Twisted Demon Opera
1 Smoke on the Water
Chovia, sim, essa a melhor maneira de descrever o que se passava do lado de fora da rua. As pessoas passavam apressadas, envoltas em capas de chuva ou protegidas por guarda-chuvas de cores variadas, que contrastavam com os tons plúmbeos das construções urbanas. No entanto, Dante não tinha motivo para reclamar, estava aconchegado num assento acolchoado da lanchonete próxima ao Devil May Cry. O longo casaco vermelho do caçador jazia esparramado na poltrona do lado, assim como um imenso e desajeitado caixote de madeira escura, fruto da última caçada do meio-demônio.
- Dante, você vai passar mal se continuar comendo desse jeito. E ainda por cima, você está misturando sorvete com cerveja! – exclamou Lady, que acabava de entrar no recinto e sentar-se à frente do caçador.
Os curtos cabelos da garota estavam ensopados, assim como sua camisa branca, de modo que Dante não pôde evitar desviar o olhar de seu estimado sunday de morango para o igualmente estimado corpo curvilíneo da amiga. Além do mais, a cor da camisa facilitava a visão de certos detalhes que sempre foram do interesse do meio-demônio.
- Está usando um vermelho. – limitou-se a dizer Dante antes de voltar suas atenções à guloseima.
- Do quê você está falan...- Lady interrompera a fala – Seu safado! – exclamou enquanto chutava violentamente a perna do amigo por baixo da mesa
Os dois riram sonoramente, Lady não se incomodava com os comentários de Dante, acostumara-se à eles com o passar do tempo, e o meio-demônio sabia bem disso. Jogou seu casaco vermelho para a caçadora, que o colocou por cima de suas roupas molhadas. Ficara visivelmente grande, mas pelo menos iria evitar que ela pegasse mais chuva ou fosse vítima de assovios ou comentários maldosos na rua, não que isso fosse um problema, claro. Lady poderia muito bem partir no meio qualquer marmanjo folgado, já o fizera antes, e a lembrança da cena fez com que a garota começasse a rir sozinha.
- Algum problema? – inquiriu Dante, incapaz de saber o que se passava pela cabeça dela.
- Nada, nada, não se preocupe. – respondeu Lady, enquanto acenava com a mão – Isto aí é o que estou pensando que é? – perguntou ao apontar para a caixa de madeira.
- Sim, é isso mesmo, a “semente”. Deu muito trabalho achar essa belezinha. – explicou o meio-demônio.
Os dois fitaram o receptáculo de madeira escura, era um caixote extremamente trabalhado, parecia antigo e bem resistente. A humana não conseguia perceber, mas os sentidos demoníacos de Dante ficavam em estado de alerta só de estar próximo, um grande mal emanava daquela caixa.
- Fazia muito tempo desde a última vez que vi tantos demônios no mesmo lugar. Acho que estavam levando isso aqui pra algum lugar. – continuou Dante.
- Mas qual a razão disso? – perguntou novamente a garota.
- Também não sei, acho que algo grande está vindo aí – o meio-demônio pausou para beber um gole de cerveja antes de continuar – Talvez seja só um mau pressentimento, mas não estou gostando disso.
Os dois amigos prosseguiram conversando, alheios à realidade da lanchonete e à chuva que caia violentamente do lado de fora. Intercalavam assuntos triviais, como as garotas com as quais Dante saía, com assuntos relacionados às caçadas, como o sucesso da unidade da DMC que Nero “geria” em Fortune Island. Não perceberam, portanto, a entrada de mais um homem no estabelecimento. Um homem que caminhou lentamente, mas com firmeza, na direção dos dois. Aproximou-se da mesa e esperou que lhe dessem atenção.
- Acredito que vocês têm algo que não lhes pertence. – acusou o estranho em uma voz tranqüila e segura de si.
Dante analisou o sujeito rapidamente: alto, de bom físico e cabelos loiros que caíam sobre os ombros. Logo percebeu tratar-se de um inimigo em potencial, entretanto, não teve tempo para fazer qualquer coisa, pois o estranho não demorou em arremessá-lo vidraça afora, na rua chuvosa, com um poderoso arremesso. Lady não hesitou em atirar no sujeito com uma pistola que trazia escondida, mas as balas foram habilmente defletidas pela lâmina que o homem tirou de seu casaco negro. A garota também foi arremessada e logo estava ao lado do meio-demônio, estirada sobre os cacos da vidraça, mas diferente deste, inconsciente.
- Tsc, eu disse que estava com um mau pressentimento! – reclamou Dante enquanto se levantava – Seja lá quem for, você pediu pra apanhar!
O caçador esticou a mão, e logo Rebellion, que estava escondida sob a enorme caixa negra, veio voando em auxílio de seu mestre. O estranho fitou a cena e assoviou, fingindo espanto com o gesto do meio-demônio.
- Belo truque! Se bem que não vai adiantar nada. – ironizou.
Dante não deu resposta, saltou na direção do inimigo na tentativa de acertá-lo com uma estocada, bloqueada pela espada do inimigo, que o caçador percebeu tratar-se de uma obra-prima, em par com sua própria arma. Foi a vez de o loiro atacar, com um golpe cortante que o filho de Sparda esquivou-se com dificuldade.
- Quem é você?! – perguntou o caçador com violência.
- Isso faz diferença? Vamos terminar logo com isso. – o sujeito ergueu a mão esquerda, e logo duas outras pessoas saltaram da multidão, que assistia a tudo atônita.
Uma delas era uma mulher ruiva, que trajava um curto vestido de couro negro e sandálias do mesmo material, o outro era um homem de aspecto intelectual, com cabelo castanho claro e terno marrom. Este erguia a “semente” com uma facilidade sobrenatural, aquela ameaçava a inconsciente Lady com um revólver. Dante apontou Rebellion na direção do loiro, que simplesmente sorriu enquanto revelava seus olhos vermelhos semelhantes a dois rubis incrustados em sua face.
- Basta de lutas por hoje, Dante – disse o estranho – Se você insistir com isso, minha aliada vai matar sua amiga. – continuou, ao fazer um meneio com a cabeça na direção das duas.
O meio-demônio foi obrigado a abaixar sua espada. Que podia fazer? Como se não bastasse estar em menor número, Lady estava em perigo e a luta ocorria no meio de uma rua com humanos. Fitou rancorosamente seu oponente enquanto o outro homem desaparecia com a caixa negra, como se fossem feitos de névoa. A próxima a sumir no ar foi a mulher ruiva, que deixou Lady estendida no chão.
- Até mais, Dante. Tenho certeza que vamos nos ver novamente e em breve. – disse por fim o loiro, antes de desaparecer como os outros.
O filho de Sparda urrou de raiva e depois colocou Rebellion nas suas costas. Andou na direção da amiga inconsciente e tomou-a no colo antes de usar sua agilidade sobre-humana para saltar sobre uma pequena mureta, e depois na direção de um prédio baixo. Precisava despistar as pessoas rapidamente, antes que policiais, ou pior, jornalistas, chegassem ao local.
- Vamos sair logo daqui, não queremos problemas, não é mesmo, sua dorminhoca? – disse à inconsciente Lady.
Dante correu pelo telhado do pequeno prédio e saltou em um beco estreito, que separava duas construções antigas, por fim, subiu em uma pilha de sacos de lixo para saltar dentro de um armazém abandonado, já próximo ao Devil May Cry.
Quando a garota voltou a si, estava deitada em um dos velhos, mas confortáveis sofás do “escritório” do filho de Sparda. Este por sua vez descansava sentado em sua cadeira e com os pés na mesa, Rebellion jogada no chão. Estava visivelmente irritado, e não era para menos: perdera o objeto de sua caçada, e fora vencido por um plano sujo de seu inimigo. Bufou antes de bater com o pé na mesa, fazendo com que o telefone alçasse vôo e caísse em sua mão. Lady levantou-se com alguma dificuldade, e caminhou na direção de Dante, ligeiramente encabulada por não saber exatamente o que ocorrera.
- Eles a pegaram, Lady, pegaram a “semente”. – Dante disse com mau humor.
- Vai fazer o que agora? – perguntou a garota, sem saber se a pergunta irritaria ainda mais o meio-demônio.
- Ligações. Precisamos de informação para caçar esses malditos.
A caçadora encostou-se na lateral da cadeira de Dante, e apoiou uma mão no ombro dele. Era rude, sem doçura, mas era um carinho, uma tentativa de consolar o amigo diante da derrota. Diferentemente de Trish, Lady nunca aprendera a ser feminina, mas sabia externar seus sentimentos e preocupações de um jeito próprio, que aqueles mais próximos à ela compreendiam de certa forma. Dante era um destes, e retribuiu o gesto cobrindo a mão da amiga com a própria.
- Nós vamos conseguir dar um jeito nisto, e você vai chutar as bundas daqueles esquisitos. – disse Lady, com um pequeno sorriso.
- Vamos mostrar quem é o dono do show aqui. – respondeu o meio-demônio, esboçando também um sorriso singelo.
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