Turn the Bells into Snow
1 Capítulo 1 - A Little Snowstorm
Notas iniciais
Espero que vocês gostem e desculpem qualquer erro :33
Capítulo I
— Manson
A chuva estava fraca, mas o suficiente para mudar a cor do céu para um cinza morto. As gotas enchiam o vidro da janela, tornando impossível para Mason observar os pinheiros.
- Se vão me dar o carro — disse ele -, não seria melhor se eu fosse dirigindo?
- Não queremos que você nos atrase. — Respondeu Thomas. — Além disso, terá muito tempo para dirigir o carro depois que partirmos.
Thomas Moore era o pai de Mason, um homem sério, que só falava quando sua opinião era pedida e gostava de observar as pessoas. O rosto era jovem apesar dos seus quarenta e um anos, não tinha rugas e os olhos eram de um castanho tão profundo quanto âmbar. Possuía mãos e braços fortes, e uma barba considerável. Ao contrário dos garotos que não gostam muito dos pais, Mason conseguia ver o que sua mãe via em Thomas.
- Não seja tão duro com ele, Thomas. — Dessa vez quem falou foi sua mãe. Elsie. — Você já tem sua carteira, Mason. — Ela se virou para olhar Mason. — E além do mais, é como seu pai diz. Vai ter muito tempo para dirigir a partir de hoje.
Mason se limitou a se confortar no banco de trás. Elsie Moore não era uma mulher que gostasse de ser contestada; ele aprendera isso após dezoito anos de convivência. Ela tinha um rosto gentil e uma voz angelical, mas podia transformar essa voz num trovão quando estava com raiva. O cabelo dela estava amarrado em um longo e castanho rabo de cavalo firmado por uma borracha verde-musgo.
O som ambiente do carro era uma música de uma banda inglesa que Mason não reconhecia.
If you tell me to jump then I'll die
In my dreams I'm there
I always hoped that I'd learn how to fly
In my dreams I'm there
You can tie my hands to the walls
But you can't tie my dreams to this place
I might fall like a rock from your heart
But you won't see me fall from grace
Ele pegou os fones de ouvido que estavam no bolso. Eram sua única maneira de tentar fugir da realidade. Estavam extremamente emaranhados; como sempre acontecia quando Mason os colocava no bolso. Ele demorou alguns segundos para desenrola-los e colocar por dentro da camisa.
Olhou para a janela e viu que a Estrada dos Pinheiros — como Mason havia batizado àquele lugar — havia ficado para trás, dando lugar à uma grande avenida cercada por altos muros de concreto. Eles podiam ao menos ter pintado esses muros, pensou Mason. Não era possível ver nada sobre dos muros, não havia ali nenhuma estrutura alta o suficiente para aparecer, então Mason pensou em três possibilidades: Ou aquela era uma propriedade particular, um terreno só esperando uma fundação; ou era um condomínio de casas nem tão altas; ou a chuva e as gotas que caiam freneticamente no vidro tinham tornado impossível de ver qualquer coisa.
Ele desistiu olhar através da janela, e decidiu tentar pensar em outras coisas. A música dos fones, pelo que ele percebia, era da mesma banda da que a do som do carro, mas no celular constava "Artista desconhecido". Ele fechou os olhos e mentalizou uma cena na cabeça. Sozinho em casa, com o som alto, dançando. Seria perfeito há uns anos atrás, quando Mason sonhava com o dia que teria um lugar só para si mesmo. Mas de uns tempos pra cá, aquela cena parecia solitária. Morar sozinho para Mason agora era sinônimo de solidão, e ele não queria ficar sozinho. Seus pais viajariam para o sul. "Para o Brasil'', eles disseram, mas Mason preferiu ficar ali. Adorava o clima frio do Alasca, apesar de que as vezes ficava frio demais. A maioria dos carros possuía ar condicionado para deixar o ambiente mais frio, mas o carro deles tinha um sistema de aquecimento.
Depois, pensou em Sharron. Sua melhor amiga havia viajado para Montreal, tinha ido visitar um parente; mas isso fora há duas semanas, e ela provavelmente ficaria mais alguns dias fora. Mason queria abraçá-la, beijá-la na testa e lhe dar um pouco de "Sorvete-de-Gelo", como eles chamavam quando colocavam um pouco de neve num copo e comiam com uma colher.
- Se meu estômago congelar — ela dizia frequentemente -, a culpa é sua.
Mas em centenas de Sorvetes-de-Gelo, o estômago de Sharron nunca havia congelado, nem seu carinho por Mason. Eles se conheceram no primeiro ano do colegial, quando Mason tinha catorze anos, e desde então, nunca tinham se separado por tanto tempo. Até tinham ido juntos em uma viagem para o México com a família dela.
Sharron chegaria em poucos dias, então Mason olhou para a janela. Percebeu que a chuva havia parado, e os pingos que estavam na janela escorriam lentamente para baixo, deixando um rastro pelo vidro. Ele abaixou o vidro e sentiu o ar fresco tomar conta do carro. A rua brilhava, o sol se erguia no céu, cercado por algumas nuvens que ameaçavam cobrí-lo novamente, mas Mason sorriu. Agora ele podia ver grandes montanhas com picos gelados ao fundo, com grandes pinheiros verdes e férteis crescendo em sua base. Estamos no viaduto agora, ele percebeu. O vento ali era forte, e o cabelo de Mason esvoaçava fortemente, uma vez ou outra atingia seus olhos e alguns ficavam presos em sua boca, mas ele não ligou. Depois eu arrumo, ele pensou. As nuvens se dispersaram e o sol ficou mais forte. Ele tirou os fones de ouvido para ouvir o barulho do vento, e ficou ali por alguns segundos até sentir algo pressionando sua mandíbula. Tirou a cabeça da janela num impulso.
- Feche essa janela. — A voz era de Thomas. — Estamos chegando.
E realmente estava. O viaduto era um semicírculo que dava numa pista dupla. O Aeroporto estava diante deles. Um grande retângulo de concreto e vidro transparente deitado que possuía outro retângulo de vidro e concreto em pé, cortando-lhe. Em cima, estava escrito: AEROPORTO INTERNACIONAL TED STEVENS. A entrada era um grande portão aberto entre dois muros de mármore, que dava numa pista cercada por um gigante estacionamento para carros e motos. Thomas colocou o carro em uma vaga fácil, meio que subestimando o filho, e desceu do carro.
- Ajude sua mãe com as malas. — Disse. — Eu vou fazer o check in.
Mason e Elsie desceram do carro, um Ford Fusion de 2013; era um carro grande, e tinha um porta malas grande o suficiente para caber as malas da família. Mason pegou uma mais pesada e colocou nas costas, sustentada por duas alças que pendiam no ombro. Pegou outra de carrinho na mão direita e outra grande de mão na esquerda. Elsie se limitou à uma mala de couro de carrinho e uma pequena bolsa de mão.
O pai já estava bem na frente, Thomas Moore andava rápido demais; então Mason puxou conversa.
- Venha me visitar de vez em quando. — Disse limpando o rosto com as costas da mão cerrada. — Do tipo uma vez a cada três anos.
- Você quer mesmo ficar aqui, Mason? — A voz da mãe estava angelical naquele momento, o que o deixava mais aliviado.
- Eu cresci em Anchorage, não faria sentido para mim deixar esta cidade agora. E além do mais, tenho Sharron.
- Ah, Sharron... Sim... — Ela parecia estar tomando coragem para falar algo. — Você gosta dela?
- Eu... O que? Não! — Mason gaguejou e Elsie riu. Ela provavelmente não tinha acreditado no "Não" desajeitado, mas não se manifestou. — Ela é só minha amiga. Só isso.
- Sei... É só que as vezes vocês parecem muito íntimos. — Ela se virou para frente. — E você nunca levou uma namorada lá em casa.
- Bem, nós somos íntimos — Mason tomou cuidado para não gaguejar -, ela me conta várias coisas e eu também conto várias coisas pra ela. E eu não levei ninguém lá em casa por que não achei ninguém interessante ainda.
- Eu sei que você nunca se sentiu a vontade para conversar conosco... Comigo ou com sei pai eu quero dizer.
- Conversar com aquele velho? — Mason disse num tom de escárnio. — Isso é possível? — Ele se permitiu dar um sorriso.
- Ele pode parecer duro e superestimado as vezes, mas é uma boa pessoa.
- Eu sei, mãe. Eu sei o que você viu nele. — Mason perdeu o controle e deu uma risada não planejada. — Eu amo aquele homem, e sei que ele nos ama também. Mas olhe, estamos chegando.
A entrada para o hall do Ted Stevens ficava atrás de grandes pilastras de mármore branco, as portas automáticas eram de vidro fumê e não tinham nenhuma propaganda. Eles cruzaram as portas, desviando de uma mulher com um carrinho de bebê e entraram no prédio.
Por dentro era ainda maior. Três andares grandes andares compunham o Aeroporto Ted Stevens. Eram interligados por escadas rolantes. Mais pilastras de mármore, dessa vez maiores ainda sustentavam o teto e os outros andares. Nelas haviam TV's que mostravam os horários e detalhes de cada vôo. O hall central era um grande espaço, com apenas alguns bancos colocados em lugares, onde centenas de pessoas circulavam. Mais mulheres com bebês, crianças das mais diversas idades, grupos de idosos, escolas e até mesmo famílias em escursões, casais indo para luas de mel, enfim, todo o tipo de pessoa. Os caixas ficavam no fundo do hall, cada um tinha o nome da empresa correspondente em grandes letras de neon estampado acima.
Mason pôde ver uma menino atirado no chão, chorando e gritando por que queria algo da mãe, um casal se beijando e duas garotas discutindo. Mas tirou tudo isso da mente quando ouviu a voz do pai.
- Bem, nosso vôo já está pronto. — Ele disse entregando algo para Elsie. — Temos que ir agora.
Mason abraçou o pai e a mãe, e eles lhe deram ambos beijos na testa. Antes de sair, seu pai lhe deu as chaves do carro e do apartamento em que moravam na rua Tairr Harris e um pouco de dinheiro para que ele não precisasse sacar o resto que eles haviam posto em sua conta por enquanto.
Pelo que sua mãe havia lhe contado na noite anterior, o avião faria uma escala em Seattle antes de partir definitivamente para o Brasil. Ele viu Thomas e Elsie sair do Aeroporto para embarcar no avião, e viu algumas pessoas chegando de outro avião também. Uma mulher loira e aparentemente rica, um cara metido à galã de filme, e muitos outros, mas o que mais lhe chamou atenção foi um garoto que aparentemente tinha sua idade. Os cabelos dele eram negros e cacheados. Vinham até mais ou menos o fim do pescoço. Os olhos eram castanho-escuro e a pele branca como neve. O garoto era esguio, mas ao mesmo tempo musculoso. Vestia uma camisa preta, com uma grande frase estampada na frente, cercada por duas galhadas de veado: "NOSSA É A FÚRIA". Mason não entendeu o que aquilo queria dizer, e nem tentou. Ele estava acompanhado do pai, um homem grande e forte, que Mason não prestou muita atenção.
Ele subiu para o primeiro piso numa escada rolante para ver o avião decolar. Não era uma cena muito comum, já que nas maioria das poucas vezes que Mason ia para o Aeroporto, ele estava no avião.
A grande máquina branca voadora não demorou muito para alcançar os céus e sumir dentre as nuvens. Mason sentiu uma sensação de solidão no peito, a mesma que pensou que ia sentir. Estou por conta própria agora. Não vou morrer no primeiro dia sozinho, pensou. Ele decidiu que era hora de ir, mas antes, passou numa pequena doceria no segundo piso do aeropoto e comprou uma torta de morango para comer quando chegasse em casa. O jantar está pronto, pensou quando pagou à mulher do caixa.
O Fusion continuava no mesmo lugar em que seu pai havia deixado. Mason girou as chaves e as portas destravaram. Quando sentou no banco do motorista, sentiu uma ótima sensação.
- Finalmente. — Disse em voz alta sorrindo. — Meu.
Dirigiu direto para casa, passou pelo viaduto com as montanhas ao fundo, na "Rua dos Muros", como ele havia chamado a avenida e na Estrada dos Pinheiros novamente. Passou por alguns bairros residenciais, e estava agora atravessando o centro da cidade.
O centro de Anchorage tinha crescido bastante, agora, prédios e arranha-céus se erguiam na avenida principal, com imensas fotos e cartazes de garotas-propaganda se exibindo, divulgando perfumes ou lojas de grife; havia mais pessoas ali do que no aeroporto. Pessoas circulando, pessoas falando ao telefone, fazendo tudo o que a vida delas permitia numa vida normal. O sinal ficou vermelho, e os carros passaram. Mason virou uma rua de puro comércio, então tinha de dirigir devagar para não atropelar as pessoas que as vezes passavam correndo, sem olhar para os lados.
Ele olhou para o lado e viu aquela camisa preta com a frase "NOSSA É A FÚRIA", o garoto provavelmente estava indo pra casa, carregava uma mala grande de carrinho nas mãos. Mason buzinou para ele e gritou da janela:
- Ei! Você! — Acenou. — Você da blusa preta e da mala!
O garoto virou, e Mason sorriu. Era o rapaz que ele vira no Aeroporto.
- Venha até aqui. — Disse.
Meio que confuso, ele veio. Desviando de algumas pessoas, e olhando para os lados, ao invés do que a maioria fazia, ele chegou ao fusion, e se curvou diante da janela. Mason disse:
- Quer uma carona?
- Er... — Ele parecia desconfiado. — Eu conheço você?
- Não. Mas eu te vi no Ted Stevens, chegando de algum lugar que você pode me contar depois. Vamos lá, aceite a carona, não vou te sequestrar nem nada do tipo.
- Bem... Tudo bem então — O garoto sorriu e deu a volta para entrar do outro lado.
- Então — disse Mason enquanto o rapaz se acomodava no banco. -, onde você mora?
Ele pegou um pedaço de papel amassado, desdobrou e disse:
- Rua Tairr Harris.
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