Aquela segunda feira parecia mais deprimente do que o normal aos olhos de Vincent. O céu estava nublado e o ar estava úmido, as ruas estavam com algumas poças de água, indicando que choveu durante a madrugada.

Com seus fones de ouvido posicionados tocando "Black Hole Sun" no máximo. Seus passos atordoados e mente turva apenas deixam sua situação mais "estressante" ao seu ver, e seus olhos pesados e sono fazem sua visão se tornar embaçada.

Após alguns metros caminhando, o sono começa a passar ligeiramente, fazendo com que ele pare de andar como um zumbi completo. Agarrando seu celular no bolso direito das suas calças de maneira desajeitada, ele liga a tela para ver a horas e toma um susto, vendo que já são 8:00, faltando praticamente 30 minutos para chegar.

Numa disparada estabanada, ele começa a se mover rápido pelo seu caminho tradicional até sua escola. Aqueles que V nocauteou ao atirar seu líder contra eles.

Mas, no meio do caminho, virando uma esquina, Vincent decide pegar um atalho por um beco que dá perto da sua escola, entretanto, para sua surpresa, ele se bate com nada mais nada menos que os dois criminosos da sexta-feira passada — Aqueles que V nocauteou ao atirar seu líder contra eles.

Um frio agoniante sobe pela espinha de Vincent. Ele começa a suar frio e seus batimentos começam a acelerar mais e mais a cada segundo que começa a passar assim que ele se encontra com os dois homens intimidantes.

De primeira, os marginais não notaram a presença de Vincent, mas logo alguns segundos depois, um deles nota o rapaz de canto de olho, logo virando sua cabeça e lentamente tirando um cigarro aceso da boca, logo dizendo num tom impaciente e arrogante para seu parceiro:

"Mas que merda... Aí, se liga só nisso."

Imediatamente, o outro marginal se vira para seu comparsa, e logo enxerga Vincent, encarando-o, fazendo o rapaz ficar ainda mais nervoso. Então o homem diz assim que percebe a presença do garoto: mas uma faca de caça, com uma lâmina de aproximadamente 27 centímetros.

"Espera aí... Não foi esse o moleque que mandou o chefia pro hospital?"

"Esse mesmo... Mas a gente baixou a guarda. Não vai acontecer dessa vez!" Responde o bandido, puxando não um canivete — mas uma faca de caça, com uma lâmina de aproximadamente 27 centímetros.

O desembainhar da faca — O som metálico que a faca faz ao ser desembainhada faz com que Vincent tome um leve susto. Seus batimentos começam a bater cada vez mais rápido.

"Vou te degolar moleque... Terminar o que o chefe não terminou."

Tudo que se passava na mente de Vincent era o pensando de correr o mais rápido que puder, sem a voz incessante de V falando em sua cabeça sobre o que fazer. Mas, seu corpo estava paralisado de tanto medo. Suas pernas começam a ficar fracas e então a tremer levemente, seus olhos se arregalando mais e mais a cada palavra dos criminosos. Sua respiração se torna pesada e difícil. Tudo isso numa questão de segundos.

E assim que o bandido com a faca dá o primeiro passo na direção de Vincent, com uma onda de adrenalina seguida de uma virada brusca, Vincent sai disparado de maneira estranhamente ágil para alguém como ele, ainda com um pouco de desespero.

Mas, com uma agilidade igual, o marginal com a faca se posiciona e lança a arma na direção de Vincent de maneira precisa. Todavia, assim que a faca se aproxima para perfurar as costas de Vincent em um instante, é como se o garoto deu um "passo rápido" — mais rápido que a velocidade de voo da faca, desviando da arma.

Vincent então sai do beco disparado, e rapidamente sai do local sem nem mesmo dar chance dos bandidos ou a si mesmo entender a situação. Os bandidos tentam procurá-lo mas era tarde demais.

Apenas alguns minutos depois, Vincent chega no portão da escola praticamente faltando 5 minutos para sua aula começar.

Com passos apressados, suando devido o nervosismo e a respiração pesada, ele adentra a escola e sobe as escadas, andando de maneira rápida pelo corredor e no final, chegando a sua sala. O professor ainda não estava na sala e os alunos estavam espalhados pela sala em seus respectivos grupinhos. Vincent passa despercebido pelas pessoas, e encontra um caminho até sua mesa. Ele se senta na cadeira enquanto com sua mão direita, desliza pelo ombro para puxar sua mochila das costas, mas então percebe que a esqueceu em casa.

Notando a falta de sua mochila, Vincent pressiona suas costas contra a cadeira enquanto apoia suas mãos em suas coxas. Ele solta um grunhido aborrecido, e retirando suas mãos de suas coxas, ele põe suas palmas pressionadas contra seu rosto, e respirando profundamente, se acalmando.

"Mas que merda, como que eu fui esquecer... Ah, que se foda também. Não vou voltar em casa." Pensa Vincent, ainda irritado.

O rapaz deita sua cabeça sobre a mesa e permanece daquele jeito por alguns segundos, antes de seu "único" amigo — Taka, vir de fora da sala de aula e rapidamente pulando na sua cadeira, sentando enquanto já chega fazendo barulho, o que assusta Vincent e o faz levantar a cabeça rapidamente e o encarar com surpresa e um pouco de nervosismo.

"Eaí, cara. Tá tudo bem? Parece que tu viu um fantasma." Diz Taka, de maneira amigável.

Vincent ainda atordoado pelo sono e tensão, pressiona suas costas contra a cadeira de novo, criando uma distância entre ele e Taka, e responde:

"Não, tá tudo bem. Só... estou cansado."

Taka, dando uma risadinha, responde:

"Dormiu tarde de novo, cara? Já falei que é melhor você dar uma parada nos jogos."

Mantendo sua expressão neutra e cansada, ele responde quase que automaticamente:

"É.. foi mal."

Mas, mesmo com essa resposta e sua expressão neutra, o que ele pensa é totalmente diferente.

"Jogos, jogos e jogos. É tudo o que você sabe sobre mim. Por que você não cala a boca? Já me estressei demais hoje e não preciso ficar ouvindo gente falar do que não sabe."

Mas, deixando seus próprios pensamentos de lado, Vincent pergunta ao garoto em sua frente:

"Tinha alguma atividade pra hoje? Me esqueci de tudo esse fim de semana."

"Tinha só uma atividade de ciências, mas o professor não cobra mesmo. Então você tá seguro." Responde Taka.

Vincent solta um suspiro de alívio, e lentamente deixa sua cabeça cair para trás, olhando para o teto, enquanto diz:

"Ainda bem..."

Sem dar tempo para Vincent aproveitar esse alívio, o professor chega na sala, já botando a turma em ordem. O som dos passos fortes rapidamente se arrumando nas suas cadeiras é de se ouvir até fora da sala.

Depois de alguns instantes em silêncio, o professor começa a falar e falar sem parar. Na cabeça de Vincent é tudo um grande "blá, blá, blá". Tudo que ele se esforça em fazer é deitar sua cabeça novamente em sua carteira, e deixando o sono fluir por sua cabeça barulhenta, ele fecha seus olhos, e mesmo com o desconforto da dureza da mesa, ele dorme "como um bebê", e até baba um pouco.

Até dormindo, a mente de Vincent fica grande parte vazia, e outra barulhenta, claro, com V falando sem parar.

Vincent não sonha, apenas descansa enquanto pode. Para ele, é como se tivessem se passado apenas 10 minutos, até Taka o cutucar várias vezes até ele acordar.

Vincent acorda no susto, levantando sua cabeça rapidamente da mesa enquanto a baba escorre pela sua boca. Ele olha em volta assustado até ver Taka e atrás dele a sala inteiramente vazia.

Vincent procede em limpar a baba de sua boca com a mão antes de falar com Taka, que o olhava um pouco preocupado.

"Ehh... oi." Murmura Vincent para seu amigo.

"Cara... você sabe que horas são?" Pergunta Taka.

Vincent fica sem jeito enquanto arruma seu cabelo com uma mão e nega com a cabeça.

"São quase 13 horas... Tu dormiu mais de 4 horas. Tu tá bem?"

Vincent então se levanta da cadeira, afastando Taka, enquanto diz:

"Sim... eu só estou cansado. Só isso."

Vincent anda um pouco até a porta da sala, e Taka que estava quieto durante esses segundos, diz:

"Tudo bem dar uma dormida numa ou duas aulas, mas você dormiu todas antes do almoço e até depois do almoço. Você nem almoçou. Fiquei preocupado, já que saí da sala na hora do almoço e não te vi por aí."

Milhares de pensamentos estão viajando pela mente de Vincent. Diversas emoções em conflito sobre quem vai prevalecer. Seu coração bate rápido, o sangue flui por suas veias a milhão... O nervosismo toma conta novamente. O sentimento que estará sendo carregado na sua próxima frase...

"Pare de fingir. Desde quando você se importa, Taka?" Diz Vincent, de maneira fria, mesmo nervoso.

O garoto fica surpreso com a resposta de Vincent, e de primeira o mesmo não consegue responder. Ele fica sem expressão, boquiaberto.

"Vincent... oque você quer dizer com isso?"

O jovem que estava de costas vira sua cabeça levemente, olhando Taka nos olhos como nunca antes — Como se fosse a última coisa que diria ao mesmo.

"Você nem é meu amigo de verdade mesmo." Diz Vincent, se virando novamente e saindo da sala e rapidamente atravessando o corredor e descendo as escadas para o primeiro andar, deixando Taka para trás.

Assim que desce o andar, com uma expressão fria e vazia ele anda pelos corredores em direção a saída — Vincent procurava sair dali o mais rápido possível e não voltar mais.

Mas, entre os corredores, dentre todos os problemas que ele já estava carregando naquele dia, o único que poderia o incomodar mais, aquele que aparece no corredor para piorar ainda mais seu dia eram um grupo de 5 alunos que praticavam bullying com Vincent por debaixo do nariz dos professores, e por serem influentes na hierarquia escolar, os outros alunos não deduravam por medo.

A expressão vazia de Vincent é mantida, mesmo que o nervosismo permaneça em seu corpo e se alastrando cada vez mais.

O "líder" do grupinho — Goro Takeda, assim que nota a presença de Vincent, começa com as típicas palavras assim que um sorriso malicioso cresce em sua face:

"Ora, se não é o lixo do americano..."

"Ouvi que você estava dormindo até agora. O soninho de beleza foi bom?" Diz o mesmo, se aproximando.

"Não te interessa, Takeda." Responde Vincent, de maneira fria.

Os garotos atrás de Takeda riem levemente, até que o mesmo diz:

"Uuu.. tá estressadinho? Deixa que eu resolvo pra você..."

Goro Takeda num movimento limpo lança sua bolsa com força em Vincent, esperando derrubá-lo ou desestabilizá-lo. Porém, Vincent apenas bloqueia com as mãos, impedindo que a bolsa acertasse seu rosto.

Assim que a bolsa cai no chão e Vincent olha para Takeda, o mesmo já havia avançado perto o suficiente e vinha para empurrá-lo no chão. Mas, assim que Takeda estava perto o suficiente, Vincent agarrou seu braço esquerdo, e virando de costas para o mesmo ainda segurando seu braço, Vincent o derruba por cima de si com força. Fazendo-o cair no chão.

O resto do grupo se surpreende, mas não se deixam levar e partem para cima, mas Vincent reagiu rápido, e assim que derrubou Goro Takeda, avançou contra o rapaz mais próximo e o empurrou com toda a força usando seu ombro. Assim que faz isso, sai correndo passando pelos outros garotos, chegando até a saída principal da escola.

O portão está fechado, mas instintivamente, assim que Vincent se aproxima do portão, ele pula por cima dele como se não fosse nada. No ar, Vincent sente uma liberdade que nunca sentiu antes. Um alívio que não sentia à muitos e muitos anos. O vento batendo em seu rosto apenas intensifica essa sensação. Ele pousa no chão com segurança e continua a correr sem parar, como se não houvesse amanhã.

Vincent corre até sua casa, e entrando nela pela porta da frente e a trancando assim que entra, ele fica parado, pressionado contra a porta e começa a respirar ofegantemente.

"O que acabou de acontecer...?" Ele se pergunta.

"Foi um presentinho meu, não precisa agradecer." Diz V, brotando da sua mente para dizer algo relevante.

"Presente seu?"

"É... Parece que você herdou algumas das minhas capacidades depois que eu fiquei no controle do corpo."

"Mas aquilo foi do cacete, moleque. Aqueles otários tinham que ver a cara deles quando viram aquele bosta do Takeda cair no chão todo mole!" Exclama V na mente de Vincent.

"É, eu acho que foi.." Murmura Vincent.

Ele rapidamente puxa seu telefone do bolso do casaco, e ligando a tela, ele não pensa duas vezes mas vai direto para o número de Yusei.

"Vai ligar pra ele?" Pergunta V.

"Não sei... Tô decidindo."

Ele encara o contato de Yusei por alguns segundos, e respirando profundamente, ele junta coragem dirige seu dedo lentamente para o botão de ligar, mas antes que tocasse na tela, Yusei o liga antes.

Vincent toma um susto, e V ri na sua cabeça, dizendo:

"Mas que coincidência hein! Vai, atende."

Vincent não responde a voz na sua mente, mas faz o que V diz. Ele clica no botão de aceitar a ligação e rapidamente põe o telefone perto de seu ouvido direito, e murmura:

"Alô? Yusei?"

"EAÍ VINCENT!! Como é que cê tá campeão?"

Yusei fala alto o suficiente para dar um susto em Vincent, fazendo-o afastar o telefone do ouvido por um instante, mas rapidamente o aproxima de novo.

"Oi, Yusei... Tô bem, eu acho."

O garoto do outro lado da linha então continua a falar de maneira relaxada e animada.

"Queria saber se você tá livre hoje. Tipo, de agora até mais tarde."

"Tava pensando da gente dar um rolê. Dar uma zoada por aí, só nós dois. Que que cê acha?"

Vincent fica surpreso pela proposta de Yusei. Ninguém nunca o chamou para algo assim. Mas agora animado, ele responde quase que imediatamente.

"Sim!" Ele exclama.

"Sim... Eu estou livre hoje. E amanhã, e depois de amanhã.. e diante." Murmura Vincent, no seu tom neutro tradicional.

Yusei dá uma risada de leve, e responde com animação:

"É assim que se fala! Passo aí daqui a pouco, que tal? Daqui uns 10 minutos."

"Certo, pode vir..."

"Te arruma, hein! já já saio de de casa." Diz Yusei, desligando assim que termina de falar.

Assim que a ligação termina, Vincent, com um bobo sorriso no rosto, coloca o celular no bolso do casaco novamente.

"Esse Yusei é bastante interessante, viu...Pra te ligar antes mesmo de você, só pode ser coincidência."

"Cala a boca, vai." Diz Vincent, fechando seus olhos e apoiando sua cabeça para a porta atrás dele.



Assim que faz isso, uma estranha sensação jamais sentida por Vincent toma conta de sua mente. Uma sensação estranha de que tudo, tudo em volta dele começaria a mudar dali e então. Para sempre. Que sua vida começaria a mudar finalmente, num sentido bom. E mesmo que tivesse que sacrificar algumas coisas, Vincent se sentia disposto para isso.