Two Pieces

3 Capítulo 3


Era seu primeiro dia como funcionário da companhia Williamson e Darcy não sabia como definir a mistura de sentimentos que apertavam seu peito. Ao mesmo tempo que o nervosismo o corroía por dentro, também estava ansioso para poder investigar a fundo tudo o que Elisabeta havia dito. Torceu mais uma vez para que aquilo tudo fosse um grande engano da moça, pois não queria se decepcionar com o homem que era sua grande inspiração e sabia que em seu interior havia uma vontade enorme de ver a Benedito sendo obrigada a desfazer aquele sorriso triunfante do rosto e escrever em sua coluna um grande pedido de desculpas direcionado a ele e seu pai. Se olhou pela última vez no espelho, arrumando o terno perfeitamente alinhado e saiu do quarto desejando que o dia fosse tranquilo.

Ao chegar a ferrovia, Darcy se surpreendeu com a movimentação logo cedo. Estacionou seu automóvel perto de uma grande árvore e caminhou a passos lentos até a cabana que servia de escritório para o seu pai. Durante o trajeto, fingiu não perceber os olhares curiosos e desconfiados que recebia, mas tratou de retribuir todos com um aceno amigável.

Dentro do escritório, encontrou o Lorde e seu assistente Vicente analisando o projeto do curso que os trilhos fariam até a capital. Ao perceber o filho ali, Archiebald tratou de interromper o que fazia para cumprimenta-lo

— Finalmente meu menino está aqui, envolvido no que um dia será seu — Disse ele, mais para si mesmo do que para Darcy — sonho com isso desde quando você nasceu, meu filho

— Que bom que pude realizar esse seu sonho, pai. Vê-lo feliz dessa forma é muito importante para mim — O Lorde, com os olhos marejados, abraçou o filho em um dos raros momentos de afeto que tinham. Superada a surpresa inicial pela atitude dele, Darcy correspondeu da forma mais calorosa que pode, mesmo não compartilhando da mesma alegria com a situação.

— Agora vamos parar com isso porque há muito trabalho a ser feito por aqui, menino — Disse o Lorde se afastando do filho e indo em direção a sua mesa novamente. Terminado o momento, Lorde Williamson e Vicente já foram logo tratando de o deixar a par de tudo sobre a ferrovia e sobre a suas obrigações ali.

E assim Darcy passou todo o restante da manhã, distraído em meio a papéis, contratos e contas. Quando já passava do horário do almoço, o Lorde avisou que precisaria se ausentar com o assistente por algum tempo, mas que logo voltaria, pois os três teriam uma importante reunião com um cafeicultor local. Assim que Darcy se viu sozinho na construção, saiu porta a fora com o intuito de conhecer tudo por ali. Vendo como a obra já estava avançando bem e a quantidade enorme de trabalhadores que davam vida ao lugar, Darcy se animou pela primeira vez por fazer parte daquilo tudo. Passou o tempo conhecendo alguns dos homens que trabalhavam ali e descobrindo mais sobre eles, observando a paisagem do Vale e observando a rotina daquelas pessoas.

Então, ao ver um funcionário mais afastado dos demais, resolveu colocar sua curiosidade em ação e se aproximou de um senhor que trabalhava com uma enxada na mão, alheio a sua aproximação.

— Boa tarde. Desculpa atrapalhar o senhor, prometo que serei rápido no meu assunto — começou Darcy — queria tirar algumas dúvidas que tenho apenas.

— Claro, seu Darcy. O filho do patrão pode qualquer coisa aqui — Disse o senhor, retirando seu chapéu ao cumprimentar o inglês.

— Imagina, não é para tanto. O que eu gostaria de perguntar, tem a ver com as últimas notícias que saíram no jornal sobre a ferrovia. Falaram que situações bem sérias estavam acontecendo aqui e eu gostaria de saber do senhor e dos seus colegas sobre o assunto.

— Olha, seu Darcy, eu não tenho nada a ver com isso não, eu juro. Aquela moça Elisabeta, veio aqui e fez algumas perguntas, mas eu juro pro senhor que eu não falei nada pra ela — disse o senhor aflito

— Sem problema, senhor, não me importo com isso. O que gostaria de saber é se o que ela escreveu é verdade ou não? O senhor não precisa ter medo — e antes que o homem pudesse responder, Darcy ouviu seu nome sendo chamado ao longe, fazendo com que soltasse o ar que não percebeu que estava prendendo. Ao virar em direção ao som, viu quatro pessoas na porta do escritório: seu pai, Vicente, um homem moreno que observava a tudo com curiosidade e Elisabeta Benedito em pessoa.

Ao se juntar ao grupo, foi imediatamente apresentado aos recém chegados por seu pai

— Esse é Darcy, meu filho. Se juntou a nós hoje — apresentou o mais velho — e esse é Edmundo Tibúrcio, um dos mais importantes fazendeiros da região e essa.. bem.. essa é Elisabeta.

— Não preciso que me apresente, Lorde Williamson. Sou Elisabeta Benedito, a jornalista, mas isso você já sabe — Disse a moça estendendo a mão para Darcy em forma de provocação.

— E minha futura noiva — completou Tibúrcio, deixando Elisabeta levemente desconfortável com o comentário fora de hora e Darcy surpreso com a nova informação.

— Vocês já se conheciam? — perguntou o Lorde confuso, olhando de um para o outro, a expressão semelhante a de Edmundo.

— é uma longa história — disseram os dois ao mesmo tempo encerrando o assunto.

Durante a reunião em que o Lorde e Edmundo discutiam sobre a possibilidade da ferrovia transportar a produção do fazendeiro, Darcy estava entediado e Elisabeta irritada. Não queria ter ido e não podia acreditar que o noivo estava insistindo em fazer negócios com o inglês, mesmo depois de tudo o que ela havia escrito no jornal. Elisabeta teve seus pensamentos interrompidos quando a voz de Archiebald soou mais alta na sala, chamando a atenção de todos.

— Darcy, leve a adorável senhorita para um passeio lá fora. Nitidamente ela está entediada com esses nossos assuntos chatos — Disse o Lorde com um grande tom de ironia da voz.

— Obrigada, mas não é necessário. Conheci muito bem as obras quando vim entrevistar seus funcionários a respeito do que acontece aqui — Disse Elisabeta, fazendo com que o inglês desfizesse o sorriso travesso e adotasse uma expressão fechada. Mas antes que o pai pudesse responder, Darcy se levantou e com uma galentaria exagerada ofereceu o braço a Elisabeta, que recusou novamente. Mas se sentiu convencida a aceitar quando Edmundo a informou que a reunião ainda levaria algum tempo até terminar, então Elisabeta se levantou e sem aceitar o braço estendido de Darcy, saiu do escritório a passos largos.

Do lado de fora, a caminhada se iniciou de maneira silenciosa por alguns minutos, até que Elisabeta se pronunciou novamente quebrando a clima estranho entre eles.

— Espero que fique claro que apenas aceitei o convite do senhor porque já não aguentava mais ficar ali dentro — explicou ela, arrancando um sorriso debochado de Darcy — O que foi que me encara assim?

— Não precisa se explicar. Em momento algum achei que você tinha aceitado meu convite, na verdade intimação do meu pai, por outro motivo que se não esse — E a conversa seguiu silenciosa novamente, ambos mergulhados em seus próprios pensamentos. Elisabeta tentava entender porque a presença daquele homem a intimidava, talvez fosse a expressão fechada que tinha ou a imposição na voz ao falar. Tentava não se abalar com aquilo, mas estava falhando miseralvemente. Enquanto Darcy só conseguia pensar em como era estranho o fato de sentir curioso sobre aquela mulher, mesmo que ela o irritasse até mesmo pela escolha de palavras que fazia.

— Então, o senhor já conseguiu descobrir sobre as minhas mentiras, como prometeu na última vez que nos vimos? — Elisabeta olhou para ele com um ar de ironia que não conseguiu controlar, foi mais forte do que ela ao ver o quão irritado o inglês ficou com o seu comentário.

— Ainda não, cheguei na obra hoje e não tive tempo o suficiente para conversar sobre isso com os meus funcionários — admitiu Darcy a contragosto — Mas prometo que irei cumprir minha promessa em breve.

— Ah isso é uma pena, mas assim que descobrir me avise, quero ser a primeira a saber — zombou a Benedito do homem

— Sabe, Elisabeta. O que me deixa curioso é o fato de você dizer odiar o modo como meu pai comanda a companhia, mas seu noivo está agora mesmo lá dentro do escritório fechando negócio com ele — Disse Darcy esfregando a mão no queixo, fingindo pensar em algo muito complexo, deixando Elisabeta nervosa com suas insinuações.


— Edmundo está fazendo isso porque é um cabeça dura. Diz que concorda com tudo o que digo, mas precisa fazer mesmo assim pois se trata de negócios — disse ela contrariada — Eu não consigo entender e só vim até aqui porque ele insistiu muito.

— Bom, se nem seu noivo acredita na senhorita... — Disse Darcy aproveitando o momento para provocá-la, estava começando a gostar daquilo, mas o que não esperava era que Elisabeta pudesse ficar ofendida com suas palavras. A moça o olhou com a expressão mais irritada do mundo e lhe deu as costas caminhando novamente em direção a cabana enquanto proferia palavras desconexas. Darcy ainda correu atrás dela, gritando pedidos de desculpas e dizendo que havia ido longe de mais, mas a moça continuou o caminho sem olhar para trás.

Ao chegarem em casa após o trabalho, o Lorde se juntou a Camilo em uma partida de xadrez após o jantar, enquanto Darcy se retirava para descansar em seu quarto depois de um dia cansativo. Ao virar o corredor do segundo andar, encontrou Susana que logo abriu um largo sorriso ao perceber de quem se tratava e disparou a falar

— Boa noite, Darcy — saudou ela — Que alegria encontrar você justo agora, temos tanto a conversar

— Infelizmente eu não posso, Susana, estou muito cansado e já estava indo dormir — Disse se afastando da moça e caminhando até a porta de seu quarto, mas logo foi seguido por ela que enlaçou seu braço e continuou a falar

— Tudo bem, meu querido, teremos todo o tempo do mundo pra conversar. Mas antes, deixe que eu conte a novidade desta manhã — Susana ostentava um sorriso forçado no rosto que tentava a todo custo que parecesse sincero — Conversando com Julieta ao telefone, ela me deu a notícia de que logo estará retornando do Rio de Janeiro.

— Que notícia interessante, Susana.

— Sim e ela está ansiosa para chegar logo. Mas o melhor de tudo, ela pretende celebrar sua vinda e a de Camilo ao Vale do Café com um enorme baile para toda a cidade.