Turista
1 Sólo uno más
Uma viagem bem planejada e sem imprevistos finalmente aconteceu. Ao desembarcar eu esperava qualquer coisa impossível acontecer, já que em Buenos Aires, quando pensei que estava tudo realmente bem, sem maiores transtornos além da minha rinite atacada, um cachorro desgovernado pulou em cima de mim. Por essa e outras que eu esperava qualquer fato indesejoso ocorrer.
Já dentro do taxi, apreciei da nova paisagem que se estendia ao longo do meu caminho para o hostel* em San Bernardo, Chile. Sempre preferi os hostels a hotéis cinco estrelas, não só pela acessibilidade financeira, mas por suas localizações centrais e ambientação mais agradável. Sempre me senti mais em casa do que nos hotéis, fosse os de luxo, fosse os mais simples.
Cheguei ao meu destino e paguei ao taxista, que gentilmente me ofereceu ajuda. Levei minha mala menor e a necessaire, enquanto o taxista gentil levava a mala maior até a recepção. O atendente de sorriso artificial, após conferir a minha reserva, me entregou a chave do meu quarto — número 25 — e arrastei minhas duas malas pelo longo corredor, me despedindo do taxista com a cabeça.
Meu quarto seria dividido com mais duas pessoas, as quais eu não tive a oportunidade de conhecer no primeiro momento. Mal me alojei no quarto e já peguei meu pequeno guia e um GPS, me direcionando a uma praça a poucos metros dali.
Eu estava, segundo informações do Google, no Trigésimo Primeiro Festival Folclórico Chileno. Apreciando o que havia de melhor ali — como todo turista brasileiro faz, comendo muito mais que o possível — tirei diversas fotos com meu celular de tudo o que eu achava bonito e interessante. Nunca fui adepta das redes sociais, usando apenas o Whatsapp por causa da comunicação à distância. A primavera estava ali mostrando tudo o que ela tinha de melhor.
Talvez para os nativos aquela dança fosse natural e fácil, ou fizessem pouco caso dela, ou até mesmo achassem bobagem essa parte cultural deles — assim como acontece no Brasil com a quadrilha — mas aparentemente não havia ninguém com esse tipo de opinião ali na Alameda.
Eu podia ver ao meu redor, do centro da praça, barracas de pratos típicos chilenos dos mais variados, sendo tortas, sopas, bolos, tudo com um ótimo sabor; e as barracas com as quinquilharias para os turistas. Nas extremidades da roda tinham quatro caixas de som para as músicas das apresentações e narrações de lendas teatradas, além das recitações de poemas. Era lindo.
Em um determinado momento, os organizadores do evento anunciaram a narração de mais uma lenda regional, que seria apresentada por um professor de letras da universidade local. Com uma voz mansa, porém intensa, o professor inicia.
A lenda diz que uma moça morena de capuz preto vaga por ruas e campos das cidades, seduzia os homens que passavam por ali para fazer o que quisesse com eles. Depois de satisfeita, ela os matava com uma faca brilhante. Ela fazia isso para vingar sua irmã, que fora maltratada e violentada por diversos homens. O homem velho contava a lenda, enquanto uma moça passava por entre nós, puxando sobre seus cabelos negros um capuz de veludo preto. Nunca tinha ouvido falar dessa lenda. Assisti tudo com muita curiosidade.
O professor terminou a lenda e anunciou uma mulher, sua orientanda de mestrado, que recitaria alguns poemas de Pablo Neruda. Assim que o final do último verso de "Ode ao gato" do Pablo Neruda foi recitado, — (...) a casca irreal do crocodilo, a bondade ignorada do bombeiro, o atavismo azul do sacerdote, mas não posso decifrar um gato. Minha razão resvalou na sua indiferença, os seus olhos têm números de ouro. — uma mulher de pele morena anunciou uma apresentação de cueca nortina. Era uma dança apresentada por quatro casais que dançavam frente a frente, sem nunca se tocarem. Era bonito.
Assistia àquilo pensando que eu nunca me veria dançando aquilo sem cair no chão nos primeiros passos. Desastrada como sou, nem mesmo se eu estivesse ensaiando por dias
Algo especial aconteceu no meio da dança. Os quatro casais se dispersaram no meio da multidão que estava assistindo, cada um puxando uma pessoa. E pela expressão delas, sabiam dançar tanto quanto eu.
Para a minha real surpresa, quando eu pensei em comprar mais milcaos (um tipo de bolinho de batata ralada frito), um dos homens que estava dançando ali me puxou para o meio da roda, me entregou um lenço fazendo uma mesura exagerada e debochada. Lançou-me um sorriso malicioso que me fez estremecer.
Fiquei estática por alguns nanosegundos, mas me dei conta de que se eu ficasse parada seria uma vergonha muito maior do que ficar parada feito boba ali no meio. Como a boa observadora que eu sou, mesmo sem muita coordenação motora — eu fiz o melhor que eu pude, e não caí ou derrubei ninguém até o último segundo da música.
Realmente no último segundo. Só então eu perdi o equilibrio.
Pelo menos foi no fim.
Só não me estatelei no chão como eu previa porque o homem moreno com quem eu dancei me segurou pela cintura. Senti um choque e nossos olhos se encontraram por alguns segundos.
Ouvi as palmas do público e percebi que eles tinham gostado da minha pseudo-queda.
O homem misterioso me puxou para fora da roda, me dando um susto, e foi andando pelas barracas; provavelmente sairíamos do Festival; quando finalmente começou um diálogo.
—Permítanme decir, eres muy hermosa. — olhou-me de soslaio e continuou me puxando calmamente por entre as barracas até que saímos totalmente daquela multidão. Corei com o que ele disse, porque a última coisa que eu era é "hermosa", mas murmurei um 'Gracias' para ele, que deu uma risadinha que mostrou seus dentes brancos.
—Yo sólo hablo un poco de español. — aproximei o indicador do polegar, olhando rapidamente para sua face. Ele assentiu.
— Cuál es tu nombre?
— Fernanda. Y tu?
— Es hermoso tu nombre. Mi nombre es Alberto, Fernanda. — ele parecia saborear o meu nome na sua boca. Sua voz saiu mais rouca e seu sotaque chileno era gostoso de ouvir.
Nós andamos até uma praça enorme que tinha ali, com vários casais e grupos de amigos passeando e fazendo piqueniques. Achamos um jeito de nos comunicar sem muitos transtornos, comigo utilizando um habilidoso portunhol.
Ele falou sobre o Peru, — o país onde viveu até a pré-adolescência — sua viajem até o Chile depois da morte de seus pais e sobre poemas. Eu falei sobre o Brasil e minhas viagens pelo mundo, sendo o Chile um dos últimos países que eu visitaria na América do Sul além da Venezuela.
Conversamos até o pôr-do-sol, quando o tempo começava a fechar e leves pingos de chuva caiam sobre a grama onde estávamos.
Levantamos de lá e eu, em minha magnífica habilidade em andar, caí em cima do Alberto que acabava de se levantar, o derrubando de novo no chão.
Rimos até perder a graça (que eu nem sabia que tinha.).
Olhei nos olhos dele pela primeira vez desde que soubemos os nossos nomes, e eles brilhavam de um jeito que eu nunca tinha visto. Estremeci com o toque dele na minha cintura e com seu rosto chegando cada vez mais perto de mim. Um trovão ressoou acima de nossas cabeças, anunciando que a chuva seria forte, mas não liguei muito para isso, e nem para as grossas gotas de chuva que caiam em nós, porque eu estava ocupada demais saboreando os lábios de Alberto.
— — — ☼ — — -
Corremos em uma direção qualquer à procura de abrigo ou um guarda-chuva, — sem sucesso — e acabamos nos perdendo.
Já estava tudo escuro, a chuva se perfazia e aparecia uma tímida lua. A paisagem mudava cada vez mais e Alberto começava a ficar mais distante. Não inquiri sobre isso, já que eu gostava de estar com ele, mesmo tendo conhecido ele por poucas horas.
Estávamos em uma região pouco favorecida de San Bernardo,— percebi isso pela simplicidade das casas e das roupas das pessoas em suas varandas — até que paramos no portão de numa casa.
— Mi casa es tu casa. — Alberto estava com um leve sorriso brincalhão de novo, mas estava hesitante — Mi casa es un poco simple, segura? — assenti. Eu não sabia o porque de ele estar me levando para ver a sua casa, mas eu já confiava nele.
Talvez meu erro fosse ter confiado demais nele.
Ele acendeu a luz da sala. No ambiente havia um sofá marrom escuro, uma poltrona de couro preto e uma televisão de trinta polegadas de tela de plasma em cima de um hack também em marrom.
Alberto mostrou-me a casa — que era realmente simples — e nos sentamos no sofá para rirmos de nossas besteiras de infância. Isso até quase onze horas, quando me senti cansada e disse que teria que voltar para o meu hostel e tinha que chamar um táxi. Contudo, Alberto disse que se eu esperasse mais um pouco, seu irmão chegaria e me levaria.
— Y no habrá problemas, Fernanda. — o jeito que ele saboreava meu nome em sua boca era fascinante, e me deixava totalmente encantada. Seu sotaque era encantador, e eu confiei em suas palavras.
Conversamos por mais dez minutos, até escutarmos um barulho de carro. Alberto disse que Roberto — seu irmão — tinha chegado.
Fiquei impressionada com sua aparência quase idêntica ao Alberto, que logo esclareceu que eram gêmeos. E eu acreditei.
Entrei no carro com eles e lhes disse onde eu estava hospedada. A curta viagem de carro foi até que legal e conversamos bastante. Parecia que meu assunto com Alberto nunca acabaria, e Roberto era idêntico ao irmão até nisso.
Eles tinham que fazer uma parada rápida num lugar esquisito, onde uma tia deles morava. Acreditei na voz rouca do Alberto, que ficava no carro comigo enquanto Roberto entrava no lugar esquisito, sujo e com cheiro de lixo.
Não desconfiei de nada, afinal, eles estavam fazendo o favor de me levar para o hotel, poderiam levar o tempo que quisessem.
Fiquei pensando que eu voltaria do meu primeiro país da Europa — Portugal — em vez de continuar meu tour pela Espanha e outros países, só para vê-lo mais vezes.
Como seria a minha vida se eu me instalasse com Alberto em sua casa? Não me importo em viver com seu irmão, se eles deixam a tampa da privada em pé, desde que ele continue o mesmo comigo, sendo fofo, engraçado, bonito e beijando bem, tudo certo.
Eu estava tão distraída divagando, que nem percebi que ele se sentou do meu lado no carro,— eles estava na frente e foi para a parte do passageiro onde eu estava — passou o braço por cima dos meus ombros, chegou com sua boca perto do meu ouvido, onde eu sentia sua respiração quente que me arrepiava e com um sorriso malicioso, puxou meu cabelo até que eu olhasse em seus olhos, que brilhavam estranhamente.
Meu pulso estava cada vez mais acelerada, minha respiração estava desregulada com cada movimento dele.
— Fernanda... — sussurrou meu nome com aquela voz rouca que ele tinha — Estoy cansado de esperar. — e com movimentos rápido ele tirou um canivete do seu bolso traseiro e cortou meu antebraço na horizontal.
Dei um grito abafado, por causa da intensidade da dor. Ele tira o canivete da minha garganta, tampa minha boca, e enfia profundamente nas minhas costas. Uma dor agonizante, que não se comparava com a dor no meu coração.
Confiança desnecessária essa que eu tive por ele.
— Recuerda la leyenda* de la morena, querida Fernanda? — suas palavras eram frias, mas eu já não me importava mais, sentia a morte chegando cada vez mais perto de mim e sentindo frio — Este soy yo. — sua forma masculina ia desvanecendo até que uma mulher de pele morena e cabelos cacheados apareceu em seu lugar com um sorriso macabro me dando um último golpe com o canivete, no centro da minha barriga.
Assim a morte me chegou mais perto e minhas esperanças de viajar no mundo e conhecer mais pessoas e culturas se desvaneceram junto com a minha vida.
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