Two Pieces
9 Capítulo 8
Rachel estava sentada em sua cama com as costas apoiadas nos travesseiros enquanto Mia dormia pacificamente ao seu lado. Seus olhos castanhos estavam focados na página que era exibida no navegador do notebook que estava repousado em seu colo. A mandíbula estava tensa e a respiração pesada. Seus olhos passearam pela foto de Quinn acompanhada por uma mulher ruiva que daria inveja a qualquer mulher. Era alta, magra, traços impecáveis e cabelos cacheados muito bem cuidados, mas o que realmente lhe incomodava era a mão de Quinn repousada na lombar da mulher. Além das óbvias insinuações de que elas teriam tido um jantar romântico e que Quinn fora vista na casa da ruiva que na verdade era uma atriz famosa que ela se recusava a gravar o nome.
A possibilidade de Quinn ter passado a noite com aquela mulher lhe deixava extremamente irritada. Revirou todos os sites de fofoca que conseguiu achar atrás de qualquer notícia a mais, Quinn estava dando muitas entrevistas durante aquela semana que estava longe, evitava sempre as que poderiam levar o assunto até Rachel, mas era inevitável quando fotos das duas pelas ruas de New York apareciam na sua frente.
A diva da Broadway começava a ganhar notoriedade em Hollywood e o relacionamento dela com Quinn e principalmente a criança que ela esperava parecia ser o assunto que todos queriam desvendar, mas a atriz sempre saia pela tangente. E agora ela estava ali, exibindo aquela ruiva em um restaurante badalado, e pelo que todos os sites que Rachel conseguiu colocar a mão disseram, indo passar a noite na casa dela.
Estava irada. Estava enciumada. Quinn não poderia ter tido algo com aquela mulher. Elas se falavam pelo menos três vezes por dia e a loira era sempre muito atenciosa não só com Mia e Beth, mas com ela também. Sempre queria saber como ela estava, se sentia dor ou algum incômodo, se estava se alimentando direito, se precisava de alguma coisa e era sempre de um jeito doce e preocupado. Era carinhosa por todo o tempo.
Respirou fundo sentindo as lágrimas quentes encherem os seus olhos escuros, Mia se agitou ao lado da mãe.
– Calma. – Rachel fungou tirando o notebook de seu colo e pegando a menina que chorava. – Aqui meu amor.
Mia pegou o bico do peito e começou a suga-lo com fome. Esticou a mão acendendo o abajur para poder olhar a filha.
Rachel estava tão cansada, mal dormia durante as noites e durante o dia tinha sempre muitas coisas para arrumar. As roupas de Mia para lavar, fraldas para contar, mamadeiras para esterilizar e Mia nem gostava de pegar mamadeira. Leite para estocar, a casa para arrumar.
Seus pais insistiam que eles haviam tirado as férias justamente para ajudar com os dois primeiros meses da bebê, mas Rachel já não aceitava ser depende deles, era a sua casa e ela deveria poder tomar conta de tudo. Mal deixava eles trocarem uma fralda de Mia.
Brody lhe ajudava quando estava presente, a menina parecia se acalmar quase instantaneamente ao ouvir a voz do pai cantarolando para ela, era basicamente nessa hora que Rachel conseguia tomar um banho descente e pentear os cabelos.
Era tão óbvio que Quinn iria preferir a ruiva esbelta e perfeita.
*
A campainha insistente fez com que Leroy saísse correndo do quarto de hóspedes ainda de pijamas e mal conseguindo colocar o roupão.
– Quem… — Parou assim que viu quem estava do outro lado da porta. – Pelo amor de Deus são oito da manhã.
– Horário comercial. – Janet estava com um sorriso afetado, entrou sendo seguida de perto por Finn que estava carrancudo. – Onde está Rachel?
– Dormindo, caso você não se lembre ela tem uma criança de uma semana que acorda durante a madrugada para mamar. – Leroy retrucou irritado, bateu a porta a fechando. – Posso ajudar?
– Acorde-a. – Janet se sentou no sofá e moveu as mãos para que Finn também se sentasse. – Temos assuntos importantes a tratar.
– Não vou acordar minha filha…
– Tudo bem papai. – Rachel apareceu na sala segurando Mia nos braços. – A barulheira acordou a Mia.
– Querida. – Leroy se adiantou para pegar a neta. – Quer que eu tente coloca-la para dormir?
– Provavelmente ela vai querer mamar. – Rachel franziu as sobrancelhas sem entregar a menina. – Pode dormir, vamos ficar bem.
Leroy hesitou com os braços ainda estendidos, os abaixou e acenou com a cabeça.
– Vou fazer um café. – Falou lentamente, olhou para a filha com mais atenção antes de acenar com a cabeça e se afastar.
Janet encarou a diva arqueando uma de suas sobrancelhas bem desenhadas, examinou Rachel de cima a baixo.
– Você gostaria de um tempo para se arrumar? – Comentou segurando o riso. – Em todos esses anos como a sua agente eu nunca te vi tão maltrapilha.
Rachel desviou os olhos para Mia que lhe encarava com os olhos azuis brilhantes, ela parecia perguntar o porque de ter sido acordada de sua soneca e quando iria receber um pouco de comida.
– Talvez pentear os cabelos… — Janet continuou.
– Janet. – Rachel ergueu o rosto a calando. – O que você quer? Acho que fui bem clara quando disse que tiraria algum tempo do teatro para poder estar com a Mia.
– Infelizmente, você está extremamente na mídia e o meu celular não tem parado de tocar. – Janet continuou com o tom leve. – E eu agradeço por não ter um paparazzi aqui agora, mas vá se arrumar para tirarmos algumas fotos de família.
– Perdão? – Rachel começava a perder a pouca calma que tinha, seus olhos estavam queimando pela falta de descanso e pelas lágrimas derrubadas.
– Eu vou reconhecer você e a criança. – Finn estava com o braço esticado sobre o encosto do sofá e uma perna apoiada sobre a outra. – É só dar entrada na papelada, não precisamos fazer o exame.
– Exatamente. – Janet sorriu para ele. – Conversei com o Finn e o fiz entender que era o melhor.
– O melhor? – Rachel comentou se sentando em uma poltrona, ninava Mia.
– É claro, para a sua carreira e para a menina. – Janet assumiu um tom calmo. – Temos que ser objetivos, não podemos deixar que tenha existido uma dúvida na paternidade desta linda menina. E por mais que eu odeie falar isso… o fato da Fabray se recusar a falar em você tem sido excelente para nós. Recebi sondagens para testes em LA, todos querem uma entrevista com a diva da Broadway que prendeu a atenção da nova queridinha da America e estão loucos para enterrar os dentes nos detalhes mais suculentos. Logo irão desenterrar o noivado que você e o belo empresário sentado aqui neste sofá tiveram na adolescência e o namoro que tiveram depois.
– Janet… — Rachel a interrompeu outra vez. – Me deixe ver se eu entendi bem… você quer que eu e o Finn tenhamos um relacionamento para a mídia?
– Não, de maneira alguma. – A mulher arregalou os olhos. – Quero que vocês voltem a ter o saudável relacionamento que sempre tiveram e o senhor Hudson aqui já concordou com alguns termos que eu estabeleci e é só você concordar e eu trarei o contrato.
– Contrato? – Rachel deu um pequeno sorriso. – Você fala dos proclamas do casamento?
– Não, falo da porcentagem que eu acertei com ele sobre os lucros que toda esta exposição pode nos gerar.
– Então… é um relacionamento para a mídia. – Rachel olhou para a filha que estava quase dormindo.
– Claro que não, um casal pode firmar certos contratos entre si e permanecer tão apaixonado quanto sempre esteve.
– Mas ai você presume que eu estou apaixonada por ele. – Rachel alisou os cabelos de Mia que estavam arrepiados.
– Janet. – Finn a chamou e acenou com a cabeça. – Nos de licença, por favor.
A mulher suspirou antes de se levantar e ir até a cozinha.
Finn esfregou as mãos juntas antes de suspirar, olhou para a criança no colo de Rachel e depois para ela.
– Você está bem? – Perguntou com um tom de voz calmo.
– Sim, estou.
– Ela… ela está bem? – Perguntou tentando manter o tom de voz calmo.
– Está perfeita. – Rachel continuou o olhando.
Finn continuou calado olhando para ela.
– Eu sempre imaginei você assim… segurando um bebê. – Comentou com um sorriso. – Mas você estava um pouco mais bem arrumada.
Rachel inclinou a cabeça para o lado.
– Bem… me desculpe se eu não sou uma super-mulher. – A morena comentou acidamente. – Não posso cuidar de uma criança durante todo o tempo, cuidar da casa e todo o resto e ainda estar arrumada como se fosse para uma festa.
– Eu não quis dizer isso. – Ele tentou remediar a situação.
– O que você quis ou não quis dizer já não me interessa. – Rachel atirou para ele, sentiu Mia se agitar em seus braços e prontamente olhou para a filha. – Já não me interessa nada em você.
– Rachel! – Finn exclamou chocado. – Eu estou aqui dizendo que aceito o seu erro e que te dou uma segunda chance e é assim que você me responde?
– Meu erro? – A morena estreitou os olhos. — Meu erro? Você estava dormindo com a sua secretária! – Gritou irritada, ouviu o choro de Mia, mas não abaixou o volume. – Você estava trepando com ela no escritório e quer falar do meu erro?! Eu não cometi um erro Finn Hudson, eu fiz o melhor acerto da minha vida.
Leroy entrou apressado na sala seguido de perto por Janet, Hiram correu para fora do quarto.
– O que está acontecendo aqui? – Leroy olhou de um para outro.
Hiram se adiantou e arrancou Mia dos braços de Rachel quase a força e se pôs a acalmar a neta.
– Rachel, os ouvidos dela são sensíveis. – Hiram ralhou com a filha. – Não pode ficar gritando com ela no colo.
– Tire esses dois daqui. – Rachel rosnou apontando para os dois. – Janet pode considerar o nosso contrato quebrado, eu não quero ver a sua cara nunca mais na minha frente.
– Hey! – Janet a olhou completamente ofendida. – Eu estou tentando cuidar da sua carreira aqui.
– Não, não está tentando cuidar de nada. – Rachel resmungou, se levantou colocando as mãos nos quadris. – Eu não vou me casar com o Finn e ele não vai reconhecer a minha filha se não for filha dele. O exame com o Brody sai no mês que vem e se der negativo, o que eu duvido muito, então você pode registra-la, mas eu não vou me casar com você. Nosso contato será exclusivamente para tratar os assuntos referentes a Mia.
– Mas eu te amo…
– Ama porcaria nenhuma. – A pequena rosnou. – Se me amasse mesmo iria me respeitar, iria me ouvir, não ficaria me criticando o tempo todo, não tentaria forçar as suas vontades sobre as minhas e sim tentar arranjar um jeito de conciliar as duas.
– Você acha que ele te ama? – Ele se ergueu demonstrando toda a sua altura, tinha perdido a falsa calma. – Acha que aquele dançarinozinho medíocre pode te sustentar? Acha que ele está a sua altura? Você sabe tão bem quanto eu que você só foi pra cama com ele porque estava de ego ferido, por que outra mulher me deu aquilo que você já não me dava a meses!
– Pelo amor de Deus, se calem. – Leroy gritou assim que Hiram foi para o quarto com Mia. – Os dois estão se desrespeitando ao extremo.
Finn passou os dedos pelos cabelos completamente frustrado, seu rosto estava vermelho e suas narinas dilatadas. Rachel se aproximou do moreno ignorando a mão de seu pai que lhe segurava o braço.
– Pela última vez entenda… — Falou com a voz extremamente controlada. – Não quero que ele me ame. Não quero que ele me sustente. Não quero alguém que tenha que estar a minha altura. Meu relacionamento com o Brody se resume a Mia e sempre sera assim e não é por nenhum dos motivos que você perguntou.
– Então é por ela?
– É por mim.
– Vai negar que o interesse dela não te balançou? – Perguntou irônico. – Você finalmente conseguiu! Você finalmente conseguiu que Quinn Fabray notasse você.
– Exatamente. – Rachel deu um sorriso singelo. – Será que não te soa estranho que desde o colégio uma das coisas que eu mais queria era que Quinn Fabray me notasse?
Finn deixou a expressão irônica ser substituída por uma fechada.
– O que você quer dizer com isso? – A voz dele saiu baixa e irritada.
– Para bom entendedor meia palavra basta, mas como você nunca foi conhecido pela sua inteligência… — Rachel comentou com um pouco de descaso.
– Inteligência pode realmente não ser o meu forte, mas… não sou eu que estou nas capas de revistas com uma ruiva muito gostosa nos braços. – Finn a interrompeu revidando.
A força do tapa fez o rosto de Finn virar para o lado, Leroy puxou a filha contra o seu corpo e entrou no meio dos dois quando Finn fez menção de avançar.
– Eu disse chega. – Olhou de um para o outro. – Vocês já não são mais crianças. O relacionamento acabou então agora parem com esse desrespeito.
– Quer saber? – Finn estufou o peito cheio de orgulho. – Que se foda. Que se foda você. Que se foda essa criança. Que se foda a Fabray. Que se foda o Weston. Eu to fora daqui e que a mídia descubra toda essa merda.
Finn deu as costas e saiu pisando forte quase arrebentou a porta com a força com a qual a abriu e a fechou.
– Rachel você acabou de jogar a tua melhor chance…
– Cale a boca e saia da minha casa! – Rachel gritou apontando para a porta. – Se entenda com o meu advogado.
– Está me demitindo?
– Alguém me entendeu finalmente. – Ergueu os braços.
– Ótimo. – Janet reuniu suas coisas e saiu praguejando sobre como Rachel acabaria mal.
*
Agarrou o celular batendo a porta do quarto, deixaria Mia com os pais por um tempo. Pouco se importava se só era um pouco depois das cinco da manhã em L.A. a loira teria que lhe atender.
Esperou a ligação até cair, ligou outra vez.
– Alô?
– Onde você está? – Rosnou fechando as mãos em punhos.
– Rach? Aconteceu algo? As meninas estão bem? – Quinn parecia mais desperta.
– Onde você está? – Rachel repetiu a pergunta.
– Estou em casa. – A loira respondeu sem entender. – Onde mais eu estaria a essa hora? São cinco e meia da manhã.
– Na casa da vagabunda. – Rosnou socando o ar.
– Que vagabunda? Enlouqueceu?
– A vagabunda que você saiu ontem! – Gritou fora de controle.
– Rachel controle o tom de voz. – Quinn falou irritada. – Você está maluca ou o que? Você me liga a essa hora da manhã me acusando desse jeito?
– Então me diga onde você está!
– Estou em casa. – Quinn repetiu frustrada. – Rachel, querida…
– Não me chame de “querida”. – Sua voz baixou drasticamente a deixando ainda mais irritada. – Não use esse tom de voz comigo.
– Puta que…
– Não xingue. – Ralhou se sentando na cama, fechou os olhos sentindo as lágrimas quentes, falou em um tom de voz mais baixo e calmo. – Você dormiu com ela?
– Não, eu não dormi com ninguém. – Quinn respondeu irritada. – Eu não durmo com alguém há quase um ano.
Rachel respirou fundo, com a mão livre apertou a beirada da cama com força.
– Rachel…– Quinn parou como se estivesse respirando fundo. – O que aconteceu? Ontem estava tudo normal. Eu te liguei antes de ir dormir, me diz como que eu teria dormido com alguém?
Rachel fungou tentando controlar o choro.
– Rach… não chora, por favor. – Quinn murmurou. – Me diz qual é o problema?
– Eu vi as manchetes. – Rachel cuspiu raivosa. – Não minta pra mim. Não minta Fabray.
– Manchetes? – Ouviu o tom raivoso da loira. – Você está falando sério? Você vai acreditar no que aquela corja de usurpadores falam?
– Tenho que desligar. – Rachel sussurrou. – Mia está chorando.
– Não desligue, não me acuse de algo baseado no que você leu em revistas de fofoca e nem ao menos me de a chance de defesa. – Quinn reclamou irritada.
– Não quero mais conversar.
– Não estamos conversando! Você me acusou.
– Eu perguntei.
– E só a pergunta já foi uma acusação Rachel! – Quinn elevou o tom de voz. – Você tem que confiar em mim.
– Chega Quinn. – Rachel fungou outra vez. – Nos falamos depois, tenho que ver a Mia.
Ouviu o suspiro da loira.
– Ok, terminamos essa conversa depois.
Desligou sem dizer mais nada, o choro veio forte ao ponto do seu corpo se sacudir.
Leroy estava parado do lado de fora do quarto pensando se deveria entrar ou não, assim que ouviu os soluços da filha soube o que deveria fazer. Entrou no quarto apenas para encontrar a mulher encolhida no chão chorando descontroladamente.
– Filha. – Murmurou correndo para ela, a abraçou como pode. – Calma… calma meu amor… vai ficar tudo bem.
Começou a acalentar a mulher acariciando suas costas, Hiram parou na porta com Mia em seus braços. A menina sugava uma mamadeira que ele havia preparado com o leite que Rachel estocava.
Algo estava errado. Algo estava muito errado com a sua estrelinha.
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