Turma de Malhação - 1ª Temporada
5 Capítulo 5
Notas iniciais
POV Sophy
Feriado, praia, amigos, calor, sol! Estava tudo uma beleza, exceto pelos dois últimos. É realmente difícil viver com tanto calor, pelo amor! Mesmo assim, praia não combina com outro clima. De qualquer forma, eu tenho que me preocupar com o sol porque basta apenas um momento de descuido para ficar parecendo um camarão ou uma lagosta assada de tão vermelha. Por isso tive que ficar apressando os meus amigos absurdamente lerdos para que o acampamento saísse antes que eu fosse confundida com o jantar.
Sofremos para montar a nossa barraca, mas o trabalho ficou fantástico. Modéstia a parte, muito melhor do que o que o Murilo fez, e olha que ele se diz profissional. Metido!
Como eu já imaginava, os garotos pegaram muitas ondas enquanto a Ju e Bia ficavam brincando de peixe na grelha, ou seja, tomando sol. Eu estava lendo Orgulho e Preconceito, da Jane Austen, de novo, mas ninguém se importou. Principalmente o Yuri quando saiu correndo do mar e me molhou inteira com um abraço daqueles que só ele sabe dar. Ele fica enorme quando abraça as pessoas, apesar de na vida real ser pouca coisa mais alto do que eu. Eu estava morrendo de calor, mas não podia dar o gostinho para aquele povo de parecer que eu tinha gostado de tudo isso, então sai correndo tentando bater no Yuri. Mas, como eu disse, eu não estava realmente com raiva então ele passou por essa ileso.
Fiquei até com pena da Julia que bobamente pensou que nada aconteceria com ela. Eu e a Bia apenas nos olhamos quando vimos o Murilo indo na direção dela. O Yuri ainda tentou ir para lá correndo, mas nós seguramos ele para que não estragasse o momento. Deu certo! O Murilo não bobeou dessa vez e jogou a Julia no mar com tudo! Do jeito que ela é com aquele cabelo eu não quero nem pensar na raiva que ela sentiu. Tudo bem que antes disso ele a pegou no colo, então pode ser que a raiva tenha sido dissolvida.
O luau de noite foi bem legal, apesar do Murilo ter esquecido o violão. Ele realmente toca bem e o Yuri pode cantar. O mesmo eu não posso dizer da Julia, que se arriscou em um dueto-declaração-de-amor com o Murilo. Desafinado era pouco, mas eu não deixei de perceber que a Bia ficou com os olhos marejados, que os da Ju brilhavam mais do que as estrelas do céu e que o Murilo estava com uma baita cara de safado. Sério, queria entender o que esse cara quer com a minha amiga. Eles só se olham e ninguém faz nada, mas é óbvio que algo se passa pelas cabeças de vento daqueles dois. A Bia, para o meu espanto, está se saindo bem apaixonada. Até demais. Da Julia eu não posso falar nada, porque além de eu ter certeza dos sentimentos dela pelo Murilo, aquela sempre foi a música favorita dela. Quem diria que seria uma do Lulu Santos, que eu acho meio brega apesar de bonita, mas tinha algo a ver com os pais dela ou coisa assim.
Quando eu penso que sou a única achando tudo aquilo um mico total vejo o Yuri se acabando de rir atrás de uma árvore. Claro que como ele é muito escandaloso teve que dar um jeito de tapar a maior parte da boca com a mão esquerda fechada em punho e a direita quase empurrando a outra goela abaixo. Era ainda mais bizarro que a cena dos apaixonados, o que me fez perceber que, sem trocadilhos, “eu estou cercada por idiotas”. Mas bem que eles são divertidos.
Quando eu vi que o Yuri estava a ponto de se afogar com as duas mãos fiz uma cara tão feia para ele que o riso sumiu na hora. Por sorte a música já estava no final e ele voltou sem dar muita pinta do que estava se passando. Tudo bem que com a Julia perdida no Murilo daquele jeito, e ele nela – diga-se de passagem – além da Bia estar mais preocupada que alguém notasse alguma lágrima escorrendo pelo seu rosto, ninguém iria perceber nem que ele aparecesse vestido de palhaço.
Apesar de eu ser contra ser a primeira a dormir nessas ocasiões, afinal nunca se sabe o que as pessoas vão aprontar quando você não está atento, eu estava tão cansada que nem sei quem foi que dormiu primeiro. Não foi com inteira surpresa que eu acordei no meio da noite com um raio que caiu muito perto seguido por um estrondo muito, mas muito alto. Surpresa mesmo foi quando a Bia, com aquela pose toda, começou a literalmente chorar de medo. Logo deu uma crise de soluço na garota e a coisa realmente começou a ficar assustadora. A Julia ainda estava dormindo, mas eu já peguei um pouco de água na garrafa e o pote de açúcar, misturei e dei para a Bia se acalmar. Abracei a minha amiga e ela começou a se acalmar, mas ainda não tinha condição de soltá-la.
Eu também estava com um pouco de medo. Não por causa dos trovões ou nada parecido, mas sim porque estávamos dentro de uma barraca na praia, perto de árvores, no meio de uma tempestade. Era o lugar perfeito para uma tragédia natural, além dos cenários de filme de terror ou de serial killers. O melhor era não pensar nisso agora.
Um grito agudo cortou a noite no intervalo de um trovão e outro, seguido de uma chuva de palavrões gritados por uma voz masculina. Nessa hora é claro que a Julia acordou porque quem falava os impropérios era o Murilo.
– Que bosta Murilo! Você não montou essa porcaria direito! Olha ai cara! Eu estou todo molhado e não quero virar para raio aqui! Que merda! – Gritou descontrolado o Yuri.
– Pô, meu! Eu não tenho culpa da quantidade de água que está caindo, cara! É uma bosta mesmo! Eu já estou ensopado, saco!
– Mas a barraca das meninas está inteira! Bem que a Sophy disse que você não estava fazendo direito.
Não escutei nenhum barulho depois disso, o que me deixou mais atenta e a Julia com os olhos arregalados. Aposto que ela já estava pronta para sair com um guarda-chuva (se tivéssemos um) e com uma toalha para não deixar ele ficar doente.
– Julia, Sophy, Bia, vocês estão acordadas? – perguntou o Murilo baixinho. Os olhos da Julia voltaram ao tamanho normal e ela já se mexia para abrir a barraca.
– Eu não quero nem saber quem está acordado e quem não está. Estou entrando e se tiver alguém pelado eu realmente não vou me importar. – Gritou o Yuri.
Com essa nem todo o medo do mundo conseguiu conter a gargalhada da Bia, que tinha parado de chorar. A Julia nem tinha conseguido chegar perto do zíper e o Yuri já empurrava o Murilo para entrar primeiro. Eu já fui tirando umas toalhas da mala quando vi que eles estavam encharcando a barraca inteira, mas por sorte nenhum deles chegou perto da minha “cama”, que era a mais distante. A nossa barraca era bem grande, grande mesmo, mas não estava preparada para cinco pessoas, mais a comida e três malas grandes dentro dela. De qualquer forma ela se manteve inteira, que era o que importava.
O Murilo, já mais seco, sentou no colchão inflável da Julia e o Yuri entre o meu e o da Bia. Ele notou que a amiga tinha chorado, mas apenas a abraçou normalmente e não disse nada. A Julia estava perdida olhando para o Murilo, eu tinha que lembrar de não deixar aquela menina perto dele com sono antes que ela ficasse morrendo de vergonha.
– Agora dá para um de vocês me explicar o que aconteceu lá fora? – perguntei.
– Nada de mais. – Disse o Murilo – A barraca apenas desmontou por causa do peso da água. Quando parar de chover eu dou um jeito nisso.
– Desmontou nada! – Retrucou o Yuri – Arrebentou mesmo. Aquele ferrinho que fica no centro dela e mantém a coisa toda estável bateu na minha cabeça! A nossa barraca não é igual a delas, Murilo! E eu realmente duvido que você consiga montar aquela coisa. Mesmo que consiga, prefiro dormir aqui com as meninas.
– Bom, a comida ficou aqui e está tudo bem. Mas e as malas de vocês? Perguntei.
– Merda, a minha mochila! – rugiu o Murilo.
– Me diz que você guardou o violão aqui, Bia... – disse o Yuri aflito.
– Sim, sim. Está aqui, Yuri, mas agora eu preciso dormir. Respondeu a Bia.
Todos concordamos e então a zoação veio do lugar onde menos esperávamos, da Julia:
– Poxa, Murilo. Eu não acredito que você não sabe nem armar uma barraca!
Dessa vez não teve quem segurasse a risada estrondosa do Yuri, em seguida a da Bia, e só essas duas já formavam uma sinfonia estranhamente completa. Mas eu também não conseguia me segurar de tanto rir e o queixo do Murilo bateu no chão e ficou. A Julia ficou em vinte tons de vermelho e roxo e ficava dizendo que não foi isso que ela quis dizer, que era efeito do sono e qualquer baboseira que ninguém ouvia. Eu já ia puxar a minha amiga para fazer ela calar a boca e parar de piorar a sua situação, enquanto a Bia e o Yuri ainda nem conseguiam abrir os olhos de tanto rir, mas foi quando o Murilo também acordou do seu estado de choque.
– Eu vou te mostrar como eu armo uma barraca Jujubinha, você vai ver. – Disse ele com uma voz rouca que deveria ser sensual para ele.
Dessa vez todos nós paramos de rir e ficamos de queixo caído, inclusive a Julia, que logo foi prensada no colchão pelo corpo do Murilo. Todos paramos de respirar enquanto eles se olhavam e eu posso jurar que vi o Yuri cruzando os dedos. Mas então o Murilo soluçou. Isso mesmo, soluçou. Todo o feitiço do momento foi quebrado e todos nós voltamos a rir loucamente, menos a Julia que ainda não respirava e já estava ficando azul. Quando a Bia gritou que ele realmente não sabia armar uma barraca ele saiu de cima dela e ela voltou a respirar, mas olhava para todos os lugares da barraca, menos para onde o Murilo estava.
Naquela noite os meninos ainda meio molhados dormiram no chão, mas teríamos que montar algo para a noite seguinte. Realmente essa foi uma “ótima” forma de começar o sábado.
Acordei cedo com alguma família com crianças chegando à praia. Olhando para o sol, mesmo sendo apenas sete horas da manhã, não dava para imaginar a tempestade que caiu na noite anterior. A única coisa que denunciava isso eram a quantidade de folhas, gravetos e coisas assim espalhadas pela areia e o mar mais revolto. Quando eu levantei o pessoal também já estava acordando e logo a Bia saiu para me ajudar com o café da manhã.
Hoje parecia que todo mundo compartilhava o meu mau humor matinal, ou simplesmente que ninguém queria falar nada. Comemos em silêncio e o Murilo saiu para lavar o rosto na água do mar. O Yuri foi jogar o nosso lixo fora e eu, a Julia e a Bia fomos nos trocar na barraca.
– Cara, o que foi aquilo com o Murilo ontem a noite? – começou a Bia.
– Eu também não entendi nada. Que coisa doida. Também nem sei porque eu falei aquilo. Foi tudo muuuuito estranho! Ai que vergonha! Será que ele não vai mais querer falar comigo? – tagarelou a Julia e a Bia ficou me olhando esperando uma resposta.
– Se eu bem conheço o Murilo – comecei – ele vai fingir que nada aconteceu e hoje o dia vai correr normal. Ele deve ficar com o humor péssimo por conta do acidente com a barraca, ainda mais se ele não conseguir arrumá-la, mas nada demais. As pessoas falam besteira e fazem besteira quando estão com sono. Relaxa, Ju!
– É, eu vou tentar – ela disse e fomos interrompidas pelo Yuri querendo entrar na barraca. Gritamos para ele sair e terminamos de vestir os biquínis.
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