Turbulento 33
2 Capítulo II
Notas iniciais
11 de fevereiro de 2103 10:43
Francis estava paralisado na porta automática de entrada, não estava mentalmente preparado para entrar no saguão. Respirou fundo e passou o polegar no leitor, uma imagem azul surgiu na porta de vidro, dando-lhe as boas-vindas de forma amistosa antes de abrir. Era sempre a mesma mensagem gravada, da mesma mulher, que não existia ou realmente estava falando. Francis estava de saco cheio disso, então somente ignorou como sempre fazia com coisas vivas e caminhou pelo saguão às pressas olhando apenas para os próprios sapatos sob o piso escorregadio e exagerado de branco. Tentou não manter contato visual com nenhuma das diversas pessoas bem vestidas em jalecos brancos e ternos azuis – algumas totalmente ou parcialmente humanas, outras sequer – que caminhavam rapidamente de um lado ao outro em meio ao burburinho de vozes animadas e o ziado de mensagens saídas de autofalantes típicos de hospitais roboticistas. O barulho se espalhava pelas paredes frias e se chocava contra o gigantesco teto redondo de vidro azul transparente, bem alto, além das dezenas de andares que podiam ser vistos de relance lá do centro do piso do saguão, causando certa vertigem. Francis continuou olhando para cima para evitar interações, fazia um tempo nublado cheio de nuvens cinzas, bravas.
Sentia-se ansioso sempre que tinha que passar pelo saguão, já que todos pareciam olhar diretamente para ele, julgando-o com ódio voraz. Correu por um dos corredores diagonais e escadas íngremes, que se espalhavam por todo o prédio como teias. Sem olhar realmente para o rosto de ninguém quando passava por perto, tentou se esgueirar por corredores vazios e quando via pessoas caminhando por um, desviava o caminho para outro sem ninguém. Mas sempre falhava e tinha que forçadamente dar bom dia para alguém que ele sequer olhava, quase parecendo um robô.
Mesmo não sendo em nada um.
Trancou a porta tremendo. Havia terminado a parte mais difícil. A cama quadrada de metal, com colchonetes azuis pouco confortáveis, acomodava algo. Deitava-se reto e calmo, esperando. Francis o viu mirando o teto com olhos eletrônicos vazios. Vestiu um par de luvas. A coisa não estava se mexendo. Estaria morta? Bem, aquela perna destorcida estranhamente podia ser a causa da morte. O rosto quebrado e metade aos pedaços também. Sentou sobre sua poltrona, esperando algo. Cedo ou tarde, eles falavam. Francis não aguentava mais aquilo, todos os dias era sempre a mesma coisa. Humanos fazem o que bem entendem com eles como animais, pensou Francis. No dia anterior, havia resolvido um caso semelhante, embora menos grave. Estava cansado. Aquilo não parecia ser de muitas palavras. Francis era o único que resolvia esses casos. Ele tinha que limpar a sujeira degenerada de sádicos. Parecia sempre ser semelhante. Do mesmo autor.
Suspirou.
Francis reparava produtos recuperáveis. Não gostava de classificar eles além de produtos ou faria a coisa toda ser bem pior. Mas naquele momento, tudo que conseguia pensar era em como era feliz no seu antigo trabalho até aquele horrível incidente que lhe condenou a essa penitência. Em resposta, memórias surgiram como uma enchente e Francis percebeu que ela não tinha aparecido mais desde cedo, geralmente não aparecia durante seu horário de trabalho. Mas ela sempre o perseguia. Era o que queria acreditar, mas na maioria das vezes, ele a perseguia pelas ruas sem direção. Talvez ela fosse um conforto para sua infeliz existência. Sua única interação “humana” diária, que era apenas uma ilusão provinda de efeitos colaterais e memórias que queria esquecer. Pensar nisso o perturbava, ao mesmo tempo que confortava.
— Olá, Francis Kfaka! — Sobressaltou-se. Francis pensou ter ouvido uma voz robótica fria dentro de sua cabeça. — Desculpe primeiramente, acontece que a minha boca está muito danificada, não tive escolha.
Aquela voz lhe soava rouca e falha no final de cada frase formada. De onde estava vindo? Ora, que incomum. Era sua primeira vez com um robô telepata como paciente. Nas outras vezes, ele era o paciente. Simulou um sorriso cínico.
— Como se sente? Dói?
— Não, senhor. Meu dono desligou meus sensores de dor. Mas isso não o faz menos sádico, entretanto. — Parecia ter pesar na voz, mas Francis pensou ser apenas uma simulação programada. Era melancólico ainda chamar de dono alguém que havia praticamente lhe destruído.
— Alguma ideia do porquê de ele ter lhe feito isso? — Francis estava tentando ser perspicaz.
— Ele parecia possuir muita sede por emoção, parecia ser um tipo de hobby ou fetiche estranho. Era eu ou sua esposa humana. Nesse dilema segui o propósito para o qual sou programado, senhor. Mas sua sede hoje estava incontrolável, havia acontecido aquilo com ele. Era compreensível. Empresas parecem não se importar mais com humanos, é uma pena. Entendemos que robôs tem quase zero direitos, mas se livrar da maioria de vocês substituindo por nós, é meio que um suborno para tornar mais e mais humanos em humanoides.
— Entendo. — Foi breve, queria que ele se calasse. Era irritante.
— Sei que o assunto te irrita, não gosta de ouvir ninguém dentro de sua cabeça. Muito menos gosta da ideia de eu estar analisando suas memórias e pensamentos profundos. Sua mente é muito intrigante, vi poucas parecidas. Não é sem motivo que você é esquivo, senhor. Poucos entenderiam suas ideias, concordo com o senhor.
— SAIA DA MINHA CABEÇA! — Francis se precipitou até a cama de metal e abriu o crânio robótico, apenas deslizando o dedo indicador em uma parte especifica atrás da orelha do robô.
— Gostei dessas linhas de pensamento, tão lindas. Elisabeth, hum. Não foi sua culpa, não deveria se culpar tanto, senhor. Ela não gostaria de saber que...
Rapidamente apertou um botão azul bem posicionado sobre o quase humano crânio positrônico. Os olhos azul-elétricos se apagaram de súbito. Aquilo estava desligado, por fim a voz parara. Desabou sobre a poltrona confortável da escrivaninha, o rosto molhado em suor. Tremulava. Após algumas lágrimas, estava mais calmo e aquela memória estava longe. Se aproximou do paciente e começou o processo de restauração. Teria que substituir grande parte das peças do rosto e trocar a perna esquerda por uma completamente nova. Algumas partes do cérebro haviam sido danificadas de forma irreversível, imaginava como aquele robô ainda estava usando telepatia e mantendo raciocínio. Não seria uma operação difícil, tudo que precisava estava no gigantesco manual roboticista que usava como bíblia. Todos os sistemas robóticos atuais eram listados lá à risca. Somente uma hora de montagem incessante e aquilo estaria pronto.
***
Contemplava, pensativo, o quão longe estava do átrio. Era alto e dava uma sensação de frio na barriga cortante. Podia ver dali pequenas formigas em forma teoricamente humana caminhando trinta andares abaixo. Sentira medo nas primeiras vezes, mas seu corpo pareceu se acostumar. Afinal, Francis nunca teria a coragem de pular. Imaginou como seria a sensação aterrorizante de cair como um saco de batatas pesado por entre os andares movimentados e iluminados, até que se destroçar no piso em centenas de pedaços. Suspirou. Estava apenas tomando um ar antes de ligar novamente aquela máquina estranha, receoso.
Voltou para sua sala com muita calma, precisava ligar logo. Precipitou com calma o indicador em direção ao botão azul. O robô estava novo em folha, impecável. Mas estaria seu cérebro funcionando bem? E se ele tivesse errado um milímetro no momento do encaixe de alguma peça importante, causando a desobediência e anulação de alguma Lei da Robótica instalada. Tinha que apertar, tinha.
Apertou de olhos fechados.
Uma mão fria lhe apertou com muita força, sentiu que seu braço estava quase por se quebrar. O robô levantou o rosto e lhe mirou olhos assustadores, intensos.
Sentiu o tempo parar.
O ar flutuava ao redor.
Silêncio.
Glitchs distorceram a sala em pixeis azuis e verdes, acompanhados por ziados. Não estava mais em seu consultório. O lugar estava vazio. Sentia um piso atrás das costas, estava caído. Tudo estava branco e iluminado.
“Malditos sejam vocês”, alguém gritou.
Se sentia, agora, indefeso e acuado.
“Vocês são a raça superior agora, não é? Nós humanos não merecemos nada além da sarjeta, seremos descartados”.
Algo pesado desceu sobre o lado esquerdo de seu rosto, sem dor.
“Vocês terão o que merecem, seguidores da Lei nojentos”.
Não podia reagir. Mais algo pesado, e mais e mais e mais. E MAIS.
Sem dor.
A luz lentamente ficou menos intensa. Estava de volta ao seu consultório, jorrado ao chão. O rosto estupefato e cheio de lágrimas de desespero. Não conseguia se levantar, as pernas tremiam e falhavam. O robô o mirava com um olhar simpático ainda deitado sobre a cama metálica, parecia sorrir. Havia lhe mostrado a crueldade humana através de telepatia e estava satisfeito. “Espero que o senhor ajude outros de mim”. Francis pensou ouvir isso no interior de sua mente, enquanto o robô se levantava de forma delicada e abria a porta. Subiu nas barras douradas e se equilibrou na beira do abismo de andares.
Até finalmente sumir no horizonte.
Havia de ter algo de errado com sua montagem e reconstrução. Aquele robô não estava seguindo as Leis e era totalmente sua culpa. Uma das leis especifica diretamente que um robô não deve tentar contra sua própria vida. Era o primeiro caso, sempre dera certo. Nunca errara. O que aconteceu? Onde havia errado? Se sentiu incompetente e assassino. Precisava analisar os destroços. Pelo menos era no que pensava enquanto descia, soluçando, pelos andares no elevador panorâmico. Quando a equipe de análise e investigação verificou e simulou a queda com detalhes, através de hologramas, chegaram à conclusão de que não havia nada de errado com a montagem, estava perfeita.
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