Lilian saiu do trabalho com uma bela de uma dor de cabeça, voltou para casa naquela duvida crucial e percebeu que precisava dividir com alguém...Por mais que tentasse chegar a uma conclusão, nada de concreto lhe vinha. Chegou em casa e foi direto para o chuveiro, tomou uma ducha gelada, tentando por em ordem seus pensamentos mas de nada adiantou. Ao trocar-se saiu do quarto com uma decisão, contaria tudo ao irmão, precisava dividir com alguém e ninguém melhor que Augusto, que sempre esteve ao seu lado e era seu melhor amigo e irmão. Mas...Como será que o rapaz reagiria? Sabia que Augusto não tinha preconceito, mas como se tratava da própria irmã as opiniões podem mudar, não? Bom, só descobriria se tentasse, e era exatamente isso que estava disposta a fazer. Chegando na sala, sentou no sofá bem próximo ao irmão e disse séria:
— Quero conversar com você. — disse séria.

Augusto percebendo que o assunto era sério, diminuiu o volume da televisão, olhou preocupado para a irmã e perguntou:
— Tá tudo bem?
— Tá...Quer dizer, eu tô com uns problemas aí...
— André? — perguntou desconfiado.
— Envolve ele.
— Que foi que aconteceu?
— Assim...Antes de mais nada, eu quero que você saiba que isso é totalmente novo pra mim. E que...Eu nem sei o que tá acontecendo na verdade, mas eu preciso dividir isso com alguém, as coisas andam tão estanhas e...
— Lilian! Você tá conseguindo me deixar aflito.
— Não! Não fique, preciso de você calmo e compreensivo.
— Então fala, né...
— Bom...Assim, Guh, o que você faria se...
— Lilian! — pediu o rapaz angustiado.
— Calma, estou procurando palavras sutis pra descrever isso.
— Quanto mais direta você for, melhor.
— Então tá, o que você faria se estivesse se apaixonando por uma amiga.
— Apaixonando por uma amiga? Bom, eu...
— Por um amigo.
— Eu apaixonado por um amigo? Ou você...
— Não, você se apaixonando por um amigo, um homem.
— Calma Lili, não tô entendendo nada. — disse completamente confuso.
— É simples, você muito envolvido por um amigo, se sentindo especial ao lado dela, ficando todo bobo só por um sorriso...
— Apaixonado. — concluiu Augusto.
— Talvez. E aí, o que você faria?
— Por que, você tá?
— Responde a minha.
— Não, responde você.
— Talvez eu esteja...Por uma amiga.
— QUE? — perguntou sem conseguir esconder a surpresa.
— É Augusto...
— Mas...Quem? Como? Lili, eu não...A Julia?
— Caaaalma o assunto em questão era o que você faria nessa situação.
— Não Lilian, sejamos diretos, me conta esse negocio da Julia. Você tá apaixonada por ela, é isso?
— Eu...Eu não sei.
— Minha irmã, o que tá acontecendo?
— Tá tudo tão confuso, Guh. Minha cabeça só falta dar um nó, não sei o que fazer...Mesmo. — disse de cabeça baixa, escondendo a lágrima que escorria pela sua face.
— Hey minha lindinha, vem cá. — e abraçou a irmã.

Augusto abraçou a irmã firmemente, e Lilian se aconchegou nos braços do irmão por um tempo. Sentia-se segura ali, era tão bom ter o apoio de quem amava...Ainda nos braços do irmão, tentou continuar:
— Eu...Eu sempre soube que com ela era diferente... Mas não tão diferente assim, entende? Nunca imaginei que fosse assim...
— E o que foi que te fez pensar que as coisas eram diferentes? — perguntou acariciando os cabelos da irmã.
— A gente se beijou. — respondeu baixinho.
— Mas...E o André?

Pronto, a simples menção no nome de André fez Lilian sentir arrepios e desatar a chorar compulsivamente. Augusto, percebendo a angustia da irmã, levantou-se e foi buscar um copo de água para a irmã “longa noite...” pensava o rapaz abrindo a geladeira. Voltou para a sala com o copo de água nas mãos e entregou a irmã:
— Toma...Tenta se acalmar.
— Obrigada. — pegando o copo ainda de cabeça baixa.
— Heey, olha pra mim...Não fica assim. Vejo que você tá numa confusão dos diabos, mas...Não tá sozinha, eu vo tá aqui do seu lado, pro que der e vier.

Lilian sentiu o peito se acalmar enquanto tomava água, as palavras do irmão a acalmaram bastante. Entregou o copo ao rapaz com um sorriso, que logo foi correspondido. O rapaz deixou o copo na mesinha de centro e sentou ao lado da irmã, pegou nas mãos de Lilian e pediu:
— Me conta...

Lilian não se fez de rogada, contou toda a história detalhadamente. Da proximidade que vinham tendo, das situações embaraçosas em que as vezes se metia sem nem perceber e do quanto Julia mexia com ela, em atos tão simples. Augusto ouvia tudo atentamente, sem interromper a irmã, até que a garota suspirou e disse:
— E é isso...E eu tô perdida.
— Então, quando foi?
— O que? — se fazendo de desentendida.
— Ora Lili, você já me contou quase tudo, só falta me contar do beijo de vocês oras.
— Ahn...Foi no sábado.
— Lá...Lá no barzinho?
— Quando ela saiu com aquela tal de Sabrina, um tempo depois vi ela seguindo pro banheiro, fui atras dela pra pedir pra ela voltar, a Ana não tava com uma cara muito boa...
— Não só ela, né Lili.
— Eu não simpatizei com aquela ruiva. — justificou.
— Continua...
— E quando eu cheguei lá, encontrei ela aos beijos com a ruiva...Foi...Horrível. Eu...Eu tive um surto não sei do que...
— Posso chamar de ciume?
— Talvez...E saí correndo, passei pela mesa e peguei a chave do carro com uma desculpa qualquer e segui pro estacionamento com o peito rasgando. Minha vontade era de matar aquela ruiva...Aí a Julia veio atras de mim, toda preocupada e...Ela me beijou.
— E você?
— Eu fui no céu. Eu...Eu nunca me senti assim, Guh. Foi algo totalmente inexplicável.
— Huum...
— E depois fui no inferno. Poxa, tem o André nessa história toda...E sem contar que ela é mulher, nunca me imaginei apaixonada por uma mulher, isso é um tanto quanto...
— Estranho, eu sei. Mas Lili, não é o fim do mundo, pensa bem...A Julia é uma garota legal, eu gosto dela. A aceitaria como cunhada. — e sorriu.
— Augusto... — suspirou — Eu tô falando sério.
— Eu também!
— E o André?
— Lili, é simples...Já ouviu falar em termino de namoro?
— E não sei se você se deu conta, mas se passaram 5 anos desde o dia que ele veio aqui me pedir em namoro, ok?
— Mas você não ama ele! Quer o que Lilian Vasques?
— Eu não sei o que eu sinto pela Julia...
— Não tô falando da Julia, tô falando do André. Você ama o André?
— Não... — respondeu num fio de voz.
— Entããão!
— Mas não posso, nem quero magoar ele...
— Eu acho que antes de mais nada você tem que ser feliz, maninha. Não deixa de ser feliz pra agradar os outros não.
— Mas...
— Não tô falando pra você terminar, por causa da Julia. Tudo bem, ajuda muito...Mas eu tô falando pra você terminar, por causa de você. Que não tá feliz com esse namoro, isso tá bem claro.
— Eu não sei Guh, eu realmente não sei.
— Lili...Eu te conheço como ninguém. Você não acha mais fácil, terminar agora, que as coisas estão no inicio, não estão tão complicadas assim...Do que terminar, quando você tiver completamente envolvida com a Julia e o André descobrir...E ficar muito, mas é muito mesmo, puto da vida?

Lilian ficou em silêncio, sabia que o melhor a fazer era terminar com o rapaz agora. Mas o que diria? “ Desculpa, não te amo. Tchau.” Não seria algo muito agradável de se ouvir, não é mesmo? O rapaz levantou, pegou o copo que estava na mesinha de centro e pouco antes de sair em direção a cozinha disse:
— Pensa nisso...Apesar deu nem ver necessidade de pensar, né.

— Como assim, viajar? — perguntava Mari olhando fixamente para o note book.
— Assim Mari, eu pego a minha mala...Coloco minhas roupas, jogo tudo no carro e me mando. Entendeu? — e sorriu cinicamente.

Mari voltou sua atenção a Julia, deu uma risada sarcástico e disse:
— Nossa, como você é engraçada.
— Obrigada. — respondeu com o mesmo sorriso.
— Voltando...Você vai pra onde?
— Pra casa do Sérgio, aquela que a gente ia direto, lembra?
— Lembro sim...Você se encantou por lá.
— Pois é...Ele me ofereceu a casa por uma semana. E eu, que não sou besta, lógico que vou.
— Sabe o que eu acho? Que você tá fugindo da Lilian.
— Oi? Mari, só pra lembrar...Quem pediu um tempo foi ela.
— E você, bobona, vai se afastar o máximo que pode.
— Tô dando espaço pra ela. Quer que eu faça o que? Ligue pra ela todo santo perguntando o que ela resolveu fazer da vida dela? Eu não, tenho coisa mais útil pra fazer da minha vida.
— Como ficar se lamentando por não tá com ela, no fim do mundo.
— Isso não quer dizer nada, ela tá se decidindo e eu...Tirando uma folga.
— E se ela se resolver, e for atras de você?
— Ela tá tão confusa, que duvido muito que em uma semana ela se decida, sinceramente...
— Mas e se por um acaso ela ver que tá loucamente apaixonada por você e que quer ficar contigo o resto da vida dela e blá, blá, blá...
— Ela vai esperar eu voltar...Porque...Você não vai falar de jeito nenhum onde eu tô.
— Ué, por que não?
— Não quero que ela saiba, pronto cabo.
— Tem que ter um motivo, não?
— E tem, eu não quero. Preciso de um tempo pra mim...O que eu mais quero é ter ela do meu lado, mas esse “não tá certo” dela acaba comigo, sabia? É difícil ver a pessoa que você ama falar que ficar com você não é certo. Sabe-se lá por quais motivos.
— Ela tem um namorado, desculpa te lembrar.
— Mas gosta de mim! — exclamou irritada. — Eu sinto isso, ela gosta de mim.
— Julia, você é a primeira mulher com quem ela se envolve, você acha que é fácil, pra uma pessoa que tá acostumada a namorar homens, beijar menininhos, e...Etc, se ver apaixonado por uma pessoa do mesmo sexo. Acha?
— Pra mim não foi tão difícil.
— Claro, você adorava esfregar suas namoradas na cara da sua mãe. — comentou rindo.
— Era divertido a cara da velha.
— Eu lembro. — e riu. — Mas voltando a sua viagem, quando a gracinha vai?
— Amanhã no fim da tarde.
— Oi?
— É Mari, amanhã.
— E você me avisa hoje?
— Ô mãe, eu decidi hoje de manhã. — respondeu sarcástica.
— Ainda acho que você tá fugindo.
— E eu acho que você anda tomando alguma coisa a mais de manhã, além do café.

No dia seguinte...

Julia saiu de casa do finalzinho da tarde, como tinha dito a Mari. Após de muita insistência da loirinha, passou na casa dela para se despedirem rapidamente e Julia seguiu estrada. Depois de algumas horas de viagem, Julia chegou a casa do amigo que era deveras espaçosa, de fato. Percebeu algumas mudanças na sala e sorriu...Sérgio realmente era cheio de mudanças “espero que não seja assim com a mulher dele.” pensou Julia e sorriu do próprio pensamento. Assim que entrou na sala, deixou sua mala no sofá e minutos depois, percebeu uma movimentação no fundo da casa, já sabendo de quem se tratava, foi até lá em passos largos...
— Ô seu Pedro...Pensei que não tivesse ninguém aqui, não tinha ninguém lá na frente.

O velho olhou para Julia com um largo sorriso. Caminhou apressadamente até a morena e a cumprimentou com um aceno com a cabeça:
— Ô Dona Julia, a senhora me desculpa mas é que eu tava em casa, nem ouvi...
— Dona Julia? Senhora? Deixa disso homem, até parece que não me conhece. — disse pondo as mãos na cintura.
— Ê menina, dá cá um abraço nesse velho, vai. — disse Pedro estendendo os braços.

Os dois abraçaram-se fortemente, um abraço saudoso, com direito a diversos tapinhas amistosos nas costas. Afastaram-se e Pedro comentou sorridente:
— Quando o seu Sérgio ligou avisando que você vinha...Quase tive um treco! Saudade de você.
— Vejo que você não mudou nada, hein homem. Continua o mesmo exagerado de sempre.
— Não mesmo...Já você, mudou bastante hein. Tá bonitona, mais mulher, perdeu aquele jeitinho de menina...Emburrada, mas menina. — brincou Pedro.
— Perdi o jeitinho de menina mas continuo apaixonada pelo bolo de chocolate da Maria. E por falar nela, cadê?
— Tá lá dentro arrumando o quarto onde a senhora vai ficar.
— De onde você tirou esse senhora, hein Pedro? Pode tratando de esquecer, ouviu bem? — repreendeu Julia com meio sorriso.
— Continua turrona, né. Bora entrar, vai...Pelo jeito Maria ainda não te viu.

Os dois seguiram para a casa e logo avistaram Maria descendo as escadas com alguns objetos de limpeza nas mãos...Objetos esses que foram ao chão quando Maria avistou Julia. A senhora sufocou Julia num abraço apertado e carinhoso:
— Mas menina, quanto tempo, não? Quando foi a ultima vez que eu te vi? Um ano, dois?
— Dois Maria, dois anos.
— Olha isso! Como você me some por dois anos, Julia?! A gente se preocupa com você, sabia menina? Sem contar na saudade.
— Eu tô aqui Mariia! — exclamou Julia abraçando a senhora.
— Deixa disso mulher...Julia já tava falando do seu bolo de chocolate, vê se pode uma coisa dessa. — comentou Pedro brincando.
— Fizestes aquele santo bolo de chocolate, Maria?
— E não?! Até parece que não conheço você, vamo lá na cozinha que ele tá te esperando.
— Enquanto vocês se divertem na cozinha, eu levo essa mala lá pro quarto. — disse Pedro pegando a mochila de Julia.

Maria e Julia seguiram para a cozinha enquanto Pedro para o quarto. Esses era um dos motivos que Julia adorava aquele lugar. Aquele casal era sempre muito receptivo, carinhoso com ela...Maria com a sua preocupação interminável e Pedro com a sua ótima conversa, os dois sempre muito sorridentes de divertidos, eram uma excelente companhia. Pouco depois depois que sentaram a mesa, Pedro volta a cozinha e os três embarcaram numa conversa animada.

Lilian chegou em casa deveras cansada. O dia no shopping fora corrido, mas pelo menos conseguira ocupar um pouco a mente. Largou a bolsa num canto da mesa e se jogou no sofá. Precisava descansar urgente, não conseguira dormir muito bem aquela noite. Mais uma para sua coleção...Foi até o quarto e tomou um banho relaxante. Voltou para a sala e finalmente avistou um bilhete na mesinha de centro, pegou o papel e leu a seguinte frase “André ligou.”...Suspirou e amassou o papel dizendo:
— Pra todos os efeitos meu querido irmãozinho esqueceu de me entregar.

Foi até a cozinha e jogou o papelzinho fora. Preparou algo rápido para comer e ficou pensando em, nada mais nada menos que, Julia. Sua vontade era de ligar para a garota, para pelo menos poder ouvir sua voz e poder dormir em paz. Mas não, agora contato com Julia, certamente, não ajudaria em nada. Precisava resolver esse empasse logo...Queria muito ter Julia, porém, sabia que não era correto com André...Não teria coragem de terminar com o rapaz, para ter um relacionamento incerto com Julia, afinal de contas, não sabia o que morena sentia na verdade. “O que será que a Julia sente por mim?!” pensava Lilian deitada no sofá. Pegou o telefone e resolveu ligar para Julia, inventaria uma desculpa qualquer somente para ouvir a voz da amiga. Diria que...Que...Afinal, o que diria? Ficou com o telefone nas mãos esperando alguma idéia surgir-lhe a mente. Estava tão absorta em seus pensamentos que nem percebeu que o irmão tinha chegado em casa, o rapaz passou em direção a cozinha rapidamente, mas quando viu a irmã toda pensativa no sofá, parou por alguns segundos observando-a...Balançou a cabeça negativamente e disse:
— Nem adianta ligar...Ela viajou. — e foi até a cozinha.
— Ahn? Oi Guh, nem te vi entrar...

O rapaz voltou momentos depois com um copo de suco na mão, sentou-se ao lado da irmã com um sorriso. Deu um beijo na testa da garota e ligou a televisão. Lilian ainda estava um tanto confusa, olhou para o irmão e perguntou:
— Quem viajou?
— A Julia. — respondeu sem tirar os olhos da televisão.
— Quando? — perguntou com o cenho franzido.
— Hoje a tarde.
— Pra onde ela foi?
— Não sei, isso a Mari não me falou.
— Ela podia ter me avisado... — disse baixinho num misto de irritação e tristeza.
— Talvez se você tivesse ligado antes ela teria me avisado.
— E porque ela num me ligou? — perguntou irritada.
— Quem pediu pra vocês não se encontrarem mais?
— Mas ela tinha que ter me ligado.
— Ai Lili, sai daqui, você com dor de cotovelo é um porre. — disse fingindo irritação.
— Muito engraçado, Augusto. Muito engraçado. — disse sarcástica.