Turnabout Fire
3 Capítulo 2: Promotora Roxanne
26 de Outubro, 11:58 da manhã
Distrito Shang Yi
Sala de Julgamento número 2
Hum, o lugar parecia muito bom! Não fazia tanto tempo desde que eu tinha vindo pra cá da última vez, mas era certamente a primeira vez que eu vinha como ré. E mesmo assim, a sala de julgamento não parecia mais assombrosa ou intimidadora por que eu vinha como ré... parecia até mais limpa e brilhante que antes. Aparentemente havia mais gente na “platéia” também...ou pelo menos mais do que da última vez em que estive aqui. Isso não ia ajudar muito na sensação de pressão que estava sobre o Bach...mas tudo bem, desde que ele não acabasse desmaiando no meio do julgamento. O pensamento assustou-me um pouco. Mas tudo bem, ele era mais forte do que parecia.
Andamos juntos para dentro da sala assim que eu abri a porta. Vários olhos se voltaram para nós enquanto andamos até nosso lugar, a bancada da defesa. Bachshil ficou do meu lado. E então eu olhei para frente e vi que a mesa da promotoria já estava ocupada. Era uma mulher, não sei que idade teria, talvez uns 24 anos. Ela tinha cabelos longos negros que caíam sobre os seus ombros e sobre a jaqueta azul que usava, fechada. Ela usava óculos redondos, mas que não faziam os olhos parecerem desproporcionais em relação á cabeça, como eu já vira uma vez. Notei o uso de maquiagem (talvez até demais) no rosto, e o fato de que contemplava as próprias unhas no momento, pintadas de vermelho-berrante. Devia ser uma garota vaidosa. Esse seria um longo dia, eu previ...
O juiz pigarreou. Todos na corte fizeram silêncio imediatamente. Ouvi meu filho engolindo em seco do meu lado, então segurei a mão dele. Então olhamos para o juiz. Não era o que eu havia visto anteriormente: este aqui era claramente velho e parecia estar pensando demais. Não soube o que esperar, então prestei atenção.
- A corte entrará agora em sessão para o julgamento de...de...Ana Farfnair.
O fato de que ele gaguejara me preocupou.
- Algum problema, Meritíssimo? – Eu perguntei. Ele parecia surpreso com seja lá o que estivesse lendo em um dos papéis em sua mesa. Não era para o juiz estar a par de todos os acontecimentos até agora?
- N-Nenhum, Srta. Farfnair...só é novidade para mim que você esteja se defendendo.
- Ah...isso... – Eu comecei, sorrindo para ele para assegurar-lhe que eu estava tranqüila. – Meritíssimo, eu estou pronta. Eu realmente estarei me defendendo.
- Heh! Sonhar é bom.
Esta foi a promotora. A voz dela soou bem. Não era nem tão grave, nem tão suave. Era até gostosa de se ouvir, mas a vaidade contida nela estragou o quanto ela poderia ser agradável. Ela continuou:
- Me perdoe, Srta. Farfnair, mas se você acha que vai conseguir passar como inocente aqui apenas por que seu marido é o chefe da promotoria, está enganada. Eu vou provar o que você fez, garota, e vou mostrar para todos que ninguém, por mais privilegiado que possa ser, pode escapar da justiça. E então eu vou entrar para os jornais como a promotora que desbancou uma das cabeças de uma renomada e honrada família! HAHAHAHAHAHAHA...
Ela deu um riso, digno daqueles risos diabólicos dos vilões de filmes. A corte inteira parou, ouvindo ela rir. Demorou mais de 10 segundos, direto, sem pausa. Quando ela acabou, a corte submergiu-se em um silêncio estranho.
- Que...bom pra você. – Foi o que consegui dizer, sorrindo para a garota. Não via o que havia de mal em querer administrar justiça...era como o meu outro filho. Mas isso deve tê-la pego de surpresa, por que ela arregalou os olhos ao ouvir as palavras.
- Eu...eu acabei de lhe insultar e culpar ao mesmo tempo! Você é tão burra que não entendeu isso!?
Senti Bach estufar o peito, provavelmente para responder com algum outro insulto, mas tapei-lhe a boca. Não valia a pena. Ele olhou pra mim e eu balancei a cabeça, esperando que ele entendesse que não devia falar nada.
- Srta. Roxanne! – O juiz bradou, furioso. – Por favor se restrinja de atacar pessoalmente a ré...digo, a advogada...digo, a Srta. Farfnair!
- Hmph! – Ela cruzou os braços e olhou para o outro lado, rejeitando a exigência. Que esnobe! – Tanto faz. Vamos começar logo isso, sim? Vou começar...
- Sou eu quem regulo como vão as coisas aqui, e você vai obedecer! – Disse o juiz, batendo com seu martelo na mesa.
- Tá...tudo bem. – A garota respondeu, de braços cruzados.
- ...Err...A promotoria pode por favor começar apresentando o caso. – Ele disse, depois de uma pequena pausa. Urk.
- Certamente. – Notei que a garota parecia se recusar a dizer “Meritíssimo”. – A promotoria têm evidência que fortemente indica que a ré, na noite anterior, aproximadamente á meia-noite, além de tentar assaltar o banco deste distrito, o distrito Shang Yi, também assassinou o homem que tentou lhe impedir, o senhor Will Burnt. Esses dois crimes serão julgados ao mesmo tempo aqui, nesta corte, e apresentarei de forma a deixar clara a culpa da ré de ambas as coisas.
Ah, agora parecia melhor! Ela falou naturalmente e foi bem melhor ouvir sua voz. O juiz ouviu tudo e depois se virou para mim.
- Srta. Farfnair, qual a sua declaração? A promotoria parece ter evidência pesada de sua culpa. Você realmente não o fez?
- Não, Meritíssimo. – Eu respondi, tranqüila. Não havia por que se desesperar ou ficar nervosa agora. – Eu não cometi nenhum dos crimes. Porém, vou ouvir o que a promotoria têm a dizer, e então responderei.
- Ah, quer dizer que acha que pode declarar-se “inocente”? – Roxanne falou. – Humph...15 minutos. É o tempo que eu dou para que você mude sua petição de “inocente” para qualquer outra. A menos ruim para você, devo dizer. Com certeza você vai querer pegar menos tempo na cadeia...vamos ver até aonde chegamos!
- Err...senhorita. – Eu respondi, sorrindo para ela para ver se acalmava o jeito dela. Embora, devo admitir, foi um pouco forçado fazê-lo. – Comecemos, sim? Não podemos gastar o tempo de nosso querido juiz aqui com outros assuntos.
- H...Humph!
- OK... – Recomeçou o juiz, depois de uns segundo de silêncio. – Veremos os fatos. A promotoria pode chamar sua primeira testemunha.
- A promotoria chama a detetive da região, e encarregada deste caso, a senhorita Emily Gumshoe.
Emily Gumshoe...esse nome me soava familiar. Meu marido falou dela uma vez...e tenho certeza que o Randy mencionou que ela estava no primeiro caso dele em algum momento. Bom, de qualquer forma, ela estava se aproximando do lugar da testemunha agora, então pude ter uma visão dela. Ela parecia...hum, OK, um pouco magra, mas seu rosto era bonitinho, seus cabelos marrons pareciam brilhar, e ainda tinha uma flor Amor-perfeito branca enfeitando-o. Também notei as roupas, um jaleco verde sobre uma blusa rosa...calças jeans...uma sapatilha lindinha vermelha.É, não estava nada mal! Mas me perguntei por que uma detetive viria de...sapatilhas. Bom, abafa o caso.
Assim que Emily chegou ao seu lugar e parou, o juiz olhou intrigado para ela. Ela retribuiu o olhar mais ou menos da mesma forma. Então disseram quase em uníssono:
- Você não é a detetive do distrito Hua Meng?
- Você não é o juiz do distrito Hua Meng?
Responderam:
- Claro, mas estou nesse caso aqui também...
- Claro, mas estou nesse caso aqui também, colega.
Mais uma vez:
- Pare de me imitar!
- Pare de me imitar!
- Parem os dois logo, estamos perdendo tempo! – Bradou a promotora, furiosa.
- S-Sim, senhora. – Respondeu o juiz.
- S-Sim, senhora. – Foi o que disse a detetive.
- S-Senhora! Eu não estou tão velha assim, idiotas! – Ela retrucou, batendo na mesa.
Hum...eu já disse que esse seria um longo dia?
- Deus, o que que está havendo... – Bach parecia não saber o que pensar. É, não era TÃO incomum ver um episódio desses na corte, na verdade. Mas devia ser estranho para alguém que além de estar bem nervoso, estava vindo para corte pela primeira vez na bancada de defesa. Eu esperei que isso tivesse, porém, o deixado um pouco mais tranqüilo.
- Enfim... – O juiz tentou emendar a situação. – Nome e ocupação, testemunha.
- Mas você não acabou de dizer que eu sou a d...
- Apenas...responda a pergunta... – A promotora levantou os óculos e defrontou a testemunha com um olhar ameaçador.
- D-Detetive Emily Gumshoe, senhor, colega! – A testemunha respondeu, bem rápido, depois dessa.
- Você esteve investigando o caso que ocorreu esta madrugada, detetive? – Perguntou o juiz, adotando uma postura séria. Acho que agora o caso ia proceder-se como o esperado.
- Sim, sim, eu estive investigando assim que ouvi dele. Houveram duas testemunhas, e uma delas ligou, provavelmente assim que pode, para o departamento. Respondemos imediatamente enviando um pequeno time. Ahw...mas ficar o tempo todo acordada realmente me cansou, sabe...? – Ela disse, com uma voz mais baixa e desejosa. O que ela queria? Talvez uma cama? Mas ela não demonstrava olheiras ou nenhum sinal claro de cansaço...
- Descanse depois. – A promotora balançou a cabeça, provavelmente descrente que a detetive estivesse agindo de uma maneira tão NÃO profissional. – Agora, vamos aos fatos. Testemunhe para a corte sobre o caso em geral, e sua investigação.
- Sim, senh...senhorita!
TESTEMUNHO
- Nosso time chegou à cena do crime, uma da manhã de hoje.
- Encontramos lá a vítima, com boa parte do corpo carbonizado, a ré e uma testemunha.
- Porém, não achamos nenhuma arma na cena do crime.
- Mesmo assim, o que a testemunha disse nos fez prender a ré naquele mesmo instante!
- A autópsia saiu umas horas depois, e confirma que a hora da morte e a do assassinato batem.
- Eu acho que isso é tudo.
- Hum... – O juiz ouviu tudo em silêncio. Bom, todos nós ouvimos. Eu não podia discordar daquilo: era verdade que eles tinham vindo bem rápido. – A defesa pode começar o interrogatório.
- Certamente, Meritíssimo. – Eu respondi. Senti vontade de sorrir de novo, mas a reprimi por um tempo.
INTERROGATÓRIO
- Nosso time chegou à cena do crime, uma da manhã de hoje.
- Detetive, por que você estava em um departamento que não é o seu tão tarde da noite? – Eu perguntei. Estava querendo fazer essa pergunta assim que o testemunha começara. – Afinal, seu verdadeiro departamento não é aquele. É no distrito Hua Meng, correto?
- Sim, sim... – Ela confirmou com a cabeça. – Mas aconteceu de eu estar lá como substituta de uma detetive que viajou para Los Angeles. Os distritos aqui são bem co-relacionados em questão de detetives e promotores. O chefe Aliucon têm que administrar muita coisa, pelo que eu vi quando trabalho com ele. Além desses distritos, temos mais...
- PROTESTO!! – Gritou a promotora, fazendo a detetive tremer de susto. – Pare com isso e vamos falar de fatos, fatos! Sobre o crime, de preferência.
- Sim...isso é bem verdade. – Concordou o juiz, consentindo com a cabeça. Eu tive a impressão de que ele não disse isso sinceramente, porém. Provavelmente fora a pressão que a promotora colocara antes. – Continuemos, sim?
- S-Sim, colega...d-digo, Meritíssimo! – A detetive suspirou, e continuou com o testemunho.
- Encontramos lá a vítima, com boa parte do corpo carbonizado, a ré e uma testemunha.
- Essas eram as únicas pessoas que vocês viram? – Eu perguntei. Se ela dissesse sim, já haveria uma contradição na qual eu trabalharia...embora fosse pequena.
- Bom...foi o que encontramos no início. Só que depois...apareceu outra testemunha do crime.
- Outra testemunha, huh? Onde essa testemunha estava?
- Ele disse que estava dentro do banco quando viu o crime. É um veterano de guerra e telégrafo, que se aposentou á pouco tempo e agora trabalha como vigia noturno do banco. Ele viu o momento exato do crime, assim como a testemunha.
- Hum... – O juiz interrompeu a linha de pensamento de Emily para falar. – Isso me lembra...você ainda não descreveu a primeira testemunha. Quem é ela?
- O nome dela...é Amber Snap. – Emily falou enquanto procurava algo de dentro de seu jaleco. Achou-a em alguns segundos e mostrou. Era a foto de rosto de uma mulher de cor bem escura e olhos verdes, com algumas pintas mais claras na parte direita da cabeça. Seu rosto parecia bem...hum...normal? Certo que o nariz parecia um pouco fino e a boca dava um sorriso torto, mas de resto parecia normal. — Ela é a repórter do distrito Shang Yi. Ela têm o cargo á muito tempo e é considerada boa no que faz. É o que tenho a dizer por agora.
- Muito bem...prossiga, testemunha. – Me preparei para a próxima parte do testemunho.
- Porém, não achamos nenhuma arma na cena do crime.
- E como é que você acha que ocorreu a queima? Como ela foi executada?
A promotora riu, maliciosamente. Eu olhei para ela com veemência. Por que eu achava que já sabia o que ia responder.
- Não se faça de tola, Ana. Você tinha a arma. De fato...você está com a arma agora!
A corte entrou em um caos momentâneo. O juiz, surpreso, pediu por ordem antes de poder continuar.
- C-Como você disse, promotora Roxanne!? A ré está com uma arma nas mãos?
- Sim, mas...não é das mais comuns. – Foi o que ela respondeu. E só.
O juiz deu a ela um olhar indagador, mas ela não prestou atenção. Em vez disso, pegou uma caneta e um pedaço de papel e começou a escrever algo. A corte olhou silenciosa enquanto ela trabalhava. Eu também, mas estava impaciente. Como ela ia provar o que eu fazia com aquilo...?
O que aconteceu depois foi tão rápido que eu agi apenas por reflexo.
Roxanne jogou a caneta na minha direção, mais precisamente na direção de minha cabeça. Imediatamente protegi-a colocando minhas mãos para frente. Nisso, uma pequena parede de chamas ardentes apareceu no ar, entre mim e a caneta, e a caneta vaporizou em milésimos de segundo ao entrar no fogo.
Agora a corte realmente entrara em caos total. O juiz parecia exasperado demais para dizer alguma coisa, e ficou assim por muito tempo. Senti o olhar triste de Bach na minha nuca. Olhei para ele.
- Mãããeee... – Ele falou, tristonho.
- Me desculpe, querido... – Foi o que consegui responder. – F-Foi por reflexo...
Algumas batidas. O juiz tinha afinal recobrado a consciência e batia na mesa pedindo por ordem. Não foram poucas vezes que ele bateu para que a ordem se restaurasse, porém.
- Isso...isso é inacreditável! – Começou ele, depois que, afinal, a última voz na corte silenciou. – O que...significa isso??
- Heh! – Roxanne parecia satisfeita e mexia no próprio cabelo, distraidamente. – Eu concordo que seja chocante. Mas a verdade têm que ser revelada, sim? Pois bem...Ana Farfnair...é uma verdadeira bruxa!
Fale com o autor