Turma De 2013
7 Capítulo 7 + Epílogo
Notas iniciais
Os cinco sobreviventes ainda estavam na cabana, Kim estava sentada na mesa, onde lia horrorizada as matérias sobre as mortes que aconteceram ali, quanto mais ela lia e via as fotos das pessoas mortas, mais ela se sentia mal, o que fez com que ela arremessasse os jornais para longe. Carol andava pela cabana, analisando os poucos cômodos e percebendo que eles não eram tão abandonados quanto pareciam ser. Kevin estava deitado na cama do quarto, sua perna já não sangrava, mas ainda doía muito. Pricila pensava em como ela iria sair dali, sendo que agora, a única ajuda que esperavam, era na verdade seu pior inimigo, ou o segundo pior, já que ainda havia aquela criatura lá fora. Beatriz estava encostada na parede olhando através da única janela que havia na cozinha, mas sua mente estava cheia das imagens vistas na caverna.
—Qual o ponto fraco dele?- Beatriz se pronunciou, quebrando o silêncio.
—Eu não sei- Pricila, que era a única que conhecia a lenda, respondeu, mas após pensar um pouco voltou a falar- Acho que ele não tem um ponto fraco
Beatriz suspirou, fechou os punhos e os bateu contra a parede.
—Deve haver, qualquer lenda tem, essa deve ter também- agora sua expressão era uma mistura de raiva e desespero.
—Você não está pensando em enfrentar essa coisa, não é?- Carol falou em tom de reprovação, mas recebeu um riso sem humor de Beatriz como resposta.
—Ainda estamos na floresta e vamos ter que sair daqui de algum jeito, e se sairmos daqui sem um plano, o óbvio vai acontecer- Beatriz disse
—O problema é que não existe nada que possamos usar contra essa aberração – Kim já estava exasperada- A única coisa que sabemos é que ele não pode sair da mata.
—Vocês acreditam nisso?- Beatriz riu sem humor novamente- Não é uma maldição, nem nada do tipo, é uma criatura canibal que pode sair daqui e nos perseguir até todos nós estarmos mortos.- Beatriz já estava gritando, não acreditava no quanto os amigos podiam ser estúpidos
—Se não é uma maldição como você quer que tenha um ponto fraco?- Pricila gritou também, não entendia onde Beatriz queria chegar com aquela conversa.
—Ele está vivo, e tudo o que está vivo pode morrer- Beatriz disse enquanto voltava a olhar pela janela, ela sabia que eles iriam morrer, mas não sem lutar.
Um barulho vindo do lado de fora fez com que todos ficassem atentos aos passos rápidos que se aproximavam. Num impulso as garotas foram até o quarto, onde avisaram a Kev, que alguém se aproximava, o garoto entrou debaixo da cama para se esconder, Kim entrou no banheiro e Beatriz, Pricila e Carol entraram no armário do quarto, deixando uma fresta da porta aberta, por onde observaram a criatura atravessar a porta do quarto carregando o corpo de Gisele. Pricila e Carol desviaram o olhar, mas Beatriz permaneceu olhando, já havia visto os outros corpos na caverna e ver que Gisele também estava morta não era uma grande surpresa.
A criatura puxou um tapete que ficava ao lado da cama e abaixo dele havia uma espécie de porta, que quando ele puxou, revelou-se ser a entrada de um porão, onde ele jogou o corpo sem vida de Gisele, em seguida ele pegou um molho de chaves do bolso do casaco e seguiu até a cozinha, onde abriu um armário e tirou um vidro cheio de dedos, ele pegou um e foi até o quarto, sentou na cama e levou o dedo até a boca, as três garotas desviaram o olhar, sentiam fortes náuseas, Kev não via a cena, mas ver o par de botas pretas tão próximas do seu rosto, o deixava extremamente nervoso.
A criatura esbarrou na garrafa de água deixada no criado mudo por Kev. A garrafa caiu e sua tampa se soltou da mesma, fazendo com que o líquido escorresse e tocasse o rosto de Kev, a criatura abaixou-se para juntar a garrafa, a mão asquerosa da criatura se aproximava do rosto do garoto, as garras que mais pareciam facas, estavam a centímetros do seu rosto. O garoto suava frio e sua respiração estava ficando pesada, porém, ao tocar a água no chão, a criatura levantou a mão rapidamente e gritou de dor, a aberração saiu correndo do quarto e em seguida da cabana, ao certifica-se de que a criatura havia realmente ido embora, as meninas abriram a porta do armário, no mesmo momento que Kim abriu a porta do banheiro e Kev saiu de baixo da cama, eles trocaram olhares e perceberam que haviam concluído a mesma coisa, a criatura tinha um ponto fraco e o clima chuvoso e úmido daquela estação colaborava para que eles permanecessem vivos.
—Como nós não percebemos antes?- Carol falou, animada.- Os ataques sempre aconteciam quando não estava chovendo
—Acho que nós temos uma chance- Pricila falou sorrindo, no entanto, batidas , que pareciam vir do porão, fez com que todos ficassem assustados, poderia alguém ainda estar vivo lá em baixo? A confirmação veio junto com gritos de uma voz já conhecida por todos
—Mateus!- Eles falaram em uníssono, e logo, todos já estavam abrindo a porta que levava ao porão.
—Eu vou- Beatriz falou- Vocês ficam aqui, se aquela coisa aparecer, se escondam- após dizer isso, ela começou a descer por uma pequena escada, o cheiro lá em baixo era forte, semelhante ao da caverna, a escuridão impedia que Beatriz enxergasse alguma coisa, porém, ela tinha a certeza de que se houvesse luz ali, ela poderia enxergar os corpos jogados. O celular de Beatriz, ainda estava no bolso da calça dela, ela poderia usar ele para iluminar, mas, será mesmo que ela queria ver o que estava ali? Sem escolha, Beatriz pegou o celular e iluminou o caminho á sua frente; Machados, facas, arames e outros objetos, com os quais Beatriz imaginava as piores formas de tortura, estavam lá, cobertos por sangue. Beatriz sabia que se olhasse para o lado, veria os corpos sem vida, desfigurados e mutilados, mas não teve coragem, sua cabeça estava doendo, e ela começava a sentir náuseas, não aguentava mais ficar ali, sua vontade era sair correndo, o medo, estava a dominando, mas antes que pudesse sair, Beatriz ouviu a voz de Mateus e ao iluminar para o lado de onde vinha a voz, ela se deparou com um Mateus assustado, escondido atrás de algumas caixas, ele tinha alguns machucados pelo rosto, e um corte no braço, mas ele estava vivo.
— Como? Como você conseguiu sobreviver?- Kim perguntou, quando Beatriz e Mateus saíram do porão
—Quando estávamos na trilha, ele me pegou, e tentou me matar, mas, só conseguiu fazer um corte do meu braço, eu saí correndo, mas aquela coisa era rápida demais, porém, quando a chuva começou- ele fez uma pausa- Eu percebi que a água era o ponto fraco dele, e então corri em direção ao rio, que fica ao leste, entretanto, antes que eu chegasse lá, a chuva parou e ele me pegou. Ele me trouxe para cá, me jogou aqui e saiu, então eu me escondi, e bem, eu estou aqui... Eu pensei que vocês tivessem conseguido fugir, o motorista voltou?- Ele perguntou e Carol se pôs a explicar a história
— Então aquela criatura é humana, e é filho do motorista?- Mateus perguntou incrédulo, ao ouvir a história
—Ele possui uma doença genética, que deixa a pele extremamente sensível e deformada- Beatriz explicou- E sim, o motorista é o pai dele, e aparentemente nos trouxe aqui com um único objetivo...
—Alimentar aquela aberração- Carol completou
—Mateus, você sabe em qual direção o rio fica?- Beatriz perguntou e Mateus confirmou- Ótimo, assim que começar a chover nós saímos, vocês ainda estão com as armas, certo?- Beatriz perguntou e Pricila levantou a arma e Kim fez o mesmo.
—Kev, você acha que consegue correr?- Carol perguntou para o garoto
—Não tenho certeza, minha perna ainda dói muito, mas acho que consigo- após ele terminar de falar, algumas gotas de chuva começaram a bater contra o teto da cabana, era a hora certa para colocarem o plano em prática.
Os seis adolescentes começaram a correr, Mateus ia à frente, guiando os outros, Carol e Pricila estavam com as armas erguidas, atentas a qualquer barulho suspeito, Kev andava apoiado em Beatriz e Kim, porém, cada vez que encostava o pé no chão, gritava de dor, ele sabia que não poderia continuar daquele jeito por muito tempo, por isso esperava que a chuva demorasse a passar, assim eles teriam mais tempo. Entretanto, não foi o que aconteceu, a chuva foi diminuindo até se tornar nula. Kev parou bruscamente, atraindo o olhar preocupado dos outros.
—Você está bem?- Kim perguntou e Kev balançou a cabeça negativamente
—Vão sem mim... — ele foi interrompido por uma Carol irritada
—Você está maluco? – ela gritou- Nós não vamos deixar você
—Se me levarem junto, eu só irei atrasar vocês, vão sem mim e salvem-se- ele falou e Carol bufou
—Ignorem ele, e vamos- o barulho de um grito que mais parecia um rugido foi ouvido, a criatura estava próxima.
—Corram. Agora- o tom de Kev era autoritário e todos sabiam que ele não mudaria de ideia, por isso Beatriz e Kim o soltaram, sussurrando um ‘boa sorte’
—Você não pode fazer isso, vamos logo- Carol começava a chorar, ela gostava de Kev, talvez até mais do que deveria, e não o deixaria ali
—Pare de ser tão teimosa e vá logo- ele falou indo em direção a Carol e beijando sua testa, ela o abraçou
—Temos que ir, Carol- Beatriz alertou e Carol teve que ceder e desmanchar o abraço, voltando a correr junto com os outros. Após menos de um minuto eles ouviram um grito de Kev, Carol passou as mãos pelo rosto enxugando algumas lágrimas, ele estava morto.
Eles correram por mais algum tempo, estava se tornando difícil manter o mesmo ritmo, talvez em circunstâncias comuns eles já estivessem desistido, mas a adrenalina e o medo causados pelos passos pesados da criatura atrás deles, fazia com que eles encontrassem forças para manter-se firmes e continuarem fugindo, porém o mesmo não valia para Beatriz, as dores pelo seu corpo aumentavam a cada passo, o corte no braço voltava a sangrar, e ela simplesmente não aguentava mais correr.
Eles já podiam ver o rio, Carol tinha certeza que chegariam a tempo, Mateus e Pricila corriam em sua frente, ela olhou para trás, porém só enxergou Kim.
—Onde está a Beatriz?- ela gritou e os outros olharam ao redor, em busca da garota, mas não a enxergaram, os passos da criatura também haviam parado, então eles concluíram o pior, Beatriz havia sido pega.
Beatriz não conseguia mais correr, seu ritmo estava diminuindo, ela ouvia os passos atrás de si, e por mais que tentasse correr mais rápido, era impossível. Suas forças se esvaíram e ao tropeçar em um galho, Beatriz desabou no chão, chorando, ela tentou levantar, mas ao olhar para trás, viu a tão temida criatura, a poucos centímetros de si. Tentou se arrastar para fugir, mesmo sabendo que aquilo seria inútil, e então sentiu uma faca perfurar seu pé. Ela gritou de dor, e a criatura começou a puxá-la por uma corda presa á faca que atravessava o pé da garota, ela cravou suas unhas na terra úmida para tentar segurar-se, mas não havia o que fazer, Beatriz sentiu sua cabeça bater nas botas pretas da criatura, e ao olhar para cima, tudo o que viu foi o rosto deformado da criatura, sorrindo, enquanto levantava um machado, deixando-o na altura de seu pescoço. Depois tudo se tornou escuro.
Beatriz abriu os olhos, estava dentro do ônibus, olhou para seu corpo e percebeu que não havia ferimento algum em si, assim como suas roupas estavam intactas, ela olhou para o lado e viu os alunos entrando no ônibus, a princípio ela ficou confusa, mas logo percebeu que tudo não havia passado de um sonho, ela só não entendia como aquilo poderia ser tão real, a dor, o desespero, tudo foi tão verdadeiro. Pricila sentou ao lado de Beatriz e perguntou:
–Você sabe as histórias que contam sobre esse lugar?- Ela perguntou e Beatriz lembrou-se de já ter ouvido essa mesma pergunta, Beatriz balançou a cabeça para tentar espantar os pensamentos de que seu sonho era na verdade uma visão, foi quando seu fone de ouvido caiu de sua orelha, ela olhou para o visor do celular e percebeu que a música You da banda The Pretty Reckless tocava, não podia ser coincidência.
Beatriz viu o motorista Jorge, entrar no ônibus, ao levantar os braços para colocar o boné na cabeça, sua camisa levantou um pouco, o suficiente para Beatriz ver a arma que estava ali, presa na cintura dele, ela encarou os olhos do motorista, seu olhar transbordava maldade, a garota sentiu um medo tão grande que desviou o olhar dele, ao encarar a janela, viu que a manhã estava nublada e algumas gotas de chuva começavam a cair...
Epílogo
Beatriz estava sentada no sofá de sua casa, seu olhar estava vazio, ela não entendia porque haviam a ignorado quando ela disse que aquilo não passava de uma armadilha, que todos iriam morrer, obviamente a chamaram de louca, e insistiram na ideia de ir ao passeio, Beatriz preferiu ficar, ela sabia que não estava louca e que havia recebido uma chance para salvar sua vida, é claro que ela sentia muito pela vida de seus amigos, mas fez o possível para convencê-los e tudo o que eles fizeram foi rir dela e a chamar de louca inúmeras vezes. Era segunda-feira e como esperado, o ônibus que deveria voltar no domingo, não havia retornado, Beatriz ligou a televisão para confirmar o que já imaginava, um noticiário local informava o desaparecimento dos estudantes:
“Os alunos que deveriam ter retornado na manhã de domingo, ainda não foram encontrados, segundo a diretora da escola, eles haviam ido para a floresta, devido á uma pesquisa e acompanhados da professora de Biologia, porém até agora todos permanecem desaparecidos, a polícia já foi enviada ao local para as buscas, porém até agora nenhum dos policiais retornou, os mais antigos moradores da cidade dizem que o desaparecimento deve-se á uma criatura canibal, citada em várias lendas da região, a polícia cogita a possibilidade de um sequestro...”
Beatriz desligou a televisão e encarou o convite em cima da mesa de centro da sala. Convite para a formatura que nunca iria acontecer, porém, todos se lembrariam da turma de 2013.
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