Não sei quanto tempo fiquei caída no chão. Tudo ao meu redor parecia girar, como se a floresta tivesse se transformado em um lugar irreal, cheio de sombras e sussurros que eu não conseguia compreender. O dedos gélidos tocaram minha mão. Foi o único toque concreto que me trouxe de volta à realidade. Mas aquela lembrança, aquela sensação de conhecer aquela menina… não saía da minha mente.

— Bella? — a voz de Edward cortou o ar denso, carregada de preocupação. Ele estava ao meu lado em um instante, olhando para mim com olhos que eu já conhecia tão bem, mas agora sombrios, confusos. — Eu… eu não sei… — sussurrei, ainda tentando organizar meus pensamentos. — Vi alguém… uma menina… ela parecia… tão familiar.

Damon levantou uma sobrancelha, cético como sempre, mas Stefan ficou tenso, o corpo rígido, como se algo em minhas palavras tivesse despertado uma memória que ele não queria admitir.

— Quem você viu? — perguntou Stefan, a voz baixa, controlada, mas carregada de curiosidade.

— Ela se apresentou como Nessie… — consegui dizer, e minha garganta doeu. —Disse que mora na casa 21, mas… eu conhecia ela. Eu conhecia…

Edward franziu o cenho. O silêncio que se seguiu foi pesado, quase sufocante. Era como se algo tivesse parado o tempo dentro da cabana. Damon se aproximou, cruzando os braços.

— Espera, você está me dizendo que viu a Renesmee? — ele disse devagar, como se pronunciar o nome pudesse quebrar algo.

— Mas… como? — minha voz vacilou. — Isso é impossível...

Eu não consegui terminar. As palavras se perderam no ar, sufocadas pelo impacto do que eu estava sentindo. Meu coração parecia prestes a explodir, batendo forte e rápido demais.

— Bella… respira — Edward disse, aproximando-se e segurando minhas mãos. — O que exatamente você viu?

Eu tremia, tentando juntar cada fragmento que minha mente lembrava. A menina de cabelos cor de cobre, olhos castanhos chocolate, sorriso torto que me parecia familiar… tudo isso me atravessava como uma lâmina.

— Ela… ela disse que mora com a avó… e então… — minhas lágrimas escorriam sem que eu pudesse parar. — Eu senti… algo que não consigo explicar… eu conhecia ela, Edward. Eu conhecia.

Edward ficou imóvel por um instante, e então Damon respirou fundo, olhando para Stefan com uma expressão que misturava impaciência e alerta.

— Isso não está certo — disse Damon, a voz grave. — Nada nessa história é normal. — Seus olhos percorreram a floresta visível pela janela, como se esperasse que a menina estivesse ali, escondida.

Stefan se aproximou, sem dizer uma palavra, e me envolveu em um abraço rápido, firme. Por um instante, senti uma pontada de segurança, mas também de confusão. Seus olhos encontraram os de Edward por um segundo, e naquela troca silenciosa havia tensão, uma compreensão silenciosa de que algo muito maior estava acontecendo, algo que todos nós estávamos prestes a descobrir.

— Damon, — Stefan começou, firme, — precisamos descobrir se ela realmente existe. Se é a Renesmee.

— Ou se alguém está brincando com nossas mentes — completou Edward, a voz carregada de desconfiança. — Não posso dizer se quero que seja real ou não.

Minha cabeça girava com as palavras deles. Tudo dentro de mim gritava que era real, mas algo em Damon parecia sentir o perigo, a instabilidade do que eu acabara de testemunhar.

— Eu preciso vê-la de novo — murmurei. — Preciso entender…

Edward fechou os olhos, respirou fundo, e então olhou diretamente para mim:

— Bella… se for ela… se realmente for, você precisa prometer que não fará nada precipitadamente. Nós temos que pensar. — Sua voz estava firme, mas havia um peso de medo ali.

— Eu prometo… — disse, mesmo sem entender totalmente o que estava prometendo.

-

A noite caiu rápido, como se o próprio tempo quisesse me apressar. Eu não consegui dormir, sentada à janela da cabana, observando a floresta e cada sombra que se movia entre as árvores. O vento soprava e trazia cheiros que eu não conseguia identificar. E então, algo familiar, um sussurro, quase como uma risada infantil, ecoou entre as árvores. Meu corpo estremeceu, e corri para a porta, mas não havia ninguém lá.

— Nessie…? — chamei baixinho, sentindo minhas lágrimas voltarem. O Husky estava ao meu lado, rosnando baixo, como se pressentisse algo.

Uma brisa fria percorreu a floresta, e então eu a vi, não diretamente, mas através de algo no reflexo do lago. Uma pequena figura corria entre os troncos das árvores, seus cabelos cor de cobre brilhando à luz da lua. Ela parou, virou-se e olhou diretamente para mim. Por um instante, tudo no mundo pareceu congelar.

— Bella — a voz dela era doce, mas firme, carregada de uma maturidade que não correspondia à sua idade aparente. — Eu sabia que você viria.

Meu coração quase parou. Eu não deveria sentir isso, não deveria reconhecer aquela voz, mas tudo dentro de mim gritava que conhecia aquele tom, aquela essência.

— Quem… quem é você, Nessie? — minha voz falhou.

Ela sorriu, inclinando a cabeça. Seus olhos refletiam algo antigo, sábio, poderoso. Algo que ia além de uma simples criança.Eu não conseguia me mover. A menina ainda estava ali, parada à beira do lago, me observando com aqueles olhos castanhos que pareciam enxergar direto dentro de mim. Meu coração batia acelerado, e cada fibra do meu corpo gritava que algo enorme estava acontecendo, algo que eu não podia compreender plenamente.

— Bella… — chamou Edward, a voz baixa, tensa. — Quem é ela?

Olhei para trás e vi Damon e Stefan se aproximando. Edward estava imóvel, como se tivesse parado no tempo, os olhos fixos na criança. Stefan, por outro lado, tinha uma expressão que eu não conseguia decifrar totalmente: era curioso, cauteloso, mas havia algo mais ali, algo que me deu um frio na espinha.

Damon, sempre observador, cruzou os braços, mas seu olhar não estava apenas desconfiado, era algo mais intenso, quase… perturbado. Eu podia sentir que ele sabia algo que nós não sabíamos.

— Ela… é real — eu sussurrei, incapaz de dizer mais. — Ela está viva.

O silêncio que se seguiu parecia carregar peso, como se cada um de nós estivesse processando o mesmo choque.

— Real… — murmurou Stefan, quase para si mesmo, olhando atentamente para a menina. — Isso muda tudo.

A criança, com um sorriso tímido, deu um passo à frente e falou com uma confiança surpreendente para alguém tão jovem:

— Meu nome é Renesmee. Posso ficar com vocês por um momento?

Edward respirou fundo, dando um passo em minha direção, mas não falou nada. Damon permaneceu parado, a expressão fechada, os olhos sombrios e ao mesmo tempo preocupados. Stefan olhou para Damon, arqueando uma sobrancelha, percebendo imediatamente que o irmão estava desconfortável com a situação.

— Renesmee — disse Stefan cuidadosamente — tudo bem, você pode vir.

Ela deu um passo em minha direção, e meu coração apertou. Havia algo em sua presença que parecia… importante, mas eu ainda não conseguia entender exatamente o quê. Cada gesto dela carregava uma maturidade que não combinava com sua idade aparente.

— É melhor trazê-la para dentro — disse Stefan, olhando de relance para Damon. — Não podemos deixá-la aqui na floresta sozinha.

Damon bufou, visivelmente irritado, e sua expressão se tornou mais dura. — Não sei se é uma boa ideia… — murmurou. — Não para ela, nem para nós.

Mas Stefan percebeu algo naquele tom de Damon. Havia algo mais por trás do desconforto, algo que ele estava tentando esconder. Ele estreitou os olhos, estudando Damon de forma silenciosa, mas intensa.

— Damon… — começou Stefan, a voz baixa — você tem algo a ver com isso, não tem?

Damon desviou o olhar, respirando fundo antes de finalmente falar, como se cada palavra custasse muito:

— Bella… eu… eu a salvei quando era bebê. As sereias… elas queriam matá-la. Sabia que ela era especial. — Ele fez uma pausa, e eu senti o peso de suas palavras. — Eu sabia que um dia ela precisaria de proteção, que isso não seria algo que simplesmente desapareceria.

Meu coração disparou. — O quê? — Perguntei, sentindo as lágrimas subirem sem controle. — Você… salvou a Renesmee?

Damon assentiu, os olhos fixos nos meus. — Ela era vulnerável, mas já tinha algo dentro dela que ninguém entendia. Eu fiz o que precisava para mantê-la viva.

Edward me observava com a respiração contida, e Stefan parecia absorver cada detalhe com a tensão de quem estava começando a juntar as peças de um quebra-cabeça complexo.

— Isso explica seu desconforto — murmurou Stefan, olhando para Damon — você sempre soube que ela apareceria um dia.

Damon apenas acenou com a cabeça, evitando olhar para Edward. Eu podia sentir o peso do segredo, o quanto ele carregava desde que Renesmee era bebê.

— Mas… e agora? — Perguntei, tentando respirar, enquanto olhava para Renesmee. — Ela… ela está aqui, viva… mas o que fazemos?

Foi quando um novo som chamou nossa atenção. Uma figura feminina emergiu da sombra das árvores, elegante, firme, mas com uma aura que imediatamente impunha respeito. Seus cabelos eram escuros, lisos, e seus olhos tinham o brilho de alguém que sabia mais do que podia dizer.

— Renesmee — disse a mulher, aproximando-se — Lucia Bennett. Sou… bem, posso dizer que sou sua “avó” por escolha da vida, e agora estou aqui para garantir que ninguém a machuque.

A criança correu para ela, e por um instante, minha respiração travou. A forma como Renesmee se moveu, a confiança que tinha nela, me deixou sem palavras. Era claro que havia uma ligação profunda entre elas.

— Damon sabia que ela viria — disse Stefan, observando a interação, a voz baixa. — Ele esteve envolvido desde o início.

— Sim — admitiu Damon. — Mas havia riscos que vocês não poderiam compreender ainda. Agora precisamos começar pelo diário da mãe de Edward. Ele contém pistas importantes sobre Edward e sobre o que está por vir.

Lucia retirou uma pequena caixa de madeira do chão e, com cuidado, tirou um livro antigo. O couro estava gasto, e as páginas, amareladas pelo tempo, exalavam o cheiro de papel antigo.

— Este diário — disse Lucia — contém previsões e avisos de sua mãe, Edward. Ela sabia sobre o que você poderia ser e registrou fragmentos que poderiam ajudar quando chegasse a hora.

Edward pegou o diário com mãos trêmulas. — Isso… é meu? — perguntou, quase sussurrando.

— Sim — respondeu Lucia — e nele há registros sobre você, seus dons, e a profecia sobre a criança.

Fiquei em silêncio, absorvendo cada palavra. — Então… ela sabia da profecia? — perguntei.

— Sim — disse Damon. — E sabia que Edward seria responsável por trazê-la ao mundo. Por isso pediu a Carlisle que o transformasse em vampiro: para que pudesse sobreviver e cumprir o destino.

As palavras pesaram sobre mim como uma revelação lenta. A mãe de Edward havia planejado tudo, sabia do poder do sangue de anjo, conhecia os dons dele, e agora essa criança, Renesmee , estava diante de nós, viva e misteriosa.

Abri o diário com cuidado. As páginas estavam cheias de anotações delicadas e fragmentos de pensamentos, muitas vezes proféticos:

“Ele carrega algo além do que conhecemos. Se ele sobreviver, um dia trará ao mundo aquela que mudará destinos. Protejam-no, protejam a criança, e estejam atentos às forças que não compreendemos. ”

Damon observava atentamente minhas expressões. — Bella, é importante que você saiba — disse ele — Renesmee sempre foi especial. E desde o dia em que ela nasceu, meu trabalho tem sido mantê-la segura.

— Então… — murmurei, a respiração falhando — você sabia de tudo, Damon. Você sabia que ela estaria em perigo.

Ele assentiu, o olhar pesado. — Sim. Mas ainda há muito que não podemos revelar. Primeiro precisamos garantir que ela esteja protegida, que o diário nos guie e que cada passo seja cuidadoso.

Edward olhou para mim, depois para Renesmee e Lucia, ainda processando tudo. — Eu… nunca imaginei — disse ele, a voz trêmula. — Mas se ela está viva, então há esperança… e responsabilidade.

Renesmee se aproximou de mim, segurando minha mão com firmeza, como se dissesse silenciosamente: “Confie em mim.” Meu coração disparou, misturando medo, espanto e esperança.

O silêncio pairou na cabana, carregado de expectativa. Cada um de nós absorvia a magnitude da situação. Uma certeza pairava no ar: Renesmee estava viva, e tudo que conhecíamos sobre passado, presente e futuro estava prestes a mudar.