Tão gelado quanto sangue.

7 Com qualquer humor, com qualquer sorriso.


Notas iniciais
Capitulo de hoje inspirado na música Só Hoje do Jota Quest.

Hoje eu preciso tomar um café, ouvindo você suspirar
Me dizendo que eu sou o causador da tua insônia
Que eu faço tudo errado sempre, sempre

Só Hoje – Jota Quest

Primeiro de janeiro de 1966.

John acordou sozinho na cama em seu apartamento.

Desde que se mudará para Nova York, passava as noites de reveillon sozinho. Mas naquele ano, ele havia passado com Annie. Ele e ela agora não se desgrudavam mais. E John adorava isso.

Ele se levantou e viu que tinha um bilhete no travesseiro ao lado dele. Ele reconheceu a caligrafia de Annie. Era um bilhete curto e escrito com pressa.

John, eu fui para casa. Precisava escrever. Assim que acordar, vá para lá. Estou te esperando.

XOXO, Annie.

Ele sorriu ao ler. Atualmente, Annie não sonhava mais com o mundo da música. Ela havia aprendido do jeito mais difícil que aquele mundo era um mundo cruel. Hoje ela escrevia para uma revista de moda, mas nos tempos livres ela escrevia poesia. Suas poesias eram melhores que as matérias que ela escrevia para a revista. John gostava quando ele deitava no sofá com a cabeça no colo dela e ela lia suas poesias ou poesias de Sylvia Plath para ele. Ela amava Plath. E John amava ouvi-la declamando as poesias tão depressivas da escritora.

Ele se trocou e saiu do apartamento. Era engraçado o quanto esses últimos dias haviam sido extremamente bagunçados e reveladores.

E foram nesses dias que ele conheceu uma Annie completamente diferente. Ele gostava dessa Annie. Ele queria passar o resto da sua vida com essa Annie.

Ele chegou no prédio dela e entrou. O porteiro já o conhecia, mas não aprovava que ele ficasse tanto tempo na casa dela. John não ligava. Os tempos eram outros.

Ele subiu até o apartamento dela e tocou a campainha. Ela abriu a porta com um sorriso que poderia fazer até o coração mais gelado derreter. Era isso que ele mais gostava nessa Annie.

– Que bom que chegou! – ela disse o puxando para dentro.

John entrou e se sentou no sofá. A tv exibia imagens do Vietnã. John sentiu vontade de desligara tv. Toda vez que ele via qualquer coisa sobre a guerra, ele sentia um medo poderoso. Ele não queria ir para a guerra.

– Posso desligar? – Annie assentiu.

Ela entrou na cozinha e voltou com uma xícara de chá para ela e de café para ele.

– Acabei de receber um telefonema. – ela disse acomodando os pés embaixo da perna dele.

– E?

– Era de uma revista maior. Eles querem me contratar. – ela sorriu e John a abraçou, tomando cuidado para não derrubar café quente nela.

– Isso é ótimo, Annie.

Ela assentiu.

Ela ligou a tv novamente, mas não deixou no noticiário. Ela também não queria ouvir noticias sobre a guerra. Eles assistiam uma série de tv que nem ele e nem ela entediam bem o que acontecia, mas eles não se importavam.

Annie reclamava que não havia conseguido dormir noite passada e John apenas ria. Eles estavam em uma sintonia perfeitas nesses dias. Quando eram adolescentes, ambos tinham uma ligação forte, mas não era do jeito que estava agora.

Ela colocou a xícara vazia ao lado da dele em cima da mesinha de centro e se se encostou a ele. Ela tinha cheiro de xampu, sabonete e roupa limpa. Para ele aquele cheiro o lembrava de casa. O lembrava de quando ele ainda tinha a mãe. Quando tudo ainda era simples. E estar ali com Annie simplificava muita coisa. A vida não parecia mais um monte de problemas empilhados que nunca seriam resolvidos. Ele gostava disso. Gostava muito disso.

Ele passou a mão no cabelo dela e a beijou. Ele a amava e tinha certeza que ela o amava também. E era isso que importava. Era só o que ele queria.

– Chegou para você também? – ela perguntou.

– O que?

– O convite para o casamento de Jocelyn e Frank?

– Não sei, não chequei minha correspondência essa manhã.

John não via Frank desde que havia terminado a escola. Frank tinha seguido seu caminho para Harvard e John seguido para Nova York, estudar direito.

Ele sabia que Frank gostava muito de Jocelyn, mas não fazia idéia que iam se casar. Isso o deixou feliz e ele se perguntou se Annie casaria com ele. Ele esperava que sim.

***

Annie tirou o cabelo vermelho dele de sua cara e beijou sua testa. Eles estavam deitados na cama lado a lado. John se levantou, pegou papel e lápis e começou a desenhá-la. Ele adorava pintar, desenhar e tudo que envolvia esse tipo de arte. Mas ele nunca pode fazer uma faculdade disso, pois o pai queria que ele fosse advogado, e ele não podia decepcionar o pai.

Ela se deitou de lado e sorriu para ele.

– Espero que pegue meu melhor ângulo.

John apenas sorriu. Ela era musa perfeita dele. Ele a desenhava desde os quinze anos, mas nunca tinha feito na frente dela. Ele fazia traços leves, mas decididos no papel. Cada vez mais, ela era transportada para o papel. Seus traços suaves. Suas curvas ressaltadas. Seus olhos brilhantes. Seu sorriso arrebatador. Ma só desenho não chegava aos pés da musa. E ele sabia que nunca chegaria.

Ele terminou e virou o desenho para ela. Ela fez uma cara de quem analisa algo como um critico e depois disse:

– Você errou meu seio esquerdo.

Ele riu.

– Bom, o que posso fazer. Não sou um Leonardo Da Vinci.

Ela se levantou e o beijou nos lábios. Era um beijo simples e amoroso.

– Você deveria estudar artes.

John riu.

– E desapontar o meu pai? – ele deu de ombros. – Preciso de uma profissão que de dinheiro e não uma profissão que seja um hobbie.

Annie rodou os olhos. Para ela todos deveriam ser o que eles sonham ser e não o que a sociedade manda. Ela sonhava agora em ser poetiza, mas ela tinha o dom. John só desenhava por diversão, não era algo que ele queria fazer da vida.

– Não vou te dizer o quanto você esta errado.

Ela se largou na cama.

John se deitou ao lado dela. Os feriados de fim de ano estavam sendo os melhores da vida de John. Ele não gostava do Natal, mas ele tinha uma simpatia com o Reveillon. Ele gostava da idéia: Ano novo, tudo novo. Era como se pudesse deixar tudo que complicado no ano passado e seguir o novo ano com a consciência renovada e com novos objetivos. E ele tinha um objetivo para esse ano. Ele iria se casar com Annie. Era seria dele. Só dele.

Ela se levantou e colocou uma camisola rosa.

– Vou preparar o almoço.

Ele assentiu. Annie gostava de cozinhar, logo quando ele começou a passar algumas noites na casa dela, ele insistia pra que ela não cozinhasse para ele, mas ela se negava. Ela dizia que ela gostava do ato de preparar uma refeição e que ele não precisa provar que não a estava oprimindo e a obrigando ser uma mulher do lar. Na verdade, Annie era o oposto de uma mulher do lar e John gostava disso.

Alguns minutos depois um cheiro delicioso invadiu o quarto e John foi até a cozinha saber o que ela estava preparando para eles.

– O que está fazendo? – ele perguntou do lado de fora da cozinha.

– Não te interessa. – ela disse levantando a colher de pau na direção dele e o ameaçando com ela. – Vai descobrir quando estiver pronto.

John foi para a sala e se sentou no sofá. Annie começou a arrumar a mesa e John a observava. Ela andava descalça pelo piso frio do apartamento, mesmo naquele inverno. Ela dizia que não se importava com o frio. Ele também não.

– Venha comer, seu desocupado.

John se sentou de frente para ela e se serviu de um pouco de carne com batata e alguns legumes. Eles comeram em silencio e ele se questionou se quando casassem seria assim? Ele não queria que ela ficasse em casa lavando, passando e cozinhando para ele. Ele queria que ela trabalhasse e conquistasse o próprio dinheiro, mas ele gostava disso. Ela preparava o almoço e eles comiam juntos. Ele queria isso para seu dia a dia.

Assim que terminaram de almoçar decidiram dar uma volta no Central Park que era praticamente na frente do prédio de Annie.

Eles caminhavam de mãos dadas. Ele precisava dela como nunca havia precisado de outra garota. Ele a amava com qualquer humor, com qualquer sorriso. E era isso que ele queria para a vida toda. Exatamente daquele jeito.

Hoje preciso de você

Com qualquer humor

Com qualquer sorriso

Hoje só tua presença

Vai me deixar feliz, só hoje.

Jota Quest – Só Hoje.

Notas finais
Espero que tenham gostado! :)