Turnabout Fire
4 Capítulo 3: O calor das evidências
É. Eventualmente veio á tona. Vou ver no que isso vai dar. Pode até ser...divertido!
- U-Uma bruxa, Srta. Roxanne? – O juiz perguntou, estranhando mesmo naquele momento de tensão. – Eu creio que ainda não tenha entendido.
- Se é o caso...queira a ré explicar para a corte esse seu...poder. Não têm como negá-lo agora. Melhor confessar.
- Confessar...? – Eu respondi, sorrindo para ela. A sua pose triunfante caiu por terra pouco depois. – Você faz parecer que é algo muito...mal...
- V-Você assassinou alguém com isso! Grunf...deixa que eu explico! – Fiquei contente de ver que a minha calma a frustrava. Internamente, eu não estava tão calma assim, mas... – Essa mulher não é bem normal, ela têm a capacidade de criar combustões espontaneamente.
- Combustões? – O juiz pareceu confuso.
- Sim, combustões são queimas de um certo combustível para criar fogo ou explosão. – Roxanne explicou. – Essas combustões “espontâneas” significam que a ré não precisa de combustível inicial nenhum para criar fogo.
- Mas, mas... – A detetive começou, não tendo falado por um tempinho. – Mas isso é impossível! Todo fogo precisa de um combustível para ser criado...
- Certamente, e não sou eu que posso dizer como ela conseguiu esse poder. Em todo o caso, é possível para ela. Isso não parece muito conveniente? Afinal, ela poderia facilmente cometer um assassinato sem nenhum vestígio assim. Sem arma do crime nem nada.
Ouviu-se a corte discutir assuntos em cochichos: foram tantos que quase que não pude ouvir direito as próximas palavras do juiz.
- Sim...realmente parece muito conveniente! Srta. Farfnair...err...têm algo mais a dizer?
Decisões, decisões...hum...o que eu devo fazer? Eu não posso negar meu poder...sim, eu o tinha desde criança. Mas sempre algo me disse para nunca usá-lo na frente de outras pessoas, então meus “pais” nunca devem ter sabido. Eu gostava de queimar coisas que eram inúteis lá de casa, porém. Eu as pegava, levava para um canto mais remoto e as queimava. Os vestígios eram mínimos (meu fogo era bem forte), então eu não achava que corria o risco de ser descoberta ou algo assim. Mas um dia, alguém tirou uma foto de mim queimando uns sapatos velhos. Foi quando todo o distrito Han Zhong descobriu. Me forçaram á ir embora por causa disso. Eu viajei até o distrito Hua Meng depois, e foi onde eu tentei me restaurar na vida. Até...meus pais me abandonaram nisso.
Ah...enfim...foi pouco depois que cheguei no distrito que encontrei o meu marido. Não demoramos para nos casar depois disso. Eu acho (juro que não estou me gabando: sou humilde, lembra?) que eu fui a única que interessou á ele...ele costumava ser bem frio com outras pessoas. Depois do casamento, tivemos nossos dois filhos e eu pude me tranqüilizar na questão de estabilidade de vida, já que ele era chefe dos promotores do distrito e este era um trabalho bem rentável...mas eu nunca fui de fazer nada! Então eu tentei...
- Srta. Farfnair? – Ouvi a voz do juiz meio distante, provavelmente por que eu mesma estava muito perdida em pensamentos. Chacoalhei a cabeça e voltei á realidade. Ajeitei meus pensamentos. Não...eu não teria vergonha de meu poder. Ele era parte de quem eu mesma era. Negá-lo seria negar á mim mesma...
- Meritíssimo, eu confirmo o que a promotoria diz. – Eu finalmente falei, sorrindo para o dito cujo. – Eu posso usar esse poder e com certeza poderia matar alguém com ele deixando poucos vestígios.
- Huhuhuhu... – A promotora riu-se, satisfeita. – Ainda bem que para provar isso eu não tive que mostrar...esta foto. – Ela puxou de sua mesa uma foto e mostrou-a para mim. Mas, que coincidência! Era a mesma foto que tiraram de mim quando eu queimava os sapatos velhos do meu pai! Onde foi que ela conseguiu? Essa foto devia ser tão velha, e só devia existir no distrito em que fora tirada, mais de 1 hora de viajem daqui. Naturalmente, ela poderia ter ido pegar entre a minha detenção e a hora do julgamento, mas me pareceu um tanto...trabalhoso demais, ir para o distrito apenas para pegar uma foto...sem falar que ela saber da existência da foto sem ter me conhecido antes já seria algo surpreendente! Fora á muitos anos atrás e ela parecia um tanto nova ainda...24 anos, certo?
Ops, me perdi no fluxo de pensamentos de novo! Desculpem-me! Agora lá estava o juiz examinando a nova foto. Mais uma evidência contra mim. Mas eu sabia que Roxanne não tinha acabado ainda. Ela sorria e segurava um envelope verde na mão. Por acaso eu conhecia o envelope...
- Huhuhuhuhu...juiz. – Mesmo animada, ela se recusava a chamá-lo de Meritíssimo. Urk. – Eu tenho mais evidências a apresentar.
- Eh...o quê? Você têm mais? – O juiz pareceu surpreso.
- Claro! Nós dissemos que tínhamos evidência pesada, não dissemos? – Na verdade não. Isso foi apenas o que ela deu a entender, mas ela nunca disse claramente. De qualquer forma, ela abriu o envelope e pegou a carta, que também era verde e estava escrita com uma tinta dourada e uma letra meio bruta. Não dava para ver exatamente esses detalhes de longe, mas...eu já sabia. – Esta carta estava na mão da ré quando esta foi presa. É uma carta bem sugestiva dos crimes da ré. Eu vou lê-la para a corte, então por favor prestem atenção.
Todos na sala apuraram os ouvidos e fizeram um mortal silêncio.
“Para: Ana Farfnair
Você pediu uma entrada para o banco, certo? Está destrancada a porta frontal,então venha hoje á noite. Perdida a chave estava, por isso demorei, e peço desculpas.
Sua imposição foi cumprida, agora cumpra sua palavra, pois minha família não merece a Morte. Lhe lembro que prometeste deixá-la a salvo se eu cumprisse com a condição, então estou esperando que você pelo menos diga ‘Aguarda em certo lugar e terás sua família de volta.’. No Banco, que você planeja assaltar, por exemplo, mas é só um exemplo, nada mais que isso.
Saudações.”
- Isso é o que diz a carta. – Acabou Roxanne, radiante.
O caos se instaurou de novo no local. Acho que era natural, infelizmente. Senti uma cutucada em meu ombro: Bachshil queria falar algo.
- M-Mãe! Você recebeu uma carta assim? P-Por que ninguém ficou sabendo!?
- Desculpe, filho... – Nossa, eu poderia ter agüentado o tranco da notícia se espalhar para aquelas pessoas melhor, mas...quando meu próprio filho pareceu desapontado comigo, meu ânimo quase caiu por terra. Era difícil...mas mesmo assim, eu procurei mostrar-me bem para ele. – Não se preocupe, querido: eu nunca fiz nada que aquela carta faz parecer que eu fiz.
- Ah, é mesmo? – Respondeu Roxanne, que ouvira a conversa em meio do caos, e agora se inclinada para frente na mesa, em uma pose bem agressiva. – Eu gostaria de acreditar, mas...oh, é mesmo! Você não pode provar que essas coisas são mentira! Afinal, você realmente foi para o banco no tempo indicado pelo remetente, hein?
- Ahh, sim... – Eu respondi, derrotada.
- Hah! – Roxanne se curvou para o pessoal como uma estrela se curva para uma platéia. – Eu acho que não preciso mais falar muito. O que você acha, juiz?
- Isso...hum... – O juiz devia ter avaliado todos os fatos, e agora olhava para mim. Seu olhar me fez perceber que ele acreditava que eu era culpada. Duplo Urk. – Eu acho que já tenho o suficiente para anunciar o veredicto. Com certeza foi rápido, então...eu preciso perguntar se a defesa têm algo a dizer antes do veredicto.
Claro que eu tinha. Só agora vim perceber o plano de Roxanne. Fosse eu realmente culpada ou não, ela queria ter certeza de apresentar tudo que me incriminasse para que as testemunhas nem precisassem ser interrogadas!
- Meritíssimo...eu gostaria de poder interrogar as testemunhas oculares, sim?
- PROTESTO!! – A promotora bradou. – Já estabelecemos a sua culpa além de qualquer dúvida. No que você se baseia para dizer que precisamos interrogar as testemunhas? O depoimento delas na delegacia foi o suficiente.
- Então, Srta. Farfnair? – O juiz perguntou.
- Promotora Roxanne. De acordo com o que você disse, eu fui encontrada com essa carta na mão, certo?
- Sim, certo. – Ela confirmou, despreocupada.
- E o fogo...você está ciente de que só posso produzi-lo com as mãos, correto?
- S-Sim. – Ela confirmou, mais cautelosa.
- Bem...provavelmente a testemunha me viu “empurrando” a vítima?
- Exato, e aí você tacou fogo na vítima! Não se faça de desen...!
- Mas têm um pequeno erro nisso tudo.
- O-O quê!? – Roxanne recuou um pouco e me lançou um olhar ameaçador logo depois. O juiz se interessou e se curvou sobre a mesa para ouvir melhor.
- Eu vou admitir esse tanto: eu o empurrei. Mas...uma das minhas mãos ainda segurava esta carta. Teria eu lançado fogo sobre a vítima, a carta teria queimado.
- PROTESTO!! A defesa está inventando coisas! Como pode comprovar que estava com a carta na mão?
Eu sorri e me curvei respeitosamente.
- Todas as respostas para essas menores contradições ficariam claras com o interrogatório das testemunhas, certo?
- G...Grrr... – Por algum motivo, ela realmente parecia estar resistindo á chamar as testemunhas. Mordeu o lábio inferior com força. O juiz voltou á sua posição normal e consentiu com a cabeça para mim.
- A ré...digo, a defesa têm razão. Não vejo problema nenhum em prolongar a corte um pouco mais para ouvir o que as importantes testemunhas têm a dizer.
- Tch! OK. – Roxanne concordou com relutância. – Vamos continuar. Desde que não gaste tanto meu tempo, está OK. A promotoria chama a repórter Amber Snap para a corte. Detetive Emily, NÃO DURMA AINDA! – Gritou ela para que Emily, que parecia estar “pescando”, acordasse de vez. E foi o que ela fez, imediatamente. – Podemos precisar de você depois. Fique na ante sala, faz favor.
- Ahwwww... – Ela gemeu, tristonha. De qualquer forma, ela se foi, trocando de lugar com Amber Snap, que era como a foto mostrava, mas ao vivo e a cores ela parecia bem mais radiante ou viva...como eu acho que deve sempre ser. Usava um vestido bem chique vermelho que eu não pude deixar de estranhar, pelo efeito que fazia no contraste com a sua pele escura. Ela também tinha uma câmera nas mãos, daquelas meio grandes e cinzas, que você nem pode segurar com uma mão só. Nossa, eu não sabia que aquele tipo de coisa ainda era fabricado! Agora parecia tão...ultrapassado. E...
- Testemunha, nome e ocupação para a corte. – A voz de Roxanne cortou meus pensamentos.
SNAP!
Fiquei tonta por um momento por causa do flash. A testemunha tinha acabado de tirar uma foto minha sem nenhum aviso prévio.
- Ops! Ehehehe...Meu nome é Amber Snap! – Eu olhei para ela. Seus olhos verdes estavam agora fechados e ela sorria radiante para o juiz. – Eu sou uma repórter. E fotógrafa nas horas vagas. Ou seja: todo o resto do tempo!
- Na hora do assassinato... – O juiz deve ter decidido iniciar as perguntas. — ...a senhorita estava na frente do banco...err...MBOX?
- Sim, Meritíssimo, eu estava! Eu vi tudo!
- Pode nos contar exatamente o que você viu e fez?
- Agora mesmo, Meritíssimo!
- Eu espero que haja algo de novo nesse testemunho... – Eu disse, baixinho, para só meu filho ouvir. Ele segurou a minha mão quando acabei de falar.
TESTEMUNHO
- Eu estava voltando para casa, e o caminho que faço passa pelo banco do distrito.
- Lembro de ter visto uma pessoa em roupas estranhas, difusamente, perto do banco.
- Fiquei curiosa e fui até lá, silenciosamente, com a câmera na mão.
- Eu tirei uma foto bem no momento em que a mulher empurrou uma outra pessoa próxima dela!
- E então eu ouvi um barulho e depois a pessoa começou a pegar fogo...
- Eu não cheguei a chamar a polícia naquele momento, por que estava chocada.
- Mas logo depois veio uma viatura policial e eu disse á eles o que vi. Prenderam-na num instante.
- Entendo. – O juiz falou, ao término do testemunho. – Você têm certeza de tudo que viu? Estava muito escuro na noite anterior.
- Foi difícil ver, mas nada escapa aos olhos de uma repórter como eu! – Ela respondeu, apontando á esmo e animada. – Eu vou atrás de tudo que possa dar uma boa matéria.
- Hum...muito bem. A defesa pode começar o interrogatório.
Vamos ver se eu consigo trabalhar algo disso...
INTERROGATÓRIO
- Eu estava voltando para casa, e o caminho que faço passa pelo banco do distrito.
- Por que você estava voltando para casa tão tarde? – Foi a minha primeira pergunta. A repórter deu um sorriso constrangido e coçou a cabeça.
- Bom...eu tive muito o que fazer. Sabe, nós estamos sempre cheios de notícias, mas nem todas passam a avaliação. É parte de meu trabalho avaliar algumas, e hoje eu fiz hora extra no meu turno de noite. Por isso que eu estava indo para a casa tão tarde.
- Faz sentido. Por favor continue, testemunha. – Eu falei para ela, sorrindo. Não sinceramente, porém: eu esperava conseguir um pouco mais pressionando-a assim. Mas eu não estava desesperada. Não. Nem um pouco.
- Lembro de ter visto uma pessoa em roupas estranhas, difusamente, perto do banco.
- Roupas estranhas? Você conseguiu identificar de longe? – Eu perguntei. Tinha certeza que minhas roupas estavam mesclando-se muito bem com a atmosfera para ser facilmente vista.
- Não muito bem... – Ela admitiu, rindo-se. – Eu apenas notei um movimento. Também tinha um ponto marrom diferente dos outros. Foi aí que me bateu a curiosidade e me aproximei. A batina da pessoa eu só pude ver depois que o fogo clareou o lugar.
- Heh...então era uma batina, né? – Disse Roxanne, triunfante novamente. – Aconteceria de por acaso ser aquela ali? – Ela apontou pra mim.
- Com certeza é essa.
- Então acabamos de conseguir uma confirmação grande de que ela viu a ré cometendo o crime! Continue, testemu...
SNAP!
- E-Ei! – Roxanne pareceu irritada quando a testemunha tirou uma foto dela. – Que idéia é essa, de tirar foto de pessoas aleatórias??
- Desculpe, senhora, mas eu procuro sempre tirar fotos de tudo e... – A testemunha começou, mas foi interrompida.
- QUEM É A SENHORA AQUI, HEIN!? Diga pelo menos “Se – nho – ri – ta”!Que falta de respeito! Humph! – Ela cruzou os braços, bufando.
A testemunha não entendeu nada. Eu não fazia idéia de que cara eu estava fazendo agora.
- Enfim... – O juiz continuou, depois de um tempo. – Continue, testemunha.
- Fiquei curiosa e fui até lá, silenciosamente, com a câmera na mão.
- Quando você se aproximou da cena, só havia ainda uma pessoa lá? – Eu perguntei, querendo saber quando ela chegara na cena do crime.
- Creio que sim. – Ela respondeu, animada. – Não vi ninguém mais quando eu me aproximei. Fiquei á uma certa distância por que...bem...eu não tinha certeza do que ou quem seria, então eu estava com um pouco de medo...só depois que ouvi alguém se aproximar da primeira pessoa na cena.
Muito bem. Não tinha conseguido muito daí, mas qualquer informação seria importante. Esperei que ela continuasse com o testemunho.
- Eu tirei uma foto bem no momento em que a mulher empurrou uma outra pessoa próxima dela!
Eu estava para perguntar da foto quanto Roxanne fez a pergunta por mim.
- Esta foto, testemunha...ela está com você agora?
- Hum? Ah, sim, claro! Essa máquina aqui pode parecer velha, mas na verdade é bem avançada! – Gabou-se ela enquanto mostrava a câmera de todos os ângulos para nós. – Deixe-me imprimir a imagem aqui...huh...pronto. Aqui está.
Roxanne a tomou na mão e sorriu. Passou para mim. A foto devia ter tido um flash, por que tudo se mostrava bem nítido ali. Me reconheci na foto. Era no exato momento em que eu empurrava o Will, cujo rosto tinha sido meio cortado na foto. Provavelmente o nervosismo da repórter tirou a foto de foco por um momento. Mas eu estava bem nítida (e bonita!) na imagem. Meus olhos estavam fechados e minha boca estava bem aberta: era no exato momento em que eu gritara. Também dava para ver os portões de vidro do banco e, conseqüentemente, a parte de dentro alcançável aos olhos. Não parecia haver ninguém lá, só haviam estátuas e outros artefatos que enfeitavam por dentro o banco. É, o pessoal do distrito talvez gostasse de decorações gritantes, né? Enfim, não havia mais nada interessante na foto, no chão, nos seus arredores, etc. Passeia para o juiz, que a examinou cuidadosamente.
- Hum...até aqui, não parece que a vítima pegou fogo... – Ele falou, depois de uma profunda análise. – O que a testemunha diz sobre isso?
- Foi no instante que eu tinha tirado a foto e olhei por cima da câmera que notei que ele já tinha pegado fogo. – A testemunha disse, agora em uma pose pensativa. – Então eu acho que foi no segundo logo após este do qual tirei foto. Não vejo como poderia ser diferente.
- Parece bem certo. – Respondeu o juiz, consentindo com a cabeça. – Dessa forma...parece que não havia mais ninguém além da ré que pudesse cometer o crime. Ninguém!
Senti a mão de meu filho tremer. Encarei a promotora, que parecia bem satisfeita.
- Já recebeu o suficiente para admitir a culpa, Srta. Farfnair? – Ela perguntou, esnobe. – Ou melhor dizendo: Srta. Culpada!
Isso era mal. Eu tinha que pensar. E rápido! Eu tinha que pensar no caso...de um outro ângulo.
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