Naquela fatídica tarde, dois Cadillacs pretos andando lentamente, faróis brilhando no meio do dia. Um é para sua esposa, o outro para a mulher que o amava à noite. E o pastor disse que ele era um bom homem, o seu irmão disse que ele era um bom amigo, mas as duas mulheres de véus negros não se preocuparam em chorar. Elas se revezavam e jogavam uma rosa cada uma, jogaram um punhado de terra no buraco profundo, onde seu corpo permaneceria por toda a eternidade.

Há dois meses atrás, a esposa dele ligou para um número gravado no seu telefone, acontece que ele tem mentido para as duas há um bom tempo, então, elas decidiram que ele não sairia a salvo pelo que fez.

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- Olá querido – a voz doce ressoou pelo aparelho

- Quem está falando? – a voz um pouco vacilante perguntou causando choque na outra

- Eu que pergunto quem está falando? Isso é algum tipo de trote? – perguntou séria

- Espere, você sabia quem deveria estar ligando?

- Eu não sou nenhum tipo de estúpida que atende o celular sem olhar o identificador, porem acredito que houve algum engano

- Talvez não – respondeu pensativa – Apenas me responda, quem deveria estar te ligando desse numero?

- Certamente isso não é da sua conta

- Isso é mais da minha conta do que você pode imaginar, acredito que seja da sua também

- Afinal, quem está falando?

- Me chame de senhora Puckerman

A morena congelou do outro lado da linha ao ouvir aquelas palavras com tamanha frieza, uma mulher se identificando daquela maneira, ligando do celular de seu namorado, só poderia ser algum tipo de trote de muito mau gosto, mas algo dentro dela despertou uma terrível duvida a ser sanada.

- Desculpe, não entendi direito, senhora .. ? – deixou a pergunta no ar

- Entendeu perfeitamente – respondeu ainda mais fria – Puckerman

- Mãe de Noah? – perguntou com um fio de esperança traindo sua voz

- Definitivamente não – a loira respondeu e soltou o ar pesadamente de seus pulmões – Você deveria ao menos saber que a mãe de Noah está morta. Eu estive ao seu lado durante o enterro da mesma

- Ele nunca chegou a comentar muito sobre .. – sua voz estava ainda mais fraca e vacilante

- Então estamos de acordo com a situação que está acontecendo aqui?

- Não tão claramente – respondeu recuperando a confiança em sua voz

- Sou Quinn Puckerman, casada a cinco anos com Noah Puckerman, o homem que você desejou que estivesse te ligando para atender o telefone de forma tão dócil

- Casada? Com o mesmo Noah Puckerman? Apenas .. não é possível!

- Olha garota, não se faça de desentendida

- Não me chame de garota, senhora

A loira estreitou os olhos e parou por alguns segundos, sua mente trabalhando incansavelmente, seu subconsciente apelando para que ela mantivesse seu auto controle e não desligasse imediatamente na cara da menina sonsa com quem ainda falava.

- Qual o seu nome? Para que eu possa lhe chamar adequadamente

- Rachel, Berry

- Então, Rachel, a quanto tempo está saindo com ele?

- Cerca de dois anos

A informação atravessou o peito da loira como uma faca afiada, e como se girá-la fosse de certa forma uma dor reconfortante, Quinn não poderia parar, teria que saber de todos os detalhes.

- Mesmo sabendo que ele era casado?

- Eu nunca sequer suspeitei disso, ele não parece ser o tipo que age dessa maneira

- Eu costumava pensar da mesma maneira, até encontrar algo que não me pertencia em seus bolsos

- Talvez um par de brincos? – a morena perguntou recordando que os havia perdido algumas noites atrás

- De rubis, devo admitir, de muito bom gosto

- Não sei se eu deveria entender isso como um elogio

- Entenda como quiser – respondeu no mesmo tom anterior de frieza – Acontece que ele esteve nos enganando por tempo demais

- Eu não posso acreditar nisso

- Enfim – suspirou cansada – Ele estava, e isso não é algo que possa se manter impune

- Podemos nos encontrar para discutir o que quer que você tenha em mente? Um café?

- Não vejo motivos para que esse encontro aconteça

- O que tem em mente?

- Uma ideia que precisa ser amadurecida – a loira falou pensativa – Voltarei a entrar em contato assim que eu tiver uma resposta

- Espere, e se eu precisar entrar em contato?

- Você não irá precisar

- Como devo agir? Irei vê-lo essa noite

Quinn apertou os olhos e sentiu uma onda de raiva lhe invadir, cerrou um dos punhos ao se dar conta que seu marido havia mentido por tantos anos, mentiras que agora pareciam tão obvias, como naquela noite, ele simplesmente havia dito que estaria jogando cartas com os rapazes. Outras ocasiões como viagens a negócios e reuniões inesperadas passaram a fazer sentido como parte da grande mentira que aquele homem era.

- Seja natural, como se nada tivesse acontecido

- Não sei se serei capaz

- É melhor que seja

A loira desligou o celular e o atirou na cama, se virou para encarar seu reflexo no espelho, a imagem de mulher feliz e completa se esvaindo completamente de seu corpo, a dor da mentira invadindo seus músculos, sua fragilidade exposta diante de seus olhos. O homem pagaria, da forma que fosse necessária, simplesmente por ferir seu orgulho, traí-la de todas as maneiras possíveis, não apenas fisicamente, mas trair sua confiança parecia ser o suficiente para que toda sua ira despertasse.

Quinn manteve-se em seu personagem de esposa feliz e crente nas palavras do marido. Noah estava arrumado e perfumado demais, e novamente ela se questionou como não ousou desconfiar antes. Enquanto o homem saía vestindo uma fina camisa social, deu seu melhor sorriso para a esposa que o encarava enquanto dava partida em seu carro. Era talvez o ultimo momento de poder que ele poderia aproveitar.

Ela ficou acordada por toda a noite, imaginando todos os cenários possíveis, dando faces àquela que havia conversado durante a tarde, se de alguma forma ela poderia ser mais bela, talvez algo diferente poderia ter chamado a atenção de seu marido e a desviado totalmente de si. Essas questões se misturavam em sua mente, criando possibilidades, bagunçando verdades e articulando um possível plano.

Cerca de dois dias depois, ela voltou a ligar para a tal garota.

- Rachel?

- Sim, quem fala?

- Aqui é Quinn

- Oh – mostrou evidente surpresa – Eu não pensei que voltaria a ligar

- Bem, como foi algumas noites atrás?

- Como se nada houvesse acontecido

- Ótimo. Já tenho em mente um sugestão para resolvermos o problema

- Estou ouvindo

- Será de maneira lenta, e pode-se dizer que um tanto quanto dolorosa, mas assim amenizará o possível choque e não deixará vestígios evidentes

- Você realmente está dizendo o que parece?

- Eu espero não precisar ser mais clara

- É realmente necessário?

- Será feito de qualquer maneira, apenas achei respeitoso te deixar ciente disso, e lhe dar a oportunidade de participar se quiser

- Não é algo que eu faria – a morena respondeu hesitante – Mas ok, estou dentro

- Perfeito – a voz da loira possuía um tom sombrio ..

~

Foi a primeira e última vez que elas olharam, uma para outra, cara a cara. Elas compartilharam um sorriso vermelho, foram embora e deixaram o segredo no túmulo. Ele não é o único que tinha um segredo para esconder.

Notas finais
História completamente inspirada na música Two Black Cadillacs na versão de Kristen Merlin.

Espero que gostem!

MahhLeal
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!