Two Crowns, One Winner — Interativa
4 Chapter Three — Winter Sound
Notas iniciais
CHAPTER THREE – WINTER SOUND
“You and I will not be shaken
By the winter sound
But my voice is suffocating
In the winter sound”
♕♕♕
05 de outubro, quarta-feira. Palácio de Angeles, Illéa.
Ahren acordou com o sol naquele dia. Literalmente. Como podia ver bem de sua janela, que dava para o jardim leste do Palácio, o sol acabara de nascer, banhando o castelo com seu laranja claro. Mirando sua mesa de cabeceira, constatou que eram ainda seis e meia da manha. Espreguiçou-se, ainda na cama, e esfregou os olhos, já certo de que não conseguiria dormir de novo. Sua falta de sono era uma coisa até bastante frequente, mas muito contraditório. Ver Eadlyn Schreave perdendo a hora por seu sono era algo relativamente comum, mas Ahren? Ele sempre acordava cedo, principalmente se estava muito cansado por conta do dia anterior.
Desistiu de tentar entender seu relógio biológico mais ou menos depois de cinco minutos, e então colocou-se de pé. Tomou um banho quente, lavando a cabeça com o shampoo que deixava seu cabelo cheirando à chocolate. Após mais alguns minutos no chuveiro e certa quantidade de cantoria, saiu, secou-se e colocou o que chamaria de uma roupa normal: camiseta branca, flanelas azuis, jeans e tênis Converse. Escovou os dentes e pensou no que faria a seguir, considerando que ainda não eram sete da manhã.
O primeiro que veio à sua cabeça foi ir até a Sala de Música, no quarto andar, e acabar de compor aquela música que estava parada fazia tanto. Lembrou-se, no entanto, que ainda não poderia entrar no lugar. Quando tinha oito anos, acordou antes de todos e decidiu ir brincar na sala. Um acidente com a bateria do lugar acordou seus pais e irmãos, e a Rainha Delancy determinou que a entrada no lugar ficaria proibida da meia-noite até oito da manhã. A bateria, especificamente, fora colocada em uma sala separada, trancada com uma chave que pertencia à Rainha.
Ahren riu da memória do incidente. Embora já fizessem doze anos, ele se lembrava extremamente bem de cada detalhe. Ele havia sido, naquela época, um garotinho tranquilo, que não tinha de se preocupar com o peso de uma coroa ou um orçamento de guerra, coisas de herdeiro – ou até mesmo com a História das Relações Internacionais de Illéa, que ele começara à aprender junto à Eadlyn quando tinha treze anos. Ele sentia falta de ser um garotinho tranquilo mais do que realmente gostaria de admitir.
Sem saber o quê mais fazer, checou o quadro que mantinha acima de sua escrivaninha. Ele anotava o horário e local de todas as suas aulas ali, para não se confundir muito, e procurou direto pela quinta-feira. Para surpresa, o dia estava perto de desocupado. Ele teria tempo livre durante a manhã, então, após o almoço – que seria uma degustação da comida do jantar de boas-vindas aos participantes d'A Seleção, muito embora ainda faltassem três semanas para sua chegada ao Palácio –, teria de escolher coisas de decoração para o quarto dos Selecionados. Por fim, antes do Jantar, teria uma aula de Macroeconomia Avançada seguida de Matemática Aplicada. Riu-se mais uma vez, lembrando da cara que Eadlyn fizera quando seus pais lhes haviam contado que ambos teriam de fazer as duas disciplinas. Ela, diferentemente dele, sempre odiara a maior parte das ciências exatas.
Desistindo de vez de achar algo ativo para fazer antes do café, bateu a campainha em sua parede e pegou um livro, sentando-se na poltrona enquanto esperava. Em questão de um minuto, batidas rápidas soaram à sua porta.
— Entre, Raj! — o príncipe disse, alto o bastante para ser ouvido pelo amigo. Raj, um jovem moreno, abriu a porta e entrou no quarto. Ele tinha cabelos negros com alguns cachos soltos e bagunçados, traços tipicamente indianos e trajava o uniforme azul dos mordomos do Palácio. Ahren revirou os olhos à visão do traje. — Não tínhamos conversado sobre o banimento permanente dessa coisa?
— O termo monologado seria mais apropriado nesse caso — Raj encheu-lhe o saco, fechando a porta atrás de si. — Você falou. Eu sequer fingi que concordei.
— Seu indiano sorrateiro — Ahren brincou com o amigo, que lhe lançou uma piscadela antes de tomar assento na cama. O príncipe tirou os óculos do rosto e repousou-os na mesa ao seu lado.
— Por que me chamou, de qualquer maneira? — Raj mudou de assunto, pegando uma bolinha de borracha que Ahren brincava com quando ansioso. — Suponho que queira algo? Ou só me tirou do trabalho à toa?
O tom do amigo fez Ahren sorrir. Só havia um motivo para que ele fosse rude.
— Eu interrompi as entregas matinais, não foi?
Raj virou a cabeça para ele, parecendo prestes a negar, mas parou quando viu o sorriso de Ahren.
— Seu grande idiota — disse, jogando a bolinha nele. Ahren levantou os braços para se defender, ainda rindo. — Mas então você realmente não quer nada?
O príncipe deu de ombros.
— Não tinha nada para fazer e Eady está dormindo ainda.
— É claro que está — Raj riu. — Então sou sua distração?
— Suas palavras — Ahren apontou para ele. — Pensei que talvez pudéssemos... Sei lá. Jogar alguma coisa?
Raj balançou a cabeça.
— Com os preparativos, eles precisam de todo o pessoal praticamente o tempo todo. Eu só fui liberado por causa da campainha — explicou ele, e Ahren suspirou.
— Então suponho que você tenha de ir?
Raj assentiu, pondo-se de pé e ajeitando o uniforme.
— Tenho.
— Certo. Te vejo mais tarde — o príncipe suspirou quando ele abriu a porta. — E mande lembranças à Anelim!
O indiano revirou os olhos antes de sair do quarto.
— Vá se ferrar.
Ahren soltou uma risada nasalada antes de voltar para seu livro, desta vez, realmente se concentrando nele. Estava relendo o Quarteto Doador, sua série de livros favorita, e já começara a ler o segundo. Gathering Blue, embora não tivesse absolutamente nada a ver com o primeiro, era um livro que valia a pena ser lido. Contava a história de Kira, uma garota que morava em uma pequena vila num futuro distópico, era órfã e extremamente talentosa quanto à costura. Depois da morte da mãe, o governo da vila onde ela morava a contratara para restaurar uma túnica, e a garota, ao aceitar, descobria vários segredos sobre a instituição governamental enquanto tentava achar a cor azul para alguns pedaços da túnica.
Ele estava no meio do livro quando, mais tarde, mais batidas soaram à sua porta. Elas tinham um ritmo específico, um que só podia significar Eadlyn.
— 'Tá aberta! — ele disse, simplesmente, e sua irmã irrompeu quarto adentro. A ruiva sentou-se em sua cama, cruzando as pernas.
— Você parece desperto — ela comentou. — Que horas acordou?
— Seis em ponto — Ahren replicou, finalmente repousando o livro e tirando seus óculos. Eadlyn semicerrou os olhos e sacudiu a cabeça, checando na parede que eram quase nove da manhã.
— Eu não te entendo.
— Você é tipo, a única pessoa aqui dentro que me entende.
— Touché — Eadlyn admitiu. — Viu o cronograma para hoje?
— O seu deve estar diferente do meu — o príncipe respondeu, apontando seu quadro com a cabeça. — A não ser que tenham te incluído na organização dos quartos masculinos.
— Não incluíram — sua irmã devolveu, brincando com uma mecha do cabelo ruivo. — Mas incluíram Daniel. Eu vi tia Celina e ele enquanto vinha para cá.
Ahren fez uma careta. Daniel era seu melhor amigo junto à Raj, filho do Conselheiro-chefe, mas não era exatamente a pessoa mais responsável do mundo. Um não poderia adivinhar porquê raios haviam lhe dito que ajudaria na organização de qualquer coisa.
— O dia está quase desocupado hoje — disse, então.
— Depende do quê você considera desocupado — Eadlyn disse. — Porque o Ahren e a Eadlyn de uma semana atrás discordariam.
— O Ahren e a Eadlyn de uma semana atrás não eram herdeiros presuntivos — ele replicou, e sua irmã meneou a cabeça em concordância antes de incliná-la, pensativa.
— É estranho como mudou rápido, não é?
Ahren assentiu. Uma semana atrás, eles eram só os irmãos mais novos que nunca passariam de consortes ou conselheiros. Subitamente, ambos tinham o peso de uma coroa em seus ombros e uma rotina completamente diferente da normal, correndo de uma aula para a outra. E, para melhorar, ainda tinham de se preocupar o tempo todo com o planejamento d’A Seleção, que estava a todo o vapor. As inscrições acabariam no dia seguinte, e o anúncio das Selecionadas e Selecionados aconteceriam dali a dois dias, durante o Jornal Oficial. Ele não sabia se aquilo deveria ser reconfortante ou aterrorizante, e não queria descobrir.
— Tudo 'tá acontecendo ao mesmo tempo. Eu não sei como processar — confessou à irmã, sentindo-se impotente.
— Eu também — Eadlyn comprimiu os lábios, como Ahren sabia que ela fazia quando estava nervosa sobre algo. Aquele gesto era algo tão raro em público que ele tinha a impressão que era o único que conhecia seu significado. — Mas vai dar tudo certo, não vai? Tem de dar. O quê acontece se... Não funcionar? Se nós falharmos?
Ele ofereceu a mão para a irmã, que a segurou. Apertou-a levemente.
— Não falharemos, Eady — lhe garantiu, embora não tivesse certeza. Não sabia dizer se, ao final disso tudo, ele estaria pronto para assumir. Em todos os casos, sua confiança em sua gêmea era tamanha que ele tinha certeza de uma coisa: se ele não o fizesse, Eadlyn faria. Eles precisavam um do outro? Com certeza. Ainda assim, Ahren afirmaria sem nem reconsiderar que ela era o ela mais forte da relação. Ele sabia que, embora além da confusão sobre a declaração de Max houvesse uma parcela da população que a achava instável demais ou que opinava no sentido de defender a patriarquia, Eadlyn era muito mais forte do que ele. Ela era uma governante nata. — Não falharemos.
Ela fez-lhe um careta que deu à Ahren vontade de rir.
— Como você pode ter tanta certeza?
— Eu confio em você — disse, abraçando a irmã e acariciando-lhe os cabelos. — Eu confio em nós dois.
— Provavelmente mais do que deveria — ela notou, abraçando-o também, e Ahren sorriu.
— Bom, um de nós tem de confiar, certo? — brincou, e ela revirou-lhe os olhos e deu-lhe um empurrão no peito. Ele riu antes de mais batidas soarem na porta.
— Altezas! — soou a voz de alguém do lado de fora, e Ahren reconheceu uma das criadas — Seus pais lhes chamam para o café!
— Obrigada, JoJo — Eadlyn foi quem respondeu. — Já estaremos descendo.
E, de fato, eles desceram. Quando chegaram na sala, encontraram seus pais sentados lado a lado, conversando sobre qualquer coisa enquanto comiam; e Max e Katrina, que também batiam papo sobre alguma coisa. Ele ouviu Eadlyn perguntando aos pais onde estavam seu tio Anthony e suas filhas, e Arthur respondeu que a família havia acordado mais cedo, pois tinham certas coisas a acertar fora do Palácio. Delancy completou que os Orders haviam dispensado o café e estavam fazendo outras coisas enquanto esperavam, mas Ahren não prestou muita atenção à eles. Em vez disso, tomou seu lugar em frente ao irmão, com Eadlyn ao seu lado, e se pôs a escutar Katrina enquanto se servia.
— Então, quando a Lindy entrou com um ursinho em uma coleira, eu só consegui pensar ah não — a morena disse, e Max reprimiu uma risada. Ahren sabia que Lindy era a mais nova das irmãs de Katrina, então esperou pelo resto da história. — Você conhece Lindy, ela nunca deixaria aquele bichinho para trás. Mas animais foram proibidos em circos, principalmente circos itinerantes, há décadas. Não podíamos levar ele.
— O quê vocês fizeram, então? — Max perguntou.
— Papai disse que, no meio da noite, eu e Joey deveríamos ir até a caminha do urso e espantá-lo. Nós fomos, mas eu fiquei com muita dó de simplesmente mandar ele embora. A Lindy ficaria arrasada se ele fugisse e ninguém soubesse o que houve — ela explicou, simplesmente, e Eadlyn sorriu divertidamente. — Então eu deixei um bilhetinho ali, com minha pior caligrafia, e assinei como se fosse o ursinho. Lindy o tem até hoje.
Ahren franziu as sobrancelhas e riu um pouco.
— Mas sua letra é maravilhosa sempre, Katrina — comentou, e ela meneou a cabeça enquanto passava cream cheese em um pedaço de torrada.
— Exatamente por isso foi difícil — Katrina sorriu, e os irmãos soltaram uma risada. Ahren notou o quanto ela havia melhorado depois de só cinco dias: desde que a responsabilidade de criar uma linha de sucessão para o país saíra das suas costas e das de Max, a garota quase parecia mais leve. Suas olheiras lentamente sumiam, o cabelo voltava a ter brilho, e ela já estava contando novamente suas histórias de circo. Max parecia notar o mesmo, embora nunca saísse do lado dela, provavelmente tentando mostrar todo seu apoio. Ele estava prestes a se virar para Eadlyn e dizer isso quando sentiu os músculos do braço da irmã se retesarem na cadeira ao lado. Olhou para onde ela olhava e conseguiu ver Caroline e William, o príncipe inglês, entrando na sala.
Ele estranhou de imediato. Eadlyn só retesava seus músculos quando algo a deixava extremamente desconfortável. Analisou rapidamente as possibilidades. A presença de Carol a fazia incomodada? Não, não poderia. Eadlyn e Carol se adoravam desde pequenas. Eadlyn e William, pelo menos até onde ele sabia – e ele acreditava saber o suficiente – tinham uma boa relação também. Ela não poderia estar desconfortável por causa de alguma briga, pois Eadlyn nunca fora do tipo que levava desaforo para casa ou guardava rancor, então só restou-lhe um opção: havia um segredo. Sua curiosidade fez seu nariz pinicar, o que fez com que, involuntariamente, sua mão subisse a este. Eadlyn percebeu o gesto e mordeu o lábio inferior, sua clássica reação quando era descoberta. Ahren esfregou as têmporas, ele esperara estar errado.
É claro que isso tudo aconteceu em menos de dez segundos, então Carol e Will estavam começando a se sentar quando Ahren voltou a observá-los. Carol reparou nos olhos curiosos do irmão e levantou as sobrancelhas.
— Ahren? Você ‘tá bem? — perguntou, risonha, e Ahren assentiu. — Você parecia meio... Viajado.
— Ninguém fala viajado mais, Carol — Max comentou, fazendo com que a mais velha rolasse os olhos. — Não em Illéa, pelo menos.
— Ou você já está britanizada a este ponto? — Katrina lhe perguntou, um sorriso travesso brincando em seus lábios.
— Vocês realmente são um pé no saco — William comentou, também sorrindo.
— Lembrem-me porque eu quis vir à Illéa, por favor? — Carol completou.
— E me arrastou junto, ainda por cima — o inglês voltou a dizer. — Eu te aguento por três anos, tento não pirar com você enchendo meu saco, e como você recompensa? Me trazendo pro país em que todo mundo zoa com meu sotaque. Realmente uma ótima cunhada, Carol.
Caroline bagunçou os cachos de Will, que riu ao tentar se proteger.
— Você nos ama, William — Ahren disse, simplesmente. — E não é culpa nossa se toda hora que você abre a boca parece que tem uma batata nela.
Eles riram novamente, e Ahren olhou para Eadlyn de lado. Ela não havia implicado o inglês hora nenhuma, o que era certamente incomum. Algo estava acontecendo, ele sabia. E, agora, ele precisava descobrir o quê era.
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