Typical of Love

4 Capítulo 4 - Oh, I gotta ask


Ava e Lacey já estavam dormindo, hoje era um daqueles dias em que a jovem au pair tinha sua carga estendida. Nao que gostasse muito da hora de dormir sem os pais, as gêmeas de 6 anos geralmente ficavam agitadas e às vezes rolava um momento bem estressante. Mas, finalmente elas estavam adormecidas. Terry geralmente ficava de plantão às quintas, Shannon havia enviado uma mensagem avisando que ficara presa a uma reunião de última hora. E Helena achava que não compensava reclamar, afinal, sempre era paga pelas horas extras.

Aproveitava esses momentos para adiantar o almoço do dia seguinte, dar uma organizada na área de brinquedos e, até mesmo, relaxar lendo um bom livro. Com a babá eletrônica a seu lado, tomou a liberdade de ligar bem baixo o aleatório de seu Spotify para ler Guimarães Rosa. Nunca gostara muito desse estilo literário, mas ultimamente senha falta de casa e uma bom livro a faria se sentir mais próxima de seu país.

A leitura estava fluida até a música a pegar desprevenida. Quando Stitches começou a tocar, um sorriso involuntário ameaçou surgir em seu rosto, mas logo foi repreendido. Há dois dias conhecia Shawn Mendes. E iria encontrá-lo de novo no dia seguinte, estava marcado. Helena se questionava ter a real consciência do quão surreal era tudo aquilo. Quais as possibilidade de ela ter apenas imaginado tudo isso? Não descartava estar sonhando também...

O exercício agora seria lutar contra sua imaginação fértil e seu coração viciado em comédias românticas. Talvez amanhã fosse a última vez que o veria, talvez sua agenda logo estaria cheia, talvez ele estivesse só de passagem pela cidade, talvez nem fosse nada disso do que estava pensando. Quais as chances de ele olhar para ela de outra maneira, além da simpatia por outro ser humano qualquer? Ela nem ao menos sabia se ele estava solteiro!

Era hora de espantar pensamento inoportunos de sua cabeça e só havia um liga conde poderia fazer isso: Twitter. Ressuscitou sua conta há muito parada e logo jogou o nome do cantor na busca. Várias adolescentes em surto e alguns vídeos curtos de shows saltaram a seus olhos. Conforme rolava a pesquisa, a voz do menino preenchia o ambiente, ele era realmente bom no que fazia. Alguns tweets do próprio apareciam, sem pra agradecendo aos fãs ou sobre alguma matéria em algum site/revista.

E foi entrando em intermináveis links no aplicativo que Helena acabou no perfil oficial de Shawn Mendes. Realmente, confirmou Que a maior parte de suas publicações eram sobre shows e suas músicas, às vezes até mesmo alguma provocação com, se imaginou corretamente, seus amigos. Dois tweets, logo no início, chamaram sua atenção... um era composto apenas por um gif de tomates sendo jogados contra a tela, o outro era composto por 4 versos:

I got an idea

And I know that it sounds crazy

I just wanna see ya

Oh, I gotta ask

Suspeitou ser o trecho de uma música, mas o Google negou. Resolveu ignorar a curiosidade um pouco para ver o que o site dizia sobre a vida do cantor. Talvez fosse uma atitude ansiosa e sem o menor sentido? Talvez. Mas, ela continuava sentindo como se precisasse saber mais dele antes do dia seguinte. Quando os Jeffords chegaram, Helena já sabia que Shawn tinha 21 anos, ou seja, era três anos mais novo que ela, era de fato canadense, havia começado a carreira na época dos vines, tinha uma das vozes mais envolventes do mundo e havia uma certa especulação sobre um romance com uma menina chamada Camila? Pelas suas pesquisas, ela era latina e cantora também, além de ser lindíssima!

Foi a base dessa pesquisa que ela decidiu colocar uma playlist do jovem para tocar enquanto pegava no sono. Seria um bom momento para se preparar para toda a aventura do dia seguinte. Tudo bem, seria só mais um café e ela provavelmente estaria se exaltando por nada, mas, alguém poderia culpa-la? Ao acordar, esse mesmo pensamento foi o primeiro a cruzar sua cabeça. Alguém poderia julga-la por ser tão insana?

Por sorte, as gêmeas eram rápidas se arrumando e, após o banho, era só dar café da manhã, conferir se pegaram todos os matérias, pegar seus próprios e dirigi-las para a escola. Após essa primeira parada, Helena ia direto para a aula de psicanálise que estava tomando para completar os créditos exigidos por seu intercâmbio. Com a sorte de pegar um trânsito não tão pesado, conseguiu chegar a tempo de pegar uma carteira boa ao lado de seus amigos de turma. Beth e Matthew já estavam por lá, fazendo planos para o fim de semana.

— Arthur nos disse que estava querendo ir a San Diego, você já conhece por lá? Pode ser uma boa oportunidade.

— Ainda não tive a chance de ir, mas não vou me convidar para a viagem de Arthur, Beth.

— Ah, você sabe muito bem que ele não iria reclamar... — o rubror de Helena cresceu quando as risadas se intensificaram com a chegada do assunto.

Todos na turma sabiam da paixão que Arthur nutria por Helena. Nunca fora incentivado e, por algum motivo, por mais que tentasse, ela não conseguia retribuir. O loiro era extremamente atraente e charmoso, mas era padrão americano demais para a intercambista. Além de manter uma pose bem criança para a idade.

Ela jurava que era fogo pelo novo, já que ela não era dali. Ele jurava paixão eterna. O lado positivo era a amizade recheada de piadas que conseguiram manter.

— Do que falamos, meus tesouros?

— Planos para o final de semana, já fomos atualizados dos seus. — Helena retirou a mão que ele jogou sobre seu ombro, colocando as mãos do menino sobre a mesa.

— San Diego é sempre inesquecível, chuchu. — a piscada fez com que Helena e todo o resto revirassem os olhos sem ao menos perceberem.

— Piegas, Arthur. Muito, muito mais piegas do que o necessário. — quando as risadas cessaram, ela continuou — Acho que vamos para Vegas essa semana, Mel estava vendo com Eleanor sobre, tem um show que elas querem muito ver. Possivelmente vamos acabar lá mesmo.

O professor já havia entrado e quase começava a aula quando o grupo se desfez para irem se sentar. Eram divertidas as aulas e os professores se revezavam por temas. Divertido para os interessados.

Helena nesse dia não era uma das mais atentas. Queria só que o dia passasse logo. Lembrou que não havia demarcado com Mel, teria de fazer isso mais tarde. Ou não? Ou Mel poderia, deveria ir também? Se deu até o fim da aula para pensar no assunto. Mas, na verdade, quando finalmente deu o fim da segunda hora e todos se levantaram, ela foi a primeira a sair da sala.

Ainda tinha de chegar em casa e terminar os últimos detalhes do almoço das crianças. Era sexta e as meninas tinham aula de judô, geralmente era o dia com o horário menos apertado, elas certamente ainda teriam um tempinho para brincar.

O cálculo mental que Helena fizera estava correto é, algumas horas depois, lá estavam as três brincando de imagem e ação. Ava era melhor na leitura, mas Lacey certamente tinha mais agilidade com o corpo. Era engraçado ver as criaturinhas de seis anos terem personalidades tão diferente e ainda permanecerem tão unidas. Apesar de não ser o estado de espírito hoje. A cada vez que Lacey não conseguia ler rapidamente o desafio, a irmã se irritava e uma sessão de fundamentos e choros se tornava difícil de controlar. A au pair era muito paciente, mas momentos como esses elevavam seu nível de rigidez aos céus.

No carro, Helena acertou todo mundo na cadeirinha antes de dar partida. No aparelho de som do carro, uma versão animada de Old Town Road de Kidz Bop tocava, o que era um bom escape para a discussão das meninas. Em um semáforo vermelho, Helena respirou fundo antes de deixar que a chuva e o trânsito terminassem com a pouca paciência que já não tinha:

— Escutem aqui, as duas! Já chega! A partir de agora, não quero ouvir uma palavra da boca das duas! Onde já se viu, duas irmãs que não conseguem ficar do lado uma da outra... Chega! — levantou um dedo, olhando pelo retrovisor quando as duas começaram a protestar — Quando vocês brigam, vocês me mostram que não estão prontas para seguirem a rotina sozinhas. E, se eu preciso ficar atrás de vocês igual eu fico com um bebê, eu levo as duas para a casa e ninguém faz judô hoje. Entenderam? — ambas balançaram a cabeça baixa, concordando — Ótimo!

O restante do curto caminho foi silencioso. Helena ainda podia ouvir as duas sussurrando ao fundo, mas parecia uma discussão saudável. As irmãs precisavam de uma folga para começarem a se entender sem mediação. O mau humor persistia quando elas saíram do carro e entraram para o treino. Avisou rapidamente o sensei sobre a situação, apenas para não assusta-lo com a rivalidade de hoje. Voltou para o carro tentando se cobrir da chuva, desejando desesperadamente voltar para a casa e tomar um remédio para dor de cabeça.

A possibilidade parecia tentadora. O vento e o chuvisco no parabeisa do carro deixavam a situação ainda mais tentadora. E não levou mais de 15 minutos até que ela estacionasse na rua atrás do café. Praguejando, se culpou pelo momento em que não escolheu uma bota menos escorregadia.

No caminho para a porta do café, Helena lembrou não ter mandado mensagem para Melissa. Bateu a mão contra a testa antes de tentar pegar o celular na bolsa e equilibrar o guarda-chuva que segurava. Pelo horário, daria tempo de avisar Melissa que teriam companhia, caso ela ainda quisesse aparecer, ou que a loira poderia ficar em cada hoje, então, preferiu digitar rapidamente uma mensagem a ligar, era mais fácil de a amiga ver.

Quase para entrar no estabelecimento aquecido, Helena não reparou na poça d'água formada na calçada e escorregou pelo susto que levou ao molhar sua bota, fechou os olhos, sentindo a dor da queda. Mas, o chão nunca chegou.

— Wow! — Helena segurou no braço que alcançou o seu e a impediu de cair — parece que equilíbrio não é muito seu forte.

Shawn riu um pouco da situação da menina a sua frente. P guarda-chuva bateu no vidro da fachada do café, o celular havia voado de suas mãos e o cabelo novamente caía em seu rosto, escondendo a expressão confusa e com a dor da antecipação. Divertida era a palavra que habitava seus pensamentos.

— Obrigada! De novo. Eu me distraí. — ela fechou o guarda-chuva, guardou na bolsa e ajeitou suas roupas e cabelo — É o que geralmente acontece.

— E eu achando que era a emoção em me ver.

— Rá — Helena terminou rapidamente de digitar para Mel, guardando também o celular- Vai sonhando.

— Já vi acontecer — ele dá de ombros, provocando a menina sentadas sua frente.

— Não comigo, querido. Lembre-se de que eu nem sabia quem você era. Você nem é muita coisa, assim não, pode ir baixando a bola. — ela devolveu, com um sorriso no rosto.

— Ouch, doeu. Depois dessa, vou até fazer meu pedido.

Althea correu para atender os jovens assim que o viu chamando por alguém e anotou os mesmos pedidos de sempre rapidamente.

— Sabe, eu não esperava que estrelas de Hollywood frequentaram os mesmos lugares que os mortais. — Helena se declinou na cadeira, puxando assunto com o menino.

— Primeiro, não sou uma estrela de Hollywood. Da música, sim. Rockstar? Talvez. — ela revirou os olhos com a resposta.

— Desce um pouco da nuvem, oh Rockstar.

— Segundo, — ele se inclinou sobre a mesa — Eu gosto de manter os pés no chão... E dar um pouco da minha presença aos mortais.

A resposta inesperada arrancou risada de ambos.

— Mentira. A parte de manter os pés no chão é real. Eu realmente gosto de lugares menores, intimistas e menos frequentados, como esse. É bom ter um refúgio em um canto onde eu posso deixar Shawn Mendes de lado e ser apenas um cara.

— Posso apenas imaginar.

— É. E ajuda um pouco sendo Los Angeles. Aqui todo mundo é famoso por algum motivo, então, as pequenas coisas da rotina geralmente passam batido. Como ir comprar pão na padaria, tomar um café em um canto qualquer, atravessar a rua... talvez fossem notícias em outra parte do mundo, mas aqui os paparazzi tem coisas mais importantes que caçar.

— É legal você sentir essa certa liberdade. Deve ajudar a diminuir a pressão. — alguns segundos de silêncio preencheram o ar, fazendo Helena puxar o primeiro assunto em que conseguiu pensar- Mas, então, sua rotina está tranquila, por enquanto? Sem muito trabalho pela frente?

Ele não respondeu imediatamente, observou a menina fazer uma expressão engraçada após terminar de falar. Ela pensava em como raios aquilo foi o que veio em sua mente. Assim que ficou quieta, um gigantesco e alto O QUE?! passou por seus pensamentos.

— Na verdade, vamos começar a ficar com o cronograma mais apertado daqui a algumas seman-

A porta da Beth Bakery foi aberta escandalosamente e uma Melissa fulminante passou. A amiga podia ver que ela revirou fundo no mínimo três vezes antes de entrar e se dirigir à dupla. Era só aguardar que o chilique viria mais tarde, quando elas estivessem a sós.

— Mel! Você decidiu vir! — Helena levantou a abraçou a amiga e Olivia, que estava em seu colo.

— Pois é, sua mensagem não chegou a tempo. — ela se virou para o moço, após um olhar duro para a amiga — Oi, Shawn! Invadi o encontro de vocês, mas vai ser rápido, vou pedir para a viagem.

— Não é um encontro- os dois se apressaram em dizer.

— ... ok. — Althea se aproximou trazendo os sanduíches anteriormente pedidos e anotou a encomenda de Mel.

— Como vai a garotinha? Helena comentou que ela não estava se sentindo bem. — Shawn mexia com a bebê e acabou perdendo a troca de olhares entre as garotas.

— AH, comentou? Bom, foi só um susto, a levamos ao médico e não era nada grave.

Os três continuaram a conversar sobre a pequena Olívia e suas primeiras conquistas até que o pedido da Loira chegou. Equilibrando a sacola, Melissa suspirou antes de alcançar a coragem necessária.

— Eu sei que é incômodo, mas me arrependi muito de não ter feito isso da última vez. E eu nem sei se vou te ver de novo. — Mel balbuciou enquanto discursava para Shawn — Provavelmente sim, mas quem garante? Então, eu queria saber se... se não for incomodar muito... Eu provavelmente não deveria pedir, mas... Você tira uma foto comigo?

— Melissa!

— O que? Não custa perguntar, ele ainda pode falar não!

— Claro, Melissa! Sem problemas! Vamos de selfie com a garotinha?

Helena apenas observou chocada a ousadia da amiga. Não estava esperando por isso. Eles tiraram, o que ela contou, umas quatro fotos até que os dois concordasse que ficou boa antes de ele voltar a se sentar, com um sorriso terno no rosto.

— Obrigada, mesmo, Shawn! E você, Helena, sua vez!

O rosto de Helena, que antes já estava vermelho, atingiu níveis inimagináveis de rubror.

— Eu. Não. Melissa. Não. Eu. Desculpe, Shawn. Não. Para com isso.

— Eu faço questão, vai ser divertido. — Shawn olhou para Helena como em um desafio. — A honra vai ser toda sua por ter uma foto com Shawn Mendes, o Rockstar.

A morena finalmente riu. Com a brincadeira, ele a convenceu de que seria tudo bem essa foto, sem que arrumasse o bom relacionamento que estavam tendo. Ele arrastou a cadeira para mais perto dela, às cabeças quase se encostando e sorriram para a câmera de Mel.

— Pronto. Te envio mais tarde. Beijos, se comportem e tenham um bom encontro.

— Não é um encontro. — novamente, os dois se apressaram em afirmar.

A saída de Melissa deixou um silêncio que incômodo entre eles. Shawn ria sozinho em pensar sobre quão diferentes eram as amigas. Melissa parecia ser mais extrovertida e expansiva, enquanto Helena era... essa mistura de timidez com diversão. Pareciam ser uma boa dupla.

— A garotinha parece ser adorável — ele se viu na posição de quebrar o silêncio.

— Olivia? — Helena despertou de seus próprios pensamentos — Ela é. Temperamental, mas um doce. Mel tem sorte de trabalhar com uma bebê, pelo menos ela não lida com discussões a maior parte do tempo.

— Impressão minha ou você fala por experiência?

— Mais experiência do que o necessário. Eu cuido de duas irmãs aqui, gêmeas. — ela caçou fotos em seu celular — Lacey e Ava. E hoje mesmo elas me deram uma gigantesca dor de cabeça por conta de um jogo. Quase desisti de vir hoje, elas brigaram em casa e no carro o tempo todo.

— A gente por ir embora se você não estiver se sentindo bem.

— Não! Está tudo bem, obrigada! Passou logo que cheguei, não se preocupe. Elas são bem doces, na verdade, só são... crianças, sabe?

Shawn sorriu pela maneira como ela falava das meninas.

— Sei bem. Eu e minha irmã mesmo, quando crianças, deixavamos a moça que ajudava nossa mãe doida. Brigávamos quase sempre, mas aprontavamos juntos tanto quanto.

— Deus me livre de cuidar de vocês dois. As minhas ainda são bem tranquilas. Você não tem cara de ter sido uma criança fácil.

— Hey! Você nunca ficaria entediada comigo por perto, pode ter certeza.

Os dois continuaram se provocando em um clima agradável até o celular dela tocar. Quando viu ser o número da escola de artes marciais, logo parou sentir e avisou ao acompanhante que teria de atender. A ligação não foi tranquila. Aparentemente, Lacey havia batido em uma outra criança e agora estava machucada, pois a outra havia revidado.

— Shawn, eu tenho que ir. Desculpe. — Helena chamou Althea, que veio rápido fechar a conta da menina, se entristecendo pelo fato de a moça não poder ficar. — Como eu disse, hoje as crianças não estão bem e armaram uma confusão no treino de judô.

— Espero que elas fiquem bem.

— Elas vão. Estão encrencadas e muito, mas vai ficar bem.

Desajeitadamente, ainda sem saber como se despedir, eles disseram um tchau seguido de um abraço. A pressa de Helena era tanta que Shawn nem ao menos teve tempo de tentar marcar uma próxima vez.