Notas iniciais
*comente e me incentive*

11 de fevereiro de 2103

Apoiava as costas contra a parede fria do estacionamento, no subterrâneo de um prédio desconhecido. Estava vazio e sem vida, então ali ele teria paz. Em tese, pois as sombras pareciam vivas entre os carros vazios e alguém parecia observar de longe, respirando e sussurrando coisas ruins sobre ele. Tudo isso ia e vinha em sua mente, mas Francis nem tinha dado por si que não sabia onde estava, de onde viera e nem para onde iria. Estava vazio. Era uma benção não ter se dado conta disso. Mas o motivo estava no fato de sua mente estar confusa e bagunçada, nenhum pensamento parecia claro, apenas símbolos sem sentidos e lembranças desbotadas. Haviam coisas nesse espiral que ele queria que não boiassem na superfície do seu consciente, mas era tão bom em impedir quanto um homem tentando mudar a direção das águas de um rio violento usando as mãos. Estava quase morrendo afogado quando cuspiu a água dos pulmões — mentalmente falando — acordando do transe. Deu por si perdido na escuridão e sentiu algo apertar seu coração que batia rápido, mas não mudava muito, já que estava perdido havia muito tempo. Só caminhou lentamente até a saída, os olhos fundos pareciam não visualizar o mundo exterior. Alguém chamaria ele de cego.

O céu nunca estivera tão cheio de pontos de luz brilhosos, que Francis não gostava de olhar diretamente. Aqueles pontos eram viajantes do passado que não mais existia no presente, odiava o passado morto. Ou achava que odiava. Os asfaltos estavam molhados e refletindo as luzes altas dos postes, amarelas e fracas, piscando uma ali outra lá. Havia chovido muito naquele dia, isso explicava sua roupa molhada, enfim. Francis não pensou em trocar de roupa, pois, seria algo que ela exigiria que ele fizesse. Seus olhos se encheram, mas suspirou e continuou caminhando como um morto-vivo molhado. Quem era ele, afinal?

Pisava de propósito nas poças para ver o efeito da água se espalhar e espirrar. Fazia isso desde criança, mas não mais achava divertido. Fazia agora com raiva, como se a poça fosse um inimigo. Como se a poça fosse a doença. Estava prestes a destruir mais um inimigo quando foi interrompido. Alguém estava parado no meio do caminho. Sapatos negros elegantes com fivelas, apoiando duas pernas de meia-calça branca, se afundava na poça. Pacientes. Francis não se atreveu a levantar o rosto, paralisou-se tremendo. Ela estava ali. Ela estava. Ela. Não conseguia respirar. O ar estava pesado. Estava se afogando de novo. Caiu sob a calçada desesperado e se arrastou loucamente por sobre os joelhos, até conseguir se levantar e correr muito rápido. Por que não conseguia fugir dela?

Ela sempre estaria lá, foi a promessa.

Continuou correndo. Tudo estava abandonado, não havia carros, não havia pessoas. Arfava como louco, mas sua energia parecia não ter fim. Olhou por sobre os ombros e ela estava correndo devagar lá atrás, talvez aquele vestido de seda amarela a estava impedindo. Tentou correr mais rápido agora que estava sendo perseguido, mas não conseguiu. O esforço na verdade parecia ter efeito contrário, quanto mais tentava e arfava, menos longe estava, menos rápido corria. Virou uma esquina e outra, mas sempre que olhava para trás, mais perto ela estava. O rosto dela era indecifrável, estava ofuscado pelo movimento. O parque estava aberto, as árvores seriam o melhor lugar para se esconder. Ela não o acharia lá. Se embrenhou por entre as árvores e, passado algum tempo, ela havia sumido. Estava finalmente seguro, se apoiou em um tronco próximo e seu coração quase saltou de sua garganta para grama escura. Tudo escureceu e sentiu que ia desmaiar, desabou sobre a grama. Ficou mirando para o céu até seu súbito desmaio ficar longe.

— O passado é interessante, não é?

— Você não existe mais.

— Olhe para mim enquanto falo com você, Francis!

— Você não existe mais.

— Vou te matar senão olhar para mim agora mesmo! Não me ignore!

— Você é como as estrelas. — Uma mão quente tocou o braço de Francis. Ela estava deitada estava ao seu lado no gramado?

— Sente meu calor, não é? Sou real e estou falando sério, idiota! Vou te matar!

***

O relógio criou mãos que seguravam um martelo pontudo, cada bipe parecia mais com um movimento direto em sua têmpora. Bipe. Uma martelada. Mais um bipe. Mais uma martelada certeira. Um terceiro bipe. Uma martelada ainda mais maldosa. Maldito relógio! Acordou com o rosto molhado de suor e apertou o relógio sem olhar. Abriu os olhos devagar, as pálpebras pesadas, seu olhar amassado e vermelho. Ressaca. Tudo encolhia e crescia, parecia enxergar o mundo através do reflexo de águas cristalinas. Era o efeito colateral do remédio. Se recusava a adotar a medicina atual, assim se viciando em remédios antiquados do século passado. A medicina atual era uma piada de mal gosto. Seu psiquiatra robótico não mais tentara fazê-lo trocar de medicação. Francis era um caso perdido.

Alguns minutos de alucinação se passaram e o efeito também. Escorregou da cama até o banheiro pateticamente. Evitou olhar para si mesmo nos reflexos das paredes espelhadas e se dirigiu a cabine de limpeza diária. Passou o polegar onde seria uma maçaneta e as portas da cabine deslizaram para os lados. Sem seu pijama de bolinhas, Francis entrou e pediu que o sistema iniciasse o protocolo de trabalho. A cabine se fechou sem emitir som e linhas de luzes das cores do arco-íris cruzaram seu corpo junto a jatos de água delicadas. Quando cessou, Francis estava muito limpo e seu cabelo bem penteado. Foi até o guarda-roupas optimizado e repetiu a mesma ordem, luzes de hologramas cobriram seu corpo formando o uniforme perfeito de um médico roboticista do século XXII. Francis não se olhou no espelho, não conseguia se olhar. Francis ainda se perguntava se esses aparelhos sem alma realmente seguiam as leis da robótica ou se fingiam seguir. Sentia-se tão dependente deles que talvez a humanidade já estava sendo escravizada sem perceber.

— O Turbulento 33 chegará em 3 minutos, senhor. — Disse uma fria voz robótica automática feminina.

O Turbulento em questão era modesto e vazio, por isso Francis preferia ele. Podia aceitar o fato de que o 33 possuía rodas flutuantes, já que ele não voava por aí entre as nuvens como os outros e não era cheiro de alienados. Sacrificava meia hora do seu dia de bom grado. Geralmente tinha um ou dois passageiros afastados uns dos outros, com rosto fechado. Sem perceber, Francis se encaixava bem com esses homens fechados em seus mundos antigos, se recusando a usar os modelos atuais e rápidos do Turbulento. Francis estava em uma fase de negar o mundo externo fazia poucos dias, as noites mal dormidas e seu trabalho haviam alimentado uma aversão sem sentido contra a tecnologia. Ela era tão perfeita, mas tão imperfeita também, tão limitada aos gostos vazios dos humanos. Não queria se sentir parte disso. E tinha também o fato de nada ter conseguido impedir que aquilo acontecesse.

As casas de design moderno com paredes de vidro muito escuro, sem janelas, tomavam parte da vista, seus jardins de plástico e porcelana eram muito falsos. Não haviam mais árvores vivas desde 2066. Não havia mais verde verdadeiro na terra e azul verdadeiro no céu. Francis bem sabia que nem o ar que ele respirava era verdadeiro. Talvez até ele não fosse verdadeiro. Penso, logo existo. Eu penso, sou racional. Eu existo. Tentou se convencer disso, mas logo foi atirado de costas com a dolorosa verdade de robôs também o fazerem. Na verdade, muitas vezes melhor.

Seus pensamentos estavam o fazendo viajar para longe do mundo real, quando sentiu alguém lhe olhando diretamente o puxando de volta pelos pés. Um arrepio subiu pela espinha. Era uma mulher loura com olhos vidrados no lado oposto, ela sentava de modo estranho, mesmo após descoberta não desviou o olhar assombroso. Talvez ela nem estivesse olhando para ele, já que os seus olhos verdes pareciam vazios e mergulhados em outro lugar. Então percebeu que talvez ele já tivesse feito isso em uma de suas conscientes viagens abstratas. Tentou ignorar.

O Turbulento parou e mais dois passageiros entraram, ninguém reagiu, pareciam bonecos sem vida indo a lugar nenhum. Francis pensou que talvez só houvessem pessoas loucas como ele naquele Turbulento amaldiçoado. Mas tinha algo a mais nos novos passageiros. Um deles era... não podia ser. Um deles se sentou indiferente em seu lugar sem nada dizer, mas o outro não. Continuou ali de pé. Não somente isso, mas agora estava olhando diretamente para Francis com um meio sorriso a lhe enfeitar o rosto pálido. Usava um vestido negro elegante, com um cinto de couro a lhe apertar a barriga por estilo. Ela usava batom cor-de-pele. Francis se sentiu paralisado, o coração quase explodindo na garganta. Estaria ele ficando realmente louco? Estaria ele vendo coisas? Estava em pleno desespero. Os sonhos estavam agora migrando para realidade. Mas o que garantia que ele não estava sonhando agora? Tentou não olhar diretamente para ela, mas não conseguia evitar. Cada nova espiadela e ela estava um passo mais perto. Estava agora do lado de seu assento, mirando-o muito intensamente com um rosto sem emoções. Percebeu. Ela nunca o abandonaria, nem a morte foi suficiente. Quando Francis abriu seus lábios para dizer algo, ela se afastou e apertou o mecanismo de parada. Desceu suavemente e Francis de impulso deslizou do banco para segui-la.

As calçadas da Rua Principal eram movimentadas de forma organizada, todos caminhavam perfeitamente em fila indiana, sendo a maioria dos pedestres robôs com consciência humana. Há muito tempo, a população mundial havia se tornado quase majoritariamente humanos em corpos robóticos, o medo de morrer superara o medo de perder a humanidade. Carros seguiam comportados, em mesma velocidade média, sobre as ruas pavimentadas de vidro temperado que serpenteavam entre os arranha-céus de vidro capitalizados com suas propagandas vivas de neon em cada um de seus lados, endeusando grandes empresas robóticas e diversos outros produtos inúteis novos a cada dia. Ela estava lá na frente, era rápida, teria que lutar contra a multidão organizada para alcançá-la. Não iria escapar dessa vez. Empurrou alguém para o lado, da qual não reclamou, apenas voltou para seu lugar mais para frente e continuou seu caminho. Francis fez isso mais algumas vezes. Era uma tentativa falha. Perdeu ela de vista. Mas continuou correndo e bagunçado o organizado. Continuou. Os neons e placas publicitárias deslizando pelos lados de sua visão. Pura poluição visual cyberpunk. Correu por tanto tempo que já não havia mais multidão, a calçada estava vazia e ele não sabia onde estava. Quando virou a esquina, viu um vulto entrar em um beco sem saída. Se precipitou ao beco e ela estava lá, parada. Mas sumiu em um piscar de olhos como fumaça. Francis aceitou. Talvez devesse parar de tomar aqueles remédios.

Notas finais
*obrigado por ler*