Notas iniciais
*ainda continua lendo?*

11 de fevereiro de 2103 17:43

O cérebro estava intacto. Como poderia estar intacto após uma queda tão violenta? O robô havia calculado bem sua queda para seu cérebro não sofrer danos? Por quê? Isso o estava perturbando. Não voltara para sua sala de operações. Ou escritório, chame como quiser. Estava em uma das cabines um pouco escuras do banheiro, a porta trancada. Sentava-se com os joelhos colados ao tronco, enquanto balançava para frente e para trás, repetidamente. As ideias pareciam inundar sua mente, mas sem fazer sentido. O espaço ao redor nada mais parecia do que símbolos. As paredes brancas azulejadas pareciam ter um significado escondido que ele não conseguia achar. A porta de vidro escuro refletia a frase “Essa cabine está ocupada” em letras vermelhas digitais. A cartela de comprimidos estava deitada sobre o piso frio. Olhou-a fixamente por alguns minutos, contando quantos comprimidos ainda faltavam. Faltavam 8. Oito, o número que parece infinito. Estava em um ciclo. Um ciclo infinito, logo tudo se encaixava. Estava sem saída. Estava em abstinência. Precisava engolir aquilo.

Precisava “dela”.

Tremulando, furou cada parte aluminada da cartela e deixou os oito comprimidos no centro da palma. Eles não possuíam cor, muito transparentes. Quase sem opacidade. Rapidamente engoliu todos eles, em seco. O normal seriam dois deles. Poderia estar causando uma overdose. Mas, naquela tarde sombria, sua mente estava em outro lugar. Lagrimas escorreram. As paredes giraram e as cores se inverteram. Estava fazendo efeito. Caiu sobre o piso de rosto, estava sem equilíbrio, um som doloroso repercutiu pelo banheiro todo. Continuou lá, enquanto tudo se distorcia ao redor e seu nariz sangrava. Até que enfim, o efeito normalizou. Respirou profundamente até se acalmar e levantou-se devagar. Ajeitou suas vestes, não gostaria de parecer mais louco do que o normal nos corredores. Ainda presava minimamente pela imagem que passava.

Abriu a porta de vidro e seu coração parou. Alguém lavava o rosto, um sorriso refletindo no espelho. Se vestia bem em um vestido negro muito caro. Os cabelos lisos muito bem cortados, em franja. O banheiro das mulheres não era aquele. Mas não importava. Porque ela não existia. Ela mirava continuamente a própria imagem, enquanto jogava respingos de água em sua maquiagem, seu lápis de olho derretia e deslizava pelo rosto. Francis se precipitou para torneira mais próxima dela e limpou seu nariz, tremendo muito no processo. Quando foi pegar lenços para se secar, ela segurou sua mão e pegou o lenço no seu lugar. Francis continuou imóvel enquanto ela limpava seu nariz, cantarolando.

Você é meu raio de sol, meu único raio de sol

Você me faz feliz quando o céu está nublado

Você nunca saberá, querida, o quanto eu te amo

Por favor, não leve meu raio de sol para longe”.

Ao terminar, Elisabeth deslizou através da porta, rápido como um fantasma. Francis a seguiu abrindo a porta de maneira tradicional.

Não fique aí parado. Vamos embora, lindinho. — Francis sentiu-se feliz.

***

Onde estavam todos aqueles olhos julgadores e sedentos? Onde estava todo mundo? Ela apertou sua mão mais forte. Sua mão era macia e quente, tudo que podia fazer era deixar-se ser levado para onde ela bem quisesse. Não queria resistir. Amava ela. Os corredores e escadas estavam vazios. Silêncio se espalhava como um grito. Tudo que escutava era respiração agitada de Elisabeth, que corria junto com ele. Não sabia do que estavam fugindo. Mas sentia que algo sempre o esteve perseguindo desde que Elisabeth morrera. As ruas também estavam desérticas, os pedestres certinhos não estavam caminhando em sua fila indiana. O céu estava estrelado. Era hoje.

Sabe que dia é hoje, não é? — Elisabeth sorriu.

Letras vermelhas brilharam bem lá acima, entre as estrelas e nuvens cinzentas. “A chuva programada começará em quinze segundos”. Aquele céu não era o verdadeiro. Era artificial como quase todo o resto. Francis talvez fosse artificial. Elisabeth era artificial. No que poderia acreditar? Nisso. Continuaram olhando para cima, até uma gota ou outra acertarem suas testas. Logo, um vendaval tempestuoso caiu, com águas gélidas violentas. Tremeram se abraçando até a temperatura não ser um problema e a tempestade se acalmar. Após, atravessaram os lençóis de água dançando animados, gargalhando como duas crianças felizes. Caíram. A chuva continuava, estava mais fraca, mas queriam continuar contemplando-a. O céu estava tão lindo.

O Turbulento 33 estava vazio e zumbia muito enquanto atravessa as nuvens como uma agulha furando os céus, seu para-brisas sendo baleado por gotas transparentes de chuva. As janelas só exibiam cinza e gotículas dançarinas. Ninguém estava naquela condução, somente eles. Então estavam abraçados aos beijos, lábios quentes se sobrepondo. Estava sem ar. Vultos de nuvens cinzentas correndo rápido, o ar estava frio e pesado. Apertou a mão dela muito forte. Se sentia seguro. Estava molhado. Seus pés estavam molhados. Teria alguma goteira em algum lugar, provavelmente. Seu suspiro foi abafado. Sentia parte sua perna molhada agora. Poderia ser o beijo de Elisabeth. Suas pernas só estavam bambas. Mas agora seus joelhos encharcados. Abriu os olhos, dando de encontro com olhos muito verdes.

Ao se afastar e olhar em volta, percebeu que todo o Turbulento estava se inundando lentamente, seus assentos afundando em azul-cristalino. E fonte da água era desconhecida, não chovia tão forte a esse ponto. A água subiu até seu umbigo, sua espinha congelou. Elisabeth parecia se divertir com a situação, quando a água cobriu suas cabeças e os cabelos dela flutuaram como fantasmas. Mas não se sentia afogar, conseguia respirar. Então voltaram a se beijar, mas lento e em meio às borbulhas agora. Um momento após, a água se foi evaporando aos ventos, e o Turbulento parou.

A luz florescente estava ligada no vestíbulo, todos os moveis estavam bem arrumados e sem poeira. Tudo em seu devido lugar na sala de estar confortável. Elisabeth sorriu como se dissesse que estava feliz por ele continuar mantendo a casa bem organizada, mesmo após aquilo. Deslizaram até o quarto abraçados. Pareciam um casal recém-apaixonados. Ainda sendo queimados vivos por uma paixão fulgente. Estava tão aconchegante, poderiam ficar na cama para sempre. Abraçados. Se dependesse de Francis, sim.

Mas estaria ele realmente na realidade? Não. Quem estivera com ele o dia todo, afinal? Ninguém ou ela realmente estava lá? Esse pensamento o cortou por dentro. Elisabeth percebeu. Ela sempre percebia todo pensamento oculto, parecia ser parte dele. Uma outra metade. Ela poderia muito bem ser uma manifestação de seu subconsciente. Um tipo de tulpa. Sentiu que deveria se livrar daquilo que estava o abraçando. Não era real. Mas o que era real? Nada ou quase nada. Tudo, no fim, não passava de percepções sensitivas enganáveis. Como podia confiar que a verdadeira Elisabeth era algo além de um fruto de sua imaginação? Tudo era uma mentira de mal gosto contada por alguém. Um tipo de Deus.

Realidade é relativa.

Seus dedos doíam, ela estava apertando-os muito forte. O rosto dela não tinha mais forma, estava vazio. Apenas vultos distorcidos, incompreensíveis. A realidade era assustadora. Ou seria melhor dizer, irrealidade. Ela expelia, baixinho, palavras que não davam para entender. Algo parecido com lábios mexiam-se rápido. Francis estava com medo, mas continuava abraçado àquilo. Estava preso. Como se estivesse novamente em um sonho em que não se consegue correr ou gritar. Um tipo de paralisia do sono. Queria acordar. Alguém me acorde.

Dedos se fecharam em seu pescoço muito forte. Ela estava o enforcando. Seus olhos se agitaram. O ar estava indo embora. Desespero. Daquele rosto abstrato, aqueles olhos intensos continuavam o observando profundamente. Ela realmente o amava, pois começou a cantarolar aquela mesma música novamente. O assoalho encharcou-se, a mesma água de antes voltara. Sentiu sua cama afundar. Rapidamente o quarto todo preencheu-se de água escura. Sentiu os dedos dela escorregarem e se afastarem. Bolhas giraram em volta.

— Se sente bem, senhor? — Uma mão fria tocava em seu pulso. Francis estava soado e agitado.

— Quem é v-você...?

— Do que o senhor se lembra? — Aquela voz parecia eletrônica e carismática ao mesmo tempo.

— Eu... estava... — Tossiu.

— Não se esforce muito, o senhor quase teve uma overdose. Deve tomar cuidado com a quantidade de comprimidos que o senhor toma. — Francis sentiu alguém ajeitando seu cobertor. — Um dos funcionários o encontrou caído de rosto em uma das cabines do banheiro. Por sorte, a dose não foi fatal. Após exames verificamos que poderíamos leva-lo para casa sem problemas posteriores. É melhor para o senhor do que o hospital, não concorda? — Francis se sentia fraco e não tentou responder. — Tire o dia para descansar e vá no seu Gerenciador de Saúde assim que possível, será necessário um novo tipo de medicamento, já que esse não lhe será mais vendido. Tomamos o cuidado de confiscá-los para sua segurança. Enfim, adeus e melhoras, senhor.

A porta da entrada se fechou após algum tempo e Francis estava sozinho em sua casa sombria e bagunçada.

Sozinho.

Notas finais
*hmmm*