Cap. 19

Eu poderia ter saído de preto.Poderia ter ficado triste pata sempre e nunca me recuperar. Não superar ela e não ir para a sempre. Podia sair toda descabelada e não me arrumar mais. Parar de ser quem eu era antes. Virar outra pessoa. Eu podia desligar meus sentimentos. Eu podia fazer de tudo. Podia viver no passado e me prender no que aconteceu com ela, nas minhas dores e não em tentar ser feliz de novo.

Mais é claro que quando eu tento ser feliz de novo alguém vai vir e criticar, porque eu não posso ter uma vida sem que os outros se metam no meio para estragar, quando eu acho que vou ter um momento, sôo um mesmo, de felicidade, alguém vai la e estraga.

E as pessoas nem sabem que o que elas falam tem poder, as palavras tem poder. Poder de machucar os outros, de fazer eles sentirem dores que nunca sentiram, dores muito fortes. Palavras podem machucar mais que ações, porque elas podem facilmente tocar uma parte de você que você não gosta de mexer. Mas palavras também podem alegar, das felicidade, levar alegria a pessoas que nem imaginavam que podia sentir isso.

Bom, no meu caso, trouxe dor. Eu simplesmente odeio quando me chamam de princesa, quando falam que eu sou rica ou algo assim. Eu sei, como se eu não ajudasse muito saindo por ai de vestido e salto, rindo com minha amiga como se eu não tivesse problemas na vida, mais o que faz Sean pensar que poderia falar comigo daquele jeito? Ele nem me conhece e fala de mim como se me conhecesse há anos, soubesse de toda a minha vida e tivesse o direito de falar de mim. Na verdade, nem se ele me conhecesse ele teria o direito de falar essas coisas na minha cara.

Será que sair correndo de la fez ele pensar ainda mais que eu sou mimada? Que não posso ouvir nem uma verdade e já fico chateada e saio correndo? Mas também ele não sabe por que eu fiz isso, ele não sabe da minha vida e não sabe sobre o que ele estava falando.

Ninguém sabe das coisas que eu passei para me julgar, e eu não posso, NÃO POSSO, ficar chateada por alguma coisa pequena assim. Simplesmente um idiota, falando sobre coisas que ele não sabe no meio da rua, ofendendo pessoas que provavelmente ele nunca ira ver de novo. Tentando chatear alguém que ele não conhece.

Eu chego em casa e corro para o meu quarto. Me jogo na cama. Eu não vou ficar abalada simplesmente por causa disso, não posso, simplesmente não posso me deixar abalar por coisas tão pequenas.

Desde a morte dela eu tenho chorado por coisas tão pequenas, ficado abalada por nada, chateada por coisinhas que não me fariam mal antes, coisas que passariam despercebidas antigamente.

As vezes eu penso em antigamente e sinto saudade. Saudade de como as coisas eram, quase fáceis, de como tudo vinha. De como minhas maiores preocupações eram minhas notas e como fazer meu pai me perceber.

Eu não posso mais ficar aqui. Eu não posso deixar meus pais se decidiram, eu tenho que sair daqui rápido, arrumar os nomes rápido, eu tenho que ter algo para fazer de verdade, ter algo em minhas mãos que poderá realmente mudar alguma coisa. Ajudar as pessoas, salvar minha família, assim eu poderei me sentir livre, poderei ser livre para ser feliz, não importa onde, não importa como, eu serei feliz, finalmente, sem esse pese, sem o peso de saber que alguém morreu por mim, por uma causa que não foi resolvida e que eu não estou nem, no mínimo, me esforçando para resolver.

Eu tenho que sair daqui.

Agora.

Amanha.

Se eu ficar muito mais não vou agüentar,vou largar o que eu realmente quero, meu objetivo, não vou fazer o que eu tenho que fazer, e poderei estar pondo todos que eu amo em perigo, e isso não pode acontecer, eu não posso machucar eles de novo.

Eu lembro da expressão de dor deles quando me virão toda machucada,eles não queriam que nada disso acontecesse, e eu sei que se eles estivessem la, teriam lutado com Lu até o final para me salvar.

Teriam morrido para deixar eu sair de la como ela fez.

E eu não estou ajudando, estou parada sem fazer nada, colocando a vida de todos em risco. Eles precisam de mim e eu quero ajudar.

Sim, pode parecer que eu estou bancando a heroína, querendo salvar todos de algo que eu não posso mexer, que eu estou fazendo isso por impulso e até que tudo que eu quero é um titulo. Posso parecer boba falando que vou salvar eles de alguém que provavelmente não vai cobrar nada.

Mas mesmo assim não posso simplesmente ficar calada e parada enquanto algo pode acontecer.

Porque se algo acontecer e eu não tiver feito nada porque achei que não aconteceria.. Bem, eu vou me culpar para o resto da vida, e eu terei um por que. Não posso deixar outra pessoa morrer por mim. Não posso.

Começo a chorar, ouço minha porta se abrindo.

“Filha?” Pergunta meu pai, posso saber que é ele pela voz.

“Pai me tira daqui. Por favor, me tira dessa cidade.” Eu falo e choro. Eu sei que isso é totalmente errado, e me dói falar isso, toda vez que eu minto para meus pais dói em mim pois eu sei que é muito errado, que eu não podia estar fazendo. É como um facada em meu coração, e faz eu querer gritar que é mentira.

“Filha? O que aconteceu? Esta tudo bem?” Ele anda até minha cama e se senta do meu lado, sinto as mãos dele no meu cabelo, mexendo em minha cabeça. “Você esta bem?” Ele pergunta novamente, posso ouvir a preocupação na voz dele, não preciso olhar para o rosto dele para saber que ele esta muito preocupado. E isso me faz desistir. Eu sento na cama e limpo minhas lagrimas.

“Sim pai, foi só... Uma crise, eu posso lidar com isso” Eu respondo, posso ver o cérebro dele tentando resolver isso, ao invés de falar algo ele simplesmente me abraça, e isso basta.

Basta para mim, para não mentir mais, não posso apreçar ele. Por mais que eu queira ajudar, que eu não queira eles em perigos, que eu queira salvar eles, eu não posso mentir para o meu PA, e também não posso contar a ele toda a verdade que ele precisa de saber, porque isso o faria achar que eu sou doida, ou simplesmente nunca deixaria eu voltar naquela cidade e falaria que não é da minha conta os assuntos daquela família, que eu tinha que sair do meio antes que eu me machucasse de novo. Pensaria em mim. Como eu estou pensando nele.

Nós ficamos ali, abraçados, lagrimas escorrem pelo meu rosto.

Isso é uma coisa que eu nunca senti de verdade. A necessidade de proteger alguém mais não poder fazê-lo. Não poder falar a verdade e nem fazer o que tenho que fazer.

“Você tem certeza querida? Nós podemos viajar amanha se quiser, podemos ir para qualquer lugar que você decidir e ficar um tempo fora.” Ele fala, ele olha nos meus olhos e tenho vontade de chorar ainda mais.

“Tudo bem, quando você e minha mãe decidirem direito quando podemos ir para a minha pequena e querida cidade vocês me falam, e nós vamos. Não precisa se apressar, pode ir no seu tempo, eu não ligo, estou bem pai, foi só uma crise.” Eu falo e olho para baixo, sem conseguir o encarar.

“Certeza?” Ele fala e os dois sorriem, eu o abraço de novo, e ele se vai. Me jogo na cama de novo e choro.

Eu acho que estou muito nova para lidar com tudo isso, eu não tenho idade para me preocupar com todas essas coisas, para ter vivido o que eu já vivi e saber o que eu sei, porque tem pessoas bem mais velhas que eu e que não passaram por nada na vida delas que as fizessem chorar de verdade. Isso é triste. Tudo que eu queria era ser normal, ter uma adolescência normal, com amigas e talvez um namorado, ter alguns problemas com os pais e não saber que roupa escolher para ir para a escola. Gritar por causa de um pedido de namoro e chorar no término do mesmo. Falar sobre amor eterno que só dura uma semana, dar o numero de meu celular para pessoas que eu provavelmente não vou ver. Fugir de casa para festas e o maior problema de pele ser uma espinha.

Eu daria tudo por uma vida normal agora. Tudo, tudo. Mas já aconteceu, eu já fiz coisas que não devia, conheci pessoas incríveis que me colocaram em coisas ruins, já fui ruim tanto quanto fui boa.

Minha época de normalidade já passou, e eu não estava preparada para perder ela tão rápido assim.

Com esses pensamentos em mente eu durmo, quase facilmente, como sempre, e como quase sempre, eu tenho um sonho.

No meu sonho eu estou na cidade de Lu, mas quando eu passo todos me chamam de Lua e me cumprimentam, aquele garoto de hoje, com olhos verdes e cabelos cacheados vem até mim e segura a minha mao, por um segundo me sinto aliviada, até outro garoto entrar em nossa frente, eu saio correndo,ele vem atrás de mim rindo, sua risada gelada como gelo, como se me cortasse, eu corro muito, como se não tivesse fim, só paro no cemitério, na frente do tumulo de Lua, mas a data da morte dela estava errada, então eu me vejo na minha frente rindo, sangrando e com uma faca,minha risada me trás muito medo, porque é igual a do garoto, gélida e como se me cortasse, eu grito.

Acordo assustada, esse sonho, eu nunca tive ele antes, e esse realmente me assustou, e com razão eu acredito. O que será que isso quer dizer? O que meus sonhos significam?

Eu posso interpretar esse assim: Eu voltei para a cidade de Lu, está tudo normal andando pela calçada, mas todos me chamam de Lua, então na verdade não sou eu, sou ela. Aquele garoto horrível chega, e quando ele esta perto de mim ele me faz bem, o que quer dizer que ele teria uma boa ligação com a Lua, nós estamos juntos, esta tudo bem, e um garoto que não consigo me lembrar entra na nossa frente, eu entro em desespero, então provavelmente esse seria alguém que assustava muito Lua, e eu/ela saio/saímos correndo dele, ele vinha atrás rindo, como se tudo isso fosse muito engraçado para ele, como se ele já estivesse acostumado com esse canal de humor da TV, então eu chego no cemitério e paro na frente de um tumulo. O meu tumulo. O tumulo dela. Mas o mais estranho é que a data esta errada, é como se ela tivesse morrido messes antes, então eu me vejo, como eu mesmo, na minha frente, sangrando, horrível, com uma faca também ensangüentada, rindo, exatamente como aquele garoto.

E o que tudo isso quer dizer? Simplesmente que eu sou louca.

Eu acredito que sonhos tem significados, sim, eles falam para gente, coisas que podem acontecer, mesmo quando tem coisas que nunca aconteceriam de verdade, mas essas coisas tem significados, você só tem que prestar atenção nas pequenas coisas, ou talvez nas grandes. A coisa é que maioria não faz sentido até... Até fazer sentido.

Eu olho para o relógio na parede, ainda esta no meio da tarde, eu não dormi quase nada, também, com esses sonhos não dormiria mesmo, eles mexem com a minha cabeça e me deixam meio doente, pelo menos é assim que eu me sinto.

Eu me levanto, ainda estou com a roupa que eu sai, me olho no espelho e vejo que estou toda descabelada, devo ter rolado e chutado enquanto dormia. Saio do quarto e vou até a cozinha, me sento em uma das cadeiras.

“Seus pais saíram” diz a empregada, eu sorrio para ela. “Algum problema querida?” ela pergunta.

“Porque todos me chamam de querida?” Eu pergunto e ela sorri.

“Não gosta?” Ela pergunta, eu sorrio e pego um pedaço de bolo.

“Uhn” eu respondo e ela ri, depois volta ao trabalho.

Querida. Nem sempre eu me sinto querida. Varias pessoas que me chamam de querida não gostam de mim. Querida não vem de querer? Elas não parecem me querer. Porque iriam? Eu fiz algo para eles quererem a mim? Ou isso quer dizer que elas querem meu bem? E se é isso porque não ser porque elas querem meu mal? O que as impediriam?

Nada.

Pego outro pedaço de bolo e volto para o meu quarto. Eu tenho que estudar as coisas que estão aqui, no mínimo, já que não queria apressar meus pais para irmos mais rápido para aquela cidade, pelo menos eu tenho que saber o que esta nesta casa, e ainda tem aquela pagina arrancada, eu ainda não sei por que ela esta faltando.

Quem tiraria aquela pagina de la? Será que é porque esse alguém achou que seria “perigoso”? Essa pessoa teria acreditado que aquilo era verdade? Será que ela não percebeu que tudo passava de uma grande mentira? Ou aquilo seria verdade? Pensamento ridículo, claro que aquilo não era verdade, não existe magia e feitiços, venenos feitos com coisas que não existem mais.

Simplesmente livros escritos por doidos, que somente doidos acreditam. Somente doidos lêem. Acho que eu me encaixo bastante nesse titulo que eu pus, alias eu estou lendo porque eu quero, mesmo achando chato e ridículo, ninguém esta me obrigando a ler, e isso me incomoda um pouco, sabe, porque eu não acredito, só estou lendo por uma coisa que nem ao menos sei o que quer dizer.

Agora podem me chamar realmente de louca.

Na verdade eu acho que não ligaria se as pessoas me chamassem de doida, uma vez que não seria totalmente mentira, mas não consigo ver motivos que elas veriam para me chamar assim. Talvez pelo meu comportamento perto das minhas amigas, mas assim chamariam elas de doidas também e provavelmente nós só ficaríamos mais doidas ainda. Talvez se descobrissem o que eu ando lendo encontrariam um bom motivo para me chamar de doida, alias, quem mais acreditaria em algo como isso, que só pode ser uma grande invenção de alguém com uma imaginação muito fértil?

Mas não, as pessoas nem pensam em me chamar de louca, acho que não pensam porque sabem que não iria me machucar. Tem que me chamar de rica e de metida, jogar na minha cara uma coisa que eu não gosto e não quero ouvir, mas é claro que se não fosse assim não teria graça, eles não fariam. O que as pessoas na verdade querem é ver as outras machucadas. Essa é a verdadeira felicidade de todas.

Claro que tem a felicidade material, aquela que você pode ganhar com seu dinheiro, mas ela não é de verdade, não dura, e no final você não pode levar ela com você, e acaba sendo infeliz no final.

Tem a real felicidade, a felicidade certa, que quase ninguém tem, todos acreditam que existe e alguns fingem que a tem, talvez até realmente achem que a tem, mas são poucos que realmente a tem. É a felicidade que você consegue com o verdadeiro amor. A felicidade espiritual. Que deixa você totalmente feliz mesmo sendo razão, somente com o amor. É bem difícil.

E ai tem a felicidade má. Aquela que se consegue com a infelicidade e dor dos outros. A que quase todos tem. Quando você vê alguém mal, por baixo, machucado, e mesmo que la bem no fundo, se sente feliz por isso. Essa é a verdadeira felicidade de todos, porque quase todo o mundo fica feliz por ver alguém caindo. Todos já sentiram isso, e se não sentiram ainda vão sentir, e vão achar muito bom no momento, mas essa também não dura. Só fica com você pelo momento. É uma amiga falsa.

Pego o livro a abro na pagina que eu parei, reviro os olhos e começo a ler, sem realmente prestar atenção.