Tutto Sottosopra
2 Enjoo de nervoso
Notas iniciais
Posicionei meus pés no meu bloco de largada, meu corpo parecia não querer me obedecer, respirei profundamente e olhei adiante, o sol brilhava forte quase me cegando e a pista quente ondulava emanando um calor latente. Sete outras garotas se acomodavam em seus próprios blocos e pensamentos, o futuro de uma de nós estava na arquibancada nesse exato momento, suado e careca, avaliando cada postura, cada fio de cabelo fora do lugar e principalmente a velocidade de cada corredora.
O tiro de largada ecoou solitário, senti o nervosismo desaparecer e minha cabeça se limpou de todos os pensamentos, nesses próximos 10 segundos eu não lembraria nem de respirar. Disparei na minha raia sentindo cada passada forte tocar o chão laranja da quadra gasta do colégio, meus músculos vão ao extremo e o vento abafado batia ao meu favor.
Meu corpo vibrava enquanto eu tomava a dianteira, projetava cada vez mais a diante, sentia o impacto das pisadas das minhas concorrentes no meu encalço, mas elas não iam me ultrapassar, eu não deixaria isso acontecer.
A cada passo, 50 metros, 70 metros, não vacilei, me mantive na minha raia como se qualquer outro pedaço de concreto fosse me consumir viva, meu coração era o único som audível possível, pulsava nos meus ouvidos como um tambor grave.
A linha de chegada já era algo tão íntimo meu, uma velha amiga que eu não via a muito tempo, abracei ela antes do que todas as outras. Amber vinha colada em mim e o medo dela ter passado na minha frente foi como um tapa na cara, eu só descobri quem era a ganhadora quando nosso querido treinador Bruce, nenhum pouco imparcial, veio correndo em minha direção radiante erguendo o braço como se fosse nossa vitória, não só minha.
—NOVE PONTO SETENTA E QUATRO, PRINCESINHA!
Fui tirada do solo na mesma facilidade que alguém levanta um saco de salgadinho cheio de ar, Treinador Bruce não aparentava em nada a idade que tinha, com seu cabelo loiro claríssimo cortado em estilo militar já apresentava alguns fios grisalhos e os bíceps trabalhados ainda eram firmes. Ele me chamava de princesinha desde o meu primeiro dia na quadra, dizia que eu pisava com muita leveza no chão, mas a quem discorde dessa delicadeza minha, inclusive eu.
Voltei ao chão ainda incrédula, Amber estava vermelha e suada, uma mão na cintura e seu cabelo ruivo escava no rabo de cavalo, levantou a garrafa de água em minha direção acenando com a cabeça em comprimentos, acenei levemente para ela admirando a tranquilidade que minha antiga rival lidou com a derrota.
Controlei minha respiração ofegante saindo da pista em direção às arquibancadas, Bruce mantinha sua mão grande em minhas costas me guiando e me impedindo de vacilar por conta dos espasmos de adrenalina, eu ia instintivamente, um enjoo de nervoso queria subir, mas tratei de por ele de volta para o lugar, vomitar em cima do olheiro seria minha deixa para me jogar de cima da arquibancada.
Senti os olhos afiados do olheiro me medindo de longe, ele se levantou lentamente como se fosse dono de todo o tempo do mundo, me deixando ainda mais enjoada de nervoso quase que de propósito. Ele tinha meu futuro na palma da mão e podia sopra-lo facilmente como se eu fosse farelo, a camisa social estava formando pizza embaixo dos braços, ele chegou hoje mesmo da Carolina do Norte, onde o clima era muito mais ameno que na Flórida escaldante.
Uma de suas sobrancelhas arqueou violentamente e ele não fez questão de esconder a cara de surpresa ao me ver de perto.
— Não vou te levantar para o alto como se fosse um saco e nem soltar foguetes por você, o vento estava a seu favor, eu pontuei isso.
Esse era o soco no estômago que faltava para eu colocar meu almoço para fora, me controlei o máximo para não pôr a mão na boca infantilmente e apenas continuei olhando para baixo, ele usava o que deveria ser o sapatênis mais feio que já vi na vida.
— O vento está a mais de 2m/s sim, concordo, mas não estamos em uma Olimpíada não é mesmo, Robert?
Meu treinador quase se pôs entre Robert e eu, mas nem nos seus 1,97 de altura conseguia sobrepor aquele homem franzino e exigente.
— Ela é rápida, você viu, duvido que os seus Running Backs cheguem a correr um terço mais rápidos que Marina.
Robert era olheiro da Universidade Duke, eles tem as melhores equipes de futebol americano da Costa Leste além de ser berço dos Blue Devils, um time da Divisão I de basquete. A Universidade estava interessada em expandir seu contingente de atletas de elite e nada melhor do que fornecer os melhores corredores olímpicos para a seleção nacional.
Além é claro da bolsa de estudos que um atleta recebe, uma bolsa de 50 mil dólares parecia algo frágil e distante ainda, esse homem que podia amassar meu futuro e jogar na lixeira como uma bolinha de papel a qualquer momento, eu nem sei dizer se na minha vida toda cheguei a ter uma quantia tão grande.
Os dois discutiam, mas eu só podia notar suas bocas se movimentando, minha mente estava mais preocupada com a chances de entrar em uma boa universidade tão renomada, criando mil enredos possíveis, poderia cursar algo relacionado a Educação Física ou até Literatura. Rayssa sempre pesquisava sobre universidades e já tinha me explicado tudo sobre o programa de assistência deles, que era um dos melhores.
Carolina do Norte também não era tão distante, menos de 12 horas de carro, eu também já tinha feito minhas pesquisas.
— Eu dou a resposta definitiva até amanhã, tenho outros estudantes para ver, espero que nem todos sejam Latinos
Robert fez questão de enfatizar a palavra Latinos, nós latinos somos parte significativa população da Florida, e Pompano Beach onde eu vivo tem a maior comunidade brasileira de todo o Estado, dá pra se comunicar em português com praticamente todo mundo, antes de se mudar para cá vivemos em vários bairros hispânicos e finalmente tínhamos encontrado os nossos.
— Obrigada senhor. Tenha um bom dia vendo os outros atletas, sinto informar que provavelmente serão todos latinos, sabe como é, os jamaicanos salvaram o atletismo mundial, quem sabe agora seja a vez dos hispânicos e brasileiros darem as caras.
Bruce apertou a mão dele rapidamente enquanto eu já estava virando de costas, não conseguia encarar Robert com seu olhar de desprezo por muito tempo, assim com preciso de um banho, o cheiro de suor que eu emanava poderia matar alguém facilmente. Meu treinador preferido me acompanhou rapidamente, senti seu olhar acusador mesmo sem precisar virar o rosto.
— Eu sei que não deveria ter dito aquilo, mas eu nem levantei a voz.
— Na verdade eu adorei, mas não conte isso a ninguém, preciso manter uma relação boa com os olheiros futuros
Sorri instantaneamente enquanto ele dava um beijo no meu cabelo suado.
Sai Pompano Beach High School ainda eufórica, os olheiros viam quase toda semana agora, a equipe feminina de atletismo venceu o Campeonato Estadual Classe 2A e eu fiquei em quinto lugar do campeonato nacional. Nunca fui muito talentosa em várias coisas, mas eu corria consideravelmente bem, no início ainda duvidava, mas agora não mais.
Ethan me esperava no píer, só precisei descer a longa avenida, o que não estava sendo sacrifício nenhum, a brisa marinha fazia carinho no meu rosto e suavizava o clima abrasador. Não demorei a chegar na praia, com o verão dando as caras a orla ficava lotada, turistas e nativos procuravam seu lugar ao sol na areia, alguns homens de bermuda estavam jogando futevôlei e crianças lambuzadas de protetor faziam seus castelinhos e um ou dois pequenos comiam areia como se fosse a coisa mais gostosa do mundo.
Percorri toda a extensão do píer desviando de algumas pessoas e avistei Ethan de longe, aquela camisa tie dye já era inconfundível. Ele sentava na beirada extrema balançando os pés contra as ondas, o cabelo batendo na altura do queixo balançava suavemente e o maxilar definido logo se contraiu quando Ethan abriu seu sorriso também inconfundível.
Como quem lia minha mente, meu velho amigo já me parabenizava, para ele eu já era a própria Serena Williams, o que eu nunca entendi já que ela é tenista, mas talvez era a única atleta que ele conhecia.
— Parabéns
— Só vou ter a resposta amanhã, acho que o olheiro vai demorar de pirraça, ele tem outros atletas para visitar também, acho que nem vou conseguir a bolsa.
— Você puxou o saco dele? Esses homens frustrados sexualmente amam menininhas deslumbradas bajulando e caindo aos seus pés, ele deve esta sem transar a décadas
Não contive a risada quando Ethan fantasiou toda uma história de Professor e Aluna com direito a performance de uma estudante meiga.
— Ele desdenhou dos atletas latinos e eu retruquei, provavelmente acabei de assinar meu atestado de aposentadoria antes mesmo de começar, e se der tudo errado?
Ethan não tentou soltar aquele discurso pronto de "vai dar tudo certo", ele sempre foi bom ouvinte e não protestou depois de todo meu discurso do medo que eu sentia de não conseguir bolsa nenhuma e nunca poder correr profissionalmente ou de chegar a conseguir a vaga e me lesionar. Ao invés disso, ele manteve contato visual comigo dando um sorriso de resposta puxando um saco de M&Ms da mochila velha e se acomodou de costas no parapeito do píer puxando meus pés doloridos e massageando-os habilmente dissolvendo toda minha angústia.
Assim ficamos até o fim da tarde, jogando conversa fora e comendo doce, o sol alaranjava no horizonte deixando as nuvens róseas, o barulho gostoso do mar se misturava com os risos das pessoas que usavam o píer para pesca, fiquei um bom tempo olhando os navios cargueiros sumindo em alto mar.
Aquele cenário era uma imagem já familiar para mim, e nenhuma palavra de Ethan poderia me acalmar mais, fechei os olhos e repeti para mim mesma que tudo ia dar certo.
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