Notas iniciais
E aqui vem a parte 2 da história! Eu gostaria de agradecer muito à Sweet Cherry Pie por ter comentado no último capítulo, me deixou muito feliz ^^

Tell me, is something wrong?

If something’s wrong

You can count on me

You know I’ll take my heart clean apart

If it helps yours beat

— Natan? — Felipe chamou pela segunda vez, esperando ganhar a atenção do rapaz. Aparentemente, desta vez funcionou.

— Oi? Ai, me perdoa! Minha cabeça tá muito cheia ultimamente. — Natan finalmente parecia ter voltado ao mesmo ambiente que ele, dando uma risada sem graça, mas não parecia bem.

Nada parecia bem.

Alguns meses se passaram desde que a mãe de Natan morreu, e ele aos poucos foi se recuperando da dor e da perda, mas recentemente parecia que havia algo o incomodando.

— Há algo errado?

— Não, claro que não — Natan respondeu rapidamente, como se quisesse sair do foco da conversa. — Oh, vou querer um cappuccino com chantilly, e você?

— Natan, — Felipe disse firmemente, colocando suas duas mãos sobre a mão do outro rapaz que não estava segurando o cardápio — você sabe que pode me contar qualquer coisa, né? Eu sei que tem algo errado.

— Dois cappuccinos com chantilly, então! — Natan ignorou completamente seu apelo e retirou sua mão do aperto das mãos do amigo com certa pressa. Ele se levantou e se dirigiu ao balcão da cafeteria para fazer os pedidos.

E Felipe tentou fingir que aquela ação não o magoara — é claro, estando apaixonado pelo seu melhor amigo desde basicamente sempre, ele tinha aprendido a suprimir seus sentimentos e tentava manter qualquer demonstração de afeto puramente amigável. Mas, deuses, ele faria qualquer coisa para ver Natan bem. Se pudesse, ele daria o seu coração para que Natan vivesse feliz.

Ele passou as mãos pelos cabelos, pensando no que fazer a seguir. Não queria pressionar demais o outro rapaz, porém sabia que ele precisaria de um pouco de pressão para falar. Não que fosse forçá-lo a contar o motivo de sua distração, era só o jeito que Natan reagia as coisas: se Felipe apenas deixasse passar, poderia acabar como da última vez, tantos anos atrás.

As coisas acabaram feias da última vez.

Por isso, quando Natan voltou para a mesa com duas canecas quase derramando chantilly e uma feição distraída, Felipe soube que não aguentaria vê-lo tão preocupado. Mal começou a tomar seu cappuccino e teve uma ideia:

— Nate? — falou em um tom ameno.

— Ah, não! — O cacheado levou uma mão ao rosto e deu uma meia risada. — Quando você me chama de Nate, eu sei que vem problema.

— Quanta calúnia! — Felipe fingiu surpresa, mas deu um sorriso maroto. Tanto ele quanto Natan sabiam que usar o apelido especial sempre vinha acompanhado de algum pedido inusitado que Natan não podia recusar — e era exatamente disso que ele precisava no momento. — O que acha de bebermos hoje?

— Hoje é segunda — Natan respondeu simplesmente, pegando uma colher de plástico e roubando um pouco do chantilly do outro rapaz. — E nós dois temos que trabalhar amanhã cedo, não quero exagerar e ficar de ressaca.

— Nate, por favoooor. — Felipe partiu para a sua estratégia infalível: o biquinho e a voz de criança (sim, por algum motivo funcionava 99,9% das vezes com Natan)

— Não, não e não! — Natan exclamou, fechando os olhos para não ver a cena.

— Mas Nate… — a súplica de Felipe foi interrompida.

— NÃO! — Natan declarou. — E essa discussão está terminada, nós não vamos beber essa noite.

E é por isso que os dois estavam no apartamento de Felipe, ambos com uma quantidade relativamente alta de álcool no sangue.

Estratégia infalível.

Felipe sabia que, devido às bebidas que eles tomaram, logo logo Natan começaria a falar o que lhe afligia.

— Felipe — o cacheado disse, arrastando o último e ao mesmo tempo em que segurava nos dois ombros do amigo. — Você é um amigo perfeito, sabia?

— Sabia, porque é a terceira vez que você me diz isso hoje.

— É? — Natan parou por um momento com uma cara de confuso ao mesmo tempo engraçada e fofa. Felipe começou a rir e logo Natan o acompanhou.

Eles riram até esquecer do que eles estavam rindo e acabaram caindo no carpete da sala.

Felipe quase se esqueceu do motivo que os levou até ali, até que de repente os sons da risada de Natan se silenciaram. Quando o olhou, viu que o outro rapaz começou a chorar.

— Natan? O que foi? — ele perguntou de uma forma preocupada, ajoelhando-se ao lado do rapaz deitado no chão, que começou a chorar ainda mais. — Ok, ok, calma… Vem, senta. — Ele ajudou Natan a se sentar e sentou ao lado dele, fazendo o rapaz deitar a cabeça no seu ombro. Enquanto Natan chorava, ele apenas fazia carinho em suas costas e dizia que tudo ficaria bem. Quando o choro cessou, ele ficou calado, dando espaço para Natan contar o que lhe incomodava.

— É o Rafael.

Ah.

Esse detalhe.

Rafael, também conhecido como o namorado de Natan. Felipe às vezes se esquecia que Natan namorava (ou tentava esquecer), mas, de forma geral, não tinha nada contra Rafael. O único problema que ele via na relação era que os dois terminavam e voltavam com frequência.

Além, é claro, do fato de que Rafael namorava Natan, também conhecido como a paixão mais que secreta de Felipe.

— Nós já estamos juntos há um ano — quer dizer não juntos o tempo todo, mas contando o tempo que terminamos e voltamos, já faz um ano. — Ele fez uma pausa para respirar. — O problema é que: nós estamos juntos há um ano.

— E qual é o problema nisso? — Felipe perguntou, tentando encontrar o problema na última frase do outro rapaz.

— Que ele não me apresentou pra família e pros amigos.

Ah.

— Então… Ele não saiu do armário? — Felipe questionou com receio.

— Não — Natan respondeu com um suspiro cansado. — Sabe, eu só queria poder postar uma foto no facebook e marcar meu namorado (e talvez que minha sogra comentasse na foto), só que eu não posso porque ele não teve coragem de contar pra família, pros amigos, pro cachorro — não, pera, o cachorro sabe —, enfim, pras pessoas que vivem com ele que ele gosta de meninos. E eu entendo que isso é muito difícil — você lembra de como foi contar pra minha mãe e pros meus avós, né —, mas eu não aguento mais isso. Nós brigamos várias vezes por isso e ele sempre pede pra eu esperar, mas eu tô cansado. Eu só quero mostrar pro mundo o meu namorado gostoso — Natan desabafou de uma vez só, respirando fundo no final, esperando Felipe processar todas as informações enviadas (enviadas de forma muito rápida por sinal). — E agora? Você não teria me feito beber em plena segunda-feira se não quisesse que eu abrisse meu coração pra ti.

— Ok, calma — Felipe pediu após seu momento de silêncio, pensando em algo que fosse ajudar seu amigo. — Não seria legal forçar ele a se assumir, mas você também não tem que ficar esperando por um coisa que pode nunca vir — Felipe pensou em voz alta. — Vocês já conversaram com calma sobre isso, né?

— Inúmeras vezes.

— Já contou sobre como você se assumiu pra sua família?

— Na verdade, não.

— Então conta pra ele sobre o que você tá sentindo — sim, eu sei, de novo — as suas angústias quando você foi sair do armário, porque talvez ele esteja com medo. Aliás, eu tenho certeza de que ele está com medo.

— Mas parece mais do mesmo.

— Você esqueceu que tá pedindo conselhos pra uma pessoa péssima em conselhos? — Felipe indagou, o que por algum motivo arrancou uma risada do garoto com a cabeça apoiada no seu ombro. Senso de humor estranho. — Olha, sua melhor arma sempre foi honestidade. Você pode tentar ter com ele a conversa mais honesta da relação de vocês inteira. Do meu outro conselho você não gostaria.

— E qual seria?

— Paciência. Esperar ele sair do armário no tempo dele, mas sem desgastar a relação.

— Gostei mais do primeiro conselho. Argh, ficou parecendo que eu tô pressionando ele. Mas você entende, né? Eu tentei ser paciente, no nosso primeiro encontro eu disse que não namoro com pessoas que não se assumem e ele me prometeu quando me pediu em namoro que ia me apresentar pra família dele. Não sei se tô sendo injusto.

— Natan, você tem o seu direito também. Ative o modo de conversa mais honesta do mundo todo e aí vocês veem o que fazem.

— Pra alguém que não sabe dar conselhos, você até que se sai bem, hein — Natan disse, se afastando do ombro de Felipe com uma expressão mais alegre.

— Eu tento. — Felipe refletiu o sorriso do outro, porque, deuses, ele faria qualquer coisa para ajudar com os problemas de Natan.

Natan acabou dormindo em seu sofá — afinal, eles não estavam tão sóbrios assim. No outro dia, havia somente um bilhete e nenhum Natan por perto.

“Você já sabe que é o melhor amigo do mundo, né?

Obrigado por ontem (e por sempre me ajudar a

contar as coisas que eu não consigo, mas

preciso dizer).

Natan”

Felipe sorriu para o bilhete.

It’s okay if you can’t find the words

Let me take your coat

And this weight off of your shoulders

Notas finais
Nos vemos ainda nessa semana ^^
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.