com a cor igual ao resto da roupa.

Kate era linda e ele não podia negar. Ele adorava quando ela apertava o corpo nu contra o dele, depois de terem feito amor, ambos suados e ofegantes. Mas ele odiava quando ela saía e não dava satisfações e quando ele perguntava calmo para onde ela tinha ido, ela gritava e falava que ele a oprimia e não lhe dava o direito de ir e vir. Com certeza havia coisas nele que ela odiava e isso era o bastante para ele saber que não era perfeito, como ela também não era.

Assim que ela se aproximou ele sentiu seu perfume doce e se sentiu mais melancólico do que já estava. Ele não queria ficar sozinho, mas também não podia continuar do jeito que estava.

Ele se levantou e a beijou de leve nos lábios.

Eles se sentaram no banco e ela pegou as mãos dele.

– Preciso lhe dizer uma coisa. – ela disse com um quê de arrependimento. – Eu te adoro. Eu te adoro como nunca adorei alguém. – John não acreditou, ela estava terminando com ele? – Mas não podemos mais ficar junto. Eu encontrei outra pessoa. Espero que não fique triste ou me odeie. – ela apertou as mãos dele. – Por favor, entenda.

Ele a encarou.

– Pode ficar tranquila. – ele disse beijando a ponta de seus dedos. – Eu entendo completamente.

– Você não ficou chateado? – ela perguntou, surpresa.

– Não, eu aceito sua decisão.

Kate sorriu e o abraçou.

– Sabe quem está vindo para a cidade? – Ele balançou a cabeça negativamente. – Annie.

Ele a olhou nos olhos e se perguntou se era verdade. Ele não via Annie há tanto tempo. Na verdade, desde aquela noite trágica de 63. Parecia que estavam distantes há séculos. Ele se perguntou se ela ainda estava com Kevin, mas não pode evitar sentir a mesma dor que havia sentido na ultima noite que estiveram juntos.

– Que ótimo. – ele deu de ombros, fingindo desinteresse.

Kate bateu com as costas da mão no ombro dele e sorriu.

– Eu sei que você sente falta dela, não precisa fingir.

John odiava ser assim tão transparente.

Ele queria vê-la, mas não sabia se ela queria o ver.

– Fique calmo – disse Kate –, ela não vai se importar se for a ver.

***

Ele e Kate entraram em um café na Quinta Avenida, que era pequeno e quente. Annie ainda não havia chegado e eles esperaram numa das mesas tomando café. John gostava de seu café amargo. Nunca entendeu o porque. Enquanto Kate gostava extremamente doce. Mais uma coisa que eles não tinham em comum. Assim que ela terminou a café, ela tirou algumas notas da carteira e deixou embaixo da xícara. Levantou-se e olhou para John.

– Hm – ela colocou o indicador na frente dos lábios numa expressão pensativa. –, não irei poder esperar Annie por mais tempo. Tenho coisas para fazer. Tchau.

Ela saiu do café e deixou John encarando a porta por onde ela havia partido. Ele tomou mais uma xícara de café enquanto esperava Annie chegar. E quando ela chegou, ele soube que nunca havia deixado de amá-la. Mesmo quando gritou para os quatro ventos que ele a odiava.

Aqueles olhos cor de mel ainda o fascinavam e aquele sorriso maravilhoso o deixava sem ar. Porque diabos ela tinha esse poder sobre ele?

Ela usava um casaco preto, calças também pretas em um corte mais social e sapatos de salto lindíssimos. Mas o que mais chamou a atenção de John foi o corte de cabelo curto que ela ostentava.

Annie puxou a cadeira a sua frente e se sentou. Eles se entreolharam por alguns minutos. Ela o estudava minuciosamente, assim como ele fazia com ela.

John conseguia saber exatamente o que tinha mudado naquele rosto. Ela tinha novas linhas de expressão. Olheiras mais fundas que estavam escondidas com maquiagem, mas ele conseguia ver. Ela tinha ganhado peso. Não muito, mas havia. Era como ver um rosto estranho e familiar ao mesmo tempo.

– Você está diferente. – ela disse com aquele tom de voz casual que ela usava sempre. – Parece mais maduro.

Isso era por culpa da barba que John havia deixado crescer nesse meio tempo que eles não se viam.

– É por causa da barba. – ele disse sem graça.

Ela negou.

– Sinto lhe informar, mas não é. – ela sorriu. – Tem algo em você que denuncia o quanto amadureceu desde aquela noite. Acho que foram aqueles acontecimentos que o endureceu e o tornou mais maduro. Mas eu sinto muito.

Ele segurou a mão dela através da mesa e olhou dentro dos olhos dela. Ela realmente deveria sentir muito. Mas ele não sentia mais raiva dela ou daquela noite. Ele apenas sentia uma tristeza profunda. Maldita melancolia de inverno.

Ele não queria perdê-la mais uma vez. Queria fazê-la ficar. Ficar para sempre ao seu lado. Mas ele não queria assustá-la. Não queria afastá-la dele.

– Não sinta muito. – Os olhos verdes dele estavam marcados pela tristeza que ele sentia ao falar daquele assunto. – O que passou, passou. Espero que você tenha deixado aquela Annie para trás. Realmente espero.

Ela riu. Foi um riso simples. Curto. Baixo, até. Mas ele a havia feito rir.

– Ela está morta e enterrada.

***

– Só você para me arrastar para uma coisa dessas. – ele disse enquanto ela puxava a mão dele pela calçada.

– Mas eu quero ver a decoração de natal. – ela fez beicinho.

Ele não podia resistir a ela e por isso fora arrastado pelas ruas para ver as decorações de natal.

Era a época do ano favorita de Annie e a que ele menos gostava. Ele não gostava da alegria que as pessoas sentiam naquela época do ano. Ele não suportava a alegria que sentia na noite do natal. Era doloroso demais.

– Você sabe o quanto eu odeio o natal, não sabe?

Ela parou de andar e o encarou.

– Me desculpe, eu não qu...

Ele a silenciou.

– Eu que tenho que me desculpar. Eu não queria ser um Grinch.

Ela sorriu.

– Então vamos esquecer isso, senhor Grinch.

John riu.

Ele achava que o dia ia ser triste e solitário. Mas ele estava tendo uma tarde divertida com ela.

Os passos rápidos dos dois pelas calçadas faziam as pessoas os encararem. Mas Annie não se importava. Ela olhava tudo com uma adoração gigantesca.

Foi então que ela viu o grande ringue de patinação. John sabia o quanto Annie adorava patinar no gelo. Já ele, nem tanto.

– Podemos ir patinar? – ela perguntou como uma criança de 3 anos.

– Claro. – ele respondeu.

Ele pagou para o senhor que guardava os patins. Pegaram dois pares e os calçaram. Annie entrou no ringue rodopiando e fazendo acrobacias. John apenas sabia patinar o básico que ela havia lhe ensinado há três anos atrás.

Annie olhou para trás e sorriu. Aquele sorriso tinha um efeito terapêutico em John. Ela patinou graciosamente até ele e pegou suas mãos e o conduziu para o meio das pessoas que ali patinavam. Ela segurou as mãos dele por tanto tempo que ele já não sabia mais onde as dele terminavam e as dela começavam. Eles patinaram por um longo tempo até John não aguentar mais. Ele não gostava do frio que sentia enquanto patinava.

– Vou me sentar ali fora, mas pode ficar patinando o quanto quiser.

Ela assentiu.

John se sentou no banco ao lado do ringue. Ele nunca tinha visto Annie tão feliz como naquele momento. Ela amava o inverno. Ela amava dezembro. Ela amava a neve. Ela amava o natal. Ela amava tudo o que ele não gostava. Mas mesmo assim ele a amava. Eram como os oposto que se atraem. Ele não acreditava nisso. Na verdade, ele já não acreditava em muitas coisas. Ele havia se tornado uma pessoa descrente. E a culpa era dela. Tudo por culpa daquela noite em 63.

Novamente, eles eram contrastantes. Ele a amava, mas ela o havia feito sofrer como nunca havia sofrido. Ela quando nova era imprudente e se sentia uma adulta, hoje era adulta e parecia uma criança. Ele se perguntava se eles estavam destinados a ficarem juntos.

Annie saiu do ringue e tirou os patins. Eles os devolveram e voltaram a caminhar lado a lado.

– Você poderia me acompanhar até meu apartamento?

– Claro.

Ela morava em um dos apartamentos do Upper East Side. Ela morava basicamente a duas quadras do apartamento dele. E ele se lembrou o porque havia escolhido aquele lugar para morar. Fora porque ela disse que um apartamento no Upper East Side era tudo que ela sempre sonhará.

Eles pararam na frente das escadarias que davam para a porta principal do prédio dela. Ela encostou-se no corrimão de ferro e o encarou. Ele estava nervoso e quando ficava nervoso, seu corpo inteiro esquentava e ele começava a suar. As palmas de suas mãos ficavam escorregadias e ele não conseguia parar quieto. Ela percebeu sua agitação.

– Nervoso ou ansioso por causa de alguma coisa?

Ele odiava ser assim tão transparente.

– Preciso te perguntar uma coisa. – As sobrancelhas dela se ergueram.

– Sempre quando se precisa pedir permissão para se fazer uma pergunta, é por que essa é uma daquelas que tem repostas tão complicadas quanto elas mesmas.

John sorriu. Annie mudará, sem duvidas.

– Você sente ou já sentiu algo por mim? – ele perguntou.

Um sorriso pintou-lhe os lábios. Ela não disse nada.

Esse mero segundo que ele esperou a resposta dela durou uma eternidade e ele se arrependeu de perguntar um milhão de vezes antes dela finalmente pegar sua mão direita e o conduzir para dentro do prédio onde vivia.

Lembre-se do tempo

Em que eu era seu e você era cega

O fogo brilhava em seus olhos

E nos meus.

True Love – Coldplay.

Notas finais
Espero que vocês tenham gostado do capitulo. E não, a história não se passa em ordem cronológica!