TWENTY SEVEN YEARS

03 - Abuso: criança perdida.

Uma criança perdida, esperando ser salva. Mesmo ali debaixo da mesa, onde para ela era o lugar mais profundo, o único lugar onde poderia se esconder e passar horas despercebida. Ali, poderia desaparecer de si mesma, fugindo daquilo que queria ser salva. Mas, de quê? Por quem? Ninguém a queria. Ela era um peso em seu próprio mundo. Não existia felicidade desde então.

Lá estava ela, com aquela roupa. A culpa sempre seria dela; quem mandou estar lá naquela hora? Tudo era culpa sua. Estar lá, ir lá, ser abusada. Com seus poucos anos, ela conhecia o lado ruim da vida e mal sabia que aqueles subornos seriam sua ruína.

Sua mente não consegue esquecer; seu corpo lembra e se odeia. Tão nova e tão quebrada por dentro, ninguém parecia notar o desespero, os gritos de socorro. Não havia nada que pudesse salvá-la da loucura.

Mesmo que o silêncio a tivesse devorado e o desespero se tornasse sufocante ao ponto de ter que se machucar para voltar a suspirar, nada mudaria. Absolutamente nada. Desde então, estava marcada para sempre. Não esqueceria e isso a impediria para sempre de ser uma pessoa normal.

Não existiria mais o normal para aquela criança que o mar engoliu, e ninguém iria salvá-la.

Mesmo anos depois, quando algo estava prestes a acontecer, aquela criança simplesmente paralisou e não pôde fazer nada. Tudo era culpa sua, por estar no lugar errado na hora errada.

Mesmo depois de vinte e sete anos, a loucura está em um nível inegável que a deixa paralisada e impede de viver. Ela se culpa por não ser normal. Ela não sente que tem o direito de namorar ou ter filhos; o desejo a abandonou para sempre.