Twelve
2 Stephen Hawking é o Oráculo?
Ainda é escuro. Apenas a luz da cozinha está acesa, meus olhos rejeitam a iluminação por um instante, mas depois se acostumam. Com o tempo um aroma de café infesta tanto o quarto, como os meus pulmões, é o suficiente para que eu levante. Reparo o grande relógio na parede da sala, que até ontem não tinha visto, a luz da cozinha me permite ver mediocremente o horário, 04h03min. Isis está acordada, na cozinha fazendo um sanduíche, limpando do blazer negro o ketchup respingado. As calças combinam com o blazer, e está descalça. Seus olhos vermelhos de sono olham em minha direção.
— Eu já ia chamar você. Faça algo para comer, aproveite e sirva o café para mim também.
Diz, com o mesmo tom de sempre, aparentando estar normal, mas com uma ponta de nervosismo que varia, de acordo com a situação. Ela parece ser sempre muito preocupada com tudo, apesar de tentar ao máximo disfarçar isso.
Eu sirvo café em duas xícaras, e coloco manteiga em um pão para comê-lo, com um ar de constrangimento. Nunca me senti bem com pessoas me vendo comer.
— E então. Nós vamos ter que ir a Londres para descobrir como falar com o senhor Hades e depois pegar um artefato para enfim matar o dragão da morte? — pergunto.
— Basicamente sim. Eu tinha algumas coisas para concluir ainda, mas os dragões deram o ar da graça antes da hora. Eu falaria com você e provavelmente já teria tudo pronto daqui alguns meses.
Responde, com a boca cheia após uma mordida em seu sanduíche recém feito.
Faço um sinal com a cabeça, concordando com o que ela disse. Ela termina de comer e vai até a sala, liga a televisão, senta-se no sofá e veste uma bota de couro na mesma cor das suas roupas. Enquanto muda os canais, aparecem as mesmas coisas, mudando apenas os apresentadores e repórteres, mas em geral era a mesma coisa.
“... é recomendado que todos se mantenham em quarentena, fechem suas casas e guardem alimentos, pois não se sabe quanto tempo essa ameaça pode durar”. Em outro canal, “... partir da meia noite de hoje todos os portos e aeroportos serão fechados por tempo indeterminado. Os postos médicos e Hospitais permanecerão abertos para acolher doentes e feridos...”.
— Hoje é o último dia, precisamos chegar ao Aeroporto assim que for aberto, para conseguirmos um vôo. Termine de comer logo e vamos.
Diz, quase gritando. Eu o faço, bebo o último gole de café e vou para a sala, fazendo sinal para irmos. Isis desliga a TV. Pega do quarto dela duas mochilas, e joga uma para mim. Tem algumas roupas masculinas, uma garrafa de água no lado, que parece não estar tão gelada, e uma caixa no fundo com objetos aleatórios, como uma caneta e um bloco de notas, pastilhas para garganta, etc. Aproveito para tomar uma dessas, já que ainda estou com a garganta seca.
Saímos. Ela liga para um táxi, que, minutos após isso, chega. Vamos diretamente para o Aeroporto Charles de Gaulle, o que custa uma pequena fortuna, já que o motorista vai fazer a corrida em bandeira dois. Esperamos um pouco até abrir, fomos os primeiros a entrar, mas ao longo dos minutos o Aeroporto se enche de faces apavoradas. Conseguimos o primeiro vôo para Londres, que é às 09h30min.
Enquanto isso nós visitamos um restaurante relativamente caro, Isis compra mais comida para a viagem. Gastamos o resto do tempo em um fliperama que tem alguns jogos clássicos e fica perto do restaurante. Realmente, stress não é o recomendado quando se tem o dever de matar um dragão. “Saúde psicológica é uma das mais importantes, pois o que será visto a partir de hoje não será agradável. Muitos suicídios ocorrerão.” Isis me diz em um dado momento enquanto jogamos Space Invaders no fliperama.
Chega o avião e nós somos os únicos descontraídos na fila de embarque. Nem mesmo os funcionários do Aeroporto conseguem manter a calma. Sinto vibrar, é o celular no meu bolso. É Sophie, reparo também algumas dezenas de chamadas não atendidas, também dela. Eu atendo e me dou conta de que é uma mensagem que ela deixou na secretária eletrônica. Sophie chora ao telefone.
— Nathan você precisa atender esse telefone! Eu não sei o que fazer Nathan... Nathan! Eu cheguei a minha casa, tudo está pegando fogo, a casa inteira, a rua inteira... Os meus pais... — O choro se intensifica — Eles estão mortos!... Mortos! Nathan me ajude, por favor... —
Sophie. Ela terá de me desculpar, mas eu não posso ajudá-la agora.
Com essa mensagem e alguns minutos de silêncio, o tom sério volta, e Isis passa a aparentar nervosismo novamente.
— Você sabe onde está esse Oráculo?
Pergunto, tentando puxar assunto, pois esse silêncio causa um leve nervosismo até em mim.
— Sim, ele foi para esse lugar, pois é sua terra natal. E lá ele ficará exercendo sua função principal, porém oculta da sociedade, ser Oráculo. — responde.
Entramos no avião, me pergunto por que Isis não pegou poltronas próximas para nós dois, quando me dou conta, uma célebre dupla de senhoras que têm lá pelos seus 150 quilos, cada, entram no avião. Eu rezo para elas não sentarem ao meu lado, mas a psicologia reversa funciona mesmo, infelizmente. Chegamos ao Aeroporto de Londres, eu nunca me senti tão aliviado em toda a minha vida, após ser prensado durante horas pelo par de senhoras fofinhas.
Muitas pessoas que estavam no avião vão ao encontro de seus familiares e amigos, todas choram e se abraçam, com medo. De relance eu posso ver a expressão da Isis enquanto caminhamos em direção a um ponto de taxi perto do Aeroporto. Olhando para todas aquelas pessoas, ela parece aflita a ponto de conter uma lágrima. Não entendo esse sentimento, mas tocar no assunto seria pior.
— Para onde o casal quer ir?
Pergunta o motorista, apagando um cigarro ao nos ver. Homem velho e esguio, com algumas rugas na testa.
— Esse endereço aqui, por favor.
Isis entrega um papel a ele. Entramos no carro e o motorista vai ao destino escrito no papel.
— Vieram encontrar a família? Que horror o que está acontecendo não?
— Não, na verd...
— Sim, vim ver a minha mãe. É realmente difícil de acreditar que uma coisa está afetando o mundo inteiro dessa maneira, não é mesmo amor?
Interrompe-me, fazendo sinal com os olhos para eu confirmar tudo, e segura a minha mão.
— Pois é. Eu só vou trabalhar hoje mesmo, que o Aeroporto está lotado. —Responde o motorista.
— Século 21 e ainda estão em guerra. Onde esse mundo vai parar?
O taxista acha que uma guerra mundial está começando. Enquanto ele dirige, os cenários vão mudando a cada rua que passa. Prédios e casas elegantes em ruas que se tornam cada vez mais desertas conforme se afastam da região central. Meu bolso vibra novamente.
— Não sei se você vai ouvir isso. Ligar não adianta, eu já tentei milhões de vezes. Já liguei para os bombeiros, para o pronto socorro, ninguém atende. Onde você está Nathan? Você não está em casa, já fui até lá, e voltei. Meus pais. Meus pais...
Sophie, que já estava com a voz alterada, chora mais ao citar os pais.
Isis ouve, e ainda encenando para o motorista, ela diz.
— Nathan, eu sinto muito pela sua amiga...
— Eu imaginei que isso aconteceria. Não me surpreende que Paris inteira esteja em chamas agora mesmo.
Respondo a ela. O carro começa a diminuir a velocidade até estacionar em frente a uma mansão realmente grande. Os portões, que estão abertos, têm mais de dois metros de altura, e o terreno, alguns hectares.
— Bela morada hein! Nunca vi uma casa tão grande. — diz o motorista. Cobra a corrida, e Isis o paga.
Entramos pelos portões e caminhamos por algum tempo até chegar à porta da mansão. Há dezenas de carros estacionados aleatoriamente pelo caminho, e dois seguranças em frente à entrada.
— Com quem querem falar? — pergunta um dos guardas.
— Com o Oráculo.
— Podem entrar. — os dois abrem a porta e nos permitem a passagem.
— Isso foi um teste, se eu dissesse Stephen Hawking eles não nos deixariam entrar.
Isis cochicha em um tom quase inaudível.
— Por que Stephen Hawking?
Pergunto a ela, não entendendo o que uma coisa tem a ver com a outra.
— Ah, é verdade. Eu não disse isso, bom, espere e verá.
Dentro da mansão parece maior do que vista de fora, duas escadas permitem o acesso ao segundo piso, o chão reflete o que está sobre ele como se fosse um espelho, há um homem sentado em uma cadeira, debruçado sobre uma escrivaninha de escritório fazendo algumas anotações em papeis. Também estão lá, sentados em poltronas, como se fossem clientes e o homem das anotações um atendente. Um homem jovem e elegante, usando um terno preto e um chapéu da mesma cor, aparenta ter a minha idade. E uma mulher, cabelos ruivos longos e ondulados, olhos de um azul que se destaca em contraste com o ruivo do cabelo, usando um vestido vermelho, é a mulher mais bela que já vi em toda a minha vida. O homem das anotações parece nervoso assim como a mulher, mas o jovem de terno carrega um semblante calmo e sorridente. Há uma dúzia daquelas poltronas, Isis e eu nos sentamos ao lado dos dois.
— Nervosos? Aposto que vieram por causa dos dragões.
Diz o rapaz de terno, enquanto gira entre os dedos a corrente de um relógio de bolso.
O silêncio toma conta do local, como se todos ignorassem a pergunta dele. O homem na escrivaninha levanta e sai para outro cômodo com seus papeis, voltando depois com mais papeis ainda. Passaram alguns minutos até o silêncio ser quebrado novamente.
— Senhor Ryan, pode me acompanhar, por favor?
O homem dos papeis se levanta e fala em direção ao jovem de terno.
— Ah, obrigado, mas vou deixar a dama de vermelho passar. Estou de saída.
Diz, levantando também, com um leve sorriso e olhando para o seu relógio, a mulher de vestido sorri de forma discreta e convidativa. O rapaz de terno continua falando, enquanto o outro guia a mulher pelas escadas até uma porta no segundo piso.
— Hades, Atena e Afrodite. Hm, eu tenho que ir. Boa sorte em busca dos seus artefatos. Ah e, não se deixem levar pela arrogância de alguns deuses. Deixe-me pensar, nos vemos daqui onze meses, nove dias e seis horas exatas.
Diz, com seu sorriso mais aberto, antes que eu possa perceber, ele não está mais lá, simplesmente sumiu. Estranho esse homem, ele sabe de coisas que não foram ao menos citadas, definiu o deus de cada pessoa corretamente. Inclusive, Afrodite, agora faz muito sentido. Isis me olha com cara de espanto.
Depois de um tempo, a aprendiz de Afrodite sai de onde entrou e desce as escadas, acompanhada do homem dos papeis, que demonstra fascínio pela beleza da mulher. Quando ela sai da casa, o homem chama.
— Senhorita Isis, me acompanhe, por favor.
— Ele vem junto comigo, tudo bem?
Pergunta Isis. O homem concorda. Subimos as mesmas escadas e entramos no cômodo. Janelas fechadas e luz acesa, não há nada no quarto, nenhuma mobília, parede estampada de uma persiana branca com detalhes dourados. Uma cadeira de rodas, as mãos jogadas sobre o corpo mal posicionado na cadeira, cabeça levemente caída para o lado e uma voz robótica.
— Olá, aprendizes de Atena e Hades. O que desejam saber?
Fale com o autor