Todos no ônibus estavam dormindo, exceto por duas garotas, Gisele, uma garota alta, magra e de longos cabelos escuros, conversava com Raquel, sua melhor amiga, uma garota baixa, de cabelos médios e negros, elas falavam sobre a conversa que haviam escutado, elas ouviram Beatriz, Carol e Kimberli falarem sobre algum mistério que havia ali naquela floresta, e isso não a impressionava muito já que todos sabiam sobre a lenda e sobre o suposto “maluco” que vivia ali, e o sumiço de Mateus só comprovava que algo estranho estava acontecendo.

–Dizem que existe uma caverna aqui, onde o possível "Monstro" vive, vamos procurar ela! – Gisele disse animadamente

–Eu não sei se é uma boa ideia – Raquel disse de forma receosa

– O que a gente tem a perder?!- Gisele falou, dando um soco de leve no ombro da amiga – Você mesma disse que não acreditava nas histórias que contam aqui.

–Mas o Mateus sumiu...Tem algo errado nesse lugar...- Raquel ia continuar falando se não fosse Gisele ter interrompido ela...

–Ele não sumiu, o Mateus gosta de brincar, deve estar procurando mais um jeito de nos assustar, só vamos brincar um pouquinho com ele e com a nossa turma – Gisele disse, levantando e puxando Raquel para fora do ônibus.

A temperatura lá fora estaria agradável se não fosse pelo vento forte e pela fina garoa que caía, Raquel olhou para o céu, assim que saiu do ônibus , ele estava nublado, da mesma forma que esteve a semana toda, era impossível ver a lua ou as estrelas, tudo o que se via, era um breu total, visão não muito diferente da que se tinha da mata, era impossível ver alguma coisa.

–Anda logo, daqui a pouco vai chover- Gisele disse, enquanto ligava uma lanterna e entregava outra para Raquel, a segunda garota riu do exagero da amiga, ao ver que a lanterna era pink e tinha um adesivo com a letra G.

As duas garotas andavam calmamente pela trilha, nenhuma das duas falava nada, Gisele sentia um misto de medo e curiosidade, sua vontade era sair correndo dali e voltar para o ônibus, seu instinto dizia que alguma coisa ruim estava prestes a acontecer, mas sua curiosidade a mandava seguir em frente. Raquel só sentia medo, medo e desespero, ela apertou mais o casaco branco ao corpo, após sentir um arrepio, não de frio, mas de medo, ela mirou a lanterna para um lado da mata, de onde jurava ter ouvido um barulho.

–É melhor a gente voltar – Raquel disse, com a voz trêmula

–Vai ficar com medo agora? – Gisele provocou – Se quiser voltar, pode ir, mas duvido que você tenha coragem de voltar... sozinha.... e no escuro – Gisele disse as últimas palavras e então pegou a lanterna pink que estava na mão de Raquel e tirou as pilhas, em seguida, jogou as pilhas e a lanterna para dentro da mata – Anda logo, está começando a ficar mais frio – Gisele disse e então começou a andar novamente, Raquel continuou seguindo ela, não havia muito o que fazer, a não ser obedecer Gisele.

A chuva começou a cair, o que fez com que Gisele repensasse sobre continuar andando...

–Vamos voltar, amanhã procuramos – Ela disse e Raquel concordou.

Elas começaram a andar por um atalho que Raquel disse que havia ali, o silêncio havia tomado conta do lugar novamente, a chuva estava acalmando, mas a última coisa que elas queriam era continuar procurando por uma caverna, que ninguém sabia se realmente existia.

–Onde estamos? – Gisele perguntou

–Eu... eu não sei – Raquel respondeu

–Como você não sabe? – Gisele gritou – Você disse que conhecia esse caminho!

–Não teríamos nos perdido se você não tivesse tido a ‘brilhante’ ideia de ter vindo para cá de madrugada!- foi a vez de Raquel gritar, Gisele abriu a boca para responder, mas uma luz vindo da mata vez com que ela se calasse

–Ainda bem, alguém veio nos buscar- Gisele disse aliviada, mas a luz, que parecia ser de uma lanterna, começou a piscar e então aparentemente caiu ao chão, as duas garotas correram na direção da mesma.

Raquel se abaixou e juntou a lanterna que estava acesa, sua respiração falhou, assim que viu que a lanterna era pink e tinha um adesivo com a letra G.

–Essa lanterna é a sua – Raquel gaguejou

–Mas, eu tirei as pilhas- Gisele estava tremendo, ela voltou a sentir medo, medo que aumentou, no momento em que ela ouviu o barulho de um galho sendo quebrado, ela tentou falar algo, mas sua voz falhou, ela começou a segurar a lanterna com mais firmeza, e então ficou fitando a parte da mata de onde o som havia vindo, ela sentiu cada parte do seu corpo arrepiar, e então suas mãos começaram a suar...

–Raquel, você...ouviu isso?- Gisele perguntou gaguejando, enquanto ainda olhava para a direção de onde o barulho havia vindo.- Raquel- ela chamou novamente mas não recebeu resposta alguma.- Raquel, por favor – Sua voz saiu como um sussurro, então ela se virou e Raquel não estava mais ao seu lado...

As suas lágrimas começaram a cair, Gisele, sem saber o que fazer, começou a correr, sua respiração estava ofegante, seu coração batia descompassadamente, e suas pernas tremiam, ela deixou a lanterna cair, ela não via nada a sua frente, até que enroscou o pé em um galho e caiu, batendo a cabeça e desmaiando em seguida.

...

Raquel acordou em um lugar escuro, ao que parecia aquilo era uma caverna, ela tentou se levantar, mas foi impedida por uma corda que prendia fortemente seus braços e pernas. Ela começou a olhar ao redor, a procura de algo que pudesse a libertar, mas não conseguia ver nada além da escuridão.

Seu olhar parou em uma silhueta que entrou na caverna, ela começou a ouvir passos que se aproximavam cada vez mais. Raquel pensou em gritar e pedir ajuda á pessoa que estava ali, mas ignorou a ideia, ao pensar que talvez, quem estivesse ali, seria a mesma pessoa que havia prendido ela.

Ela ouviu os passos ficarem mais altos, ela prendeu sua respiração, assim que ouviu que os passos pararam. Ela apoiou suas mãos, que até então estavam amarradas atrás do seu corpo, assim que suas mãos tocaram o chão, ela sentiu algo líquido e gelado tocar sua pele. Ela finalmente soltou a respiração e ao inspirar sentiu um forte cheiro de sangue. Ela prendeu a respiração novamente e então começou a procurar por algo que pudesse a libertar, ela tocou em algo afiado, parecia ser uma faca, ela pegou o objeto e então com certa dificuldade, começou a cortar a corda que prendia seus pulsos, assim que conseguiu se soltar, ela sentiu uma respiração quente, bater contra seu pescoço, logo ela sentiu algo afiado bater contra sua bochecha e um líquido quente percorrer seu rosto, no momento que o líquido tocou sua boca, ela percebeu que aquilo era sangue.

Ela fechou os olhos e uma lágrima percorreu a extensão de sua bochecha, sendo seguido por algo que parecia ser uma língua.

Raquel juntou todas as forças que ainda tinha e empurrou aquele ser, que caiu ao seu lado, ela começou a cortar as cordas que prendiam seus pés, mas foi interrompida por uma lâmina que perfurou seu braço direito, ela levou a mão até a faca que estava cravada em seu braço, mas quando foi tirar, um movimento brusco da criatura fez com que outra faca atravessasse a mão esquerda de Raquel, e em seguida fosse cravada na parede da caverna. Ela começou a chutar o ar, na esperança de acertar aquele ser, mas uma faca atravessou sua barriga.

As lágrimas de Raquel se misturavam ao seu próprio sangue, ela sabia que estava morrendo, um último golpe perfurou seu coração, fazendo com que um último grito de dor de Raquel, ecoasse pela floresta.