Two Pieces
19 Capítulo 18
Rachel se sentou em um banco do Central Park, apoiou os cotovelos sobre os joelhos e prontamente afundou a cabeça entre as mãos. Respirou fundo algumas vezes tentando controlar o choro.
– Boa tarde, moça. – A voz amável soou ao lado dela.
Rachel ergueu a cabeça tentando limpar o rosto disfarçadamente. Um senhor baixo e gorducho estava parado ao seu lado, o paletó cinza com uma camisa branca bem passada e uma gravata combinando. O senhor cultivava um belo bigode branco e segurava em sua mão um chapéu como era usado antigamente.
– Posso? – Ele indicou o lado de Rachel.
A mulher acenou com a cabeça abaixando os olhos em seguida para que ele não os visse.
– Ah minha jovem. – O homem suspirou tirando um saco de plástico de dentro do bolso do paletó. – Espero não lhe incomodar, mas faço a mesma coisa todos os dias desde que era mais moço que você.
Rachel segurou o suspiro, não tinha paciência para ouvir aquele senhor naquele momento. Permaneceu parada olhando para o chão.
– Sabe… conheci o amor da minha vida quando estava na escola. – O homem começou a jogar migalhas para os pombos. – Não estudávamos juntos, naquela época garotos e garotas não estudavam juntos. Não, morávamos na mesma rua sabe? Eu ficava sempre à tardinha sentado nas escadas do prédio esperando por ela passar e quando passava eu me oferecia para carregar qualquer coisa que ela precisasse.
Rachel franziu as sobrancelhas antes de olhar para o homem.
– E então veio a guerra e eu fui para o front de batalha. Na noite em que parti confessei a ela meus sentimentos e ela ficou em silêncio. Não disse uma palavra. Fiquei arrasado. – Soltou uma risada curta. – Me casei na França com uma enfermeira que cuidou do meu pelotão, foi um casamento feliz, mas nunca esqueci a minha Nancy. Tive meus filhos, os criei, os vi sair de casa, se casar, me dar netos e então fiquei viúvo. Voltei para New York e estava sentado justamente nesse banco quando eu a vi outra vez. – Sorriu olhando para o banco que estava do outro lado. – Ela estava sentada ali, lendo um romance muito compenetrada. Durante dias eu me sentei aqui e ela ali, não nos falávamos, não trocávamos olhares.
O homem parou olhando para os pombos, jogou mais alguns pedaços de pão para eles.
– Um dia eu cheguei aqui e ela não estava. E nem no dia seguinte e nem no depois daquele. Ela sumiu e eu não sabia o porquê, um belo dia abri o jornal e lá estava o obituário dela. – O homem suspirou amassando o saco de papel vazio. – E mesmo assim eu venho aqui todos os dias na esperança de vê-la. Eu tive oportunidades de falar com ela outra vez, mas não consegui. Achei que olhar para ela bastaria, um acordo mútuo entre nós de que cada um ficaria no seu canto, mas não foi o suficiente.
O homem suspirou antes de olhar para Rachel e sorrir.
– Eu não me arrependo da minha vida, mas me arrependo de ter deixado essas oportunidades, de ter tido uma vida plena, passarem e eu não tê-las agarrado. Não digo que… teríamos nos casado, ter tido uma história tórrida de amor como as dos jovens, mas… eu gostaria de ter tido a coragem de deixar meu orgulho ferido, mesmo após anos, de lado e ter ido falar com ela. Ter tomado um café. Perguntado para onde a vida tinha a levado.
Rachel aprumou os ombros olhando para ele, o homem sorriu para ela mais uma vez.
– Não importa por que a senhorita chorava, não deixe que isso te abata e te faça perder as pequenas coisas, são elas que importam no final das contas. – O homem suspirou e se levantou, girou o chapéu entre as duas mãos. – Sabe… o amor te encontra, mas nem sempre estamos preparados para ele.
O homem colocou o chapéu tocando a aba com a ponta dos dedos e começou a se afastar assobiando algo.
– E senhorita Berry… — Ele parou se virando para ela. – Eu amo a sua voz, não pare de cantar.
Rachel arqueou as sobrancelhas quando ele piscou e voltou a andar.
– Rachel. – A morena piscou olhando para frente, Quinn se aproximava.
A morena se levantou rapidamente se agarrando em Quinn, a loira se assustou com a força com a qual a morena se chocou ao seu corpo.
– Shhh… estou aqui. – Sussurrou acariciando os cabelos escuros. – Estou aqui Rach…
– Como sabia onde me encontrar? – Rachel sussurrou.
– Não sei, simplesmente sabia… — Quinn sussurrou antes de sorrir. – Parece que todos os meus caminhos sempre me levam a você.
*
Rachel limpou os lábios antes de retornar o guardanapo para o colo. Estava tomando café em família como era costume, seus pais iriam embora no dia seguinte e era o momento de dar a notícia.
– Hnnn… Beth por que você não vai brincar no quarto da Mia? – Rachel sugeriu sorrindo para a menina.
Beth enfiou o que restava de suas panquecas na boca e saiu correndo, Rachel sorriu antes de encarar os pais.
– Eu conheço esse olhar. – LeRoy arqueou a sobrancelha.
– É… — Rachel suspirou. – Preciso contar algo.
Quinn deslizou a mão para a coxa da morena dando um aperto suave.
– Há alguns dias eu senti… — Rachel olhou para Quinn. – Bem… senti um caroço no meu seio.
Hiram e LeRoy trocaram um olhar enquanto Shelby permaneceu estática.
– Caroço? – Hiram perguntou.
– Sim. – Rachel sentiu o aperto na coxa. – Fui na médica achando que poderia ser leite empedrado e ela me pediu alguns exames.
Hiram suspirou fechando os olhos enquanto LeRoy negava com a cabeça.
– Os resultados chegaram e eu levei a médica. – Rachel suspirou sentindo os olhos se encherem de lágrimas. – Estou com câncer.
LeRoy precisou abraçar Hiram com força enquanto Shelby se levantava.
– É minha culpa. – Sussurrou fechando os olhos. – Me desculpe.
Quinn manteve Rachel sentada quando a Berry fez menção de sair atrás da mãe.
– Deixa comigo. – Sussurrou a beijando nos cabelos. – Fique com seus pais.
Quinn saiu em busca de Shelby, a Corcoran havia se refugiado no quarto da filha mais velha.
– É minha culpa. – Repetiu quando Quinn fechou a porta.
– Não, não é.
– É sim. – A Corcoran mordeu o lábio. – Eu sabia que meu câncer era hereditário, mas nunca acreditei que ela teria.
– Shelby. – Quinn se ajoelhou na frente da mulher. – Não faz isso.
– Os médicos não me falaram na época, descobri anos depois. – A mulher negou com a cabeça, apertava as mãos uma na outra. – Rachel já deveria ter uns 5 anos, me recusei a acreditar que ela poderia ter herdado algo de mim. Ela era filha do Hiram e do LeRoy.
– Ela herdou muitas coisas e você. – Quinn segurou as mãos da mulher. – Olha pra mim. Shelby olha pra mim. – Falou firme atraindo a atenção da mulher. – Aconteceu, não é culpa de ninguém. Agora temos que enfrentar isso e vamos vencer isso. Ela precisa de você Shelby, agora mais do que nunca, ela precisa da mãe dela.
– Não sei se consigo por isso de novo.
– Vai ter que passar. – Quinn endureceu a voz. – Você não vai abandona-la de novo. Shelby ela precisa de você, não apenas por causa de Mia, mas porque ela vai precisar da mãe. Vai precisar de colo e de conselhos de alguém que já passou e já venceu isso.
Shelby concordou com a cabeça antes de se jogar para frente abraçando Quinn com força.
– Não posso perder minha menina.
– Não vamos perde-la. – Quinn acariciou os cabelos escuros da mulher.
*
Brody apoiou as mãos no berço de Mia, observava a filha dormir pacificamente. Tinha acabado de conversar com Rachel sobre o resultado dos exames, Hiram e LeRoy estavam trancados no quarto e Shelby e Quinn levaram Beth para passear e poderem conversar com a menina sobre o problema da irmã mais velha.
Sentiu Rachel acariciar suas costas com as duas mãos antes de abraça-lo pela cintura.
– Seus pais?
– Ainda estão trancados no quarto, papai não falou muito desde o café. – Rachel murmurou apoiando o rosto contra as costas dele podendo ouvir o batimento ritmado do coração.
– Não se preocupe, foi o choque. – Segurou o braço de Rachel o acariciando com o polegar. – Olha como ela é linda.
Rachel suspirou se apertando nele com cuidado.
– Ontem eu… ouvi de um senhor algumas coisas. – Apoiou a testa contra a linha da coluna dele. – Sobre oportunidades que deixamos passar. E eu não quero deixar passar nada.
Brody virou o pescoço para o lado para que Rachel olha-se o perfil de seu rosto.
– Quero que Mia tenha uma família. – Rachel sussurrou.
– Ela tem uma família. – Brody se moveu para olhar Rachel de frente.
– Quero que você esteja ao lado dela todo o tempo.
– E eu estou e estarei. – O homem afirmou sem entender.
– Fique comigo. – Rachel sussurrou.
– Eu não vou sair do seu lado. – Ele sussurrou de volta.
A morena se encaixou nos braços dele sentindo o queixo barbeado se apoiar no topo de sua cabeça.
*
Beth olhava os patos enquanto segurava seu chocolate quente, estava sentada entre suas mães.
– Não pode colocar um bandaid? – Olhou para Shelby.
– Não querida. – Shelby respondeu antes de acariciar o queixo de Beth. – É um pouco mais complicado que um corte.
– E como vai sarar? – Olhou para Quinn.
As duas mulheres trocaram um olhar antes da Fabray suspirar e sentar de lado no banco para poder olhar a filha.
– Rachel vai passar por muitos tratamentos para poder ficar boa. – Explicou com calma. – Ela vai precisar tirar o seio que esta dodói e tomar muitos remédios.
– Depois vai colocar de novo? – Beth franziu as sobrancelhas claras. – Onde Mia vai comer?
– Mia vai tomar leite que vende em supermercado, um leite especial para bebês que a mamãe não pode alimentar. – Quinn explicou antes de trocar um olhar com Shelby. – Você tomou esse leite especial.
– Leite especial para crianças especiais. – A menina concordou com a cabeça.
– Exatamente. – Quinn sorriu. – E depois quando estiver melhor a Rachel vai ganhar um seio novo.
– Do Papai Noel? – A menina perguntou antes de tomar um gole do chocolate.
– Hnnn… algo assim. – Quinn sorriu para a filha. – O que importa é que ela vai precisar de muito carinho e amor agora. E a Mia também, acha que consegue ajudar?
Beth acenou com a cabeça repetidas vezes antes de olhar para Shelby que fitava os patos parecendo estar em outro mundo.
– Mamãe Shelby a Rachel vai ficar boa. – Sorriu para a mãe.
Shelby olhou para a pequena e sorriu antes de aconchega-la em seu corpo.
– Ela vai sim meu amor.
Quinn suspirou tomando um gole de seu chá, fechou os olhos por um momento antes de abri-los e olhar para o lado. Um senhor a fitava curiosamente, seu bigode vasto e chapéu que combinava com o paletó. Ele sorriu e piscou um dos olhos enquanto se aproximava estendeu para ela uma rosa branca.
– Fique em paz. – O senhor sorriu antes de acariciar os cabelos de Beth. – Os espinhos fazem parte, é a dificuldade que encontramos para alcançar o que desejamos. Tenham uma boa tarde.
Quinn olhou para Shelby com as sobrancelhas franzidas a Corcoran devolveu o mesmo olhar.
– Mamãe, a senhora se machucou. – Beth comentou.
Quinn olhou para baixo, não havia notado que tinha furado o dedo uma das pétalas da rosa se tingiu com o vermelho rubro de seu sangue, levou o dedo a boca o sugando. Como se machucara sem sentir?
Quinn olhou na direção que o homem havia ido, mas não o encontrou.
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