Notas iniciais
*não sei o que colocar nessa nota*

13 de fevereiro de 2103 13:31

— Não vai falar nada, Francis? — Jacques não se moveu, continuando sentado em sua poltrona na mesma posição fazia horas. Sua voz soava quase humana e calma, mas ainda muito robótica com tom demasiado eletrônico. — Imagino que o senhor esteja se sentindo péssimo, estou certo?

Francis olhava para o teto para evitar contato visual com Jacques. Não sabia há quanto tempo estava ali. Estava deitado em uma cama de couro marrom, o consultório era limpo e branco demais. Talvez fosse para criar um clima mais agradável, eles pensavam em tudo.

— Você sabe de tudo, por que ainda faz perguntas tolas? — Francis desceu o rosto do teto, seu olhar apresentava furor. — Você penetrou nas mais profundas camadas do meu subconsciente, sabe mais de mim do que eu mesmo, por que seu tratamento não faz nenhum efeito? Você é sádico?

— Não sei mais do que você. — Francis sentiu que ele estava dizendo isso para sua raiva diminuir, estava mentindo para a Primeira Lei não ser infringida. — O senhor ainda precisava de Elisabeth, então prescrevi as pílulas que confortariam você, já que os efeitos colaterais envolviam alucinações felizes. Mas imagino que as pílulas não tiveram tal efeito desde a primeira dose. Quando sugeri mudar de medicação, mesmo com o senhor concordando, percebi que você tinha medo de não ver Elisabeth nunca mais. Dadas essas circunstâncias, tive que te manter nesse tratamento masoquista. Mas dessa vez é bem diferente.

— Você é só um robô, como poderia saber como eu me sinto?

— Eu simplesmente sei. — Os olhos verdes de Jacques faiscaram. — Você consegue me explicar como você consegue falar ou formar palavras na sua mente sem ninguém ter te ensinado?

— Você é só um conjunto de lata, consciente através de programação.

— Eu sei seu posicionamento sobre nós. Vocês humanos não passam de sistemas também, embora mais sofisticados em alguns pontos, ainda são sistemas. — Francis mirou-o com mais furor. — Eu sei o quanto odeia que eu invada a privacidade da sua mente, mas é o meu dever.

Jacques abriu um sorriso calmo e sincero. Seus olhos molhados artificialmente, como se fosse chorar.

— O senhor está sofrendo, eu sinto toda a sua dor sempre que analiso suas memórias. O senhor não pode continuar assim. Como anda sua interação com outras pessoas?

— Continuo as evitando, elas me assustam.

— O senhor não deveria ter medo delas, elas não julgam você — Jacques vestiu um olhar intenso — você julga a si mesmo o tempo todo.

Francis não disse nada.

— Por que o senhor não veio antes? Nossa consulta estava agendada para o dia 11.

— Eu não pude sair da cama por dois dias.

— O que causou isso?

— Eu não via sentido em sair de lá. Tudo é tão sem sentido... eu estava vazio de todas as emoções, nem sabia se estava consciente ou não... logo, não achava força para tirar os pés dos lençóis. Eu nem sentia a existência dos lençóis ou minha própria. Eu simplesmente... não existia...

— Não viu ela nos últimos dias? — Interrompeu, sabia o que ele ia dizer.

— Desde que confiscaram os remédios, ela nunca mais apareceu.

— Sente falta dela?

Francis respondeu através de um olhar vazio, quase duas fendas escuras no centro do rosto.

— O que te fez quase causar uma overdose? Pode me dizer.

Estava funcionando, Francis estava se abrindo sem medo em sua mente. Ele não precisava dizer uma palavra mais.

— Eu deixei mais um morrer. Mais um. Ele me mostrou coisas horríveis através de telepatia e depois... — Francis estremeceu na poltrona e voltou a olhar para o teto iluminado. — Ele saltou, tudo o que sobrou foi seu cérebro perfeitamente intacto. Me perguntei por muito tempo por que ele teria feito isso, o que faria um robô se matar. Robôs seguem as Leis, logo não podem se matar por conta da Terceira Lei. Eu devo ter feito algo errado na cirurgia, destruí a própria consciência dele, uma peça fora do lugar devido. Então ele se matou por minha culpa. Eu sou uma falha... eu...

— Não vejo culpa do senhor nisso. Está dizendo que isso lhe fez ter um ataque de pânico?

— Quando estou em pânico eu preciso dela... ela sempre me conforta quando eu... me sinto solitário...

Francis não parecia ouvir mais, estava murmurando sozinho palavras sem sentido para o vazio.

— Isso não pode se repetir. — Disse com firmeza.

Frases sem sentido.

— Francis, eu não queria tomar essa medida. Mas recomendo que o senhor apague Elisabeth das suas memórias, posso te encaminhar a uma excelente clinica que o seu plano cobre.

Silêncio. Sons agitados de respiração ansiosa.

— Eu não consigo fazer isso... — murmurou — ela é importante...

— O senhor não vai mais ter acesso àquela medicação. Terá de ser substituída por outra que não cause alucinação. Uma que não vá lhe matar de overdose. Nunca mais a verá, recomendo que a apague.

— Por que está fazendo... isso comigo? — Havia perdido toda sua fachada dura, estava às lágrimas como uma criança. Soluçava.

— Eu não posso mais te deixar nessa situação, o senhor não tem escolha. Espero que entenda que é para o seu próprio bem. — O rosto de Jacques estava sério, seus olhos verdes muito graves.

— Eu preciso dela...

Nada mais foi dito. Não lutou contra, sabia no fundo que era o certo. Tinha que ser feito, mas algo afundava dentro dele com a ideia de esquecer dela. Como se seu coração descesse até o estômago. Mas deixou-se ser levado para dentro do carro flutuante branco. A ambulância voou por entre as nuvens brancas, dançando por entre os altos arranha-céus. Francis observa o reflexo que ela formava nas janelas de vidros rápidas, tentando esquecer da ideia que em breve iria esquecer dela. Mas esquecer era uma tarefa difícil.

Simplesmente não conseguia esquecer.

Era muito branco e moderno, o prédio tinha três andares e sua arquitetura era quase redonda, parecia uma bola branca quase quadrada com janelas iluminadas. Entrou andando devagar, acompanhado por quatro robôs de jaleco branco, pensavam que ele fugiria. E era o que ele pretendia, na verdade era um impulso que ele mesmo não teria controle. Deixaram ele entrar sozinho. Tudo no lugar era muito iluminado, as vistas doeram por algum tempo até Francis se acostumar, o atendente robótico tinha olhos azuis muito puros e seus cabelos eram louros claros. Não tinham humanos no lugar ou mais alguém além daquele atendente, somente poltronas brancas e vasos com plantas verdes floridas. Seguiu para uma sala. Deitou-se em uma poltrona reclinável, não tinha mais nada na sala. Branco. Tudo já havia sido dito para aquele robô de jaleco e olhos azuis.

— Está preparado, Francis? — Disse segurando um capacete pequeno.

— Não.

— Nunca estão preparados, não se preocupe. — Colocou o capacete com delicadeza nos cabelos de Francis. — Não vai doer nada, a dor vai acabar. — O robô sorriu com todos os dentes perfeitos à mostra.

Sua mão formigou, e depois seu corpo todo. O branco foi aumentando, já não sentia sua respiração. Seu corpo parecia estar desintegrando, realmente não exista agora. Seus pensamentos pareciam fragmentados até não formarem mais nada. Só havia o vazio branco.

Branco.

E mais branco.

Sentiu suas costas, estava deitado em um gramado muito verde. Lentamente o branco foi substituído por um céu azul cheio de nuvens. Sentou-se, alguém estava vindo em sua direção. Tentou se levantar mais não conseguiu, se sentar era o máximo que conseguia. A silhueta continuava caminhando até ele. Era uma mulher com cabelos negros e um vestido branco simples. Ela sorriu para ele.

Francis não sabia quem ela era.

— Francis, é você?

Não pode responder, as palavras não se formavam.

— Não pense que pode fugir de mim, não se esqueça da nossa promessa.

O gramado começou a se apagar, as cores desbotavam. A mulher se virou e caminhou para longe até desaparecer no forte branco.

Quem era ela?

Acordou, a sala girava como um pião. Quando tudo parou, tinham quatro robôs médicos observando ele atentamente, com pranchetas que anotavam coisas.

— Por que estão me olhando? Sou algum tipo de ídolo? — Disse Francis, parecia outra pessoa. — O que estou fazendo aqui? Eu deveria estar trabalhando numa hora dessas, que horas são?

Os robôs começaram a murmurar entre si.

— Do que se lembra, Francis? — Jacques se aproximou.

— Que eu deveria estar trabalhando, não quero ser demitido, se me permitem.

— Você sofreu um acidente e te trouxemos para cá, você bateu a cabeça. Passou por uma cirurgia e queremos saber se você tem algum sinal de amnésia.

— Não sinto que estou me esquecendo de nada, talvez de pagar algum boleto ou algo assim. Mas meio que é normal, todo mundo pode esquecer disso... Calma, não me lembro de como vim parar aqui também.

— Ótimo, Francis. — Jacques sorriu. — Ficamos muito felizes, pode ir se quiser.

— Tão rápido assim? Não tenho riscos de ter alguma sequela?

— Não se preocupe, está tudo sob controle.

— Vocês robôs tem total controle sobre nós, isso realmente me assusta. E pare de sorrir assim, parece um psicopata.

— Ainda estamos aprimorando nossas feições, peço desculpas.

— Vou confiar em você, Jacques, e nos seus parceiros misteriosos. Quando teremos outra consulta? Parecem séculos desde a última, receio ter esquecido de todo o acidente e isso envolve o meu tratamento, posso ter esquecido meses, isso é preocupante?

— Não é preocupante — Jacques parecia feliz. — Não teremos mais consultas, você está curado.

Notas finais
*o que devo melhorar nesse capítulo, eis a questão*
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.