Two Atormented Souls
2 Fire
Notas iniciais
Alguns anos atrás...
A água morna cobria meu corpo. Rodei a lâmina entre os dedos e a luz refletia nela. Eu tinha feito uma coisa horrível. Eu não, as vozes me mandaram fazer e eu fiz. Fui fraca. Podia ter controlado tudo, podia ter chamado os bombeiros, eu podia... estar tomando os remédios. Mas não, eu sou uma idiota, deixei que elas me dominassem e eu achei certo quando fiz. Eu me senti ótima.
E agora, meus pais acabaram com o casamento deles, minha irmã não para de me culpar, eu não paro de me culpar, está tudo de cabeça para baixo. Rodei de novo a lamina nos dedos e passei-a no canto do pescoço. Não doeu, não senti absolutamente nada, além do sangue escorrendo e colorindo a água da banheira.
No decorrer dos minutos, fui desfalecendo...
Olhei-me no espelho e estava altamente apresentável. Pus um vestido azul-marinho, com cintura marcada, tomara que caia, soltinho e uns quatro dedos a cima do joelho. Fiz uma leve maquiagem e uma trança lateral, com pequenos pontos de luz no término de cada trançado.
Pus a mão na minha cicatriz do pescoço, sempre tão presente e me lembrando das coisas que eu já fiz. Teria terminado tudo naquela noite, se a minha mãe não tivesse chegado em casa e me encontrado no banheiro. Ela deveria ter me deixado morrer. Seria melhor pra ela, pra mim, para o mundo.
— Tão linda — ouvi alguém falando.
Olhei pelo espelho e não havia ninguém atrás de mim.
— Sabe, Melissa, você sempre foi uma menina muito boa e muito má. Só que agora você é dominada por uma doença — a mesma voz continuou falando.
— SAI DA MINHA CABEÇA!!! — Gritei para o nada.
— Eu sou sua amiga, você sabe que eu vou e volto. Só depende de você eu nunca mais voltar — ouvi uma risadinha sarcástica no fundo da minha mente.
— Você não vai me atormentar! — eu bati a cabeça contra a parede e uma dor exorbitante me atingiu. — Voz estúpida!!
— Hahaha, eu estúpida? Não meu amor, a submissa aqui é você, foi você que causou tudo nessa vida e só está aqui, livre, por causa da sua doença. Caso contrário estaria atrás das grades.
Balancei a cabeça de um lado para o outro, ignorando o que a voz me dizia. Eu não preciso dos remédios para controla-la, está tudo sobre controle ou quase tudo. Peguei as chaves do meu Lambhorgini e dirigi calmamente ate o lugar da festa.
Entretanto, a minha cabeça sempre prega peças em mim e lá estava eu revivendo tudo de novo dentro dela. Cada pedacinho tão vivido da memória horripilante.Revivendo aqueles momentos quando apenas tinha quinze anos.
Mais uma noite mal dormida e o motivo: a falta dos remédios (que eu teimo em não tomar) e as vozes, as malditas vozes que não saem da minha cabeça e nem me davam paz. Revirei na cama tentando fazer com que o sono voltasse, mas de nada adiantava, por isso resolvi me levantar.
Desci para o andar de baixo cai na real, eu não tava na minha casa e sim na casa dos meus tios, para falar a verdade o meu tio preferido, o tio Hector sempre foi muito amável comigo e sempre me tratou como uma filha; ao contrario da bruxa da minha tia Helena, que pelo fato de não poder ter filhos sempre me tratou muito mal, talvez ela tenha achado em mim uma forma de descontar suas raivas e frustrações.
Sem saber o que fazer resolvi ir para a cozinha arranjar algo para comer, logo que cheguei lá abri a porta da geladeira, a qual eu fiquei em media uns dez minutos apenas olhando, por fim escolhi um pedaço de bolo de chocolate , o meu preferido. Peguei um prato e um garfo e comecei a comer e isso me trouxe um prazer enorme.
— Depois não sabe por que é gorda — diz uma voz zombeteira, olho em volta e não vejo nada.
— Tem alguém ai ? — pergunto assustada.
— Claro... apenas você que não esta vendo sua gorda — a mesma voz diz rindo: da minha cara.
— EU NÃO ESTOU GORDA — acabo gritando sem querer. — Isso tudo é paranoia.
— Gorda? Imagina... — diz com uma ironia evidente. — Alem de gorda é medrosa.
— Eu já disse que não sou medrosa, não sou, não sou... — digo começando a ficar histérica.
— Então prove? — diz a voz caçoando de mim.
— Como? — pergunto antes mesmo que pudesse segurar a pergunta já a tinha feito.
— Faça algo ao extremo algo grandioso — a voz diz rindo como se não acreditasse que eu fosse capaz de fazer algo assim, e eu provaria o contrario.
— Coloque fogo em tudo isso... — quando a voz acaba de dizer o ar me falta, era como se ela quisesse me testar.
— E-eu n-não p-posso f-fazer i-isso — digo gaguejando.
— Como sempre sendo fraca, mas eu já esperava isso de você.
— Eu não posso colocar fogo com meus tios aqui — digo lutando contra as lagrimas, sim eu sabia que isso era loucura, estava conversando com algum demônio que não me dava paz, mesmo sabendo que isso não é real.
— Porque não pode? Sua tia sempre te odiou, ela sempre quis que você morresse e por ela você já estaria morta e a sete palmos abaixo da terra fofa a muito tempo. Por que você não pode querer a mesma coisa?
— Eu não quero matar o meu tio, não quero. — digo tampando os ouvidos com as mãos.
— Menina tola, realmente acha que tampando os ouvidos vai parar de me escutar — diz a voz rindo malignamente. — Eu estou dentro da sua cabeçinha meu bem, você não pode me tirar porque é fraca demais... Então vai ter que aceita garota fraca... — diz e silêncio parira na minha cabeça, por menos tempo do que eu esperava. — E realmente acha que seu tio te ama? Alguma vez já se perguntou por que ele te ama? Ou porque a sua tia não gosta de você? — pergunta, mas não acho que ela realmente queria alguma resposta.
— E-eu n-não s-sei... — praticamente sussurrando.
— Lembra-se daquela noite no outono quando você tinha apenas nove anos? — pergunto a voz, mais a única coisa que faço é balançar a cabeça. — Lembra quando ficou sozinha naquela cabana e que aquele homem com capuz apareceu? — pergunta novamente e as únicas coisas que faço é balançar a cabeça, mas dessa vez em uma tentativa de tentar deixar aquelas lembranças guardadas no lugar mais profundo da minha mente. — Você lembra o que o homem fez com você? — porem dessa vez nenhuma emoção demonstro, apenas continuo parada feito uma pedra. — Acho que você lembra, né? Lembra a dor que sentiu? Lembra como desejou matar aquele homem? Bom você esta com a chance diante de você é apenas agarrar se a ela. — diz com uma risada estranha.
— Não pode ser? — digo não acreditando naquilo ou pelo menos tentando não acreditar.
— Você realmente é uma tola... E porque outro motivo seu tio te paparicaria tanto se não fosse por que ele sente desejo por você, ou você não se lembra no natal do ano passado quando você foi o abraçar e aconteceu aquilo — lembro-me do ocorrido e começo encaixar as peças.
— Isso menina ate que enfim esta usando a cabeça. — diz e do nada uma fúria me tomou, era algo que eu nunca senti antes, algo que fazia desejar acabar com tudo e com todos, pego uma jarra que tinha ali perto e taco no chão. O vidro estilhaçou-se em milhões de pedacinho e eu sorri. Assim fui pegando várias e várias coisas e ia tacando sem me importa se ia acorda alguém ou não, do lado esquerdo da pia vejo um litro de álcool sem nem me dar conta do que estava fazendo o pego e começo jogar em todos os lugares, e pela primeira vez eu me senti livre... eu me senti feliz.
— O que esta acontecendo aqui? — olho e vejo que tanto minha tia como o meu tio olhavam para mim assustados.
— Acontecendo? Como assim? – digo totalmente fora de mim, enquanto olhava para o lado a procura daquilo.
— Olha o que você fez! — diz meu tio tentando se aproximar.
— Se você se aproximar eu coloco fogo em tudo — digo sorrindo sarcástica, pegando um isqueiro e fiquei ali brincando de acender e apagar ele.
— Você não pode fazer isso, pare já — diz meu tio.
— E se eu não quiser? — digo sorrindo de orelha a orelha.
— Solta isso já menina — manda minha tia e eu apenas sorrio irônica.
— Seu desejo é uma ordem — jogo o isqueiro no chão e logo em seguida todo o local é invadido pelo fogo, vejo meu tio tentar apagar o fogo que começou bem perto dele , mas já era tarde demais , o fogo já estava se alastrando não tinha escapatória, e eu ? Apenas ria como se não soubesse a gravidade daquilo. Minha tia já estava ficando sufocada por causa do excesso de fumaça e meu tio não estava melhor não.
— Saia daí — escuto a voz na minha cabeça falando, ou melhor, mandando.
Saio pela porta da frente o único lugar que não tinha fogo, mas antes de sair ainda dou uma ultima olhada para trás e me deparo com meu tio me fitando e naquele momento eu desejei apenas que ele fosse pro inferno. Virei-me e simplesmente sai dali como se nada tivesse acontecendo, se me arrependi? Ou senti remorso? Não, a partir daquele dia deixei de sentir qualquer coisa, muito menos coisas tão banais como isso.
Sem sinais de "pare", sem limites de velocidade
Ninguém vai me fazer reduzir a velocidade
Como uma roda, vou rodar
Ninguém vai me sacanear
Ei Satã, paguei minhas dívidas
Tocando em uma banda de rock
Ei mamãe, olhe para mim
Estou no meu caminho para a terra prometida
Highaway to the Hell – AC/DC
Deixei meu carro com o manobrista da festa e adentrei no ambiente. Mal iluminado, entretanto muito bem adornado, ao longe avistei a pista de dança preenchida por luzes coloridas e lazeres. Para uma festa de estreia do novo Porsche isso aqui está bastante movimentado, digamos assim.
Apoiei-me no balcão e pedi uma Big Apple, para começar a noite.
— Uma menina tão bonita e nova, deveria estar em casa — uma voz sedutora disse ao meu lado.
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